Ravnica: A Cidade das Guildas
4 Ouro para o funeral
Notas iniciais
“Aquele desgraçado teve o que merecia.” Abigail reclinou-se na cadeira de balanço.
“Linha de crédito? Parcelas suaves? Eu sei lá o que é isso? Esses padres vêm falar complicado. No fim, você passa um ano trabalhando de graça pros putos. Igreja emprestando dinheiro a juros? Na época da minha avó não era assim, ela contava que dava orgulho pertencer à guilda Orzhov, os sacerdotes eram homens santos, homens de Thelos.”
A mulher puxou um longo trago do cachimbo, prendeu a fumaça por um tempo e soltou-a com um sorriso no rosto. “Mesmo se tivesse dinheiro não pagaria o enterro do maldito. Doze anos chegando bêbado, por doze anos levei porrada. Que o filho de orc apodreça no buraco dos indigentes.”
Abigail descansava as vistas na estrada tortuosa a sua frente. Ela pôde perceber um vulto se movimentar com velocidade entre as árvores retorcidas. A coisa escondeu-se abaixo da varanda em uma região não iluminada pela vela. “Deve ser um rato.” A mulher puxou mais um trago e relaxou.
“Zaki, aquele preto. Ele deve estar louco se acha que vou pagar dez moedas de ouro por um mísero funeral. Dez moedas de ouro! Por um punhado de palavras sem sentido? Inaceitável. Precisaria trabalhar um ano como faxineira da igreja para conseguir esse valor.”
Abigail pegou a vela e, com mãos trêmulas, reacendeu o cachimbo. “Esse negócio de vida após a morte é tudo mentira. Igreja só serve para roubar dinheiro dos otários. Conheço muito bem as artimanhas deles. O líquido que eles tomam nas cerimônias de domingo? É vinho, devia ser sangue de porco. O corpo humano que não apodrece? É uma argila especial, por isso solta pó de vez em quando. O portal da morte? Já passei várias vezes, nunca morri, do outro lado tem só um cubículo difícil de varrer. Os padres acham que sou otária... Estão errados.”
A viúva escutou um som longínquo, parecia alguém gemendo por uma doença sem cura, ou as lamúrias de uma mãe no leito de morte do filho. Em resposta, Abigail cobriu uma extremidade do cachimbo com a mão e aspirou a fumaça com força. O primeiro uso da pensão do marido seria para consertar as frestas daquela casa. Isso impediria o vento de produzir esses sons horripilantes.
“Amanhã providenciarei isso.”
Levantou-se, derramou as cinzas do cachimbo no quintal, pegou a vela e entrou em sua casa.
“Que escuridão.”
A chama bruxuleava, dando vida a criaturas ameaçadoras feitas de sombras. A viúva escolheu um trajeto mais próximo da parede, passou a pisar com cuidado, encolheu-se. Mas a escada, implacável, destruiu a furtividade da mulher com um rangido.
— Buceta.
Grilos e cigarras, alheios à existência de Abigail, produziam sua sinfonia intermitente. O frio daquela noite escura abateu sobre a viúva. Um tremor percorreu seu corpo, ela uniu as pontas do xale e decidiu andar mais rápido.
Antes que pudesse avançar, sentiu algo agarrar sua perna. Um gorgolejo irrompeu no ambiente ao mesmo tempo que a mulher gritava em desespero. O mundo girou, Abigail posicionou as mãos a frente do corpo a tempo de senti-las atingir, com violência, as quinas da escada.
A vela se partiu e trevas engolfaram o ambiente.
Abigail racionalizou o som. Levantou-se.
“Gato maldito.”
— Vai dormir em outro lugar, Malhado! — O animal reclamou com um grunhido.
A viúva tateou o resto do caminho até o dormitório. Sentiu-se aliviada apenas quando trancou a porta atrás de si. Era incrível o efeito que o quarto tinha na mulher, passava uma sensação de segurança, parecia um lugar sagrado, o qual nada poderia trespassar. Riu de si mesma. “Estou parecendo criança.”
Procurou o cachimbo no bolso do pijama. “Deve ter caído.” Deitou-se na cama. “Era o preferido daquele desgraçado.” Uma sensação ruim martelava seu estômago, sentia-se obrigada a levantar e guardar o cachimbo do ex-marido. Era como ir dormir sem mascar uma folha de menta para limpar os dentes. “Aquele desgraçado.”
Abigail se revirou no colchão e apertou o travesseiro. Não haveria ninguém para esquentá-la naquela noite. Mas isso não era novidade, o homem não servia nem para dar uns trancos na mulher. “Lumoc perdeu uma perna na guerra; deve ter perdido o cabaço da bunda também... e gostado.”
Um barulho ecoou pelo ambiente. Abigail tremeu. Podia ser a Roxana voltando pra casa. “Se a menina não aprendesse a segurar a periquita, nunca arrumaria um bom marido.” A viúva levantou os cobertores até a boca e ficou em silêncio completo. Os animais da noite prosseguiam em sua cacofonia usual. Não ventava, o ar estava morto.
Quando a mulher pensou em virar-se para tentar dormir, o barulho se repetiu.
Oco.
Como madeira.
Como uma bengala acertando o chão.
O coração da mulher acelerou de tal forma que tornava a respiração difícil, as mãos apertavam a coberta com mais força do que era necessário. Lembrou do marido andando pela casa com aquela perna-de-pau. Os passos eram fortes, como se apreciasse incomodar. Exibia a perna para mostrar que era ele que colocava dinheiro em casa, mostrar o sofrimento que ele passou para prover a família.
O barulho se repetiu. Aproximava-se.
Abigail pegou a pederneira que ficava sobre o criado mudo.
— Quem está aí? — gritou.
Não houve resposta.
O último som foi próximo à porta do quarto, seja o que estivesse vindo, não estava com nenhuma luz acesa. A mulher congelou, o desespero a fez pensar que se ficasse imóvel a coisa iria embora.
Estava errada.
Algo acertou a porta com um estrondo.
Abigail tremeu. O susto fez a mulher derrubar a pederneira. Começou a tateá-la na escuridão enquanto rezava baixinho com toda a fé que possuía. “Nem depois de morto você me deixa em paz, desgraçado.”
Mais um estrondo. O breu impedia a viúva de ver o estrago, mas pelo rangido, parecia ter entortado as dobradiças.
— Ai, meu Deus, me ajuda!
O estômago da mulher revirou, ela espremeu o engulho garganta abaixo e pensou na Roxana. “Quem colocaria juízo naquela menina?”
Achou a pederneira.
— Acende, acende!
Ela batia as pedras de âmbar sobre o fio de uma vela nova. Em uma das tentativas atingiu o dedo que doeu e sangrou. A mulher ignorava o pulsar do ferimento enquanto friccionava as pedras com força crescente. Um chilrear e o calor inundou a mão de Abigail. As chamas afastaram as trevas, trazendo luz e esperança.
Lembrou-se de sua juventude. Abigail casou para poder sair de casa. Não aguentava mais sua mãe. Agora que ela própria tinha uma filha, podia entender os desafios da sua velha. Como era difícil não criticar, não cobrar. Arrependeu-se de ter brigado tantas vezes. Arrependeu-se ainda mais de ter ido embora sem se despedir.
Um último estrondo lançou a porta ao chão. Poeira e estilhaços voaram em Abigail. Ela engoliu em seco. Com mãos trêmulas, levantou a chama na direção da porta. Um choque perpassou sua espinha.
A porta jazia despedaçada e a luz iluminava todo o quarto e até o fim do corredor.
Não havia mais ninguém ali.
.:X:.
— O pagamento faz parte do exorcismo, Zaki.
O sacerdote escrevia em um papel sem encarar o bispo. Sentia-se fraco, culpado. Roxana, a filha da faxineira, estava à sua frente com os olhos inchados. A menina tinha passado por muito, e sofreria ainda mais pagando essa dívida com a igreja. Um exorcismo e dois enterros. “A pobre garota vai morrer nos devendo.”
— Talvez trabalhar para pagar essa dívida coloque um pouco de juízo nessa menina. O sofrimento e a alegria são apenas dois lados de uma mesma moeda. Ela vai ficar bem.
O padre encarou o bispo; estava irritado, não queria ouvir aqueles sermões. O superior era parcialmente calvo, pequeno e gordo. Estava em pé, ao lado da mesa, contemplando os quadros da parede. Zaki retornou os olhos para a menina, sabia que ela ficaria incomodada se ele encarasse demais o bispo.
O padre passou a pena para Roxana e pediu que ela assinasse. A garota apenas soluçava. Ele sentia-se culpado pelo acontecido, não lhe custaria nada fazer os funerais de Abigail e Lumoc.
Algo encostou em seu ombro; não era um toque, parecia uma sensação, um pressentimento.
— Acalme-se, filho, tudo faz parte do plano de Thelos. Não foi possível salvar Abigail, mas iremos proteger a filha dela. Roxana precisa pagar, não porque precisamos do dinheiro, mas porque faz parte do exorcismo. Poucos têm fé em Thelos, Zaki, mas todos, sem exceção, têm fé no ouro, no deus dinheiro. A perda dos círculos dourados causa um impacto profundo no interior da pessoa. É a materialização da perda maior.
Zaki desviou os olhos para o corredor da basílica. Nas pilastras haviam desenhos de uma infinidade de faces em agonia. Seria o sofrimento algo inevitável? Será que apenas através dele as pessoas podem se tornar melhores?
O bispo continuou:
— Fique aqui, filho, console a garota. Eu cuido do exorcismo.
Frustrado, Zaki observou o bispo perder a cor. Primeiro ele adquiriu um tom azulado; depois começou a perder a solidez, tornando-se translúcido; por fim, desapareceu no ar.
Não era permitido contrariá-lo.
A opinião dos vivos contava pouco na igreja Orzhov.
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