Razão e Emoção
12 Capítulo 12 – Correndo atrás do prejuízo
Notas iniciais
POV Jane
Esperei que ela levantasse a cabeça, seu supercilio estava cortado e sangrava, ela levou uma mão ao olho retirando o sangue que escorria:
– Você é louca ou o que??
– Este é meu jeito de agradecer por você ter estragado a minha vida, filha da puta! O que foi que eu disse sobre não se aproximar mais da Maura? Acha mesmo que eu não associei que foi você que sugeriu pro chefe dar um cargo pra ela?
Ela deu uma risada debochada:
– Desculpe, mas as coisas aqui estão andando devagar demais para o ritmo da Maura, e me perdoe dizer dessa forma, mas acho que eu sei exatamente qual o ritmo que ela gosta, acredite...
Meu sangue ferveu com aquela frase, me atirei pra cima dela, mas dessa vez ela desviou segurando meus ombros e me dando uma joelhada no estômago. Me curvei com a dor mas chutei sua canela com força, ela foi para trás batendo as costas na parede. Fui a frente, preparada para dar mais um soco que ela defendeu com o braço e revidou com a outra mão acertando meu seio esquerdo, fiquei meio sem ar e ela aproveitou para passar por trás de mim me imobilizando com os braços atrás do corpo. Me debati jogando-a pra trás. Batemos na porta de uma cabine e ela chutou as costas de meu joelho fazendo com que eu fosse pra frente. Usando essa posição ela me prensou contra a pia jogando o peso do seu corpo em cima do meu para que não pudesse me mexer. Meu quadril estava totalmente esmagado e depois de algum tempo com muita dor fui desistindo de revidar, quando ela percebeu que não ia fazer mais nada me soltou se afastando. Eu tentava recuperar meu ar e ela também, ofegante ela apoiou uma mão na porta de saída do banheiro e disse:
– Pronto, agora que você já descontou sua raiva nos fazendo brigar como duas caminhoneiras num posto de beira de estrada, será que você pode ir atrás dela e dizer que a ama de uma vez?
Levantei a cabeça surpresa, ainda segurando nas bordas da pia reagi usando meu melhor tom de ironia:
– Porque agora, mesmo depois de eu ter te xingado e socado você vai querer me ajudar, lógico!
– Sim, eu vou. – ela disse com firmeza – Sabe por que? A Maura é como você mesma me disse uma mulher incrível que mais do que muita gente que conheço merece ser feliz, só que a felicidade dela está aqui, num banheiro de bar trocando porradas comigo ao invés de parar de perder tempo e ir logo se entregar pra ela!
Não respondi nada apenas a olhei pelo reflexo do espelho, depois quando minha respiração estava controlada fiquei mais ereta focando num ponto perdido na janela do banheiro, ela saiu de perto da porta se aproximando de mim com calma:
– Escuta, Jane: você pode não acreditar nas nossas técnicas de análise comportamental, mas posso lhe garantir que elas funcionam. Desde que conheci você percebi que era uma mulher muito forte, decidida em tudo relacionado à sua carreira, mas que quando o assunto são sentimentos você tem medo. Porque sentimentos não tem razão de ser, não tem uma decisão precisa a tomar. Você é alguém que se guia pelo instinto, mas nega para si mesma o mais forte de todos que é o que sente pela sua melhor amiga. – ela fez uma pausa soltando um suspiro baixo – Agora sem ser a analista, apenas como alguém que você novamente pode não acreditar, mas se parece muito com você: eu te entendo, e por isso mesmo não quero que perca essa oportunidade e leve o arrependimento pro resto da vida.
Eu a fitei nos olhos, ela me encarou com seriedade um longo instante até finalizar o que dizia:
– Vai atrás da Maura!
Eu podia notar que havia toda sinceridade no tom que ela usava, me sentindo estranhamente mais leve arrisquei uma piada:
– Antes que você a bote no seu avião e leve pra outra cidade?
Ela riu também relaxando a postura e erguendo uma sobrancelha de maneira engraçada:
– Exatamente! Ou pior: qualquer outro chegue e faça isso... Afinal eu pelo menos você sabe onde achar, né?
Dei um meio sorriso. Ela se afastou novamente destrancando a porta, fez um aceno com a cabeça e saiu. Eu me olhei mais uma vez no espelho, suspirei fundo, lavei o rosto, tentei ajeitar o cabelo (sem sucesso, como sempre) e me olhei de novo, me preparando para o que faria a seguir.
POV Maura
Tive um turbilhão de pensamentos em pouquíssimos minutos. Quando o agente Hotchner me fez a proposta de emprego eu fiquei sem palavras. Estava realmente lisonjeada dele achar que eu acrescentaria muito a seu grupo e pensando bem, era uma oportunidade e tanto de emprego. Mas seria uma nova vida não é mesmo? Mudaria não só de cargo e equipe, mas de cidade, estado, seria uma rotina totalmente nova para mim. Jane estava certa sobre isso, eu poderia deixar Boston do dia para noite sem me arrepender? Olhando no fundo daqueles olhos escuros eu sabia que tudo que não queria era deixar ela para trás, mas quem aceitou se casar com um paspalho e ir sumindo da minha vida foi justamente quem? Então talvez não fosse melhor que eu tomasse um novo rumo também e nos separássemos de vez?
Naquela hora me perdi analisando cada centímetro de seu rosto, não sei porquê tinha a impressão que era como se fosse a última vez que estivéssemos nos vendo assim tão de perto e eu queria poder me lembrar de cada detalhe dela em minha mente. Meu Deus, como poderia me afastar daquilo? Estar longe dela me faria melhor ou pior? Estava bem neste momento de indecisão quando ouvi aquela voz. Soube que a resposta era melhor. Não suportaria por mais muito tempo a interferência de Casey em minha vida, quando tudo se tornasse oficial entre ele e Jane a verdade é que eu não queria estar perto para acompanhar. Quando ela tocou em mim a aliança apesar de gelada parecia queimar minha pele, eu não queria conviver mais com aquilo, eu não queria mais sofrer, então fui embora.
Por dentro estava despedaçada, mas ainda no elevador ergui a cabeça, respirei fundo e me obriguei a ser fria. Vesti minha máscara de Rainha dos Mortos como sempre fui chamada. Não era momento de sentir e sim de agir calculadamente. Fui até minha sala pegar minha bolsa e trancar o laboratório, depois desci à garagem, peguei o carro, fui pra casa, cheguei indo diretamente ao meu quarto, abri o closet, separei uma mala média onde coloquei roupas que considero peças chave para qualquer ocasião, mais alguns acessórios e demais objetos, dei dois passos para trás e deixei a máscara cair. Sentei na cama chorando enquanto encarava a mala fechada no chão sem saber como vai ser minha vida daqui para frente quando pegar aquele jato amanhã. Minha nova vida. Sem Jane.
Em algum momento deitei e quando meu pranto se acalmou eu acabei cochilando. Não percebi quando isso aconteceu, acordei com dor no pescoço e só então me dei conta do quanto estava exausta e comecei a pensar em tudo: não havia dormido na noite anterior devido ao assassinato no meio da madrugada que nos levou ao ápice do caso até poucas horas atrás fazendo relatórios. Me lembrei de Jaques, fazendo uma nota mental que deveria informa-lo no dia seguinte sobre minha viagem e perguntar como ele estava. Assim que possível precisava vê-lo novamente, saber se estava realmente recuperado. Seguindo a linha cronológica de porque estava tão cansada lembrei que eu havia tido um dia anterior muito estressante seguido do aparecimento repentino da agente Prentiss tarde da noite em minha casa. Do nada me deu um estalo: aquele convite para conhecer seu apartamento em Washington, será que ela já sabia que o chefe dela me ofereceria um cargo na BAU? De repente me senti irritada, aquela mulher estava sempre um passo a minha frente, não é possível! Ok, isto seria bom de ir trabalhar naquela equipe. Aprenderia ser como ela. Devia ser bom, não é? Quer dizer, se eu fosse capaz de ter feito isso com Jane uns tempos atrás não estaria sofrendo por ela agora. Teria suposto sobre o pedido de casamento e a alertado para não aceitar. Suposto? Quem eu queria enganar, eu não faço suposições...
Levantei me arrastando até o banheiro, precisava de um banho para parar de pensar nessas bobagens. Tomei uma ducha rápida, o suficiente para tirar a maquiagem borrada e me deixar mais aliviada para dormir de novo. Vesti a primeira camisola que encontrei sem nem me preocupar em colocar uma lingerie. Voltei para a cama e vi meu celular piscando. Pensei em ignorar, tudo que não queria era pensar em nada, só fechar os olhos e ir para longe da realidade, mas minha curiosidade foi mais forte, já deitada puxei o aparelho para mais perto vendo que havia uma nova mensagem de Jane. Jane? Levantei melhor a cabeça para ler o que dizia:
“Oi. Você deve estar bem cansada, mas podemos conversar?”
Franzi a testa intrigada. No fundo eu não sabia se queria ou não. Deixei o celular de lado e tentei fechar os olhos. Veio uma nova mensagem:
“Na verdade você só precisa me ouvir. Ou ler, no caso... Sou uma idiota, ok?”
Arregalei os olhos agora realmente confusa. O que ela estava pretendendo com aquilo? Esperei um momento e chegou mais uma:
“Uma idiota porque afastei você de mim. Estraguei a nossa amizade por causa de um cara que não valia a pena, porque não soube te dar o valor que você merecia, não soube reconhecer o quanto você e SÓ você me faz bem.”
Mal havia terminado de ler chegou outra:
“A nossa relação é uma das coisas mais importantes em minha vida, Maura. Você me perguntou como poderia viver sem mim, eu sei de uma coisa: eu não sei e nem quero aprender a viver sem você.”
Não sabia o que pensar, meu coração havia disparado e eu apenas encarava a tela do celular esperando que viesse uma nova mensagem. E veio:
“Se eu pudesse voltar atrás nas decisões erradas que tomei e nos levaram a isso saiba que eu voltaria. Mas eu não posso. A única coisa que posso fazer é isso que estou fazendo agora.”
Parei para pensar, apesar de estranha aquela era uma atitude realmente “Jane”, ela tinha grande dificuldade de expressar seus sentimentos verbalmente, sempre que tem a chance prefere escrevê-los. Ela era boa nisso e certamente não conseguiria me falar aquelas palavras ao vivo por isso as estava digitando. Era mais fácil para ela dessa forma, eu melhor do que ninguém sabia disso. Só estava pensando até onde ela iria.
“Tá, acho que não vou te impedir de pegar aquele avião amanhã dizendo só isso, mas é que deixei o mais importante para o final.”
Meu coração agora parecia que ia sair pela boca como dizem popularmente, apesar de me pegar pensando que isto é algo totalmente impossível do ponto de vista científico, afinal o coração é um órgão e está preso ao corpo por... Bem, o que importava é que pela primeira vez eu era capaz de compreender tal expressão naquele instante.
Silêncio.
Nenhuma mensagem chegou na sequencia. Eu estava mais nervosa do que nunca, já havia até ficado de pé e andava pelo quarto encarando o visor do celular, checando se o sinal estava funcionando porque não era possível! Ela não ia simplesmente terminar daquela forma não é?
Deixei passar poucos minutos e arrisquei eu mandar alguma coisa para ver se haveria retorno:
“Jane? Ainda está ai?”
Em segundos meu celular brilhou de novo:
“Sim. Na sua porta para ser mais específica. Pode vir aqui abrir pra mim?”
Meu cérebro travou. Não sabia mais o que pensar. Ela estava na minha porta o tempo todo? Mas o que ela ia dizer ao final que... Dane-se minhas teorias, não podia ficar ali parada pensando, simplesmente joguei o celular em cima da cama e desci correndo as escadas. Abri a porta de entrada dando de cara com Jane. Seus cabelos para variar bagunçados, ela tinha um ar assustado apesar de tentar sorrir. Usava a mesma roupa do trabalho ainda. A vi guardar o celular no bolso e apertar as cicatrizes das mãos. Analisei melhor as mãos, ela não usava mais a alian...
– Faltou eu dizer que te amo!
Ela disse rápido, soltando a respiração de uma vez só sem nunca deixar de me olhar nos olhos. Eu parei de encarar as mãos, olhei para seus olhos também. Um momento breve que pareceu durar uma eternidade. Percebi que ela estava esperando alguma resposta, uma reação que fosse. E eu fiz o melhor que podia: dei um passo a frente e a agarrando pelo pescoço lhe beijei.
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