Razão ou Coração

22 O Despertar no Vazio


A caminhada de volta para Whitehall foi um borrão de dor e náusea. Sabrina sentia o corpo estranhamente pesado, como se cada passo exigisse uma força que ela não possuía mais. O encontro com os noruegueses fora bem-sucedido — a dívida de Charles estava quitada com o ouro de sua própria linhagem — mas a vitória tinha um gosto de cinzas. Ela o odiava. Odiava o fato de ainda se importar o suficiente para salvar a vida dele, mesmo depois de tê-lo marcado com o aço de sua adaga.

​Ao cruzar o limiar do grande salão, o frio do mármore pareceu subir por suas pernas. Uma pontada aguda, como se uma brasa fosse pressionada contra seu ventre, a fez dobrar o corpo.

​— Milady? — a voz de um guarda soou distante.

​Sabrina tentou responder, mas o ar fugiu de seus pulmões. Ela olhou para baixo e viu, com horror, uma mancha escarlate se espalhar rapidamente pela seda clara de seu vestido. O mundo inclinou-se violentamente, e as luzes das tochas se apagaram antes que ela atingisse o chão.


​O cheiro de vinagre e ervas medicinais foi a primeira coisa que Sabrina sentiu ao recuperar a consciência. Ela estava em sua cama, a luz da lua filtrando-se pelas janelas altas de Whitehall. Seu corpo parecia oco, uma carcaça vazia de toda a vida que sentira pulsar em York.

​No canto do quarto, a silhueta de Charles estava curvada sobre uma poltrona. Ele ainda usava a camisa manchada de sangue da briga anterior, o braço enfaixado de forma apressada. Ao ver que ela abrira os olhos, ele se levantou, mas não se aproximou. Seu rosto estava devastado, uma máscara de horror e culpa que Sabrina nunca vira.

​O médico real, mestre Hennessey, aproximou-se da cama com uma expressão de pesar profundo.

​— O que aconteceu? — a voz de Sabrina saiu rouca, mal ultrapassando o limite dos lábios. — Eu... eu fui ferida?

​O médico trocou um olhar pesado com Charles antes de se voltar para ela.

​— Milady... a senhora sofreu uma hemorragia severa. O choque emocional e físico dos últimos dias foi... demais para o seu estado.

​— Estado? Que estado? — Sabrina tentou se sentar, mas uma fraqueza lancinante a impediu.

​— A senhora não sabia, Duquesa? — o médico hesitou, a voz baixando para um sussurro de luto. — A senhora estava carregando um fruto da sua união em York. Estava grávida de quase dois meses.

​O tempo parou. O coração de Sabrina pareceu errar a batida. As imagens das noites frias diante da lareira em York, do calor de Charles e da trégua que haviam construído, voltaram como um golpe físico. Ela estivera carregando uma vida — um pedaço daquela esperança que agora fora enterrada pelo ódio.

​— Eu... eu estava? — lágrimas quentes começaram a rolar, sem que ela emitisse um som. — E agora?

​— O bebê se foi, Milady — disse o médico, baixando a cabeça. — A senhora perdeu a criança durante o desmaio. Não houve nada que pudéssemos fazer.

​Um soluço dilacerante escapou de Sabrina. Ela levou as mãos ao ventre, agora liso e dolorido, sentindo o vácuo deixado pela perda de algo que ela sequer tivera a chance de amar.

​— Saiam — ela ordenou, a voz subitamente gélida, cortando o ar. — Todos vocês.

​— Sabrina... — Charles deu um passo à frente, a voz embargada. — Eu não sabia... se eu soubesse...

​— Saia, Charles! — ela gritou, sentando-se com um esforço sobre-humano, os olhos em chamas através das lágrimas. — Você o matou antes mesmo de eu saber que ele existia! Cada mentira sua, cada toque daquela mulher que você permitiu... você destruiu o único milagre que o inferno de York nos deu!

​Charles parou, o braço ferido latejando, mas a dor no peito era infinitamente maior. Ele olhou para a esposa e viu nela um abismo que nenhuma palavra de perdão poderia cruzar. Ele saíra para o corredor como um homem condenado, deixando Sabrina sozinha com o seu luto e a descoberta tardia de que o amor deles deixara um rastro de sangue antes de morrer.

​A dívida com os noruegueses estava paga, mas o preço cobrado pela vida de Charles fora o próprio futuro deles.