Razão e Emoção
17 Capítulo 17 – Novos tempos
Notas iniciais
Voltaram para o trabalho todos mais aliviados depois da conversa franca que tiveram e preparados para o que viria a seguir. Frankie ligou para o primo Anthony e combinou uma desculpa que forçaria dona Angela a voltar para casa num horário específico. Assim ele, os irmãos e Maura já estariam a espera da italiana na casa da legista.
Jane voltou para o caso, ela e Frost já estavam com os olhos ardendo de tanto rever as fitas dos vídeos de segurança da mansão sem praticamente piscar a fim de não perder um possível detalhe importante, quando ouviram Korsak entrar no laboratório de informática com uma pasta em mãos:
– Já sei! Foi o Coronel Mostarda, com uma chave inglesa no salão de jogos!
Os outros dois olharam surpresos para o mais velho:
– Que foi gente? Só estava tentando descontrair um pouco, vocês já viram as fotos da casa dela e do número de pessoas que interrogamos? Me lembrou o jogo...
– Na verdade eu só estou surpreso de você conhecer Detetive mesmo, na sua época tão antiga já existiam jogos de tabuleiro? – Frost fez um ar presunçoso ele não perdia uma chance de atormentar o amigo.
– Muito engraçado... Saiba que eu já jogava ele quando você ainda usava fraldas!
– Quando eu usava fraldas você já tinha idade para ter ido e voltado da guerra, aposto! – retrucou o rapaz rindo.
Korsak bufou e retrucou mais algumas coisas, Frost insistiu com mais algumas alfinetadas, Jane apenas ria dos dois, pegando a pasta da mão do amigo para ler as últimas informações que tinham obtido a respeito do caso. Antes do fim do dia finalmente conseguiram finalmente reduzir a lista de suspeitos, intensificaram as pesquisas e acabaram numa perseguição até as docas, prendendo finalmente o autor do crime, um empregado da casa juntamente com o mandante, o sobrinho da ricaça que herdaria uma quantia absurda com a morte da tia. A equipe acompanhou os dois até a prisão e encerraram seu expediente exaustos. Jane se despediu dos rapazes indo encontrar Maura no estacionamento. Ela não podia se dar ao luxo de descansar como os colegas, ainda tinha mais uma dura batalha pela frente.
– Preparada? – disse Maura quando chegaram a casa e ela estava abrindo a porta.
– Uhum... – respondeu a morena nervosa apertando as cicatrizes das mãos.
Logo Frankie e Tommy chegaram, todos se acomodaram na sala, Tommy brincava com um pacote de amendoim jogando-os para cima e tentando acertar sua própria boca, Frankie revirou os olhos enquanto tilintava um copo com suco que Maura lhe serviu. Jane batia os pés no chão ansiosa enquanto Maura com os braços cruzados observava o gestual de cada irmão. Ouviram o barulho da chave na porta e rapidamente todos se ajeitaram segurando a respiração, Angela entrou com a cabeça abaixada, fechou a porta e quando se virou dando de cara com todos os filhos botou uma mão no peito assustada:
– Oh meu Deus! Vocês querem me matar do coração, todos ai quietinhos me encarando entrar? – mudou sua feição para uma cara preocupada — O que aconteceu? Todos estão aqui, então estão todos bem, certo?
Jane ficou de pé olhando fundo nos olhos da mãe:
– Sim, nós estamos bem, Ma. Só que eu preciso... Nós precisamos conversar com a senhora.
A mais velha suspirou, tinha um olhar triste enquanto encarava de volta um a um dos que estavam sentados ali naquela sala.
– Eu já imagino sobre o quê, e não sei se temos algo a conversar realmente, Jane. Você é uma mulher adulta, sabe das decisões que toma, quem sou eu pra impedir?
– É exatamente esse o ponto, Ma. – disse Frankie também ficando de pé – Nenhum de nós precisa mais da sua aprovação para fazer nada na vida, certo? Só que ainda queremos saber que temos seu apoio quando fazemos a maioria das coisas...
– Meu apoio? – repetiu a italiana franzindo a testa – Ora essa vocês são meus filhos, eu posso não concordar com muitas atitudes que tomam, escolhas que fazem, mas eu nunca vou abandonar vocês. Sempre terão meio apoio quando quiserem.
– Ok, mas eu quero que você fale o que está sentindo ok? – continuou Jane dando um passo a frente – Não adianta simplesmente você fugir da gente, me evitar, falar isso e ir embora de novo! Eu quero que a gente converse, fiz você ouvir meu lado agora quero ouvir o seu. Acho que tenho esse direito, todos nós temos.
Angela cruzou os braços um instante dando um longo suspiro enquanto acompanhava Bass se movendo pela cozinha. Os irmãos se olhavam nervosos, ninguém sabia ao certo o que esperar, de repente a mãe começou a chorar. Frankie foi a frente pronto para abraça-la mas ela recuou empurrando o rapaz. Entre secar as lágrimas e tentar controlar a respiração ela falava a plenos pulmões para todos:
– Como eu estou me sentindo, Jane? Como estou me sentindo?! Da mesma maneira de quando Tommy foi preso, da mesma maneira de quando Frankie largou a faculdade: com medo! É assim que me sinto! Eu precisava ficar longe um tempo para rever todas as atitudes que tomei com você, com vocês todos pra me convencer que eu não tenho o controle de tudo...
Jane franzia a testa sem entender nada enquanto os outros abaixavam as cabeças mesmo sem entender o motivo se sentindo levemente culpados.
– Com medo...do que, Ma?
– Do mundo Jane! Do mundo! Eu tenho confiança que criei ótimos filhos e que vocês são capazes de se virar, mas toda mãe sabe, no fundo que quando um filho faz uma escolha crucial ele fica sujeito a riscos. Riscos dos quais eu não vou poder te proteger! Quando Tommy atropelou o padre, eu chorei noites completas com medo de que atacassem ele na prisão, medo que o advogado não fosse capaz de reduzir a pena... Com o Frankie, céus, ele tinha bolsa, a faculdade estava garantida, num curso regular, uma emprego tranquilo, e ele resolveu vestir uma farda e correr atrás de bandidos? Sabe o medo que me assombra todos os dias de chegar em casa e receber uma ligação que ele foi baleado em ação? – ela fez uma pausa para respirar um instante depois prosseguiu mais calma – Não que já não tivesse passado isso com você, mas eu me acostumei, porque sei o quanto você é forte e dura na queda. Agora minha única garantia de sossego seria você se “aposentar” casando com um soldado que conheço a vida toda, sei que é um rapaz de boa índole, estável...Dai você me diz que não. Vai ficar com a Maura que eu posso não ter criado, mas há anos entrou para esta família, me acolheu em sua casa e eu tenho muito orgulho de dizer que a amo tanto quanto amo vocês três. Fiquei com o coração na mão em vários momentos que ela ficou em risco também por causa do trabalho, e também sempre pensei que uma hora fosse arranjar um bom médico e se casar.
– Quer dizer que você não aprova nosso relacionamento porque ambas temos profissões de risco e você tem medo que aconteça algo, acha que devíamos ter alguém pra cuidar de nós? – disse Maura timidamente ainda sentada numa poltrona de canto.
Angela deu um riso fraco depois balançou a cabeça:
– Não, minha querida. Depois de muito pensar e também de tudo que passei com o pai deles, eu sei que ter um homem “estável” ao seu lado não quer dizer nada. No final eu me virei sozinha assim como vocês acabariam fazendo também. A questão de estarem uma com a outra não é esse. Meu medo como já disse é do mundo...
Angela olhou um momento dentro dos olhos de cada um deles que tinham um olhar curioso e aguardavam que ela continuasse:
– O mundo pode ser muito cruel, vocês sabem. E apesar de todo avanço, a sociedade ainda tem um pensamento muito fechado... Vocês... Vocês são duas mulheres lindas, fortes, independentes e isso por si só já incomoda. Agora estarem juntas como casal? Vocês acabam de escolher o risco do preconceito que é enorme, e meu medo é ver vocês sofrerem por causa dele. A maioria das pessoas não é capaz de entender a essência de um verdadeiro amor e é esse tipo de gente que pode te machucar, machucar Jane. E é disso que eu estou com medo, porque não posso proteger vocês dessas pessoas... Desse mundo que vivemos...
Ouve um longo minuto de silêncio em que cada um olhava para um ponto diferente perdido em seus próprios pensamentos. O irmão caçula foi o primeiro a respirar fundo e finalmente encarar de volta a mãe nos olhos:
– Mas então, vocês apoia elas ficarem juntas né? Quero dizer, você não é uma dessas pessoas preconceituosas ou por causa da nossa religião acha que é errado duas pessoas do mesmo sexo se amarem como um casal? – disse Tommy apertando com força o pacote de amendoins e olhando meio desconfiado para todos.
Angela abriu um sorriso doce para o filho:
– Claro que sim, Tommy. Como eu disse, eu nunca vou deixar de apoiar nenhum de vocês. Eu os amo e meu maior desejo é que sejam felizes, não importa que caminho escolham para concretizar isso. Eu só precisava de um tempo para me preparar para o que pode vir. Porque certamente essas dificuldades que tenho medo virão e eu quero estar pronta para encará-las de frente do lado das minhas meninas assim como fiz com o caso de vocês dois.
Maura se levantou e num ímpeto foi correndo em direção a Angela. Chorando a legista lhe deu um abraço muito forte, entre soluções só conseguia dizer uma coisa:
– Obrigada...
Os outros três que também tinham os olhos cheios de lágrimas se olharam e devagar se aproximaram das duas, ficaram em volta de Angela e a abraçaram com toda força. Assim que se separaram Maura segurou na mão de Jane enlaçando seus dedos. A morena sorriu e ergueu a outra mão limpando o rosto da loira depois olhou fundo para a mãe:
– Vai dar tudo certo, Ma! Assim como deu com o Frankie e o Tommy, não precisa ter medo, você criou filhos muito fortes e sabe por que? Por que você é a mulher mais forte e o melhor exemplo que poderíamos ter! E sabemos que juntos podemos superar tudo.
Tommy que ainda abraçava a mãe e fazia carinho em sua cabeça disse baixo:
– Sim. Nós também sempre vamos estar aqui te apoiando quando precisar, Sra. Rizzoli! Te amo, Ma!
– Todos amamos! – completou Frankie sorrindo e beijando uma mão de Angela que estava relativamente trêmula naquele instante.
A italiana sorriu enquanto ainda chorava e tentava limpar as lágrimas depois puxou todos de volta para mais alguns abraços e de repente disparou:
– Crianças, vocês já jantaram? – todos fizeram um negativo com a cabeça – Ahhh, vocês não aprendem mesmo né? Vão ficar com fome, ou pior, comer besteira a noite né? – completou encarando o pacote de amendoins que Tommy acabara de enfiar com pressa no bolso — Vamos todos para a cozinha, vou preparar um macarrão, vamos, andem!!
Os mais jovens começaram a rir, felizes e aliviados com a reação da matriarca. No fim das contas como toda boa família italiana as coisas quando estavam bem acabavam assim: com um bom prato de macarronada na mesa!
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Após o jantar no qual todos riram bastante conversando sobre histórias antigas de família, todos ajudaram a arrumar a bagunça. Frankie e Tommy se despediram indo embora. Angela fitou Jane e Maura que terminavam de guardar os talheres:
– Bom, eu também vou me deitar! Boa noite, meus anjos! – a italiana se aproximou dando um beijo suave porém demorado e cheio de ternura na testa de cada uma, quando estava na porta já virou para trás com um ar mandão – E juízo, hein?!
– Ma!! Por favor.... – disse Jane revirando os olhos.
Maura riu e esperou a sogra sair e fechar a porta para olhar meio boba para a namorada:
– Viu só? Eu falei que ia dar tudo certo, ela só precisava do tempo dela.
Jane sorriu concordando com a cabeça:
– Pois é. Só não sei se agora te parabenizo ou dou meus pêsames, você definitivamente entrou para a Família Rizzoli!
Maura riu abraçando Jane pela cintura e apoiando seu ouvido no peito da outra acompanhando as batidas de seu coração:
– Eu acho que eu já era da família, não?
– Verdade! – Jane fez carinho nos cachos da outra e ficou com um olhar sonhador um instante — Soa bem melhor não acha?
– O que? – disse a loira afastando um pouco a cabeça para olhar a mais alta.
– Jane Rizzoli Isles do que Jane Rizzoli Jones... E infinitamente melhor Maura Isles Rizzoli do que Maura Isles Faulkner!
A outra riu da observação da morena:
– Tem razão, mas no meu caso, não necessariamente seria este sobrenome, não? Eu nunca cheguei a ficar noiva do Ian.
– Bom, qualquer outra coisa ficaria terrível da mesma forma. Já pensou Maura Isles Prentiss?
– Prentiss?! – disse a outra em choque se afastando o suficiente para poder olhar a outra nos olhos – Jane, que sem sentido! Por que eu me casaria com uma mulher que passei só uma noite da minha vida?
– Só uma noite? – perguntou a morena como quem não quer nada.
– Sim... Oohhh, ok! Entendi onde você queria chegar. – respondeu a legista revirando os olhos e soltando um riso bem humorado – Sim, apenas uma noite, quando nos conhecemos no bar e eu nem sabia que ela era agente do FBI. Durante todo o caso, acredite ou não, não tivemos mais nada. Exceto na madrugada que encontraram o último corpo, ela estava aqui quando recebemos a ligação.
– E ela estava aqui fazendo o que exatamente? Jogando xadrez com você? – perguntou Jane de maneira sarcástica.
– Na realidade sim, era exatamente isso que fazíamos.
A detetive aguardou um instante observando o pescoço da outra para ver se não havia nenhuma urticária, de repente disse meio impressionada:
– Pera, sério que ela veio aqui e vocês só fizeram isso?!
– Bom, se não tivéssemos recebido a ligação do caso, é bem provável que fôssemos mudar de atividade em algum momento... – disse a outra meio sem jeito se lembrando da noite que tudo aconteceu.
– Tá, beleza, não precisa dizer mais nada, eu só queria saber isso mesmo! – falou Jane abrindo um sorriso simpático.
– E sabe o que eu gostaria de saber, detetive?
– O que?
– Que horas você vai me beijar?
Jane abriu um sorriso ainda maior puxando a outra para perto não esperou nem mais um minuto para responder essa importante questão da doutora e lhe capturou os lábios com força dando um beijo longo, demorado e amoroso, que por ela seria repetido várias e várias vezes dali pra frente.
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