​O sol da manhã entrava pelas frestas da sacada real, mas Edward não sentia o calor. Seus olhos estavam fixos no jardim abaixo, onde o vestido de seda de Selene se destacava entre os tons sóbrios da nobreza inglesa. Ela ria, gesticulando com uma vivacidade que atraía os jovens condes como mariposas para uma chama. Edward a estudava com a intensidade de um estrategista avaliando um campo de batalha, mas seu olhar era pesado, carregado de uma fome que ele tentava, em vão, sufocar.

​— Ela é realmente um colírio para os olhos, não é? — A voz profunda de Charles Tudor ecoou pela sala, fazendo Edward se sobressaltar levemente.

​O pai caminhou até a sacada, parando ao lado do filho. Charles, embora mais velho, ainda carregava a aura de um guerreiro que viveu plenamente. Ele observou Selene por um momento e depois olhou para o perfil rígido de Edward.

​— Sabe, Edward... a disciplina é uma virtude, mas a abstinência prolongada pode transformar o sangue de um homem em vinagre — Charles disse, com um tom de voz que misturava diversão e seriedade.

​A conversa fluiu para caminhos que Edward tentava evitar. Quando Charles, com sua franqueza habitual, questionou a vida íntima do filho, a verdade veio à tona no silêncio que se seguiu. Ao descobrir que o "Rei de Ferro" nunca havia deitado com uma mulher — mantendo-se em uma castidade forçada por um luto que se tornou uma prisão —, Charles não conseguiu conter uma gargalhada genuína.

​— Um Tudor virgem aos trinta anos? — Charles caçoou, batendo no ombro do filho. — Pelo amor de Deus, Edward! Eu já tinha conquistado metade das damas de York e vencido três batalhas antes da sua idade!

​Edward tentou manter a carranca, mas o absurdo da situação e o humor contagiante do pai arrancaram dele algo raro: um sorriso genuíno, seguido por uma risada curta e seca.

​— Não é pecado querer aquela mulher, meu filho — Charles finalizou, o olhar agora terno. — Isabelle gostaria que você vivesse, não que apodrecesse em vida. Selene tem fogo, e talvez seja de fogo que você precise para derreter esse gelo. Ela parece ser a mulher certa para domar esse lobo carrancudo.

​As palavras do pai deixaram Edward perdido em pensamentos durante todo o dia. No entanto, a teimosia era sua armadura. Ao cair da noite, o peso da culpa o levou ao único lugar onde ele sentia que podia ser verdadeiro: a cripta real.

​Abaixo da capela, entre as estátuas de mármore e o cheiro de incenso antigo, Edward ajoelhou-se diante do túmulo de Isabelle. A penumbra era cortada apenas pela luz de uma única vela.

​— Eu sinto que estou traindo sua memória — Edward sussurrou para a pedra fria. — Depois de anos... eu sinto esse calor novamente. Ela me atrai de uma forma que me assusta. Mas eu não posso, Isabelle... eu não posso me deixar levar por esse erro.

​— Por que você chama a vida de erro, Edward?

​A voz de Selene ecoou pelas paredes da cripta, fazendo Edward se levantar bruscamente. Ela saiu das sombras, os cabelos ruivos parecendo fios de sangue na escuridão. Ela o confrontou com passos lentos, os olhos brilhando com uma mistura de triunfo e mágoa.

​— Você vem aqui pedir permissão para uma morta enquanto ignora quem está viva diante de você? — Selene desafiou, parando a centímetros dele. — Você é um covarde, Rei de Ferro. Prefere o mármore frio ao toque de uma mulher.

​— Cale-se! — Edward rugiu, a razão finalmente estilhaçando-se sob o peso de anos de repressão.

​Ele perdeu a cabeça. Em um movimento impetuoso, ele a puxou para si, as mãos segurando o rosto dela com uma urgência desesperada. O beijo foi violento, uma explosão de desejo contido por uma década. Ali mesmo, na penumbra da cripta, cercados pelos fantasmas do passado, Edward a possuiu com a fúria de um homem que estava morrendo de sede. Foi cru, visceral e desesperado — um ato que misturava paixão e dor.

​Quando o silêncio retornou à cripta, o choque da realidade atingiu Edward como um balde de água gelada. Ele se afastou bruscamente, ajeitando suas roupas com as mãos trêmulas, o rosto contorcido em horror pelo que acabara de fazer.

​— Isso foi um erro! — ele gritou, a voz ecoando de forma grotesca pelo solo sagrado. — Você é um erro, Selene! Eu nunca deveria ter permitido que você entrasse neste palácio!

​Sem olhar para trás, ele saiu correndo da cripta, deixando Selene sozinha e desgrenhada na escuridão, com o peito subindo e descendo, enquanto as lágrimas de Edward se perdiam no caminho para o seu quarto. Ele havia quebrado seu voto, mas o preço daquele momento de prazer era um ódio por si mesmo que prometia ser ainda mais mortal que o veneno de Katherine.