Notas iniciais
Oi gente linda ^^ Voltei! Muito obrigada pelos vérios comentários que chegaram desde o último post! Bem vindos novos acompanhamentos! Espero que todos curtam mais esse capítulo de Re/Desconfigurado! ^^

"Não trate como aliado quem te vê como amigo, o aliado luta pelos interesses já o amigo ajuda nas realizações."

(Castro Alves)

Eu não voltei para casa depois de sair do Hotel.

Precisava espairecer, pensar na vida e não teria paz no meio daquelas pessoas que por mais que fossem a minha família, não me faziam sentir paz de espírito.

A única que conseguia tal proeza era Sakura, mas depois de tudo o que ela havia descoberto sobre mim, eu sabia que ela precisava de espaço e eu aproveitaria esse tempo de distanciamento para procurar novas informações sobre o Hozuki Suigetsu.

Passei a tarde dirigindo em alta velocidade e sem rumo certo, até que no entardecer decidi ir à Boca.

Coloquei o capuz enquanto entrava no armazém abandonado que nessa noite estava sendo palco de lutas ilegais.

O cheiro tão familiar de álcool, sexo, suor, mofo e sangue acertaram as minhas narinas sensíveis, mas controlei-me para parecer o mais normal possível.

Os corpos gritavam e se agitavam vibrando pelo êxtase das drogas, do álcool e do sexo em conjunto à visão sangrenta da luta que ocorria no ringue.

Recebi algumas cotoveladas e encontrões, mas ninguém parecia me reconhecer ou notar a minha presença ali.

– Canino! Canino! Canino! – As pessoas vangloriavam o jovem suado e sujo de sangue com uma aparência animalesca que deferia contínuos golpes para o já desacordado oponente.

Um sorriso sádico e sangrento estampava-se na face do já vencedor, porém não satisfeito com o feito.

As lutas ilegais tomaram outras proporções desde a última vez que lutei. Agora era mais violento, sem regras e a vitória só era decretada com a morte do perdedor diante de todos.

Franzi o cenho observando a face já quase irreconhecível do garoto desacordado.

Imagens de Juugo me socando sem piedade voltaram com força e não pude evitar desviar o olhar para não presenciar aquela carnificina tão aclamada por aquelas pessoas.

O grito reverberou em conjunto por aquelas pessoas que pulavam mais animadas, anunciando assim o fim da luta e mais uma morte naquele covil de ratos.

Que belo funeral, pensei irônico voltando a olhar o homem caído e esquecido em meio ao tatame, enquanto o outro e o locutor anunciavam e comemoravam a vitória à custo daquela vida.

Patético, continuei com meus orbes abaixados para aquele que não teria mais futuro, sonhos ou uma vida.

Nojo. Repulsa.

Como alguma vez na minha vida eu gostei daquilo? Como eu poderia usar aquilo como a minha válvula de escape da vida cheia de futilidades de Pasárgada?

Ainda me indagando sobre isso, ergui meu olhar e analisei o meu redor.

Como se tudo estivesse em câmera lenta e o som sumisse do mundo, minha atenção foi chamada por uma mulher parada em meio àquela confusão de corpos que lutavam por espaço.

Era uma ruiva de cabelos longos usando um vestido roxo tomara que caia justo.

– Karin – balbuciei de maneira quase inaudível ao ver a feição de derrota em seu rosto encarando um ponto afastado.

Segui seu olhar e meu maxilar trincou ao ver a cabeleira clara e os dentes afiados do extasiado chefe do tráfico com seu tradicional cachimbo cubano.

Uma loira vulgar estava sentada em seu colo alisando o peito do homem através da camisa entreaberta ao mesmo tempo que chupava o pescoço do mesmo.

O Hozuki olhava sorridente o vencedor da luta, ignorando a existência daquela prostituta em seu colo ou da morena que sua mão esquerda alisava a nádega.

Aquelas só seriam mais umas para se satisfazer naquela noite.

Senti um olhar pesado sobre mim e assim que procurei quem me observava, percebi que Karin me olhava séria.

Só ela havia me reconhecido.

Disfarçadamente, ela caminhou através da multidão até chegar em mim com um sorriso presunçoso estampado em seus lábios, mas eu sabia que era falso.

Deixei que ela me guiasse para fora daquele lugar sendo puxado pelo braço.

– Se lembra deste lugar? – Perguntou sem nenhum tom de brincadeira assim que chegamos a um beco.

Olhei ao redor e senti meu peito se apertar em angústia ao reconhecer aquele lugar.

Como se o tempo tivesse sido parado, eu reconheci as paredes irregulares, a iluminação precária, o muro baixo ao fundo, o chão de terra batida...

Maldito chão...

– Por que você me trouxe até aqui? – Falei entredentes lutando contra as constantes lembranças de 12 anos atrás que inundavam e nublavam meus pensamentos.

– Para você se lembrar do porquê de se vingar do Hozuki – falou simplesmente encostando-se na parede irregular onde uma vez a joguei e fiz minha para me satisfazer.

Sorri em desdém.

– Se está querendo reviver os velhos tempos, esqueça. Da última vez me mataram.

– Se tivessem te matado você não estaria aqui – falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Fala logo o que você quer me falar – ordenei com o tom baixo ao mesmo tempo que segurava o pescoço alvo. Aproximei meu rosto perigosamente do dela e vi o medo instaurando-se no interior do orbe castanho avermelhado, só que muito bem disfarçado. – Ou então eu arranco a sua cabeça sem dó – ameacei em um sussurro.

– Eu quero me vingar do Suigetsu – admitiu entredentes e eu pude ver a determinação, o rancor, o ódio e a verdade estampada em cada detalhe daquela mulher.

Quando eu ia falar, um grupo de três homens visivelmente bêbados pararam na entrada do beco.

– Olha só, se não é a princesinha do Hozuki? – Falou enrolando o do meio enquanto os outros gargalhavam. – Ah, me esqueci. Princesinha que nada, está mais para o bobo da Corte, não é Karin? – Senti a mulher tremer de fúria, já que minha mão ainda estava em seu pescoço.

– Qual é, vamos deixar essazinha trabalhar, não está vendo que ela está com cliente? – Zombou o da direita.

– Poxa, hoje que eu estava querendo um programa com ela – falou com falso sentimentalismo o da esquerda.

– Esqueça isso Ozume. Essa daí já foi usada e abusada, até o Suigetsu-sama já se cansou dela, então não deve ser grande coisa. Vamos procurar outras melhores e... – Passou a língua pelo lábio inferior analisando Karin de cima a baixo – mais novas – desdenhou caindo na risada sendo seguido pelos outros para um outro canto qualquer cheio de prostíbulos de Boca.

Voltei a olhar para a ruiva que agora tremia de raiva. Seus olhos não eram visíveis para mim, já que sua cabeça abaixada fazia com que as mechas ruivas caíssem sobre a face que rangia os dentes.

– Eu quero vingança – rangeu baixo como uma leoa pronta para o ataque. – Eu quero que ele pague por toda a humilhação, por simplesmente ter me descartado como se eu fosse nada.

Lentamente ela ergueu a face e eu pude contemplar o ódio que inflamava pelos seus olhos, não deixando dúvidas quanto as suas intenções assassinas.

– Afinal, o inimigo do meu inimigo é meu aliado – brincou com o trocadilho mudando a última palavra.

– Nunca me aliaria a você.

– Só por causa daquela rosinha sem sal? – Ergueu uma sobrancelha.

– Do que você está falando? – Falei dando um passo para trás largando o pescoço dela.

– Argh – desdenhou balançando com raiva a mão no ar. – Vamos pular essa parte? Eu vi como você ficou desesperado naquele dia e depois soube por meio de um programa com um dos seguranças do Suigetsu que alguém havia salvado a garota – falou firme fazendo-me estreitar os olhos em desconfiança. – Acredite, eu sei mais sobre o Suigetsu do que vocês dois juntos descobririam se investigassem ele durante toda uma vida.

Kurenai, a Karin está falando a verdade?

Os sinais indicam que ela está falando a verdade, senhor.

– Tudo bem, vou confiar...

– Nunca se deve confiar alguém, Falcão – interrompeu-me colocando as mãos na cintura – essa é a regra número 1 de Boca.

– Que seja. Eu vou me aliar a você, mas só depois que a Algodão Doce também aceitar – falei firme.

– Número um, eu sei que o nome dela é Sakura e dois – esboçou um sorriso maldoso nos lábios malditos antes de debochar – pelo visto o Falcão foi domado – gargalhou antes de voltar a seriedade com um olhar em fúria. – Afinal, o que é que essa garota tem que eu não tenho e que faz todo mundo babar por ela?

– Caráter – disse rispidamente provocando um sorriso fraco e sem humor no rosto a minha frente.

Karin desviou o olhar para um canto qualquer ao fundo do beco. Vi ela respirar profundamente algumas vezes antes de voltar a me encarar.

– Hipócritas – disse baixa e calma. – Vocês falam de alguém que nem ao menos conhecem.

– Você é só uma...

– Prostituta? Cadela? Qualquer? Mulher da vida? Mulher de uma noite? – Esnobou interrompendo-me, antes de gargalhar alto. – Acredite, poupe seu tempo porque eu já escutei todas essas ofensas – falou com um tom ressentido na voz controlada. – O que importa é a vingança contra o Hozuki. Como eu posso me comunicar com a rosinha para convencê-la a se aliar comigo?

– Pensei que odiasse ela? – Esbocei um sorriso de canto cruel que foi retribuído da mesma forma.

– Meu problema não é ela e sim com o Hozuki. Se ele for morto eu já fico satisfeita.

– Agora estamos falando a mesma língua – meu sorriso se alargou com a imagem de corpo imóvel do azulado.

– Podemos falar outras também – falou de maneira sexy, umedecendo os lábios enquanto enlaçava o braço direito em meu pescoço para aproximar nossos corpos.

Inclinei minha cabeça para a direita ainda com o sorriso no rosto.

– Você não faz o meu tipo – esnobei empurrando-a com as minhas mãos em sua cintura.

Gargalhei alto com a revirada de olhos e a bufada de frustração da ruiva.

– Até a manhã – falei sem encará-la enquanto me afastava daquele lugar.

***

– Oh, meu filho. Você resolveu vim almoçar conosco, hoje – falou animada a minha mãe assim que me posicionava na mesa ao lado de meu pai, com Nisuke do meu lado direito.

– Hn – murmurei desviando o olhar para o meu prato depois de receber um rápido sorriso caloroso do pequeno Uchiha.

– Você sempre sai cedo de casa e só volta a noite – comentou triste a mulher a minha frente.

Suspirei pesadamente tentando manter a calma. Sabia as verdadeiras intensões por trás daquelas palavras.

– Se você espera que eu permaneça o dia inteiro trancafiado dentro de casa, por favor, esqueça mamãe. Não sou um objeto para ficar exposto em sua prateleira.

– Sasuke – repreendeu-me duro o meu pai.

Fingi que nada tinha acontecido e resolvi voltar a comer em silêncio.

– O que você anda fazendo na Segunda Zona e em Boca? – Perguntou o mais velho surpreendendo-me.

Arregalei meus olhos e encarei o olhar analítico na face apoiada nas mãos cruzadas.

– Você pode nos explicar isso, Sasuke? – Indagou erguendo uma sobrancelha.

– Como vocês sabem? – Trinquei os dentes sentindo o talher de prata retorcer por causa da força que eu aplicava nela.

A força da frustração. Da raiva que eu tentava não pôr para fora.

Impulsivo, era assim que Orochimaru e Kabuto me descreviam e diziam que devido ao fato de poder machucar as outras pessoas, eu deveria tentar controlar ao máximo essa minha característica.

– Por acaso colocaram seguranças para me seguir? – Disse rude olhando minha mãe pelo canto do olho.

– Você é monitorado 24 horas por dia – falou simplesmente meu pai o que me indignou.

– Está dizendo que vocês ficam monitorando meu sistema, da mesma forma que um dono rastreia um carro? Por acaso virei um objeto pessoal? – Vociferei sentindo a raiva se espalhar pelo meu corpo.

– Acalme-se querido – pediu a minha mãe com certo receio na voz.

– Me acalmar? Me acalmar? – Indaguei indignado. – Pensa que eu não sei as intenções de vocês de colocaram a Ino aqui dentro de casa – apontei para a loira estática em um canto pronta para atender qualquer ordem nossa. Meus pais ficaram surpresos com a revelação e olharam com raiva e decepção para a loira. – Fui eu quem a obriguei a contar a verdade que eu suspeitei assim que descobrir que ela era uma modelo – defendi a loira. – Vocês acham que tem o direito de controlar a vida das pessoas, mas querem saber? Vocês não têm direito nenhum! – Gritei a última frase me levantando em um rompante.

A cadeira que antes eu me sentava caiu com força para trás.

– Só estamos preocupados com você! – Gritou se defendendo já em lágrimas a minha mãe.

– Apenas me deixem viver em paz, é só isso o que eu quero – admiti.

– Tudo bem – falou com o olhar baixo, porém sério, o meu pai. – Apenas nos responda. Para quem é todas as mercadorias femininas que você compra?

O ar me faltou assim que eu percebi que até meus gastos eram monitorados.

Uma mulher.

Eles sabiam que havia uma mulher no meio.

– Se está pensando em fazer alguma coisa para afastá-la de mim, esqueça – falei entre dentes fuzilando o homem que não abalava o olhar perante o meu.

– Sasuke... – começou.

– O quê? – Interrompi. – Vai dizer que ela é só uma interesseira, que pessoas de outras zonas ou fora do seu amado círculo social não são confiáveis? Pois saiba que ela não é interesseira, e eu tenho muito trabalho para que ela aceite alguma coisa de mim porque é uma tremenda orgulhosa – defendi a rosada. – Acredite, ela é melhor do que qualquer pessoa do círculozinho de vocês.

Minha mãe ficou paralisada me encarando, apenas as lágrimas rolando por sua face eram visíveis.

– Sasuke, você... – balbuciou, mas foi interrompida pelo meu pai.

– Você está se envolvendo com essa mulher?

– Somos só amigos – desviei o olhar para o chão, amaldiçoando-me internamente pela minha voz ter saído com certo desapontamento.

– Ela sabe?

– Que eu sou em parte robô? – Indaguei levantando o olhar e o homem assentiu. – Sim – respondi após um suspiro. – Sim, ela sabe pai. Ela sabe a verdade.

– E ela... – começou a minha mãe com o cenho franzido.

– Ela se assustou no início, mas depois que eu expliquei a minha história, ela entendeu e aceitou como eu era – falei sentindo a calma espalhando-se no meu corpo.

Meus pais entreolharam-se, antes do meu pai proferir baixo:

– Ela sabe que você é um Uchiha?

– Não. Ela só sabe que minha família é dona de uma empresa de robótica, deve desconfiar que eu sou de Pasárgada agora, já que antes ela pensava que eu era apenas um morador da Segunda Zona – ri um pouco me lembrando da confusão da rosada.

– Conte.

– O quê? – Indaguei impressionado pela atitude do meu pai.

– Conte e a traga aqui para jantar conosco. Queremos conhecê-la – falou otimista a minha mãe ao mesmo tempo que limpava as lágrimas.

– Isso é um plano para fazê-la se afastar de mim? – Perguntei desconfiado.

– Não – responderam em uníssono.

Kurenai, analise-os.

Análise concluída, senhor. Eles estão falando a verdade, no entanto, seu pai parece receoso.

Receoso, repeti pensativo.

Inspirei profundamente antes de proferir em um sussurro:

– Tudo bem.

Minha mãe bateu palminhas animada sobre pratos que poderia preparar para o jantar. Nisuke, que assistiu a discussão calado, apenas me deu um sorriso aberto. Meu pai, por outro lado, apenas ficou em silêncio me observando, antes de voltar à sua refeição assentindo uma vez ou outra para o que minha mãe tagarelava.

Resolvi ir atrás dos meus problemas pessoais, antes que eles mudassem de ideia e arranjassem uma desculpa para que eu ficasse em casa.

Assim que subir em minha moto e dirigir em alta velocidade, sentir a adrenalina reverberar pelo meu corpo.

Antes de tudo acontecer, o prazer do perigo, da velocidade, era a minha amada amante. Só ela me fazia esquecer da minha existência vazia.

Velocidade. Lutas ilegais.

Tudo era desculpa para colocar para fora a raiva que me reinava por dentro.

Eu fechava os olhos para os meus problemas e apenas fugia, mas...

A vida não melhora com apenas fingimentos.

Temos que abrir nossos olhos, agir e simplesmente não deixar que as oportunidades fujam de nossos dedos.

Temos que viver...

– Bem na hora, Falcão – despertou-me uma voz feminina.

Levantei meu olhar para a ruiva que me esperava na frente do bordel, onde, agora, ela trabalhava.

Franzi o cenho ao vê-la usando uma bota, um short e uma blusa lilás de mangas compridas, deixando à mostra só uma pequena parte de sua barriga lisa.

– Surpreso com o meu look de hoje? – Desdenhou de nariz empinado enquanto rebolava na direção da minha moto.

Sorri de canto sabendo que ela não poderia ver minha expressão sob o capacete.

– Não vai me dar o capacete? – Perguntou com os braços cruzados.

– Não quero que você passe pulgas para o capacete da Sakura – desdenhei sem mover um músculo para retirar o capacete reserva do meu antebraço. – Aposto que sua cabeça é dura o bastante para não quebrar e se quebrar – falei sorrindo – não vai fazer muita falta.

– Que seja – deu de ombros subindo na moto. Karin não perdeu tempo em contornar a minha cintura com um abraço forte, fazendo-me revirar os olhos. – Vai com cuidado, Falcão – disse maliciosa com a boca perto da minha orelha direita. – Se bem que você sabe que eu gosto de potência.

Bufei e ela gargalhou com a minha reação.

Karin, por mais que fosse humilhada, ela sabia dá a volta por cima e não se deixava abater, por isso ela era tão famosa em Boca, mas ter sido humilhada pelo chefe do tráfico, era um ultraje para a mais desejada, que não deixaria de se vingar.

Dirigi com velocidade para a Segunda Zona, não por querer que ela se segurasse com mais força em mim, mas sim para ser largado o mais rápido possível por aquela mulher que uma vez me deixou para morrer.

Retirei bruscamente suas mãos de mim assim que cheguei em frente ao hotel.

– Hn. Então é aqui que aquela cor de chiclete se esconde – observou saindo despreocupadamente da moto.

Retirei o capacete e fuzilei ela enquanto também descia.

– O nome dela é Sakura.

Ela deu de ombros e me ignorou entrando na recepção.

– Fica aqui, depois eu te chamo – falei rude ignorando a fúria da ruiva por ser mandada.

Sakura abriu a porta com um sorriso gentil estampado no rosto e eu não pude resistir retribuir com um de canto.

– Chegou tarde, pensei que não viria hoje – comentou descontraída dando-me espaço para entrar.

– Isso quer dizer que você estava com saudades de mim? – Indaguei sorrindo malicioso erguendo uma sobrancelha, após deixar os nossos capacetes sobre a escrivaninha.

– Convencido – riu fechando a porta.

– Sakura, sobre o que aconteceu ontem... – iniciei voltando a seriedade só que com o olhar baixo.

– Ei – interrompeu-me parando na minha frente com as mãos da cintura. – Não ligo se você é um primo distante do Robocop – deu de ombros.

– Robocop? – Não pude deixar de rir balançando minha cabeça em negação.

– Li algo sobre isso na internet depois que você saiu – admitiu constrangida.

Inclinei a minha cabeça para a direita, sorri de canto e ergui o queixo dela para me encontrar com os verdes.

– Você pesquisou sobre mim?

– Na verdade não. Pesquisei sobre caras metade humano, metade máquina, mas... – suspirou pesadamente.

– Mas?

– Nada. Não existe nada disso na realidade. Só achei uma pequena referência no ramo do cinema, ou seja, Robocop.

– Na verdade, sou o único homem dessa forma – sorri de canto deslizando minha mão para a sua nuca. – Você confia em mim, Sakura? – Falei num tom mais baixo e rouco.

Você confia em mim de todas as formas possíveis? Era isso o que eu queria dizer de fato.

Os verdes se arregalaram surpresos e eu vi as maçãs de seu rosto ficarem levemente rosadas.

– Hn. S-Sim – falou com dificuldades depois de pigarrear.

– Eu preciso te contar uma coisa – falei baixo enquanto meus longos dedos acariciavam a nuca que eu sentia se arrepiar. Ela assentiu para que eu continuasse, olhando de canto para o meu braço. – Ontem a noite eu fui em Boca e... – dei uma pausa ao ver a surpresa se espalhar pela rosada.

– E?

– Acho que temos uma nova aliada e ela será de muita utilização para nós dois.

– Aliada?

– Sim – pigarreei terminando o nosso contato. – Eu vou chamá-la.

– Tudo bem – assentiu um pouco receosa indo para a cama.

– Já volto – disse nervoso saindo do quarto. Não demorei muito na recepção, pois assim que Karin me viu, levantou-se de prontidão do sofá que estava repousando relaxadamente sob o olhar desconfiado da dona.

Reabri a porta do quarto receoso e entrei na frente.

– Sakura – chamei baixo pela rosada que estava sentada no meio da cama.

Assim que os verdes visualizaram a ruiva parando ao meu lado, a incredulidade estampou-se na face já sem cor.

– Ma-Mas... o-o qu-quê? – Gaguejou remexendo-se nervosa.

– Sakura, se acalme, eu posso explicar – falei nervoso com as minhas mãos em posição de defesa.

– VOCÊ RESOLVEU ME ENTREGAR PARA ELES? E POR MEIO DESSAZINHA AÍ? – Gritou afastando-se.

– Não, é claro que não!

– Eu mereço – murmurou a ruiva ao meu lado recebendo um olhar frio de mim. Ela revirou os olhos e voltou a se referir à rosada. – Olha aqui rosinha, eu quero a cabeça daquele bastardo tanto quanto vocês dois...

– Eu não confio em você! – Vociferou entre dentes.

– Pelo menos temos alguém inteligente aqui – debochou pondo as mãos na cintura e me lançando um olhar significativo. – Você tem razão em não confiar em mim. A regra número um para a sobrevivência é não confiar em ninguém – falou para a rosada antes de me olhar de canto e continuar com a fala – mesmo que essa pessoa esteja fazendo tudo por você...

– Olha aqui, se você está se referindo ao fato de eu não ser confiável, esqueça. Eu nunca trairia a Sakura – cortei a ruiva que apenas me olhou com uma sobrancelha erguida como se divagasse sobre algo.

– Ninguém é confiável, Falcão – falou séria. – Não é, Sakura? – Voltou-se para a rosada que apenas se manteve calada desviando o olhar assim que eu procurei o dela.

Ela ainda não confia totalmente em mim mesmo que tenha segredado isso anteriormente para mim, observei fechando minhas mãos em punho.

Senti o olhar da ruiva me avaliando desconfiada.

– Não a culpe – reiniciou. – A vida nos ensinou isso, faz parte do que nós somos e o que nós vivemos. Aliás, nem em Pasárgada podemos confiar inteiramente nas pessoas, não é Falcão? – Não respondi, mantive meu olhar em Sakura. – O que interessa aqui, não é o fato se vocês confiam em mim ou não, mas sim o fato de que eu tenho acesso a mais informações que vocês dois juntos.

– Como? – Perguntou inocentemente a rosada.

A ruiva riu incrédula com a rosada.

– Era só o que me faltava... ter uma virgem como aliada.

Sakura virou um tomate e eu arregalei os olhos para a sentença da ruiva.

– Virgem? – Perguntei confuso antes de olhar para Sakura. – Você é virgem? – Perguntei sentindo um pequeno sorriso de canto satisfeito se formar em minha face.

– Acho que a pergunta que você deveria fazer é como ela conseguiu ficar assim por tanto tempo – deu de ombros a ruiva.

– Mas que papo é esse agora? – Esbravejou a mais nova de nós três. Permanecemos em silêncio e assim que percebeu que esperávamos a sua resposta, a rosada cedeu suspirando alto. – 'Tá legal, eu sou virgem. É simplesmente complicado pensar em me envolver com alguém quando se tem um chefe do tráfico atrás de você, além de que ele mataria a pessoa que se envolvesse comigo – defendeu-se.

– Mesmo você sendo "ingênua" – fez aspas com os dedos – no assunto, eu irei te dizer como conseguir informações preciosas – fez uma pausa antes de reiniciar sorrindo cruel. – Abra as pernas para as pessoas certas que você consegue.

Sakura virou um pimentão.

– A Sakura não vai fazer nada disso – cortei a ruiva em defesa da rosada.

– Seria mais rápido se fosse nós duas, já pensou Falcão no quanto de informações eu e Sakura poderíamos conseguir se oferecêssemos uma sessão daquelas para um homem próximo ao Hozuki? – Provocou.

– Já disse que ninguém vai tocar nela – sussurrei entredentes apertando o braço dela com força.

– Ela tem razão – a voz da rosada surpreendeu-me.

– O-O quê? – Gaguejei chocado.

– Ela tem razão. Seria a maneira mais fácil de conseguir informações da maneira dela, mas como eu não vou abrir as minhas pernas para um qualquer, precisamos da ajuda e das informações dela.

Permaneci calado.

– Sabia que nos entenderíamos, Sah – falou convencida fugindo de meu aperto. – Bom se já nos acertamos – olhou para mim – você vai me deixar em casa, Falcão? – Falou maliciosa com segundas intenções.

Bufei em desdém.

– Volte andando.

– Falcão! – Repreendeu-me a rosada e vi a ruiva sorri satisfeita.

– Tsc – falei dando dinheiro para Karin. – Pegue um táxi ou qualquer coisa que anda.

Assim que a ruiva fez menção de partir:

– Karin – chamou a rosada.

– Sim?

– Por que você quer vingança?

Os orbes vermelhos obscureceram.

– Quero vingança por tudo o que ele me fez.

Sakura entreabriu a boca chocada como se tivesse descoberto algo apenas com aquelas palavras.

– Você se apaixonou por ele e não aceitou ser trocada – concluiu em um sussurro surpreendendo a todos.

– Impossível – murmurei encarando Karin que tinha a face fora do meu alcance.

– Palavras suas, não minhas – disse com raiva antes de sair do quarto sem se despedir.

Suspirei pesadamente antes de ir para a cama me sentar ao lado da rosada.

– Você tem certeza que podemos nos aliar a ela? – Perguntei conseguindo a atenção de seu olhar.

– Karin, não é confiável, mas é a melhor aliada que podemos ter, ainda mais por ser uma mulher traída – sorriu tristemente. – Agora entendo porque ela me odiava tanto. Ela nunca aceitou ser trocada por mim, mas diferente de outras mulheres que estivessem na mesma situação, ela está voltando a raiva para o verdadeiro culpado, não para mim que seria a outra.

Assenti sem saber o que dizer.

– Por que você trouxe dois capacetes hoje? – Mudou de assunto depois de um tempo de silêncio constrangedor.

– Ah sim – lembrei-me do porquê dos dois capacetes. – Vamos dar uma volta? – Sorri um pouco.

Mesmo desconfiada, a rosada cedeu indo buscar o seu tradicional casaco com capuz, o qual foi a única peça que ela não permitiu que eu jogasse fora de suas roupas antigas.

Saímos do hotel e como na primeira vez em que nos vimos, eu coloquei e afivelei o capacete sobre o capuz.

– Eu sei me virar, sabia Sasuke? – Falou emburrada.

– É claro que eu sei, só que é mais engraçado ver a sua face constrangida quando eu faço isso – dei de ombros subindo na moto.

– Chato – murmurou subindo na moto.

Ri um pouco esperando que ela me abraçasse com força para que eu pudesse dirigir sem temer que ela se machucasse.

Fazia tempo que não andávamos de moto e mesmo com a convivência de semanas juntos, eu poderia sentir o constrangimento que aquilo causava nela.

– Confia em mim – sussurrei acariciando uma mão que me envolvia.

Senti a rosada relaxar.

Dirigi alternando momentos de velocidade e calmaria. No início Sakura estava nervosa, mas chegou até a relaxar e gargalhar quando eu costurei no formato de um S, dois carros.

Parei apenas quando chegamos em uma grande e movimentada praça da Segunda Zona, podendo visualizar um sorriso animado na face da rosada que olhava tudo com curiosidade.

– Vem – segurei a sua mão e puxei para que me acompanhasse até um banco de madeira na beira do lago central.

Mesmo com o capuz, eu via a face ruborizada pelo nosso contato e pelos olhares que recebíamos, principalmente das mulheres.

Sakura de maneira discreta soltou a minha mão assim que se sentou no banco.

Tentei disfarçar o meu desagrado sentando-me em seu lado, observando o pôr-do-sol e os cisnes que algumas pessoas pedalavam no lago.

Voltei a encarar a rosada que ria feliz vendo algumas crianças brincando felizes no gramado um pouco longe de nosso banco.

– Gosta de crianças? – Perguntei recebendo o olhar brilhante da mulher que parecia mais radiante ao pôr-do-sol.

– Ah... eu não sei – admitiu constrangida. – Acho que sim. Nunca pensei em ter quando morava em Boca, mas aqui parece um bom local para se criar.

Assenti sorrindo.

Ela vai gostar de Nisuke, pensei aliviado.

– Por que você me trouxe aqui mesmo? – Perguntou sem poder esconder a curiosidade.

Ri um pouco pela sua ansiedade antes de voltar a seriedade pegando as mãos pequenas e geladas pelo frio que se instalava aos poucos sobre o Japão.

– Meus pais querem te conhecer, Sakura. Você aceita jantar conosco amanhã? – Perguntei receoso vendo as esmeraldas arregalarem-se.

Continua...

Notas finais
Espero que tenham gostado ^^ e também que eu possa ler a opinião de vocês! Sei que pode parecer confuso, mas Sakura confia em Sasuke, mas, mesmo assim, tudo o que ela viveu, faz com que ela ainda tenha certo receio em algumas coisas, já que desconfiar já é uma habilidade inerente dela. Quanto a Karin, digamos que ela já tá sacando o lance do Sasuke e da Sakura antes mesmo que eles percebam, por isso que ela sempre olhava desconfiada para as atitudes do moreno. Ela é muito observadora! Volto em breve ^^ Beijokas gente! Até a próxima! Feliz Dia dos Pais!