Ravnica: A Cidade das Guildas

2 Matéria orgânica - parte 2


Notas iniciais
Betagem exemplar feita por Zusaky Avisos: Álcool

— Como seu irmão mais velho, tenho a obrigação de orienta-lo. Recite a definição de amor presente na Enciclopédia Azorius.

— Amor: Sentimento que envolve a formação de vínculo com uma criatura ou objeto. Esse deve ser capaz de receber o comportamento amoroso e enviar estímulos sensoriais e psicológicos para sua manutenção — disse Petrus, revirando os olhos.

Dragz gargalhou acariciando sua pança enorme.

— Já te falei mil vezes pra esquecer essa droga de enciclopédia. Diga a definição do livro que realmente seguimos: O Guia do Azorius Boêmio.

— Eu não sigo esse livro e é evidente que não estou apaixonado.

— Diga!

— Amor: Perigosíssimo! Fuja sempre que possível.

Dragz deu tapas no ombro do jovem mais fortes que porradas de ogros. Com um sorriso debochado, encarou o caçula e disse:

— Você tá fudido!

Petrus bufou, o irmão estava exagerando. Dragz bebeu o restante da cerveja e bateu na mesa, mobilizando um desesperado taverneiro para encher sua caneca. Goblins conversavam alto em uma mesa do canto, o assunto parecia estar relacionado a voar e explodir, Petrus não tinha certeza. O idioma goblinóide era muito instintivo, difícil de estudar.

No vai e vêm de pessoas, o rapaz notou um fungar em uma das atendentes. A coriza naquele ambiente infringia a legislação sanitária em dezenove lugares. O cavaleiro fez um sinal para que ela se aproximasse.

— Você poderia, por favor, nos trazer alguns pães?

O ato de rebeldia trouxe conforto naquela manhã deprimente. A moça deu um largo sorriso com dentes encavalados e foi saltitante para a cozinha.

— Fica frio irmãozinho, Dragão sedução está aqui. Meus conselhos são como feitiços, basta segui-los que o sucesso é garantido.

O irmão começou a dissertar sobre os segredos das mulheres, Petrus se lembrava de Seline. Ele nunca conhecera uma garota como aquela. Era enérgica, honesta, lutava por aquilo que acreditava e tinha o pensamento livre; bem diferente das mulheres Azorius. Elas não conseguiam formular duas frases sem citar a Isperia ou algum filósofo antigo. Seline tinha poucas curvas e é óbvio que não se arrumava. Por outro lado, algumas Azorius usavam tanto pó no rosto, que Petrus ficava em dúvida se as chamava para sair ou dava-lhes uma ordem de apreensão por tráfico de entorpecentes, fazendo valer o artigo três, parágrafo nove, inciso dois, da emenda Muv-Lear.

— ... exagere no ouro que você conseguiu. Eu garanto, ela vai implorar por um coito.

— Não acho que isso vá impressioná-la.

— Se o que você achasse fosse certo, ela estaria na sua cama agora. — Dragz remexeu o corpanzil na cadeira. — Escute e aprenda. Compre flores, o Guia diz que...

Aquilo não os levaria a lugar algum. Seline havia partido. Avisou apenas que entraria em contato com seus superiores e isso já fazia uma semana. Petrus molhou o pão no leite, cometendo, ele mesmo, mais uma infração sanitária. O rapaz gostaria de vê-la outra vez, nem que fosse apenas para se desculpar pelos comentários inconvenientes que havia feito.

— Presta atenção cabrunco! É por isso que você não passa na prova de árbitro, desatento desse jeito.

Petrus fitou o irmão, contrariado.

— Quem diria hein? Petrus sabe-tudo, o orgulho da mamãe. Quantos pau você já tomou? Nove?

— Dois.

— Acho que seu cérebro não é capaz de assimilar meus auspiciosos ensinamentos. — disse Dragz, levantando-se enquanto ajeitava sua calça apertada. — A natureza me chama. — O homenzarrão dirigiu-se à latrina.

Em todo o mundo conhecido, menos de cinco pessoas eram aprovadas na prova de árbitro a cada ano. Uma única questão era suficiente para desqualificar o desafortunado candidato. Petrus pensou que dessa vez conseguiria, mas, por algum motivo, os avaliadores consideraram uma de suas questões errada. A pergunta era: “Como um árbitro deve proceder caso uma pessoa que ele ame ameace a ordem? Disserte”. Uma pergunta simples, havia um trecho na emenda Azorius que descrevia situação semelhante. A resposta de Petrus foi: “Um árbitro deve cumprir a lei sem distinguir raça, credo, sangue ou inclinações pessoais. Portanto, no caso descrito, ele deve aplicar as regras ao alvo da maneira usual”. O jovem não compreendia porque sua resposta estava incorreta.

Tum.

Um barulho ecoou na taverna, estava distante, parecia a batida de um tambor. Petrus observou que ondas concêntricas se formaram na superfície do copo de leite. As pessoas ao redor prosseguiram em sua cacofonia usual, não pareceram notar. O rapaz franziu a testa e aproximou o rosto do recipiente.

Tum.

Outro retumbar acompanhado do surgimento de novas ondas no líquido. Petrus enfiou a mão no bolso, depositou duas moedas de prata sobre a mesa e pegou seu elmo. Não era um tambor, eram pisadas de alguma criatura gigante. O tempo para afogar mágoas havia acabado, o dever chamava o cavaleiro.

Saindo da taverna foi atingido por raios de sol que pareciam lanças. O elmo estava com cheiro de suor e álcool. Petrus apertou a fivela, já acostumado com as pontas que feriam a nuca e pulou sobre Blumena, sua montaria. A égua bateu as patas em protesto e virou a cabeça. Sem perder tempo, o jovem aperreou-a com as esporas e começou a cavalgar na direção do som.

Petrus pôde avistar as criaturas ao longe. Pareciam árvores gigantes, os galhos se comportavam como braços, os quais tinham a mesma espessura do corpo de Dragz. Os monstros possuíam a altura de torres pequenas e pareciam travar combate ferrenho contra alguns soldados. Seres com categoria igual ou superior a imenso eram proibidas em Muv-Lear, deviam ser detidas a todo custo.

O cavaleiro rezou aos anjos para que Seline não estivesse envolvida. Mas, no fundo, sentiu que a reza não iria adiantar. A burocracia Azorius era irritante até para os membros da própria guilda, os outros sofriam nas mãos de atendentes sem paciência.

O cavalgar estava rápido, as pessoas desobstruíam as ruas quando havia confusão, esse procedimento era acelerado em presença de monstros gigantes. O rapaz tinha a respiração pesada, seus braços amoleceram a ponto de ser difícil manobrar a montaria, ele não queria chegar.

Mas chegou.

A cena fez Petrus congelar. Era uma sensação de desesperança, quando os piores pesadelos viram realidade. Estava em um lugar aberto, sem casas ou vegetação, exceto por uma grama rala e pisoteada. A sua esquerda, uma torre se projetava até o céu. Ladrilhos brancos e azuis formavam a parede externa, aparentando calma e responsabilidade. Sobre o portão, um triângulo com vários círculos inscritos brilhava sob o sol. Era o símbolo da guilda Azorius, a justiça de Muv-Lear.

A sua direita estavam as árvores gigantes, três criaturas com pés do tamanho de vacas, pele marrom de textura rugosa e uma face solene entre o tronco e o início da copa. Dezenas de soldados Azorius combatiam os monstros com lanças, flechas e fogo. No epicentro do combate, Seline parecia dançar. Ela recitava cânticos entrecortados com piados, mugidos e cacarejos. Era magia. Parecia proteger as árvores das chamas e a druidesa de ser alvejada.

O torso da garota estava coberto por uma armadura feita de madeira negra, essa se estendia por seus ombros formando três pontas ameaçadoras nas extremidades. Usava um véu que parecia ser confeccionado de flores multicoloridas. A saia era feita com tiras de uma madeira esbranquiçada, a qual revelava pinturas tribais nas pernas. Era uma vestimenta exótica e sem relação com a moda atual, mas caía bem na druidesa. Ela aparentava uma rainha da floresta.

Um homem baixo aproximou do cavaleiro em uma corrida desajeitada.

— Que os anjos sejam louvados! Um oficial. Senhor, temos vários homens feridos, graças a Isperia, nenhuma baixa. Nada que façamos consegue detê-los. Precisamos de ordens.

Seline, por quê?

O jovem ofegava sem estar cansado, sentia um zumbido na cabeça e via o mundo girar. A indecisão se transformava em dor física e consumia o rapaz. Começou a pensar nas possibilidades, mas foi interrompido pelo grito de um soldado, ele havia sido arremessado a mais de um metro do chão, caindo com um baque oco.

— Sargento. — A voz oscilou e tremeu, mas saiu.

— Mande seus homens pararem de atacar. Metade deles vão procurar auxílio para os feridos. — Petrus fez uma pausa, o coração dele saía pela boca. — A outra metade — engoliu em seco. — Mande vir comigo até o portão principal.

— Mas senhor... a lei diz...

— É uma ordem, sargento.

Petrus encarou o homem. Por dentro, o jovem estava tomado de insegurança, mas o elmo, em formato de esfinge ameaçadora, dizia o oposto.

— Sim, senhor! — O sargento bateu continência e começou a gritar ordens.

Naquele momento, o cavaleiro entendeu a parte do regulamento que obrigava oficiais a usarem elmos fechados. Proteção não tinha nada a ver com a utilidade daquele santo objeto. Petrus fez a égua trotar até o portão principal. Nunca esteve tão nervoso antes de um combate.

Os soldados que se retiravam eram poupados pelos monstros, em minutos, a escaramuça havia chegado ao fim. No entanto, as árvores e a druidesa se aproximavam da torre sem impedimento.

— Sou eu, Seline, Petrus. Pare, por favor — gritou o rapaz, após retirar o elmo.

A mulher não reagiu às palavras. Ela tinha o semblante fechado e uma expressão assassina nos olhos. Parecia outra pessoa. Um dos monstros pisou a menos de cinco metros do cavaleiro, o jovem comprimiu os lábios e balançou a cabeça com tristeza.

— Seline, não me obrigue. — Petrus destravou a correia que prendia a espada.

A druidesa fitou o cavaleiro, depois abaixou os olhos para Blumena e fez uma careta, a expressão parecia ser de repugnância. A garota ergueu a cabeça para a torre, ignorando o rapaz, e gritou:

— Sou Seline Pétala de Lírio! Venho sob as bençãos de Mat’Selesnya e pela ordem do conselho Iri-Ghazi, proprietários de terras na região oeste e, por conseguinte, legítimos cidadãos deste distrito. Solicito uma audiência com Stenner Valerian. A pauta é a discussão de aspectos relacionados a floresta dos centauros.

Houve um silêncio que pareceu durar uma eternidade. A garota não voltou a olhar o cavaleiro, nem por um segundo. Ele sentiu-se desconfortável por estar sobre Blumena, pensou em descer, mas lembrou-se que aquilo ainda poderia terminar em sangue.

— Cara Pétala de Lírio, criaturas com categoria igual ou superior a imensa são proibidas nos limites de Muv-Lear. — Uma voz potente surgiu de uma das janelas da torre.

A resposta veio rápida, decorada:

— Segundo o pacto das guildas, não sou obrigada a conhecer todas as emendas regionais. Posso me retirar com meus amigos, assim como pagar indenizações pelos danos causados. No entanto, exijo uma resposta imediata para minha questão!

Outro silêncio aterrador tomou o ambiente. A druidesa mantinha a superioridade, não encarava o cavaleiro. Naquele momento, Petrus viu o abismo que havia entre eles, o que ela era? Uma princesa? O jovem sentiu-se idiota por ter se aproximado da moça.

— Sua audiência foi marcada para ZN 357 às 16 vunit. Caso não possa comparecer, precisa enviar um representante ou protocolar uma redefinição de data.

A missionária assentiu com a cabeça e foi embora, nenhuma palavra de agradecimento, desculpas ou consideração foi proferida. Simplesmente uma retirada silenciosa em direção a floresta.

Nem mesmo um adeus.

.:X:.

Por que eles não o enviaram para um tribunal militar? Petrus não sabia. Acariciou a orelha de Blumena enquanto escovava seu pelo. Retirar o elmo seria passível de expulsão sem honras. O rapaz nem tentava imaginar a punição referente a colocar em risco a torre da guilda. Petrus pegou seu balde e foi até o galão de água. Ainda bem que o estábulo estava vazio, a última coisa que o cavaleiro desejava era escutar comentários sobre seu curso de ação naquela manhã. Petrus retornou com o recipiente cheio e disse:

— A água está fria, Blumena, prepare-se.

— Uhm! Parece que não sou a única que conversa com animais.

A voz conhecida assustou o rapaz, suas mãos escorregaram derrubando balde e água por todos os lados.

— Se... Seline?

A garota estava como ele a conhecera. Uma blusa de alça manchada e uma longa saia florida.

— Vim me desculpar por ter sido grossa com você naquele dia — ela disse unindo as pontas dos dedos e abaixando a cabeça.

— Eu... ah...

— Queria dizer que aprendi muito com nossa conversa, percebi que precisava entrar nesse joguinho de leis que vocês gostam. Também aprendi com você que é fácil colocar um Azorius no eixo. Basta dar um grito que eles obedecem e saem com o rabo entre as pernas.

Ela riu sem constrangimento. Petrus fingiu-se indignado.

— Você não devia ter feito aquilo, foi muito perigoso.

Seline ficou séria e encarou o cavaleiro.

— Eu precisava.

Ele assentiu.

— A propósito, sua companheira gosta muito de você, sabia?

A garota se aproximou da égua e, com dedos finos e delicados, tocou a fronte do animal. Seline estava tão perto que era possível sentir um perfume delicioso, um aroma suave e exótico. O jovem gostaria de agarrar aquela garota ali mesmo, mordê-la e abraça-la. Refreou seus instintos, lembrou-se que ele era um mero plebeu, em breve, desempregado, enquanto a moça parecia ser, no mínimo, uma nobre.

— Hoje de manhã, sua amiga me disse que aqui na cidade os trabalhos são muito bem definidos. O dela é travar combates ao seu lado. Por mais que seja perigoso, ela confia em você e está satisfeita com seus cuidados.

— Blumena falou isso tudo naqueles poucos segundos?

— Não, seu bobo.

A druidesa deu um tapinha no peito de aço do cavaleiro.

— Não é assim que funciona. É como se eu dissesse que estava com saudades de você. Com essa frase você entenderia que me arrependo de ter brigado naquele dia, que não falei sério quando disse que não queria mais te ver e que gosto de você. Não é?

— Ah... eu... — balbuciou o jovem, encabulado.

Seline encurtou a distância entre eles com um salto. A saia esvoaçou enquanto o perfume inebriava o cavaleiro. Ela fitava os olhos dele com uma expressão felina e mãos unidas nas costas. Em um ato impulsivo, episódio anormal para o rapaz, influenciado pelo perfume, certamente mágico, Petrus agarrou a cintura da moça, puxou-a para si e a beijou com intensidade.

O beijo foi suave, correspondido. O rapaz sentiu os lábios cálidos da garota apertando-o enquanto seus corpos se tocavam com firmeza. Quando ele se afastou, ela passou os braços pelo seu pescoço e sorriu. Um sentimento de alegria inundou o rapaz, ele não queria que o momento acabasse, não queria que a vida acabasse.

O jovem entendeu seu erro na prova de árbitro. Quando se ama, é impossível julgar com imparcialidade. Por amor à família, filho e esposa, até o juiz mais puro pode se corromper. É uma situação delicada, tudo que podemos fazer a respeito é orar para que eventos assim nunca aconteçam. Porque o resultado é imprevisível.