Razão e Emoção

16 Capítulo 16 – Ohana


Notas iniciais
Prontoo, um capítulo até que maiorzinho pra compensar e todo mundo ter o que ler no feriado! rsrs. Boa leitura!

POV Jane

Eu não sabia o que pensar, foi tudo tão rápido, tão marcante, tão... Inexplicável! Sim, era essa a palavra que estava procurando para descrever para mim mesma estas últimas 24h: inexplicável.

Eu havia descoberto finalmente o porquê de tantas dúvidas e indecisões. Tudo que me completava na minha vida pessoal, aquela alguma coisa que eu negava se alguém perguntasse mas no fundo sabia que me faltava para poder dizer sem dúvidas que era feliz sempre esteve ali ao meu lado todos os dias no trabalho e fora dele. Aquele pequeno gênio burro e loiro que habitava meu coração há anos só não sabia que de uma forma tão grande e complexa. Complexa como ela talvez... O amor é uma coisa complexa não é? Bom, eu sempre achei que fosse, mas é que com a Maura parece que tudo fica mais fácil, até isso.

Eu divagava parada na calçada da minha rua esperando Jo terminar suas necessidades, de repente ela latiu pra mim e fez força com a coleira, acho que querendo dizer que já estava pronta para voltar e eu ficava ali sonhando. Voltamos para casa, eu dei a ração dela, tomei um banho e fui me deitar. Vi que tinha uma mensagem no celular, de quem mais seria além daquela pessoa que agora não me saia mais dos pensamentos?

“Oi! Só pra desejar boa noite mesmo. Durma bem! Longos beijos”

Eu sorri abobada, me senti meio idiota a bem da verdade, quer dizer sou uma mulher adulta e em nenhum relacionamento que tive até então me peguei tão encantada por um simples gesto como estava sendo agora. Mas fazer o que? Maura é a Maura, ela é especial!

“Você também, meu amor! Todos meus beijos”

Bati na testa logo depois que enviei, meu coração deu uma disparada, eu chamei ela de “meu amor”? Porra Jane, também não precisava ir tão rápido, né? Eu não tenho o menor tato pra essas coisas mesmo...

“Sonhe comigo, meu amor!”

Respirei aliviada, não tinha dado nenhum fora, afinal ela parecia ter aprovado.

“Você também! ;)”

“Melhor não, Jaques vai dormir aqui comigo, acho que não seria apropriado...”

Arregalei os olhos sem saber o que responder, como ela conseguia fazer isso? Foi de romântica ao erotismo num piscar de olhos! Dra. Isles era mesmo uma caixinha de surpresas, vou é ter muito trabalho com esse namoro... No bom sentido, é claro!

“Tem razão. Não sonhe comigo então... E muito menos com ele!”

Podia ouvir ela rindo ao ler a resposta que enviou na sequência:

“Só você mesmo, Jane... Pode deixar! Até amanhã! Bjos”

Deixei o aparelho num canto e fechei os olhos ainda sorrindo, estava tão bem comigo mesma que não queria pensar no lado ruim que poderia estar por vir.

No outro dia fiz toda rotina que estava acostumada, cheguei no precinto e fui direto para meu andar, o caso da mulher afogada na piscina ainda estava em andamento e eu queria focar totalmente nele para compensar o atraso gerado pelo caso especial.

– Essa folga te fez bem, hein, Jane? – ouvi Frost dizer de maneira debochada no computador a minha frente.

– Ué, por que?

– Sei lá, você tá tão feliz...

Franzi a testa fingindo estar irritada:

– Por acaso eu preciso trabalhar de mau humor todos os dias?

– Bom, não necessariamente, mas é que não estou acostumado com essa Jane Rizzoli que sorri até pro entregador da expedição e manda um beijo para o Dr. Pike no memorando de agradecimento pela finalização dos serviços de autópsia!

– Eu mandei o que??? – levantei da cadeira voando para olhar a tela dele enquanto ele gargalhava batendo na coxa:

– Tava brincando, Jane! É claro que você não fez isso... – eu fechei a cara lhe dando um soco relativamente forte no braço – Aiii, calma! Mas do jeito que você está hoje bem que podia ter acontecido.

Ia revidar quando ouvi meu celular tocando. Era Maura pedindo para eu ir até a cafeteria, ela não parecia muito bem, achei estranho então avisei Frost que ainda não havia acabado com ele, mas desci correndo. Mal sai do elevador vi Maura que me segurou pelo braço e foi me puxando pelo saguão sussurrando:

– Seus irmãos...

– Que tem meus irmãos?

– Estão discutindo, melhor você intervir antes que acabe em pancadaria como da última vez!

Sai andando mais rápido e vi Frankie com um dedo levantando apontando de maneira ameaçadora para Tommy que tinha um ar revoltado e começava a aumentar o tom de voz:

– Eu não fiz nada, ok?! Deixa de ser babaca, Frankie!

– Seja homem uma vez na vida e assume alguma coisa, Tommy! O que foi que aconteceu agora? Hein?!

Cheguei bem perto dos dois colocando uma mão no ombro de cada um os afastando um pouco e falando com um tom grave e sério:

– Ei, ei, ei! Não sei o que tá acontecendo aqui mas é melhor se acalmarem, ok? – olhei para Frankie – Estamos no nosso trabalho, cara! O que deu em você pra agir assim com ele aqui?

– O que aconteceu ainda exatamente eu não sei, porque esse besta não quer me contar!

Tommy bufou revirando os olhos, eu segurei com força nele e o encarei com seriedade, ele deu os ombros:

– A Ma surtou e ele tem certeza que foi culpa minha! Mas eu não fiz nada, que saco!

– Surtou? – repeti olhando para os dois e com o canto do olho para Maura que estava parada próximo a gente e franziu a testa – Do que vocês estão falando?

– Ela não veio trabalhar hoje, certo? – Frankie começou a me explicar, mas a verdade é que eu não sabia disso e pela cara de Maura nem ela. Ele pareceu perceber nosso espanto e continuou – Bem, pois é, ela não veio. O Stanley disse que ela ligou falando que a irmã estava doente e iria ficar com ela. Acontece que eu sai ontem com o primo Antonhy, filho da tia Mary e ele disse que ela está ótima!

– Você saiu com o Antonhy? – interveio Tommy na conversa – Aquele palhaço me deve 20 pratas, sabia? Eu emprestei pra ele da última vez que saímos e....

– Cala a boca, Tommy! – cortei logo antes que ele nunca mais parasse de falar – Continua, Frankie, e aonde você quer chegar?

– Janie, fala sério! A Ma, só resolve ir do nada na casa da tia Mary assim sem nos avisar em duas situações: quando ela fica doente ou quando está brava com um de nós e quer alguém pra conversar. Como ela não está doente de verdade o que sobra?

Ele terminou a frase erguendo uma sobrancelha para nosso irmão caçula que logo se revoltou:

– Aahh o que sobra? O “problemático” Tommy? É ai que você quer chegar, irmão perfeito? Eu já disse que não fiz nada, eu nem vi a Ma essa semana! Puta que pariu!

Baixei as mãos dos ombros dos dois e me perdi um momento olhando para o nada, eu não esperava por esse redemoinho, estava tudo tão perfeito dentro da minha cabeça, porque na realidade não podia ser assim também? Ouvi ao longe meus dois irmãos levantando o tom de voz e se aproximando um do outro, falei sem os encarar num tom que deve ter saído mais baixo do que o que pretendia:

– A culpa é minha.

Eles ficaram quietos e me olharam. Encarei Frankie que colocava as mãos na cintura fazendo uma careta ao mesmo tempo que Tommy arregalava um pouco os olhos:

– Não foi com o Tommy o problema, é comigo.

Eles permaneceram em silêncio, eu apenas balancei a cabeça voltando a notar melhor onde estávamos:

– Vamos almoçar juntos, ok? Meio dia lá no Dirty Robber e a gente conversa com calma. Aqui não é o lugar.

Deixei os dois lá estáticos e sai andando em direção o elevador, Maura veio atrás de mim sem dizer nada também. Entramos e eu apertei o andar do necrotério, ela viu mas não se pronunciou. Assim que entramos em sua sala ela fechou a porta:

– Você está bem?

– Sim.

Ela suspirou e se aproximou de mim me fitando com insistência nos olhos:

– Jane, eu sei que está mentindo. E eu poderia dizer que é porque notei a musculatura do seu rosto se contraindo de uma forma específica quando você respondeu, mas nós duas sabemos que não precisaria disso, então...

– Eu não sei o que fazer, está bem? – disse me sentando de qualquer jeito naquele sofá desconfortável dela – Eu jamais achei que minha mãe ia reagir dessa forma, e agora estou com medo de contar para os meus irmãos também, e se eles fizerem igual? Eu não entendo, eu só...sei lá, eu não sei explicar como estou, ok?

Ela sentou do meu lado pousando uma mão na minha coxa e com a outra fazia carinho na minha cabeça que estava abaixada:

– Escuta, é como eu disse: sua mãe só quer o melhor pra vocês e isso tudo... nós...é algo muito novo pra todos, inclusive pra mim. Eu imagino que não seja fácil se acostumar de repente com a notícia. Quanto a seus irmãos, vocês são muito unidos, pode ser sim que a princípio tenham a mesma reação que sua mãe, mas acho que todos ainda vão mudar de ideia. No fundo todos só querem a mesma coisa que é o seu bem, Jane.

Fiquei quieta mais um tempo com os olhos fechados apenas sentindo ela me afagar, sem dúvidas Maura era meu porto seguro e não deixaria de lutar por estar ao seu lado.

– Só fico pensando que se está sendo assim com os Rizzolis que achei que ia ser moleza, imagine com os seus pais...

– Você está se referindo aos meus pais biológicos ou adotivos?

Levantei a cabeça rindo com ironia:

– Ah é, você acaba de me lembrar que tenho o pacote de sogra e sogro em dobro! Quem nunca sonhou com isso, não é verdade? Melhor que ganhar na loteria!

Ela deu um leve tapa em minha coxa depois começou a rir:

– Por incrível que pareça, não creio que eles vão ser um problema... – ergui mais o tronco a encarando – Quer dizer, meus pais biológicos nunca tivemos contato até uns anos atrás, não admito que interfiram na minha vida, logo pouco me importa o que eles acham ou deixam de achar e os Isles... Bom, é algo que não seria visto como uma mudança na vida...deles...

Notei que ela pausava demais a frase e começou sutilmente a mover o pescoço incomodada com algo:

– Urticárias!

– Que?

– Quando você mente tem urticárias, “mas nós duas sabemos que não precisaria disso pra saber, então...”

Ela sorriu se afastando um pouco de mim, subitamente envergonhada:

– É possível que minha mãe, Constance, quando te conheceu tenha deduzido algo sobre você e o nosso relacionamento e comentado com meu pai mais tarde...

– Pera! Sua mãe, quando esteve em Boston para aquela exposição e eu dei uma dura nela que ela devia te tratar melhor, ela entendeu que eu era sua... Namorada?

– Algo do tipo, sim. Ela não achou que sua atitude foi típica de uma amiga, apenas. Ficou muito impressionada na verdade mas feliz por eu ter escolhido alguém que se preocupa muito comigo. – Maura brincava com a barra da saia sem me olhar diretamente – E foi o que repassou para meu pai quando voltou para casa e ele deixou escapar quando nos vimos da última vez. Dizendo a seu modo o quanto me admirava e respeitava minhas decisões pessoais.

– E você não... Corrigiu eles?

– Não...

– Ok. – respondi puxando sua mão para perto de mim e apertando – Assim nos poupa ter que contar de novo! Aliás é pra isso que servem as suposições doutora.

Ela riu tirando uma mecha de cabelo do meu rosto:

– Sobre o almoço hoje com seus irmãos... – eu tinha certeza do que ela ia perguntar então nem precisei que continuasse:

– Sim, eu quero que você vá junto. Vou me sentir melhor se estiver lá.

Ela abriu um sorriso maior e ficou parada me olhando, não resisti e comecei a me aproximar mais, ia beijá-la quando ouvimos alguém batendo na porta. Nos afastamos rápido e logo Susie entrou trazendo alguns papéis, eu acenei dizendo que também precisava voltar ao trabalho e subi para minha sala. O restante da manhã se arrastou, o caso era muito inconclusivo e até o momento não havíamos conseguido determinar os suspeitos mais potenciais. Chegou finalmente meu horário de almoço e eu mandei mensagem para Maura avisando para me encontrar no bar de sempre. Entrei e vi Tommy sentado numa mesa distraído com um joguinho qualquer no celular. Me sentei de frente para ele que apenas me olhou e continuou o que fazia. Logo Frankie entrou se sentando ao lado dele meio mal humorado. Maura veio na sequencia, sentando ao meu lado e dando um sorriso simpático para todos que retribuímos.

Fizemos os pedidos, comemos falando sobre baseball, séries de TV e assuntos aleatórios, quando terminamos Frankie soltou um suspiro alto:

– Certo, acho que já podemos falar sobre o que viemos realmente falar agora, né?

Eu concordei me inclinando para frente e sem cerimônias disparei aos dois:

– Eu desmanchei o noivado com o Casey. – eles me olharam surpresos mas antes que pudessem comentar qualquer coisa eu prossegui – Ele recebeu uma proposta para ser General mas tinha que voltar para o campo no Afeganistão. E o motivo real não foi exatamente esse. Eu estou perdidamente apaixonada por outra pessoa e graças a Deus percebi a tempo a besteira que ia fazer deixando ela escapar de mim enquanto eu esperaria mais alguns anos por um ex-aleijado de guerra. – fiz uma pausa para respirar e senti Maura pegar na minha mãe que estava completamente gelada em cima da mesa, a apertei com ternura – Eu e a Maura estamos namorando agora, e acho que tudo isso foi informação demais pra Ma! Mesmo porque fazem...menos de 2 dias que tudo aconteceu.

Meus irmãos ficaram estáticos nos olhando. Frankie parecia uma cópia perfeita de nossa mãe abrindo e fechando a boca sem saber o que dizer. Tommy tinha um olhar perdido parecendo juntar os pedaços de tudo que falei. Finalmente se pronunciou:

– É...é bastante coisa mesmo... – cutucou Frankie nas costelas que pareceu enfim sair do transe que estava e balançou a cabeça concordando. – Mas se você acha que fez a coisa certa e tá feliz, então eu fico feliz, irmãzona!

Eu sorri para ele com carinho e logo Frankie falou sério:

– De vez em quando ele fala algo certo. É isso ai, Jane. Se você sente que é isso que te faz feliz, eu fico feliz também. Pelas duas!

– Pelas duas não, porque perder a Maura desse jeito é um baita desperdício para o mundo masculino heterossexual... – completou Tommy falando com normalidade e levando um beliscão de Frankie.

Ficamos uns segundos em silêncio, de repente os quatro começaram a rir do comentário sem noção que Tommy havia feito. Ele logo resolveu falar outra coisa:

– E você já contou pro nosso pai?

– Claro que não, como falei, foi tudo muito rápido e eu nem esperava que a Ma fosse reagir assim, não sei o que fazer com relação a ela, que dirá ter tempo de pensar em contar pro Pop.

Eles concordaram com a cabeça pensativos. Logo Frankie esticou uma mão colocando por cima da minha e da de Maura:

– Ei, nós vamos falar com ela e resolver tudo, está bem?

– Nós? – disse Maura confusa.

– É. Quando eu decidi largar a faculdade de engenharia mesmo tendo bolsa pra virar policial esses dois foram comigo contar pra ela, assim quando o Tommy atropelou o padre e teve que ir preso eu e Jane ficamos do lado pra contar, todas as grandes mudanças boas ou ruins fizemos dessa forma. Os Rizzoli’s sempre resolvem as coisas assim: juntos. E não vai ser agora que será diferente. Não vamos deixar vocês sozinhas nessa!

Tommy foi a frente também colocando uma mão em cima da de nós três:

– Exatamente! Juntos!

Senti meus olhos marejarem um pouco e apertei com mais força aquelas mãos. Sabia que houvesse o que houver uma coisa era certa: nunca estaria sozinha. Não se dependesse deles.

Notas finais
P.S.: Título do capítulo baseado em tive uma infância Disney! hahahaha Bessooss a todos!