Notas iniciais
Betado pelo exímio Rodrigo Caetano

— Papai está morto.

— Você não sabe, Ziro. As pessoas demoram a voltar da guerra. Vovô me disse que isso pode levar mais de dois invernos — disse Liev, enquanto desenhava círculos no chão com um graveto.

— Pra você é fácil falar de esperança. Seu avô tem umas cinquenta vacas, ele paga os Golgari facinho — disse o menino, largando as pedrinhas que tinha juntado. — Você nem trabalha!

— Não é bem assim. Eu tenho que estudar...

— Estudar? Ficar sentada com um livro na mão? Qual é a dificuldade disso?

Liev fez uma careta.

— Até parece. Me lembro muito bem quando você fugiu do catecismo, e aquilo era só uma multiplicação. Magia é muito mais complicado.

— Tá! Enquanto você brinca de jogar luzinha, eu trabalho o dia inteiro na roça. Mal dá pra pagar os Golgari. E agora que a dona Mirra não faz nada além de chorar, preciso cuidar de tudo sozinho.

— Dona Mirra é sua mãe, você não devia falar assim dela.

— Não devia? Tem uma semana que ela não sai do quarto! Eu levo comida, troco o penico, limpo a casa e ainda trabalho na roça. Não aguento mais. — Ziro abaixou a cabeça. — Queria ter coragem para enfrentar os Golgari, igual meu irmão fez.

— Idiota! — Liev soltou o graveto e empurrou o menino, lançando-o ao chão. — Quer morrer, é?

O impacto da queda se espalhou pelo corpo cansado do garoto como um choque. O rosto de Ziro contorceu de dor. A menina encarava-o com punhos cerrados e bochechas infladas.

— Sua sorte é que não bato em mulher — disse, levantando-se e espalmando a poeira.

Não entendeu o gesto da Liev. Era óbvio que ele não enfrentaria os Golgari, dado que várias pessoas mais fortes tinham tentado e falhado.

— Não quero mais brincar com você. — A menina chutou os desenhos que tinha feito e foi embora.

Ziro deu de ombros, parece que o ditado estava certo: “Quem estuda magia fica doido”. O garoto jogou o saco de milho nas costas e começou a andar em direção a sua casa.

Ventava naquele fim de tarde. A poeira vermelha se erguia do chão e percorria as ruas em busca de companhia; não encontrava. Os Golgari mudaram aquele vilarejo. Ninguém podia conversar na porta das casas ou confraternizar com os amigos na taverna. Todos precisavam trabalhar duro para pagar impostos.

Ao abrir a porta de casa, um fedor de fezes atingiu Ziro como uma baforada de dragão negro. Isso irritou o menino ainda mais. Sua mãe não saía do quarto nem para defecar, aquilo era absurdo.

— Quem está aí?

— Sou eu, dona Mirra. — O menino dirigiu-se à mãe com irritação.

No quarto, panos sujos cobriam uma mulher de aparência doentia. O aposento era escuro, estava desorganizado e cheirava mal. Lembrava as casas de bruxas que Ziro via nos contos de fadas.

— Respeita sua mãe! — A mulher apontou o dedo para o garoto.

O gesto fez o menino encolher. A valorização da família era uma importante virtude Boros.

— E tira esse bico da cara! Vai buscar água pra mim, anda.

O menino saiu emburrado. Foi até o balde que ficava dentro de casa e viu que ele estava caído, a maldita devia tê-lo derrubado.

— Filha de orc — xingou.

Pegou o balde, saiu da casa batendo a porta com força e andou até o poço. Por que a vida estava tão sofrida? Ziro tinha alguns pecados nas costas: fugia do catecismo, arrumava brigas com frequência e assustava as meninas com insetos. Mas não eram tão graves, eram? No início, o garoto rezava muito para que os anjos ajudassem sua família. Parou quando o irmão morreu. Passou a odiar os anjos.

A coluna de Ziro ardia quente enquanto ele fazia força para puxar o balde cheio, a corda rasgava suas mãos como se fossem facas. Retornou ao quarto da mãe com sofreguidão e largou o balde próximo a cama, quase derrubando-o. Missão cumprida, respirou aliviado.

— O copo. — A mãe pontuou com firmeza.

O menino bateu a mão no arco de alvenaria que dividia o quarto com o cômodo do centro.

— Tudo eu, tudo eu! — Resmungou.

Retornou com o copo e entregou para Mirra sem encará-la nos olhos. A mulher virou o líquido com voracidade. Estava muito quente, para que tanto cobertor?

— A plantação deu quantos sacos? — perguntou a mulher, entregando a caneca para o menino com um sinal que pedia mais água.

— Um só, as pragas comeram o resto.

— Por que você não passou a água benta que o vigário nos deu?

— Esqueci, tá bem?

— Não, não está bem! Por causa disso não vamos conseguir pagar os Golgari esse mês. Você precisa ter mais responsabilidade, meu filho.

Aquilo foi a lenha que faltava. A mulher passava o dia inteiro debaixo de cobertores e a culpa era dele? Ziro não podia aceitar. Os Boros eram guerreiros da justiça, lutavam contra a tirania e em favor dos mais fracos. Pela guilda e por seu pai, um herói de guerra, precisava reagir.

— Então se dê o respeito! Sou seu filho, não seu escravo. — Sem perceber, Ziro estava gritando. — Levanta e me ajuda, demônio!

O menino agarrou os cobertores e puxou com força. Os panos esvoaçaram, a face de Mirra contorceu em um esgar de dor e o garoto ficou chocado, pálido.

As pernas de sua mãe haviam sido amputadas.

Abaixo dos joelhos, uma crosta negra circular impregnava as laterais do cotoco, indo para um vermelho vivo no centro. Uma secreção esbranquiçada escorria por um canto a qual exalava um odor podre.

— Os Golgari não aceitam dinheiro, apenas comida. Como não tínhamos o valor dos impostos na semana passada, eles tomaram minhas pernas para completar o pagamento. — disse Mirra, resignada.

Ziro sentiu uma dor estranha espalhar pelo seu corpo, no peito, na barriga. Ele apertou a cabeça com força e gemeu.

— Essa semana também não conseguimos o suficiente. Mas pode deixar comigo, vou negociar. Pegue algumas roupas e vá para a casa da Liev. Já combinei com o avô dela, ele vai cuidar de você.

A visão do menino turvou, ficou embaçada.

— Confie em mim — ela disse.

— Não, mamãe. Não vou te deixar pra trás.

A mulher havia conseguido ficar sentada, ela abraçou seu filho com doçura.

— Tudo vai ficar bem, você vai crescer e se tornar um grande guerreiro. Um herói, assim como seu pai.

O menino soluçava nos braços da mãe. A frustração se esvaía naquele gesto de afeto. Ziro se acalmava a medida que as mãos da mulher acariciavam seus cabelos encaracolados. No entanto, batidas na porta espalharam-se pelo ar com sua presença nefasta, carregavam um anúncio terrível e colocavam um fim ao momento de ternura.

— São os Golgari! Fuja pela janela, Ziro. Vai!

O garoto sentiu um frio no estômago. Precisou de um grande esforço para se levantar e andar até o armário.

— O que você está fazendo? Não, meu filho, por favor! Eles não são humanos, é só uma casca... é só uma casca — Mirra choramingava.

Ziro tremia quando abriu o guarda-roupas e enfiou a mão no breu. O garoto sentiu os dedos se fecharem em algo sólido. Era a espada do seu avô. Ele agarrou o objeto com as duas mãos e retirou do armário. O cabo estava quente.

— Pare, meu filho....

— “Não sabemos a força que temos, até que nossa única alternativa é sermos fortes” — recitou o garoto, lembrando a mãe um dos lemas da guilda Boros.

A espada apresentava uma superfície lisa, sem falhas, como se nunca tivesse sido usada. O garoto sentia os músculos flexionarem e arderem. A arma era pesada, mas Ziro, por um motivo inexplicável, passou a sentir conforto em segurá-la. As frustrações do menino foram substituídas por coragem e sede de batalha. O cabo estava quente.

— Ziro, para, por favor... — Mirra pedia.

Era fim de tarde. Os pássaros cantavam suas últimas músicas para depois se refugiarem em seus ninhos. Ovelhas se aglutinavam buscando proteção nos seus semelhantes. Até o sol, com medo, se escondia atrás das montanhas. A noite chegava acompanhada de predadores, monstros e assassinos. Ziro apertou o cabo da espada. Ele era um deles.

O menino andou até a porta, destravou e chutou. Um único inimigo foi revelado. Parecia um homem musculoso usando uma cota de malha gasta. Ziro reuniu toda a força que possuía para levantar a espada acima da cabeça. Lembrou de seu irmão, das pessoas da cidade que sofriam, da sua mãe. Era hora daquela tirania acabar.

Então, nesse momento, a arma reagiu. Começou com um estalo de madeira que poderia ser ouvido a milhas dali. Veio acompanhado do surgimento de chamas imensas. O fogo era vermelho como sangue, feroz, vivo. Inundou a lâmina e lambeu a face do garoto com um calor gentil.

O menino fechou os olhos e desferiu um golpe frontal.

— Morre, desgraçado!

Ziro sentiu uma vibração reverberar por seu corpo quando a espada acertou algo sólido. O cabo balançou, ferindo calos obtidos no duro trabalho com a enxada. Ziro engoliu o gemido de dor e abriu os olhos. A visão fez sua espinha dorsal tremer da base até o crânio. Ele havia acertado o chão.

— Pelo amor de Deus, não mata meu filho! É o único que eu tenho! Ele é só uma criança, meu filho.

O homem acertou um tapa com as costas da manopla no rosto do menino, jogando-o ao chão em um rodopio.

Não era justo. Por que ele não havia acertado? Como o oponente conseguia ser tão mais forte e tão mais rápido? Ziro engoliu em seco e começou a se arrastar em busca da espada que caíra. Apenas quando o inimigo chutou a arma para longe, o garoto percebeu que não havia esperança. O coração do menino foi tomado por um frio aterrador que subia pela garganta. O medo tornava a respiração difícil, dolorosa.

— Mamãe, eu não quero morrer. Me ajuda!

Ziro escutou um chacoalhar de metal que indicava a aproximação do homem. Ele se abaixou perto do garoto e disse com uma voz conhecida:

— Esse tapa foi pra você aprender a não desobedecer a sua mãe.

— Vant! — Mirra gritou do quarto.

— Sim, querida, a guerra nos segurou mais tempo que planejávamos.

O pai de Ziro andou até o quarto e encostou com delicadeza no que restava da perna da mulher.

— Eu sei que você fez o que pôde por nossa família.

Vant se aproximou e deu um beijo nos lábios da esposa.

— Mas agora pode descansar. Eu cuido de tudo.