Razão ou Coração

13 O Pacto do Silêncio


A porta do quarto nupcial foi fechada com o peso da inevitabilidade. O som do ferrolho correndo pareceu um tiro no silêncio do aposento, decorado com tapeçarias carmesim e o brilho trêmulo de candelabros de prata. Sabrina estava de pé junto à janela, de costas para a porta, ainda vestida com a seda branca que agora parecia uma armadura sufocante.

​Charles entrou devagar. Ele havia se livrado da capa e do medalhão real. A camisa estava aberta, revelando a pele marcada por anos de viagens e batalhas. Ele exalava o cheiro de vinho e da noite fria.

​Ao notar a adaga de marfim repousando sobre o travesseiro de seda, ele soltou um riso baixo e seco.

​— Uma recepção calorosa, devo dizer — Charles comentou, caminhando até a mesa onde repousava uma jarra de vinho e duas taças de cristal. — Você sempre foi rápida em mostrar os dentes, Sabrina. Mas colocar a arma sobre a cama? Isso é um aviso ou um convite para que eu a use?

​Sabrina virou-se lentamente. O véu já havia sido descartado, e seus cabelos loiros caíam em ondas desfeitas sobre os ombros. Seus olhos, no entanto, mantinham a firmeza que ele tanto odiava e admirava.

​— É um lembrete, Charles — ela respondeu, a voz gélida. — Um lembrete de que, embora o Rei tenha comprado o meu corpo para o seu nome, ele não comprou a minha submissão. Você disse que gostava de rosas com espinhos. Pois bem, aqui estão eles.

​Charles serviu uma taça e caminhou em direção a ela, parando a uma distância perigosa. Ele a observou de cima a baixo, o olhar percorrendo as curvas do vestido de noiva com uma possessividade que a fazia querer recuar, mas ela permaneceu imóvel.

​— Você acha que eu vou forçá-la? — Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso cínico surgindo nos lábios. — Minha cara Duquesa, eu passei dez anos em cidades onde mulheres imploravam por um segundo da minha atenção. Eu nunca precisei tomar nada que não fosse oferecido com prazer. E, apesar da sua pose de rainha de gelo, nós dois sabemos que prazer é algo que você desconhece totalmente.

​— Prefiro desconhecer o prazer a conhecer a humilhação de ser apenas mais uma conquista na sua lista — ela rebateu, dando um passo à frente, invadindo o espaço dele. — Você fala de prazer, mas só conhece a superfície. Você volta para casa, aceita um casamento por dinheiro e terras, e ainda quer posar de sedutor incompreendido? Você é um covarde, Charles. Um covarde que se esconde atrás de um sorriso torto porque tem medo de que alguém veja o quão vazio você é por dentro.

​O sorriso de Charles vacilou. Ele sentiu o golpe. A taça de vinho foi deixada de lado abruptamente enquanto ele se aproximava ainda mais, o rosto a milímetros do dela. A tensão elétrica entre os dois era quase física, um magnetismo que puxava a razão para o abismo.

​— Vazio? — ele sussurrou, a voz carregada de uma fúria contida. — Você não tem ideia do que eu vi ou do que eu sou. Você viveu em uma redoma de vidro, Sabrina, protegida por William, enquanto eu aprendia a sobreviver no lodo. Você se acha superior porque guarda seu coração em um cofre, mas a verdade é que você tem medo. Medo de que, se me deixar chegar perto, vai descobrir que não é feita de aço, mas de carne e osso... e desejo.

​— O único desejo que sinto agora, Milorde, é o de ver o sol nascer para que eu possa sair deste quarto — ela mentiu, embora sua respiração estivesse acelerada e seus olhos fixos nos lábios dele.

​Charles estendeu a mão e, com um movimento lento, tocou o cabo da adaga sobre o travesseiro, mas não a pegou. Ele apenas a empurrou para o lado.

​— Pois bem. Durma com sua faca, se isso a faz sentir-se segura. Eu não vou tocá-la esta noite. Mas não se engane: amanhã, quando sairmos por aquela porta, o reino acreditará que eu a possuí de todas as formas possíveis. Vou deixar que os sussurros da corte corram. Vou deixar que pensem que a "protegida" finalmente foi domada pelo "lobo".

​Sabrina sentiu uma pontada de raiva. — Você é desprezível.

​— Eu sou o seu marido — ele corrigiu, afastando-se e jogando-se em uma poltrona de veludo diante da lareira, esticando as pernas com um desleixo estudado. — E, como seu marido, decidi que a maior tortura para você não é o meu toque... é a minha indiferença. Pode ficar com a cama, Sabrina. Eu ficarei com o vinho e com a visão do seu fracasso em me expulsar.

​Sabrina olhou para ele — o homem que deveria ser seu inimigo, mas que agora dividia o silêncio do seu quarto. Ela caminhou até a cama e sentou-se na beirada, mantendo a adaga ao alcance da mão.

​— Isso é um pacto, então? — ela perguntou, a voz mais baixa.

​— Um pacto de aparências — ele respondeu, fechando os olhos enquanto a luz do fogo dançava em seu rosto. — Para o mundo, somos os amantes perfeitos de Tudor. Aqui dentro, somos apenas dois estranhos esperando a próxima batalha.

​O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo estalar da madeira na lareira. Sabrina deitou-se, ainda vestida, sentindo o coração desacelerar. Ela vencera a noite, mas, ao olhar para a silhueta de Charles na poltrona, teve a incômoda sensação de que a guerra estava longe de terminar — e que o verdadeiro perigo não era a adaga, mas o que aconteceria se o gelo entre eles finalmente começasse a derreter.