Re/Desconfigurado
1 O dia em que eu morri
Notas iniciais
"Das coisas raras de que eu tenho ciência, sempre me pareceu a mais estranha terem os homens medo, embora saibam que a morte, um fim a todos necessário, vem quando vem"
(William Shakespeare)
Um sorriso sádico surgiu em meu rosto. Meu lábio superior estava cortado e um pequeno filete de sangue escorria pelo canto esquerdo da minha boca. Passei a minha língua pelo local sentindo o gosto metálico acertar os cantos mais remotos de minha boca, fazendo meu sorriso aumentar cada vez mais.
Sadomasoquismo.
A palavra surgiu em minha mente enquanto meu sorriso aumentava cada vez mais, olhando para o meu oponente que estava pronto para o ataque.
— Falcão! Falcão! Falcão! – os telespectadores ressoavam o meu codinome das lutas ilegais e aquilo era música para os meus ouvidos.
Meus punhos se cerraram e eu caminhei lentamente em direção ao meu oponente.
Meu peito nu brilhava à luz daquelas lanternas japonesas vermelhas, enquanto um único holofote iluminava o centro da arena.
— Já terminou? – Perguntei cruelmente cuspindo o sangue e a saliva no chão do tatame.
Meu oponente deu um passo para trás claramente receoso, fazendo com que eu tivesse vontade de abrir cada vez mais meu sorriso ensanguentado.
— Falcão! Falcão! Falcão! – Incentivavam-me cada vez mais.
— Está ouvindo? – Perguntei irônico com a minha voz fria, dando mais um passo na direção do homem suado e cansado – É o som da sua derrota! – Falei frio franzindo o cenho enquanto dava um soco de direita.
O homem caiu no chão desorientado. Antes que ele pudesse se recuperar do ataque, desferir contínuos golpes certeiros em seu rosto cada vez mais machucado e ensanguentado.
Eu sorria cada vez mais com o olhar desesperado do homem que inutilmente tentava se proteger, mas Falcão não perde. Falcão não tem pena. Falcão não tem piedade. Falcão machuca. Falcão não ama. Falcão se diverte com as dores dos outros.
— Falcão sempre ganha! – Disse entre dentes desferindo o último golpe que desacordou meu oponente fazendo a arena ir ao delírio.
Levantei-me lentamente sorrindo enquanto o locutor adentrava o tatame através das cordas que me separavam dos telespectadores.
— E o vencedor é... Falcão! – Anunciou a minha vitória levantando meu braço direito.
Meus orbes negros percorreram o local onde ocorria as lutas ilegais na periferia tomada pelo tráfico de Tóquio.
Muitos já estavam sobre efeito de poderosas drogas. Meus olhos se encontraram com os azuis de Naruto que sorria satisfeito levantando na mão direita as inúmeras notas de dinheiro que havíamos ganhado naquela luta.
Ele sempre apostava e eu lutava. Éramos uma dupla invencível. Ganhávamos muito dinheiro com aquele negócio clandestino, mesmo que não precisássemos já que fazíamos parte da classe rica da sociedade.
Mas ali, no meio daquele ninho de ratos, drogados, traficantes e prostitutas. Ah sim, naquele meio de pessoas da pior espécie, não éramos Uchiha Sasuke e Uzumaki Naruto. Éramos apenas Falcão e Raposa.
O loiro beijou uma das prostitutas sob os seus braços com volúpia arrancando de mim uma risada desacreditada enquanto balançava negativamente minha cabeça para cena tão comum para nós.
Meu sorriso era largo enquanto admirava as pessoas que pronunciavam meu codinome como se eu fosse um deus, o que não deixava de ser, já que desde que começamos com as apostas há dois anos, nunca perdemos.
Meu olhar parou em um pequeno grupo mais ao fundo que me observava com curiosidade de um palco mais elevado.
Eram os senhores do tráfico daquela área.
Hozuki Suigetsu estava sentado em sua poltrona de madeira como se fosse um rei. A mão esquerda repousava sobre o encosto enquanto que a direita se deleitava em mover o cachimbo cubano da boca cheia de dentes afiados.
À sua direita estava seu guarda costa pessoal, Juugo. Não sei muito sobre ele, só sei o que dizem, e o que dizem é o suficiente para ficar longe do rei daquela área esquecida pelos mais ricos e políticos da cidade que gastam o dinheiro público em festas e orgias.
Assim que meus olhos foram para a esquerda do Hozuki, meus ônix notaram a figura particular de uma ruiva com um pequeno sorriso no rosto, um pouco mais ao fundo, longe dos olhos dos demais.
Mesmo pequeno, eu sabia o que aquele sorriso significava e eu só pude corresponder com um mínimo de canto enquanto descia do tatame e me dirigia para um dos bancos do balcão do bar.
— Teme! – Saudou-me Naruto já alterado pelos narcóticos e pelos litros de álcool que transitavam em sua corrente sanguínea – Meninas, eu quero que vocês conheçam o primeiro e único, Falcão!
As três prostitutas deram risinhos maliciosos entreolhando-se.
— Oi Falcão – falou manhosa a morena sentando na minha perna esquerda enquanto alisava meu peito nu suado.
— Eu sempre quis te conhecer – disse a loira depositando um beijo estalado na minha bochecha direita.
— Que tal nós cinco fazermos uma festinha um pouco mais particular – disse uma mulher de cabelos laranjas piscando um olho enquanto alisava minha perna direita sobre a calça preta e folgada, chegando bem próximo da minha intimidade.
Sorri de canto.
— Desculpem garotas, mas eu não faço festas junto com o Raposa aí – falei apontando com o meu queixo para o loiro que sorria analisando suas presas que me alisavam. Com certeza ele já estava louco para se saciar – Por que vocês não se divertem hoje com ele?
— Ah não, também queremos você – falou manhosa a loira.
Peguei rudemente o queixo dela e dei-lhe um beijo cheio de luxúria antes de afastar meus lábios do rosto corado e ofegante dela.
— Quem sabe na próxima vez gatinha – sussurrei sedutor piscando um olho, o que fez com que elas dessem gritinhos histéricos e se agarrassem ao pescoço de Naruto que desapareceu com elas das minhas vistas de ave de rapina.
— Não as iluda – disse uma voz de uma mulher ao meu lado.
Virei meu rosto para a direita e avistei a ruiva que havia visto ao lado do rei do tráfico. Ela vestia um tomara-que-caia curto e preto que destacava seu corpo. Um salto alto da mesma cor de seus cabelos longos e soltos, faziam-se presentes em seus pés alvos.
— Não iludo, na verdade eu cumpro as minhas promessas. Vou deixar o Raposa se divertir com elas hoje. Amanhã eu como as três – falei sincero observando um robô modelo antigo servir a mulher que ainda não me olhara. – Sabe por quê as dispensei? – Sussurrei com os lábios encostados em seu ouvido. Sorri de canto percebendo a nuca se arrepiando por mais que ela fingisse não dá bola para mim – Porque já estava de olho em coisa bem melhor – ronronei arranhando levemente o interior das coxas expostas. A mulher arfou levemente mostrando que estava cedendo – Que tal irmos para um local mais... particular? – Perguntei e fui respondido com um leve aceno positivo de sua cabeça.
Não perdi meu tempo, levantei-me da cadeira e puxei a mulher pelo braço para fora daquele lugar agitado.
A noite fria acertou minha pele desnuda com força, mas eu não me importei. Apenas o desejo que crescia dentro de mim e que me excitava em expectativa, era o suficiente para me aquecer daquela noite gelada.
Passei por alguns casais que se entregavam sem pudores por aqueles becos escuros. Dobrei para a direita e encontrei um beco sem iluminação.
Sem aviso prévio empurrei a ruiva contra a parede. Ela arfou forte pelo forte baque, mas eu não me importei, apenas me atentei a subir até a cintura dela o vestido curto revelando que estava sem nenhuma lingerie por baixo.
Ótimo, sem atrasos, pensei abaixando a minha calça e minha box negra, revelando meu membro extremamente excitado.
Sem delongas agarrei o quadril feminino erguendo para encaixar em meu membro. A ruiva soltou um alto gemido quando foi penetrada com força, mas ela estava acostumada com aquilo, pois me envolveu com as pernas desnudas, dando-me um melhor ângulo para desfrutá-la.
Talvez seja uma prostituta, pensei quase certo dos meus pensamentos enquanto arrastava o corpo feminino pela parede grosseira à suas costas, em um movimento de sobe-e-desce.
Poucos grunhidos saiam dos meus lábios enquanto que ela me correspondia com gemidos altos e escandalosos enquanto arranhava a minha costa.
Sorrindo satisfeito, sentindo que estava chegando ao ápice, retirei meu membro dela, ejaculando no chão de terra batido. Levantei as minhas vestes e olhei para a ruiva.
Ela sorria satisfeita para mim com o rosto suado e arfante, mas assim que olhou por cima do meu ombro, uma expressão de horror estampou-se em seu rosto enquanto ela abafava um grito com as mãos sobre a boca.
— Se divertindo com a minha vadia número um, Falcão? – Perguntou uma voz fria e sombria que eu conhecia muito bem.
O click da destrava da arma me deixou em alerta.
— Eu não sabia que ela era só sua, Suigetsu – falei levantando as minhas mãos para o alto em rendição enquanto me virava lentamente em sua direção para focar meu olhar nos roxos do Hozuki – Até onde eu me lembre, ninguém é de ninguém nessa área.
— Antes de tudo: é Suigetsu-sama para você e segundo... eu paguei uma bela nota nessa daí, por isso ela é só minha e qualquer um que tocá-la pagará com a vida – engoli em seco discretamente. Sabia que estava com problemas e tinha que dar um jeito nisso. Tsc, nem para aquela ruiva me avisar que ela era propriedade do chefe do tráfico. – Karin, vai para dentro – ordenou sem olhá-la.
A ruiva saiu de trás de mim tranquilamente e quando ela já estava atrás do Hozuki virou-se para a mim com um sorriso sarcástico no rosto.
— Uma pena não podermos repetir a dose, Falcão – falou com ironia. – Foi divertido enquanto durou. Quem sabe nos encontramos no inferno em nossa pós-morte – piscou um dos olhos antes de soltar uma gargalhada cruel enquanto se afastava do beco.
Trinquei os meus dentes com raiva. Se eu pudesse voaria no pescoço da ruiva e arrancaria daquele corpo sem dó.
Voltei meu olhar para o Hozuki impassível tentando armar uma maneira de passar por ele, por Juugo e pelo robô que o acompanhava e seguia suas ordens.
— Tsc.
— Com medo, Falcão?
— Nunca – saltei sobre ele sentindo a bala perfurar meu ombro esquerdo.
Desferir socos no azulado, mas senti os seus dois companheiros segurando meus dois braços antes de me jogarem sem dó contra a parede no fundo do beco.
— Arg – reclamei sentindo dores e o meu ferimento latejar.
— Matem ele – essa foi a última ordem do Hozuki, antes de sair do beco secando o sangue que escorria por sua boca, deixando-me sozinho com os dois seres que me matariam sem dó.
Eu sabia lutar, sempre vencia as lutas, mas contra dois e sendo um deles, um robô de mesmo tamanho de Juugo, claramente sendo de luta, eu estava com sérios problemas.
Corri na direção deles e derrubei Juugo, mas o robô negro me puxou pelos ombros derrubando-me contra o chão de terra batida.
O ar fugiu dos meus pulmões com o impacto e como na minha última luta, meus oponentes usaram a mesma estratégia que a minha. Aproveitaram que estava caído para deferirem contínuos socos e chutes contra o meu corpo.
Tentava me defender, mas sabia que era inútil e que logo eu pereceria naquele beco escuro.
Talvez me amordaçassem e me jogassem ao mar para ocultação de cadáver, para que a polícia nunca descobrisse o que havia acontecido ali e meus pais nunca encontrariam o meu corpo.
Aos poucos, as imagens dos meus agressores começaram a ficar sem foco e desconexas.
Eu estava perdendo a consciência.
Uma vez ouvi dizer que nos recordamos de momentos da nossa vida, momentos antes da morte lhe abraçar, mas nenhuma recordação veio a minha mente que se apagava aos poucos.
Eu queria ver o rosto de minha mãe amável, o ranzinza do meu pai ou o brincalhão de meu irmão, até o rosto idiota de Naruto estava valendo, mas eu não vi nada, não senti nada...
Era sutil.
Simplesmente sutil e momentâneo.
A morte te abraça, ela é fria e te leva com ela.
Não há passado para se recordar. Não há futuro para se sonhar. Não existe a dor, nem a tristeza. Não existe o medo. Só existe o agora e o fim. Só existe a morte...
É William Shakespeare, talvez você tenha errado... talvez o homem não tenha medo da morte quando vive ela... talvez ele só sinta isso durante a vida, mas a minha já se foi...
Continua...
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