Re-Raise
2 O início
Notas iniciais
“Esta história fala sobre um casal, simplesmente. Andrew e Liz eram seus nomes. Liz morreu no dia de seu aniversário, e Andrew continuou sobrevivendo, apesar de já não ligar para muitas coisas mais. Liz era uma professora do educandário da cidade, e também era muito mal remunerada. Andrew era um escritor de alto padrão. Cursou uma boa universidade e formou-se em letras. Liz cuidava de crianças, apenas. Coisa que havia aprendido com a mãe, e que a mãe havia aprendido com a avó.”
“Andrew a conheceu numa estação de trem, onde que por destino, ela havia deixado seu lenço voar. Como o homem era alto, o pegou e o devolveu para a encantadora jovem. E foi assim que, num piscar de olhos se enamoraram e ficaram noivos. Andrew e Liz.”
“Hoje em dia, ninguém mais se lembra deste casal que teve um final trágico. E nem era para se lembrar, pois eram apenas dois jovens medíocres, que no final de contas apenas deixaram de existir. Um futuro inegável, afinal, todos morrem um dia. E Andrew morreu exatamente hoje, ao terminar de escrever esta carta
Deixei o papel em cima da mesa, assim como minha caneta, todos os dois jogados de um jeito qualquer na tábua de eucalipto. A minha amargura e dor era tanta, e tão insuportável, que eu mal podia respirar sem sentir-me agonizado, abafado por meu próprio oxigênio.
Ela queimava no íntimo de meu ser, dilacerando-me a cada segundo. E eu estava tão farto de minhas próprias e sórdidas lamentações, que já não separava mais a realidade do sobrenatural.
Do que valeria aquele mais belo diploma, que agora aos meus olhos era apenas mais um pedaço vagabundo de papel? Ou aquela magnífica lareira, com detalhes em puro ouro, que para mim agora poderia ser comparada a um fogão à lenha? Céus, o que eu fiz para merecer este inferno? Eu já não sinto mais frio, nem vontade de sequer fazer minha barba. Estou mais parecendo com um pobre mendigo do que com um jovem bem amparado.
Quem me visse agora, me julgaria como cinquenta, e não trinta. Enquanto isso, nesses dias em que só preciso de descanso, mais problemas me aparecem. Como se já não bastasse apenas a morte de minha Liz para me castigar. Minhas ideias estão mais confusas do que jamais estiveram, e o meu senso de realidade nunca encontra seu norte. É como se eu nunca tivesse existido, e tudo o que acontecera pertencia a um passado distante, e inalcançável.
Como se a cada segundo, todas as minhas corrompidas memórias quebrassem mais um belo sorriso. Como se a cada infinito segundo, mais uma palavra se perdesse. Como se a cada maldito segundo, uma ação fosse deixada para trás.
Eu só pedi um futuro no mínimo desprezível. Algo no mínimo enodado. Mas aquilo era mais do que eu podia aguentar. Era algo incontrolável. E eu odiava me sentir impotente.
Só queria ouvir sua risada eufórica mais uma vez, ou passar meus dedos por seus fios loiros. Sentir teu corpo ao meu, descobri-lo e redescobri-lo novamente, em toques doces. Sentir a tua mão passando por minha face, enquanto eu adentrava o canto mais íntimo de sua alma, apenas a olhar seus olhos castanhos.
Eu queria apenas poder desejá-la uma simples “boa noite” que não fosse uma abertura para o teatro da tragédia, e depois acordar e vê-la despertar de seu singelo sono, e me contar sobre seus sonhos bons. Abraçá-la nos maus, e consolá-la nos dias ruins. Eu só queria sentir o gosto de seus lábios avermelhados, e o ardume que me subia ao tocá-la. Só queria ela aqui, para que esses dias tão frios e doentios se tornassem algo novo. Apenas voltar um mísero minuto no passado, e dizer que a amava.
Apenas um desgraçado e embriagado “eu te amo”, coberto de lágrimas, soluços e carinho. Eu a queria tanto, e assim também a desejava. Liz. A única mulher capaz de me amordaçar, me deixar totalmente cego e surdo, e ao mesmo tempo não me alienar. Deixar-me mudo, e eu continuar sendo capaz de falar. Deixar-me sem fôlego sem que eu morresse. Foi com ela que eu descobri que o amor não era insensível, mas sim revigorante. Com ela pude perceber que nada mais importava senão viver.
. . .
Após sua ida, venho esquecendo isso, e tenho que fumar um ou outro cigarro para tentar me lembrar. Fumar. Meu velho vício, o qual havia me esquecido há anos. E eu nem precisava mais, pois eu tinha outra droga muito melhor, que foi me corrompendo em muito menos tempo. O amor. Algo que se faz bem, até ser esquecido, e de tempos em tempos, tenho que fumar novamente, para tentar me lembrar de como era sentir algo real.
Do que agora me adianta chorar rios e me afogar em lágrimas, sendo que eu sei que ninguém virá me salvar? Do que me adianta perfurar minha carne, sendo que sentirei o dobro da dor? Do que me adianta, céus, eu só quero saber do que me adianta eu cometer o pior dos suicídios, sendo que sei que ninguém estará me esperando?
Apesar da falta de apetite sou obrigado a comer. Apesar de querer ficar sozinho e apenas a conviver com minha eterna angústia, pessoas me cercam. E pior disto, elas corrompem meu corpo com seus medicamentos e agulhas, perfurando-me, fazendo-me cair num sono profundo, sem sonhos. Tudo isto apesar de eu não querer pregar os olhos e somente ver o escuro, pois é dele de que tenho medo.
É dele de que tenho medo. Mais do que cair numa completa e hedionda insanidade, onde meus próprios devaneios se tornassem pesadelos, invertendo o real e o incompleto vazio da loucura. Já não tenho mais medo da insensatez, pois ao abrir os olhos, ou até mesmo ao erguer meu rosto, tudo que vejo não parece concreto. Sei que estou padecendo à demência, me segurando apenas por dois frágeis e finos fios, que agora se foram, sem passagem de volta.
Demasiada foi a vontade da morte, porém o medo era ainda maior. Medo de que eu a esquecesse para sempre. A única coisa a qual me agarro são minhas memórias, minhas falhas memórias, que são sempre entorpecidas pelos medicamentos. Que me fazem acordar assustado à noite, que me fazem querer sangrar pelos olhos. É tudo apenas mais um ciclo vicioso e uniforme, o qual a lucidez não é presente.
E aqui estou eu, o bom e velho Andrew, em pé no carpete velho e empoeirado do escritório, de olhos abertos, mas sem nada enxergar. Ouvindo sem escutar, e sentindo sem me deliciar.
A sala escura e fechada propiciava um clima mais mórbido do que o normal, e eu estava tremendo novamente. Meus joelhos pareciam tão moles como um encontro devastador de plástico e fogo, e eu mais ainda. Não conseguia fechar as pálpebras, nem mesmo me focar em minha falha respiração. Falha. Tão falha quanto fui eu, ao tentar impedir a morte de Liz.
Não sabia mais se estava em pé ou deitado, para mim não havia diferença. Também não sabia o quão imerso em meus sonhos pútridos estava eu. Greg teve de me balançar algumas vezes para eu finalmente deslocar meu olhar débil ao seu. Ele sorriu, porém não pude retribuí-lo.
–- E então, campeão, pronto para o próximo livro? – Deu-me dois tapas no peito, e eu achei que meu almoço voaria para fora. E ele nem pareceu notar, e continuou seu falatório. – Estamos precisando de audiência, e você sabe como nos arrumar isso. Se me disser que até o final do ano terá um pronto para a publicação, te deixo escapar desta.
Funguei algumas vezes antes de responder, e designá-lo a minha extrema indignação com os olhos doentes.
–- Sabe bem que não é a minha melhor época, Greg. – Foi o que consegui dizer, antes de ter de limpar a secreção que saia de meu nariz com a manga da blusa.
–- Sei... Sei bem. – Ele deu de ombros e voltou a tagarelar em meu ouvido. Como se eu estivesse ao menos disposto a escutá-lo. – Você está nos devendo, Andrew, há meses não publicou nenhum texto ou poema. Estamos em falta, e é seu dever nos ajudar. – Se não bastasse a audácia, Greg ainda se sentou em minha cadeira e colocou os pés de solas sujas por cima de minha mesa, por cima de minha carta suicida. – Já pensou num título? Que tal “Noite de Primavera”, ou algo semelhante? Se não quiser um romance, entenderemos. Mas terá de ser rápido, meu caro, ou os prejuízos serão altíssimos.
Contentei-me em apenas olhar sua face avermelhada e rechonchuda por alguns instantes, antes de sentir repulsa de mim mesmo por trabalhar para aquela companhia.
–- Não sei se estou nos tempos de trabalho, meu bom homem. – Suspirei e tive de me sentar, estava começando a sentir tontura.
Greg se levantou e deu-me novamente dois tapas, desta vez nas costas.
–- Pense bem, velho amigo, a chance pode estar na sua frente. – Lançou-me uma piscadela e saiu, deixando-me mais confuso do que já estava antes de sua entrada.
Apenas quando ouvi o som que a porta fez ao fechar, relaxei. Deitei a cabeça sob a escrivaninha e me obriguei a enfrentar o escuro. Quando a ergui novamente, estava chorando tanto que mal conseguia respirar. Então fiquei parado, estático, vendo tudo a minha volta se dissolver num mar de pura e completa amargura. Era estranho sentir aquele vazio dentro de mim. Após alguns minutos, eu já não chorava, apenas olhava para o nada, e sentia a ausência. Ou melhor, não sentia.
Eu não sei porque as malditas lágrimas não transbordavam minhas pálpebras, ou porque meu nariz não escorria mais. Só sei que devia estar chorando, afinal, me sinto morto por dentro. Preso em uma eterna depressão; catastrófica.
São desmiolados aqueles que desabam por qualquer cisco, porém em mim há poeira demais. Poeira que poderia fazer um navio afundar ou esmagar todos os corpos da Terra. E então porque ela não finda logo isso? Essa dor indolor que serve apenas para denominar o que sinto: o vazio.
No vazio não há sentimento nem cor, há apenas... Nada. Não há dor, muito menos torpor. Porém dói mais que um parto, mais que a força de uma adaga perfurando o peito. E ao mesmo tempo não dói, afinal, é vazio.
Não há mais prazeres nem desprazeres em mim, há apenas a dor de queimar no nada, sem ao menos sentir o fogo do infinito e suas labaredas atracarem em minha pele e destroçá-la.
Levantei-me e ergui uma foto há muito tempo abaixada. Era o rosto de Liz, iluminado, com seus dentes levemente tortos a sorrir-me. Olhei bem no fundo de seus olhos castanhos pintados, os quais jamais verei novamente, e cantei do fundo de minha alma, com um sorriso nostálgico no rosto.
–- “Angels have no thoughts of returning you… Wouldn’t they be angry if I thought of joining you..?” – Suspirei, enquanto o sorriso e a música choravam por minha alma. – “Gloomy Sunday...”*
E assim, só assim, abaixei a foto, não conseguindo mais sequer olhá-la. Depois saí do cômodo, com a mão em frente à boca de lábios rachados, temendo por um dia eu estar tão vazio, que nem mesmo o medo poderia censurar esta minha vontade.
. . .
Após algumas poucas horas de sono, já não conseguia mais dormir. Minha cabeça me pregava peças, e entre pesadelos e minutos insones, resolvi me levantar. Fui para a varanda com o cigarro já aceso entre os dedos, e ainda de robe escorei-me ao cercado de madeira; a única coisa que me impedia cair dali.
Mirei o céu nublado Londrino, observando como o cinza predominava naquela cidade cada dia mais triste, e cheio de mágoa desloquei os olhos para as pessoas na rua. O tempo passava tão rápido para elas, e cada vez eu me tornava mais distante de tudo.
Estava tão descrente da realidade que mal pude acreditar que um dia fiz parte daquele meio. O que eu pude fazer foi apenas ficar lá, como uma estátua. Apenas olhando. E olhando. O dia virou noite, e eu continuei parado. Só percebi que o tempo estava passando quando acabei de fumar meu último cigarro, e já estava indo atrás de um charuto.
Cambaleei casa adentro e me joguei no sofá, sequer me lembrando de apanhar minha droga. Só então notei que me sentia exausto. Tanto que só percebi que havia dormido quando acordei, esbaforido com os leves empurrões em meus ombros.
Entreabri os olhos, a luz aveludada e modesta da manhã estava a entrar em feixes pelas cortinas escuras da sala. Meus sentidos ainda entorpecidos pelo sono procuravam letárgicos a origem da voz incansável a me chamar.
–- Andrew... Está me ouvindo? – Ergui o rosto mal barbeado para a figura à minha frente, e suspirei, em resignação. Mas é claro, como poderia eu não deduzir quem era? O bom e velho doutor Longbotton, meu analista.
Desde que minha assistente Dalila classificou-me como “incapacitado”, tenho uma... Duas sessões à semana. Eu não reclamo durante as consultas, apenas concordo com movimentos positivos e suspiro, tentando mostrar algum interesse. Porém, minha cabeça voa. Se Charles tivesse um grau a menos nas lentes, poderia bem aperceber o meu estado qualitativo.
Fiz que sim com a cabeça e me recompus, não querendo parar internado em um manicômio. O homenzinho careca sentou-se à minha frente, numa poltrona de couro verde. Ali mesmo eram onde as consultas ocorriam, até porque minha rotina não tinha grandes mudanças. Não me lembro também da última vez em que pisei no asfalto cinza de Londres, ou que respirei algum ar puro do campo.
–- Pronto para começar, ou devo vir mais tarde?
–- Eu estou em perfeitas condições. – Disse, balbuciando num tom arrastado, tentando disfarçadamente tirar as remelas dos olhos e ajeitar meu robe, que por incrível que pareça não estava lá tão amarrotado. Não havia nem chances de eu poder falar o contrário, o Dr. já tinha tirado sua caderneta e sua caneta, ambas prontas para receberem anotações que julgavam ser um tanto importantes para minha recuperação. Ou, se a situação acabasse mal, internação.
–- Muito bem, muito bem. – Charles ajeitou os óculos no nariz com o indicador e depois ergueu levemente o pulso para enxergar que horas eram. – Nós temos meia hora... – Parou por alguns segundos a avaliar-me, esperando que eu iniciasse a conversação.
Estava sentado no sofá velho de um azul claro, que se fosse largado no meio da cidade se camuflaria tão facilmente quanto eu em um necrotério.
Os primeiros minutos não poderiam ser mais fastidiosos; sempre as mesmas perguntas sobre os remédios, pesadelos, miragens e etecetera. Já haviam se passado quinze até que uma pergunta nova fora lançada no tabuleiro.
–- O que é que está te aborrecendo nos últimos tempos, meu caro? – Charles cruzou as pernas enquanto me olhava, com a corcunda levemente corrigida.
Franzi o cenho para meu médico, mas mesmo assim respondi à pergunta, após alguns minutos de olhares hesitantes. Meus olhares hesitantes e desconexos.
–- Se se sentir confortável para responder, vá em frente.
–- O escuro. – Cruzei as pernas também, colocando o tornozelo em cima do joelho direito flexionado. – Não o escuro em completa solidez, se é que me entende. Mas sim o escuro ardente do vazio, do esquecimento, da solidão. O escuro que é um choro em silêncio, ou uma cantiga que não é ouvida por ninguém. O escuro das palavras não ditas, dos atos não realizados e dos troféus destruídos. Dos corpos mortos após as batalhas, e o silêncio após a adaga transpor o peito. O escuro do grito de guerra, do terço em misericórdia na mão de uma crente, ou do último beijo da morte. – Abri um sorriso dolorido.
Ele levou uma mão ao queixo, assim apoiando-a sob a outra, que cruzava seu peito de leste a oeste.
–- Você citou uma de suas poesias. – E parou de falar por instantes. -- O que é que te aflige tanto, meu caro Andrew? Por que há tanta impaciência em você que não consegue deixar os dedos quietos, ou parar de olhar para os lados durante um segundo sequer? Se não acredita ou percebe, veja suas mãos.
Olhei para meus dedos; a pele já estava começando a sair dos cantos das falanges. Eu balançava as pernas, confuso de minhas ideias, apenas querendo regressar ao passado.
–- Você tem razão, meu caro... Citei uma das minhas piores. – Sorri amarelo. – Mas bem... O que me aflige é que eu sonho todas as noites com...
–- Liz, é evidente. – O doutor me interrompeu, e eu apenas maneei a cabeça em discordância.
–- Não, senhor.
–- Então o que é que te assusta? – Ele de repente pareceu interessado, tanto que se inclinou para frente, apoiando um cotovelo no joelho, a face barbuda na mão, apenas para me observar.
–- O escuro.
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