Razão ou Coração
14 O Sacrifício do Lobo
O dia mal havia nascido quando os primeiros raios de sol atravessaram as frestas das cortinas pesadas. Sabrina ainda estava em um sono leve, exausta pela vigília da noite, quando sentiu um movimento brusco ao seu lado.
Charles, cujos instintos de sobrevivência foram polidos por anos de perigo, ouviu o som de passos pesados e o tilintar de chaves no corredor. Ele sabia o que aquilo significava: a tradição Tudor da "visita de inspeção". William não esperaria pelo café da manhã para garantir que seu plano estava selado.
Charles saltou da poltrona com uma agilidade silenciosa. Ele viu Sabrina despertar, confusa e assustada, sentando-se na cama enquanto esfregava os olhos.
— O que você está... — ela começou, mas ele levou o dedo aos lábios, os olhos fixos na porta.
— O Rei está vindo — Charles sussurrou, a voz urgente. — E ele não vai sair daqui sem provas.
Sabrina empalideceu, olhando para o lençol imaculado. Se o Rei visse que nada havia acontecido, a anulação seria impossível, mas a fúria de William seria devastadora para ambos. Charles agiu rápido. Ele pegou a adaga de marfim que Sabrina deixara no travesseiro.
Sem hesitar e sem mudar a expressão, ele deslizou a lâmina afiada pelo próprio pulso.
— Charles! — Sabrina abafou um grito, levando as mãos à boca.
O sangue vermelho e quente jorrou imediatamente. Com um movimento preciso, ele pressionou o pulso contra o lençol de linho branco, manchando-o de forma convincente e dramática. Ele jogou a adaga longe, arrancou a camisa fina que vestia, jogando-a no chão, e deslizou para a cama ao lado de Sabrina.
— Deite-se. Agora! — ele ordenou.
Antes que ela pudesse processar, Charles a puxou para seus braços. Ele estava sem camisa, o peito quente e sólido pressionado contra as costas dela. Ele envolveu a cintura de Sabrina com o braço ferido, escondendo o corte sob o corpo dela, enquanto o sangue ainda manchava o tecido abaixo deles.
A porta se abriu com um estrondo.
O Rei William entrou, seguido por dois guardas que permaneceram no corredor. Ele trazia no rosto um sorriso triunfante, misturado com a arrogância de quem invade a privacidade alheia por direito divino.
— Vejo que o Lobo finalmente encontrou sua toca — a voz de William ecoou pelo quarto, carregada de um prazer malicioso.
Charles fingiu despertar naquele momento, soltando um grunhido baixo e possessivo. Ele apertou Sabrina mais forte contra si, enterrando o rosto no pescoço dela, fingindo uma sonolência de quem passara a noite em atividade intensa. Sabrina estava rígida, o coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que o Rei podia ouvi-lo. Ela sentia o sangue de Charles úmido contra sua pele, um calor que a fazia estremecer.
— Majestade — Charles murmurou, sem soltar Sabrina, a voz rouca e perigosamente calma. — Pensei que até os reis respeitassem a manhã de núpcias de seus irmãos. Ou o senhor veio para nos dar os parabéns antes que o sol termine de nascer?
William caminhou até o pé da cama. Seus olhos desceram para a mancha escarlate no lençol. O sorriso do Rei aumentou. Para ele, aquela mancha era o contrato assinado, a garantia de que Sabrina agora pertencia à linhagem Tudor e que Charles estava definitivamente amarrado às responsabilidades da Coroa.
— Eu vim garantir que o meu reino permanece estável, Charles — disse o Rei, observando Sabrina, que mantinha os olhos fechados, fingindo um sono profundo e exausto. — E vejo que você cumpriu o seu dever. Espero que a sua... "ferocidade" não tenha assustado demais a minha pupila.
— Ela é uma Tudor agora, William — Charles rebateu, levantando levemente o olhar para o irmão, um brilho de desafio nos olhos azuis. — Ela aguenta muito mais do que você imagina. Agora, se nos der licença, gostaria de aproveitar o que resta da minha manhã com a minha esposa. A sós.
William soltou uma risada curta, satisfeito.
— Muito bem. Deixarei vocês com sua... glória. O café será servido em uma hora. Não se atrasem. O reino quer ver o novo casal feliz.
O Rei virou-se e saiu, fechando a porta com a mesma força que entrara.
Assim que o som dos passos desapareceu, o silêncio no quarto tornou-se sufocante. Charles soltou Sabrina imediatamente e sentou-se na beira da cama, pressionando o lençol contra o pulso para estancar o sangramento que ainda persistia.
Sabrina sentou-se logo em seguida, olhando para a mancha de sangue e depois para o homem ao seu lado. Ela viu a cicatriz que ele acabara de criar, um corte profundo feito por ela, para salvá-la de uma humilhação ou algo pior.
— Por que você fez isso? — ela perguntou, a voz mal saindo da garganta. — Você se feriu... por mim.
Charles olhou para ela por cima do ombro. Ele estava pálido, mas o sorriso cínico ainda estava lá, embora agora parecesse mais cansado.
— Não se sinta especial, Sabrina — ele disse, embora seus olhos não tivessem o mesmo veneno de antes. — Eu fiz isso por nós. Se ele descobrisse a verdade, eu seria exilado novamente e você seria casada com o primeiro nobre decrépito que ele encontrasse. Eu apenas... escolhi o meu próprio veneno.
Ele se levantou, caminhando em direção à bacia de água para limpar o ferimento. Sabrina observou as costas dele, as marcas de uma vida que ela mal conhecia, e sentiu algo mudar. O ódio ainda estava lá, mas agora vinha acompanhado de uma dívida de sangue que ela nunca esperou ter com o Lobo de Tudor.
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