Razão ou Coração
15 O Exílio Dourado
O café da manhã foi uma performance coreografada. Sabrina, envolta em um vestido de seda cinza pérola, mantinha o olhar baixo e os gestos contidos, interpretando perfeitamente o papel da noiva exausta e submissa. Charles, ao seu lado, exibia uma arrogância renovada, embora mantivesse o pulso ferido estrategicamente escondido sob a manga de renda de sua túnica.
O Rei William, radiante com o que acreditava ser o sucesso de sua estratégia, não esperou que terminassem os frutos secos para selar o próximo passo do destino deles.
William limpou os lábios com um guardanapo de linho e olhou para o casal com um brilho de posse.
— O Reino de Tudor celebra hoje a união de vocês, mas a paz exige vigilância — começou o Rei, sua voz ecoando pela sala. — Charles, o Ducado de York tem estado sem um senhor presente por tempo demais. As fronteiras do norte precisam de um punho firme e de uma presença que represente o trono.
Charles arqueou uma sobrancelha, sentindo o peso das palavras do irmão.
— Você quer que eu vá para o Norte, William? Agora? — Charles perguntou, sua voz carregada de uma ironia sombria. — Pensei que gostaria de me manter por perto para garantir que eu não me perdesse pelo caminho.
— Pelo contrário — William sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Eu quero que você governe. E quero que Sabrina floresça como a Duquesa de York. As carruagens já estão sendo preparadas. Vocês partirão logo após o desjejum.
Sabrina sentiu um aperto no peito. Sair da corte significava perder a proteção de Camilly e a familiaridade do palácio onde crescera. Significava ficar sozinha com Charles em um castelo isolado, cercado apenas por névoa e segredos.
— Para York? — Sabrina interveio, a voz firme apesar do nervosismo. — Majestade, as estradas do norte são perigosas nesta época do ano.
— Você terá uma escolta real, minha querida — William respondeu, suavizando o tom apenas ligeiramente. — E terá o seu marido para protegê-la. Charles conhece bem o aço; é hora de ele aprender a cuidar do que é seu. York é o seu novo lar. Lá, vocês terão a privacidade que o início de um casamento exige. Sem olhos curiosos, sem interrupções.
O Rei levantou-se, sinalizando o fim da conversa.
— Preparem-se. O norte é frio, mas dizem que o fogo de uma lareira em York é capaz de fundir até as vontades mais teimosas. Espero notícias de um herdeiro antes da primeira colheita.
A Partida
Uma hora depois, o pátio do castelo estava um caos de cavalos e baús sendo carregados. Camilly abraçou Sabrina com força, sussurrando em seu ouvido: "Não deixe que o frio do norte a apague, Sabrina. E lembre-se: o lobo é mais vulnerável quando acha que já venceu."
Charles ajudou Sabrina a subir na carruagem de madeira escura, adornada com as armas dos Tudor e de York. O toque dele foi breve, mas ela notou que ele evitava usar a mão ferida.
Quando a carruagem começou a se mover, deixando para trás os portões de ferro e as torres que Sabrina chamara de lar por dez anos, o silêncio entre eles tornou-se opressor. Charles sentou-se à frente dela, observando a paisagem que mudava enquanto o palácio desaparecia no horizonte.
— Satisfeita? — Charles perguntou subitamente, quebrando o silêncio. — William nos baniu com estilo. Ele nos deu um ducado para nos manter longe da coroa dele. Agora somos apenas eu, você e o gelo do norte.
Sabrina olhou para ele, vendo o reflexo da própria incerteza no rosto do homem que agora era seu dono.
— Ele não nos deu um ducado, Charles. Ele nos deu uma prisão de luxo — ela respondeu, encostando a cabeça na lateral da carruagem. — Mas se você acha que a solidão de York vai me tornar mais fácil de lidar, está redondamente enganado.
Charles deu um meio sorriso, olhando para o pulso enfaixado sob a manga.
— Eu nunca gostei de coisas fáceis, Sabrina. E York... York tem uma maneira curiosa de revelar quem as pessoas realmente são quando não há ninguém assistindo. Prepare-se. A viagem será longa.
A carruagem seguiu caminho, adentrando as florestas que levavam ao norte selvagem, levando consigo dois corações que pulsavam entre o ódio, o dever e uma dívida de sangue que nenhum dos dois sabia como pagar.
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