Razão ou Coração

24 O Sangue e a Coroa


A biblioteca de Whitehall era um labirinto de poeira e pergaminhos esquecidos, o único lugar onde o Rei acreditava que Sabrina buscaria refúgio para o seu luto, e não para a sua vingança. Enquanto Charles fingia manter sua rotina de desleixo nos pátios, Sabrina passava horas entre estantes seculares, movendo pedras soltas e vasculhando fundos falsos de baús que não eram abertos desde o reinado do pai de Charles.

​Foi em um volume encadernado em couro de cabra, escondido atrás de tratados de astronomia, que ela encontrou o que mudaria o curso da história de Tudor.


​Sabrina desdobrou o pergaminho amarelado com as mãos trêmulas. Não era uma carta comum; era uma confissão selada pelo antigo confessor da Rainha Mãe e o registro de nascimento de um vilarejo distante. Os documentos eram claros: William nascera meses antes do casamento real, fruto de um romance secreto da Rainha com um capitão da guarda que fora executado em silêncio.

​Charles era o primeiro e único filho legítimo do Rei.

​William era um bastardo que ocupava o trono por meio de um segredo enterrado sob o peso de coroas e mentiras. Charles não era apenas o Duque de York; ele era o verdadeiro Rei por direito divino e de sangue.

​O Pacto de Fogo

​Sabrina levou os documentos para os aposentos de Charles no meio da noite. Ela trancou a porta e espalhou os papéis sobre a mesa, onde a luz de uma única vela fazia as letras góticas saltarem do papel. Charles leu em silêncio, o rosto tornando-se uma máscara de granito. O choque inicial deu lugar a uma compreensão sombria de cada humilhação que sofrera nas mãos do "irmão".

​— Ele sempre soube — Charles sibilou, a voz vibrando com um ódio que Sabrina nunca ouvira. — Por isso ele me exilou. Por isso ele me queria falido e casado com uma mulher que ele pudesse controlar. Ele tinha medo de que o sangue falasse mais alto que a coroa que ele roubou.

​Sabrina aproximou-se, colocando a mão sobre o ombro dele.

​— Ele não apenas roubou o seu trono, Charles. Ele roubou a nossa vida, o nosso filho e a nossa paz. Ele usou a sua bastardia para governar com tirania, enquanto o verdadeiro Rei era tratado como um lobo sarnento.

​Charles levantou o olhar para ela. Havia uma nova chama em seus olhos azuis — não era apenas o desejo ou a fúria, era a autoridade de um homem que finalmente descobrira quem realmente era.

​— O que você quer fazer, Sabrina? — ele perguntou, pegando a mão dela e apertando-a contra o pergaminho.

​— William quer nos ver no Festival de Primavera como seus súditos leais — ela disse, um sorriso perigoso surgindo em seus lábios. — Vamos dar a ele o espetáculo que ele merece. Mas não vamos como o Duque e a Duquesa de York. Vamos como os juízes que o levarão ao cadafalso.

​A Estratégia dos Lobos

​Eles passaram o restante da noite traçando o plano. A prova da bastardia de William era a arma definitiva, mas precisavam de apoio.

​Charles puxou Sabrina para si, envolvendo-a em um abraço que selava não apenas o amor deles, mas um destino de poder.

​— Você está pronta para ser a Rainha de um homem que foi caçado como um animal? — ele sussurrou contra o cabelo dela.

​— Eu estou pronta para governar ao lado do único homem que sobreviveu ao inferno para me encontrar — ela respondeu.

​A guerra de York e Londres estava prestes a terminar. O Lobo de Tudor estava pronto para reclamar a alcateia, e a Duquesa, agora sua cúmplice e futura Rainha, segurava a adaga que cortaria o pescoço da farsa de William.