Razão e Emoção
19 Capítulo 19 – Todos são suspeitos
Notas iniciais
Jane e Maura continuaram se encarando agora com os olhos arregalados. A voz do outro lado da linha se pronunciou:
– Alô?
– Alô. – respondeu Jane se obrigando a sair do estado de choque que se encontrava mas ainda com uma voz hesitante – Boa noite, sou a Detetive Rizzoli da unidade policial de Boston, recebi uma ligação deste número e... – fez uma pausa olhando para a loira a sua frente que cruzava os braços e balançava a cabeça a encorajando a continuar – Estou retornando a ligação. Não sei quem me ligou na verdade.
– Polícia de Boston? Certo. – a voz fez uma pausa como se julgasse o que acabou de ouvir – Bem, detetive, este é o ramal direto da Agente Jerau, deve ter sido ela que lhe fez a ligação, eu só estava de passagem aqui na sala dela, quer que tente localiza-la no prédio?
– Se não for muito incomodo... – respondeu Jane fazendo um sinal com as mãos que não estava entendendo nada para Maura.
– Ok, só um instante, por favor.
A morena mexia os lábios sem emitir som encarando a namorada: “O que raios ela quer com a gente?!” A outra respondia no mesmo linguajar gesticulando: “Não faço ideia, mas deve ser pessoal, senão teriam ligado pro Cavanaugh, não é?” Jane deu os ombros e ia falar mais alguma coisa quando ouviram uma voz mais suave porém firme ao telefone:
– Agente Jerau, boa noite!
– Ergh... Olá, agente! – disse Jane meio desconfiada – Aqui é a detetive Rizzoli, você ligou para mim agora pouco.
Houve um momento de silêncio depois puderam ouvir a voz agradecer a primeira que havia atendido o telefone e delicadamente pedindo para ela se retirar. Ouviram um barulho de porta fechando e então a agente retornou a linha:
– Olá, detetive. Desculpe incomodar, mas é um assunto importante e extra oficial, não quis ligar na delegacia por este motivo. Liguei também para a Doutora Isles, vocês estão juntas agora?
– Sim, sim, estamos.
Novamente uma pausa seguida de um tom menos profissional, na verdade a outra aparentava segurar um riso:
– Ok, desculpe mesmo por incomodar vocês...
Jane e Maura coraram e a loira se sentou na cama instintivamente se cobrindo com o lençol, era estranho, mas falar com alguém do FBI dava a impressão de ter sua privacidade invadida ainda que fosse impossível a agente ver como as duas estavam naquele momento, não quis arriscar.
– Sem problemas. – disse Jane forçando um riso e também procurando algo pra vestir.
– Então... – recomeçou a outra em tom preocupado – Temos um caso em aberto, mas como disse é extra oficial e espero realmente que vocês duas possam nos ajudar.
– Se for possível, é claro, agente! – se prontificou Maura se aproximando um pouco do telefone.
– Obrigada, Doutora. Vejam, é muito grave e portanto não seria seguro revelar do que se trata por telefone. Já conversei com Hotch e se estiverem de acordo, iremos de jato até ai pela manhã.
As duas mulheres se olharam assustadas, mas logo disseram que tudo bem. A agente confirmou apenas o horário exato pedindo para que ambas estivessem na pista de pouso e se despediu na sequencia:
– Obrigada, e desculpe o mistério todo. Amanhã pessoalmente conversaremos melhor! Boa noite e mais uma vez perdão por atrapalha-las!
A detetive e a legista se despediram e logo Jane desligou o celular o encarando em silêncio. Maura se levantou, vestiu um pijama e se virou para Jane que dobrava suas roupas espalhadas e também vestia seu pijama:
– Isso foi estranho, não foi?
– Bastante...
– Não faço ideia do que pode se tratar. – disse a loira arrumando a roupa de cama e afofando os travesseiros — O que você acha que é?
– Sinceramente? Não faço ideia, amor. – respondeu a morena já se deitando com um ar mal humorado – Só sei que eles acabaram com nosso dia de folga especial!
Maura deitou ao lado da detetive e sorriu de canto se aproximando e dando um selinho nela:
– Tudo bem, a gente terá outras folgas e de certa forma já compensamos boa parte de como aproveitaríamos ela.
– Já? – disse a morena se virando com um sorriso malicioso – Acho que agora teremos que estender pra ter certeza que ela será compensada, não concorda?
Maura riu capturando os lábios da outra que da mesma maneira leve que começava, se tornava um beijo quente em questão de segundos, em pouco tempo já estavam trocando mordiscadas e se livrando das roupas mais uma vez. Com certeza precisariam compensar a falta de tempo que teriam uma com a outra no dia seguinte, não que precisassem de muito motivo pra isso...
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No outro dia de manhã elas estavam no horário combinado na pista de vôo. Avistaram o mesmo jato que um mês atrás viram decolar daquele ponto e se aproximaram devagar. A agente JJ estava em frente a escada de acesso com um casaco preto de botões, os braços cruzados conversando com seu chefe o agente especial Hotchner como sempre trajando um terno escuro, uma camisa e gravatas sóbrias e o olhar carrancudo. Se viraram quando notaram a presença das duas mulheres:
– Bom dia, Detetive Rizzoli, Doutora Isles! Agradeço pela cooperação em estarem presentes aqui hoje. – disse rapidamente o agente se inclinando para apertar a mão delas.
JJ sorriu sem mostrar os dentes apontando para dentro da aeronave:
– Nos acompanhem, por favor?
Jane olhou de canto para Maura que também tinha um ar intrigado, mas obedeceram a agente. Assim que estavam no interior puderam notar que não se tratava de um jato qualquer. “O FBI não economiza mesmo...” pensou Jane observando os assentos confortáveis e espaçosos, além da cabine com comidas e bebidas. Logo notou o restante da equipe já conhecida da BAU sentada a sua frente, estavam todos lá: Rossi, Morgan, Dr. Reid, e faltava uma pessoa:
– A agente Prentiss não vai participar dessa tal missão? – a morena não se conteve em perguntar após ter cumprimentado os homens presentes e olhado para todos os cantos sem ver a outra morena.
JJ a fitou com seriedade depois olhou para os companheiros e todos olharam de volta para o chefe:
– Acomodem-se e assim que decolarmos daremos prosseguimento a conversa, detetive.
Jane se sentou numa poltrona larga com uma mesinha de madeira na frente, Maura sentou a sua frente e ambas se encararam sem saber ao certo o que dizer, apenas esperaram todos se acomodarem e o avião levantar voo.
Estavam já a alguma altitude o Dr. Reid fechou o notebook que mexia a sua frente olhando para Hotchner:
– Acho que podemos conversar agora, pelo mapeamento que a Garcia montou já entramos numa zona em que a frequência não pode ser rastreada.
O agente mais velho então se levantou e alguns outros o imitaram, formando uma espécie de rodinha perto de Jane e Maura:
– Senhoritas, como já foi dito temos um caso grave em mãos e envolve diretamente a agente Prentiss. – fez uma pausa para observar a reação das duas que apenas o acompanhavam com o olhar – De forma direta e objetiva: ela sumiu!
– Sumiu? – disse Maura com ar inconformado – Isto é cientificamente impossível, agente, quero dizer, até agora não se comprovou que uma matéria possa...
– É só maneira de dizer, doutora! – cortou Jane relativamente envergonhada da observação óbvia que sabia que a namorada dissertaria pelos próximos minutos se não impedisse.
– Oh... Claro, perdão.
Hotch balançou a cabeça atordoado depois prosseguiu:
– Pois bem, ela desapareceu sem deixar rastros alguns dias atrás no meio de um caso que estávamos investigando. Não é o protocolo, mas tivemos então que abrir uma investigação contra ela mesma e descobrimos se tratar de uma agente dupla.
– Agente dupla? Tipo uma espiã de outro país? – disse Jane impressionada.
– Não! – interrompeu JJ num tom defensivo – Ela trabalha para a CIA além do FBI.
– E vocês não sabiam disso?
– É óbvio que não, Jane. – foi a fez de Maura se sentir envergonhada com a pergunta da morena – A CIA é a maior organização de investigação secreta do mundo, nem mesmo o FBI tem acesso a arquivos desse tipo de agente.
– Exato! – continuou Rossi entrando na conversa – O que descobrimos foi que seu último trabalho anos atrás foi infiltrada num caso altamente perigoso, depois dele a CIA a transferiu para o FBI acreditamos que com o objetivo de proteger sua identidade.
– Ela não iria embora do nada... – disse JJ fitando algo no chão da aeronave – Temos certeza que alguém está atrás dela ou ela de alguém!
– Certo. – disse Jane observando a todos com atenção – Mas que tipo de ajuda nós podemos oferecer a vocês?
– Estamos considerando que Emily pediu uma licença dois dias antes do caso do Tylan alegando que tinha que resolver problemas familiares. – disse Morgan com ar preocupado – Porém ela já estava em Boston quando chegamos para o caso e...ela não tem nenhum parente nessa cidade! Não sabemos ao certo o que ela fazia, mas até agora é nossa única pista.
Todos os agentes se olharam de novo como se combinasse o que dizer a seguir. Rossi veio mais a frente encarando Maura:
– Dra. Isles, todos nós sabemos que você teve mais...hã...contato com a Emily. Preciso que nos conte em detalhes como a conheceu e todas as conversas que tiveram sem ser sobre o caso do Tylan.
Jane subitamente pareceu ficar tensa e batia uma perna em sinal de irritação. Maura a olhou rapidamente hesitante em responder. JJ arriscou num tom baixo:
– Jane? Você não precisa acompanhar essa parte se não quiser. Faremos como um interrogatório tradicional e...
– Não vejo nada de tradicional em ser num avião a sei lá quantos mil metros do chão e sem nenhum protocolo a ser assinado. – cortou Jane de um jeito azedo – Então como eu não estou disposta a ficar no banheiro ou na cabine com o piloto, não se preocupe agente. Eu vou permanecer aqui e acompanhar tudo.
Maura a fitou por um momento, conhecia bem Jane, até demais para saber que se como “apenas amigas” a morena já era um poço de ciúmes com ela que dirá agora num relacionamento. Deu um suspiro curto e logo encarou o agente Rossi que dava um meio sorriso esperando pacientemente.
– Certo. Nós nos conhecemos num bar próximo a minha casa, na noite anterior que vocês chegaram para o caso. Eu estava sentada no balcão ela apareceu de repente pedindo licença para se sentar ao meu lado.
– Não chegou a notar se ela já estava lá dentro quando você entrou ou se chegou depois? – interrompeu Hotch com um olhar atendo sobre a legista.
– Não, eu não notei. Eu estava bem mal humorada na verdade, só fui até lá porque queria espairecer... – Maura fez uma pausa observando Jane abaixar um pouco a cabeça e morder as bochechas por dentro, certamente ela lembrava o motivo – Enfim, ela se sentou ao meu lado e pediu um uísque sem gelo, eu fiquei um pouco admirada e ela percebeu, se virou pra mim e disse que não estava tendo um dia bom e que a haviam ensinado que era pecado colocar gelo nessa bebida.
Rossi soltou um riso baixo com um olhar de satisfação:
– Eu que ensinei isso do uísque pra ela... Mas porque o dia não estava bom, ela chegou a evoluir o assunto?
– Não. Na verdade nós brindamos e ela puxou um assunto sobre a música que tocava no ambiente, nos apresentamos e ela perguntou com o que eu trabalhava, falei que eu também não tinha tido um dia bom e não estava disposta a conversar sobre esse tipo de assunto, ela foi de acordo então deixamos isso para lá e ficamos conversando sobre viagens, cinema, assuntos bem variados na verdade.
– Em nenhum momento ela chegou a falar que era uma agente, então? – disse JJ vendo Maura acenar negativamente com a cabeça – Certo. E depois do bar?
Maura fez uma pausa mais longa imaginando o quanto Jane se forçaria a tentar não transparecer que estava com o sangue fervendo na hora que ela começasse a contar esta parte:
– Ela insistiu em me acompanhar até em casa. Fomos a pé até ela, eu a convidei para entrar e ela...nós...bem... Ela passou a noite comigo lá e creio que nada do que foi dito durante este período vai fazer diferença nessa investigação.
– Que horas ela foi embora de sua casa, Doutora? – falou Hoth novamente em seu tom sério.
– Eu não sei agente. Quando acordei ela já havia saído, deixou um bilhete pedindo desculpas por não se despedir mas ela tinha que trabalhar. Mais tarde quando nos encontramos na delegacia ela me explicou que havia recebido sua ligação sobre o caso, então foi ao hotel que estava hospedada fazer o check-out e direto para a casa da vítima depois.
Rossi franziu a testa:
– Eu me lembro que quando ela chegou disse que tinha passado no hotel que nós estávamos para fazer o check-in e estava cansada porque a noite tinha sido longa. De qualquer forma não mencionou qual era este outro hotel que esteve... – o agente viu Maura corar um pouco e logo continuou — E em mais nenhum momento ela chegou a falar sobre o que fazia em Boston?
– Bem, eu perguntei alguns dias depois quando ela estava em minha casa – observou Jane com o canto do olho que tinha uma cara emburrada e frisou — para jogar xadrez. Ela tentou fugir do assunto na verdade. Falou que estava a trabalho num caso extra oficial, era algo complicado e logo questionou porque eu queria saber... Visivelmente ela não queria falar sobre isso e eu não achei apropriado insistir. Depois disso creio que só nos falamos sem ser sobre o caso na manhã que vocês estavam embarcando para voltar.
– Ok... – disse Morgan com um ar pensativo – Então nós estávamos certos, ela realmente está envolvida com alguma coisa da CIA e está acontecendo em Boston.
– Temos que pedir para Garcia ver se localiza algum registro desse outro hotel que ela ficou. – comentou Reid logo na sequencia abrindo um sorriso – Obrigado pela ajuda, Doutora!
– Então acabamos? – disse Jane encarando todos os agentes. – Quero dizer, era só isso que precisavam de nós?
– A princípio sim, Detetive. – respondeu Rossi sem emoção – Mas como ficou claro aqui, Boston é a única conexão que temos para acha-la até agora, então ainda precisaremos de seus conhecimentos a medida que desenvolvermos o caso!
Maura concordou enquanto Jane olhava para o vazio um momento:
– Acho que vocês deviam verificar o bar também. – a detetive viu todos a olharem com ar intrigado, prosseguiu – Na noite do encerramento do caso eu a vi lá, sozinha. Salvo ela goste muito daquele lugar, talvez tenha algum outro motivo.
– Ela não tinha como gostar muito se não conhecia o bar. – interrompeu Maura – Ou ao menos foi o que disse para mim quando nos conhecemos lá.
– Tem certeza que não havia mais ninguém com ela, ou se ela não parecia estar vigiando alguém? – questionou JJ.
– Não, ela me parecia estar simplesmente lá, sabe? Quando entrei ela estava indo pro banheiro, fui atrás dela e bom, depois da briga nem a vi sair...
– Briga? Que briga?? – disse Maura visivelmente chocada.
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