Razão e Emoção
23 Capítulo 23 – Quebra-cabeças
Notas iniciais
POV Maura
Arregalei os olhos surpresa com o que aquele homem acabara de nos dizer. Dei uma olhada rápida para Jane que parecia um pouco surpresa também, mas dava a impressão de ser apenas pela presença dele ali, diferente de mim que não só pela presença, mas por quem ele era. Jane sabia que a agente Jerau era casada? Mas como? Eu diria que conversei mais com ela sobre assuntos não profissionais do que Jane... De qualquer forma tratei de afastar esses pensamentos secundários da mente e dar andamento ao que ele queria conosco:
– Muito prazer, Will! Acredito que o motivo da sua vinda é... – ele me interrompeu com um sorriso simpático no rosto:
– Exatamente esse, Doutora! E como bem sabemos é um assunto altamente sigiloso. Será que tem algum outro lugar mais privado em que possamos conversar?
Eu parei para refletir um instante e Jane pareceu fazer o mesmo, logo nos olhamos como em acordo com a ideia que tivemos juntas:
– Claro, vamos para o meu escritório.
Voltamos para o andar do necrotério em instantes, abri a porta convidando o detetive à entrar. Ele andou devagar observando todos os cantos do ambiente, parou em frente as máscaras africanas que tenho na parede enquanto Jane atrás dele trancava mais uma vez a porta e verificava se todas as persianas das janelas estavam mesmo fechadas:
– É uma decoração inesperada para a sala de uma legista... Com todo respeito, é claro!
– É, ela gosta de coisas bizarras mesmo! — revirei os olhos perante o comentário rabugento da Jane enquanto sentava em minha cadeira e apontava a da frente para o homem se sentar.
Will deu uma última checada ao redor se certificando:
– Não tem câmeras aqui dentro da sua sala né? E nem dá pra nos ouvirem lá de fora?
– Eu sinceramente espero que não, amigo! – comentou Jane entre um riso e um desabafo, eu não me contive em olhar para ela com ar de reprovação antes de responder educadamente à pergunta:
– Não se preocupe. Nenhuma coisa nem outra, podemos conversar a vontade aqui.
– Perfeito! – respondeu ele finalmente relaxando um pouco enquanto abria a grossa jaqueta que trajava tirando alguns envelopes grandes de dentro – A JJ me pediu para mostrar uma coisa pra vocês que vai ajudar tanto na investigação que estão fazendo quanto a BAU na busca pela Emily.
Esperei ansiosa que ele colocasse os envelopes sobre a mesa empurrando para nós, Jane logo os pegou abrindo um com certo cuidado e retirando alguns papéis de dentro. Vi ela franzir a testa, mas como ela estava de pé via apenas as costas lisas dos papéis, ela logo os colocou sobre a mesa me deixando ver também e encarando o detetive:
– Como o FBI sabe em que caso estamos trabalhando?
– É o FBI, detetive, eles sabem de tudo... – Will se recostou na cadeira completando com um ar brincalhão – Não sabe a roubada que é ser casado com uma agente!
Eu e Jane rimos mas logo voltei minha atenção para o que havia na minha frente: eram as fichas militares completas dos três assaltantes que agora se encontravam em pedaços no meu necrotério. E sim, eles eram russos.
– Todos eles estavam em processo de extradição, por que?
– Parece que não foi na América que eles aprenderam a ser criminosos... – respondeu Jane abrindo outro envelope e passando os olhos sobre alguns documentos que lá estavam – Foram expulsos do exército sob alegação de facilitarem atos terroristas e fugiram para cá.
– E até onde conseguimos descobrir a Emily trabalhava na CIA numa operação que visava pegar o cabeça desses caras. – continuou Will com ar preocupado – O caso foi dado como encerrado, o que nos leva a achar que ele efetivamente foi preso em algum lugar perdido do globo, mas agora estamos com dificuldade de conseguir novas informações, pelo mistério todo que estão fazendo somado a toda atitude estranha dela é bem provável que tenha escapado...
Olhei atentamente para os documentos em minha mesa e fitei por um tempo o detetive a minha frente. Jane começou a andar pela sala, ela ficava agitada quando começava a teorizar sobre o caso, esperei pouco tempo até que ela falasse olhando para o vazio:
– E veio se vingar dela. Certamente não foi direto para Washington porque precisava recrutar seus homens, e esses 3 estavam aqui, ainda assim tem algo faltando...Tem a ficha desse homem para nos dar, detetive?
– Não, a JJ e o resto do pessoal estão trabalhando duro para conseguir mais informações. Como não foram autorizados oficialmente a abrir um caso ela me pediu que ajudasse, eu fui ao hotel que a Emily se hospedou antes da BAU vir para o caso que foram chamados aqui em Boston e achei algo curioso. — Will tirou seu celular do bolso abrindo uma foto e mostrando para nós – Era uma espelunca, o que por um lado foi ótimo, pelo visto limparam super mal o quarto que ela ficou. Estão vendo essas letras escritas com batom no canto do espelho do banheiro? Deve ter algum significado... Mandei essa foto para JJ, o Reid ainda não tinha tido tempo de olhar, mas com certeza com o conhecimento daquele garoto em linguística logo teremos uma nova pista!
Balancei a cabeça esperançosa com a última informação. Jane pegou novamente os papéis de cima da mesa:
– Podemos ficar com isso? É essencial para o andamento do nosso caso.
– Claro, é uma cópia para vocês mesmo, tem inclusive um carimbo falso como se vocês o tivesse o extraído de um banco de dados aberto da polícia. – franzi a testa olhando melhor os papéis, ele completou – Vocês não poderão dizer que o FBI lhes deu essa dica valiosa assim do nada, então como não poderão falar sobre o real motivo a Garcia pensou num jeito de disfarçar da onde surgiram esses documentos, é só juntar com as fotos das plaquetas de identificação que verão que o número corresponde a ficha de cada um deles.
– Perfeito! Muita obrigada, Will. – respondeu Jane esticando a mão para apertar a do homem – E se tivermos novas informações como podemos nos comunicar?
Ele tirou um cartão do bolso entregando para ela:
– Aqui, tem meu telefone e anotei a mão o endereço da onde estou hospedado, devo ficar mais uns 3 dias aqui em Boston atrás de pistas, vamos nos falando. Obrigado e boa sorte com tudo, senhoritas!
Dei um sorriso e fui abrir a porta indicando o caminho de volta para ele após, claro ele também ter pego nossos números. Assim que ele se foi Jane me pediu para imprimir a foto das plaquetas e foi correndo para a sala dos detetives mostrar o que “nós” havíamos descoberto.
Parece que os vídeos que Frost arranjou não eram exatamente o que todos esperavam e acabaram não ajudando em muita coisa. Tirando a nova informação sobre os soldados russos, todos estavam bem frustrados com o não andamento daquele caso. Eu e Jane ainda por cima tínhamos o caso adicional da Emily para nos preocupar. Eu me pegava pensando às vezes se ela estaria bem, imagino que se fosse ao contrário (eu ou Jane desaparecidas) ela não mediria esforços para nos encontrar e queria fazer o mesmo por ela.
Chegamos ao fim do expediente mais uma vez esgotadas, fui para o apartamento de Jane e lá jantamos praticamente em silêncio, tomei banhei enquanto ela via alguma reportagem esportiva na tv, ela ia tomar o banho dela quando recebi uma mensagem ao mesmo tempo que ela em nossos celulares, era do detetive Will:
“Era um anagrama, temos o nome: Ian Doyle”.
Fiquei paralisada olhando para a tela do meu celular, o terrorista que perseguia Emily tinha o mesmo sobrenome do meu pai biológico? Jane percebeu o quanto eu fiquei abalada e logo se pôs a falar que não tinha nada a ver uma coisa com a outra e que estava tarde, tinha sido um dia muito estressante e era melhor irmos nos deitar, ela ia tomar um banho rápido mas não era para eu ficar me preocupando com a mensagem.
Estava deitada na cama de Jane olhando para o teto, a vi sair do banheiro já vestida com um shorts largo e uma camiseta da academia de polícia. Ela soltou os cabelos indo em direção o interruptor, apagou a luz e se ajeitou ao meu lado sem dizer nada, apenas me puxou para perto dela passando um braço sobre meus ombros. Me encolhi nos braços dela ficando de lado e passando um braço por sua cintura, sabia que minha respiração estava pesada e tentava controlar isso quando ela soltou um suspiro longo:
– Vai ficar tudo bem, ok? É uma coincidência realmente macabra esse lance dos nomes e das profissões deles, pensando bem, mas esse cara perseguindo a Emily não tem nada a ver com o “doador de esperma” que gerou você!
– Como você pode ter tanta certeza? Eu já não duvido de mais nada que envolva ele...
Ela me apertou mais contra seu corpo falando baixo:
– Mesmo que eu esteja errada, nada vai te acontecer, tá bom? Isso eu tenho certeza, porque não vou sair de perto de você enquanto não desvendarmos esses dois casos.
Forcei um sorriso e sussurrei um “obrigada”, Jane era sempre assim protetora, e por mais que minha razão soubesse que nada dessa certeza dela poderia de fato ser comprovada eu me sentia confortada apenas estando em seus braços. Ela fez carinho na minha cabeça até que eu efetivamente me sentisse mais relaxada, notando isso ela sussurrou:
– Agora tenta não pensar no assunto. Pelo menos não por enquanto, apenas pense em qualquer coisa mais agradável e durma. A gente precisa descansar!
Concordei apesar de saber que isso seria quase impossível, depois de muito tempo notei que ela dormia, mas eu não consegui pregar os olhos, me levantei com cuidado indo até sua cozinha preparar um chá para mim. Tomei sem perceber lembrando de cada pequena conversa que já tive com Paddy, e ele me fez lembrar de Hope, aquelas duas pessoas que me botaram no mundo e só nos reencontramos depois que eu já era adulta e fui descobrir todos seus podres. Penso que se eu tivesse sido criada por eles talvez não visse isso, não, aos olhos de uma criança seus pais são sempre o exemplo, e mesmo quando crescemos a tendência é relevar determinados erros. Como Jane e o pai dela com a conversa que tiveram mais cedo... Espera, era algo totalmente diferente! Uma coisa é você não suportar mais a vida ao lado da sua esposa e querer se aventurar pelo mundo depois de velho e outra é você ser da máfia e dar a sua filha recém nascida pra um desconhecido criar! Não, acho que jamais me apegaria a eles, nem que tivesse sido criada por ambos!
Voltei para a cama após fazer uma longa análise de minha vida e relacionamentos até a idade que tenho hoje, finalmente consegui vagar por outros assuntos e já que não tinha sono fui me aprofundando neles, de repente Jane se virou na cama e provavelmente por instinto ao notar que eu estava sentada ao seu lado e não deitada acordou me encarando com os olhos semicerrados:
– Maur, tá tudo bem?
– Sim, só não estou com sono mesmo... — ela ergueu um pouco mais o tronco mas eu pus a mão em cima dela – Não, não, pode deitar! Eu estou bem, é sério.
Ela se recostou novamente mas dessa vez me olhando com os olhos mais abertos, ela estava exausta do trabalho mas sabia que iria se forçar a ficar mais um tempo atenta até ter certeza que eu estava bem então me deitei ao lado dela me cobrindo com o lençol. Ela lançou um meio sorriso e logo fechou novamente os olhos, eu novamente olhava para o teto quando resolvi puxá-la para o assunto que estava martelando na minha mente no momento e já não tinha nada a ver com os anteriores:
– Jane, aquilo que você falou mais cedo, sobre me achar tão gostosa que tem vontade de me agarrar em qualquer lugar, era sério ou você só estava sendo engraçada?
– Que? – ela perguntou virando o rosto para mim com ar confuso – Claro que era, essa sua mania de ser saudável e praticar yoga todo dia, comer salada e sei lá mais o que fazem efeito mesmo...Você já viu a sua bunda como é perfeita, por acaso?
Ergui uma sobrancelha vendo que ela não tinha nem aberto os olhos para fazer tal comentário, estava num estágio nem acordada nem dormindo totalmente e sua voz saiu arrastada, aquilo era engraçado resolvi ir em frente:
– Sei... E sobre não ver problema em transarmos no meu escritório, você já transou num ambiente de trabalho?
Ela soltou um riso rouco:
– Não. Porque não é bem isso que praticamos na academia de polícia, doutora!
– E num local público?
– Eu sou policial, Maura, eu prendo quem transa em local público... – dessa vez ela demorou mais pra responder, não sabia se estava prestes a cair no sono mais uma vez ou se apenas evitava a resposta.
– Isso não responde a minha pergunta.
– Carro é um bem privado, mas ele estava num local público, satisfeita?
Eu ri baixo e ficamos em silêncio e eu achei que ela já havia adormecido novamente quando me lançou a pergunta:
– Você já?
– Também não é bem isso que se aprende na residência de hospitais apesar de muitos seriados mostrarem o contrário e bom, em local público acho que uma vez. Num lago.
– Num lago? – ela agora franzia o rosto todo em tom de repulsa, achei curioso aquilo.
– Sim, era numa fazenda de um amigo meu em Londres. Qual o problema?
– Como qual o problema? Tem muita água! – ela falou num tom inconformado
– Como se você nunca tivesse transado tomando banho, né? Inclusive comigo...
– Não, é diferente! – ela agora havia aberto os olhos e me encarava ainda com a testa franzida e a voz bem rouca – No mar você está totalmente imerso, e tem toda aquela água entrando e saindo de você ao mesmo tempo que tem outra coisa entrando e saindo de você, fora que quantas pessoas já não fizeram isso lá? Sabe, só de pensar já me dá nojo e corta o tesão.
– Eu não disse mar, eu disse lago! Você já transou no mar e não gostou não foi?
– É, sim, tá é isso ai... – ela respondeu hesitante após alguns segundos e logo voltando a fazer careta — Mas nossa... Não! Na água nem pensar!
– É como de manhã então?
– Que quer dizer?
– Você odeia transar de manhã, Jane.
Ela abriu a boca surpresa com meu comentário, mas eu não estava ligando muito, já que tinha puxado o assunto achei apropriado falar tudo que pensava.
– Eu nunca disse isso!
– Não precisou. Desde que namoramos só transamos uma vez de manhã, na primeira semana e você não passou nem perto do seu desempenho normal...
– Ok, isto é uma reclamação formal? Tipo, estamos tendo uma DR sobre nossa vida sexual às... – ela se esticou para olhar no relógio que fica em seu criado-mudo — 3 horas da manhã?
– Não é uma reclamação, apenas uma constatação.
Ela soltou um suspiro longo e apoiou a cabeça sobre uma mão se virando de lado para me olhar:
– Você gosta de transar de manhã? Sente falta disso?
– Gosto, às vezes. – parei para pensar melhor – Nem sempre, mas você visivelmente detesta e acho que seria interessante me informar de certas preferências desse tipo.
– Discordo. Quer dizer, eu não vejo necessidade de explicar o sexo pra quem está comigo, e nem de perguntar, aos poucos você vai sacando do que eu gosto ou não e vice-versa. E porra, quando eu falei pra você pensar em outros assuntos, não era pra vagar tão longe assim, sabe?
A encarei com seriedade mas logo as duas estavam rindo bastante:
– Desculpe. Também não sei como cheguei nisso, e estou ficando com sono agora, vamos dormir?
– Por favor! E bom, se não era uma DR não preciso perguntar se acabou e estamos bem, certo?
– Não, apenas entramos num acordo que nada de sexo imerso em água!
Ela riu me abraçando novamente e nos ajeitamos confortavelmente para dormir, já havia fechado os olhos quando ela me cutucou:
– Mas sobre tentarmos no seu escritório, pode até ser de manhã, beleza?
– Vou pensar no assunto... – respondi a puxando mais para perto e entrelaçando minhas pernas com a dela, finalmente dormindo em seguida. Aquele dia havia sido um pesadelo e só queria que minha noite de sono não fosse igual.
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