Razão ou Coração
23 O Reencontro das Almas
O Palácio de Whitehall guardava segredos por trás de cada tapeçaria, mas nenhum era tão cortante quanto a verdade. Escondida nas sombras do corredor de pedra, Sabrina ouviu o que jamais esperava: a risada cínica do Rei William e o tilintar de moedas sendo entregues à cortesã.
— Fiz o que me pediu, Majestade — dizia a mulher. — Ele estava tão entorpecido que mal sabia o próprio nome. Bastou um pouco de perfume e o silêncio para que a Duquesa visse o que o senhor queria que ela visse.
O mundo de Sabrina desmoronou e se reconstruiu em um segundo. O ódio que a sustentara nos últimos dias transformou-se em uma culpa dilacerante. Charles não a traíra; ele fora a vítima de uma crueldade que custara a vida do filho deles.
Sabrina caminhou até os aposentos de Charles com os pés descalços, ignorando o frio do chão. Ela não bateu; apenas empurrou a porta pesada. O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelas brasas moribundas da lareira. Charles estava sentado no chão, encostado na cama, com uma garrafa de vinho intacta ao seu lado e o olhar perdido no vazio.
Ao vê-la, ele tentou se levantar, a defesa subindo aos seus olhos como um escudo.
— Sabrina? O que faz...
Ela não o deixou terminar. Sabrina caiu de joelhos à frente dele, as lágrimas escorrendo sem controle.
— Eu ouvi, Charles... eu ouvi o Rei — ela soluçou, pegando a mão enfaixada dele e levando-a aos lábios. — Ele planejou tudo. O vinho, a mulher... ele queria nos destruir. E eu... eu acreditei nele. Eu marquei você, eu culpei você pela nossa perda. Por favor, me perdoa.
Charles paralisou. A tensão que habitava seus ombros nos últimos meses pareceu ceder. Ele puxou a mão da carícia dela para envolver o rosto de Sabrina, limpando uma lágrima com o polegar.
— Eu nunca odiei você pelo seu golpe, Sabrina — ele sussurrou, a voz embargada. — Eu odiei o fato de que ele conseguiu nos fazer duvidar do que tínhamos no norte.
A Dança das Sombras
Naquela noite, sob o véu do silêncio, o perdão não veio através de palavras, mas de um toque que buscava curar o que fora quebrado. Não havia mais a urgência possessiva do Lobo ou a resistência gélida da Duquesa. Havia apenas duas pessoas perdidas, tentando encontrar o caminho de volta para casa um no outro.
Eles se moveram como as chamas que dançavam na lareira: uma coreografia de sombras e luzes que se fundiam nas paredes de carvalho. O toque de Charles era uma prece, percorrendo a pele de Sabrina com a reverência de quem toca algo sagrado e frágil. Ela, por sua vez, agarrou-se a ele como se fosse sua única âncora em um mar revolto.
Foi um encontro poético de pele e alma, onde o calor de um corpo buscava preencher o vazio deixado pela perda. No silêncio do quarto, o único som era o ritmo compassado de dois corações que voltavam a bater como um só. O ato não foi uma conquista, mas uma rendição mútua — um pacto selado no escuro, onde o suor e os suspiros eram as únicas testemunhas de que, apesar de toda a dor, eles ainda pertenciam um ao outro.
Quando a primeira luz cinzenta da manhã começou a tocar os móveis, eles ainda estavam entrelaçados sob os lençóis de linho. O ar no quarto mudara; o cheiro de tragédia fora substituído pelo perfume suave de uma esperança renascida.
Charles beijou a testa de Sabrina, sentindo-a finalmente relaxar em seus braços.
— Eles não vão nos tirar mais nada — ele jurou, a voz baixa e firme.
Sabrina abriu os olhos, e neles não havia mais o brilho do luto, mas a chama de uma vingança compartilhada.
— Agora — ela respondeu, aninhando-se no peito dele — nós somos um só. E William vai descobrir que não há nada mais perigoso do que dois lobos que decidiram caçar o seu próprio Rei.
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