​A luz da manhã entrava pelas altas janelas do salão de desjejum, mas o clima à mesa era uma mistura volátil de euforia e tensão contida. Alycia e Edmund eram a imagem da felicidade; os toques sutis e os olhares trocados revelavam que a noite de núpcias havia solidificado o que começara como uma aliança política. Alycia brilhava, finalmente livre do peso de carregar sozinha a alegria daquela família.

​Charles e Sabrina, alheios ou fingindo ignorar o magnetismo sombrio que pairava no centro da mesa, discutiam os preparativos para o Banquete de Primavera. Era o evento onde o Rei abria os portões para o povo, uma tradição que Edward mantinha com o rigor de um dever sagrado, embora seu coração nunca estivesse presente.

​Enquanto isso, em uma ponta da mesa, Camilly permanecia em um silêncio absoluto. Jonas, um primo de Edmund que chegara com a aurora, tentava incessantemente capturar sua atenção com relatos de bravura em torneios franceses. Camilly mal movia os olhos de seu prato, sua postura sendo uma fortaleza que Jonas, apesar de seu charme galante, não conseguia penetrar.

​O verdadeiro duelo, porém, era silencioso. Edward estava recostado em sua cadeira de carvalho, a mão segurando uma taça de prata com uma força desnecessária. Ele não disfarçava. Seus olhos verdes estavam cravados em Selene, estudando cada movimento de suas mãos, cada inclinação de sua cabeça. Ele esperava as provocações, as palavras ácidas que ela costumava lançar como flechas. Ele estava preparado para odiá-la, para usar o sarcasmo dela como desculpa para sua própria fúria interna após o que ocorrera na cripta.

​Mas Selene estava diferente. Ela comia calmamente, o olhar baixo, sem oferecer ao Rei o embate que ele tanto ansiava. O silêncio dela era mais barulhento do que qualquer grito; era o silêncio de quem carregava o peso de uma noite que mudara tudo.

​A paz frágil foi estilhaçada quando o Rei Luís, limpando os lábios com um lenço de seda, quebrou o silêncio diplomático.

​— Estive refletindo sobre o futuro de Selene — disse Luís, num tom casual que carregava o peso de um decreto. — O Duque de Alva, na Espanha, enviou uma proposta formal. É uma aliança poderosa. Acredito que o casamento deva ocorrer antes do final do verão.

​O som dos talheres de Selene batendo contra o prato de porcelana ecoou como um tiro. Ela levantou a cabeça, e o fogo que Edward esperava finalmente surgiu, mas não direcionado a ele. Seus olhos faiscaram em direção ao pai, uma mistura de traição e raiva pura.

​— A Espanha? — Selene perguntou, a voz trêmula de indignação. — Você me trouxe até aqui para me vender ao lance mais alto como se eu fosse um cavalo de raça?

​— Selene, comporte-se — Luís advertiu, a voz endurecendo. — Você teve privilégios que poucas em sua posição teriam. Agora, deve servir à coroa.

​Sem dizer mais uma palavra, Selene levantou-se bruscamente, derrubando sua cadeira no processo. O barulho fez Alycia e Edmund pararem de sorrir. Ela lançou um olhar final — não para o pai, mas para Edward. Um olhar que gritava o segredo que compartilhavam e a injustiça de ser descartada. Ela saiu do salão a passos largos, a saia de seu vestido chicoteando o ar.

​Edward permaneceu imóvel, mas por dentro, o Rei de Ferro sentiu a rachadura em sua alma aumentar. O pensamento de Selene nos braços de um duque espanhol, sendo tocada por outro homem como ele a tocara na cripta, despertou um monstro que ele não sabia que existia.

​— A Espanha é um lugar muito longe, Luís — Charles comentou, quebrando o silêncio mortal, enquanto olhava fixamente para o filho. — E o Duque de Alva é conhecido por ser um homem... difícil.

​Edward não disse nada. Ele apenas observou a porta por onde Selene desaparecera, sentindo que o "erro" da noite anterior estava prestes a se tornar a sua maior obsessão.