Ravnica: A Cidade das Guildas

1 Matéria orgânica - parte 1


Notas iniciais
Betado pela incrível Zusaky *Em fantasia, druidas são pessoas que dedicam suas vidas à natureza. Quase sempre são agraciados com magias que influenciam plantas e animais

Seline mostrou os dentes e grunhiu.

— Ai, meu Deus, ela é um bicho mesmo!

As duas garotas se encolheram. A da esquerda parecia um ceratok, usava um vermelho irritante, pedras ovais nas orelhas e um calçado pontudo. A mulher da direita exalava um cheiro antinatural de amêndoas, portava uma coleira dourada no pescoço e uma bolsa feita à custa de um jacaré esfolado.

— Seline, se você continuar assustando as minhas clientes terei que pedir para que vá embora — disse a matrona que servia o desjejum.

As meninas desataram a rir.

— A cidade não é lugar para você, monstra.

— Volta pro mato, sua caipira fedorenta.

Os talheres da garota tilintaram quando ela saiu às pressas em direção a seu quarto. Ela subiu uma escada que produzia o som de árvores mortas, tocou na maçaneta feita de um ferro antinatural e adentrou um aposento onde se sentiu sufocada pelo teto. Seline sentou embaixo da janela, colocou as mãos sobre a cabeça e apertou as pálpebras. Se sentiu a pessoa mais incompetente do mundo.

O dia se esvaía moroso. A luz do sol era pálida, parecia estar doente. Assim como tudo naquela cidade imunda. O cheiro de fezes sempre foi aprazível para Seline, era adubo, alimento para suas queridas plantas. A opinião da sacerdotisa mudou em Muv-Lear. Ali, as fezes dos humanoides eram nojentas; carregavam gula e os desprezíveis produtos Izzet.

A garota respirou fundo e tentou iniciar uma meditação, contudo, sua mente estava fora de controle, sempre buscando episódios onde foi rejeitada. Como quando a confundiram com uma mendiga na porta da torre Azorius, ou quando foi criticada por comer sem usar os talheres. Antes de sair em missão, a sacerdotisa foi orientada a imitar os hábitos da cidade, no entanto, essa tarefa se mostrou impraticável; existiam muitas minúcias inúteis.

A garota abriu os olhos e se deparou com uma sombra que se projetava da janela. A escuridão bruxuleou por alguns segundos, adquirindo, por fim, o formato de um pássaro. O coração de Seline se inundou de amizade, uma sensação de pertencer a algo maior. Virou-se na direção do parapeito para receber o visitante.

O animalzinho tinha asas negras como os cabelos da garota, a plumagem do corpo era dourada, possuindo um brilho que resplandecia naquele fim de tarde. O bichinho encarou a druidesa com uma leve girada no pescoço. O gesto provocou espanto na mulher, os pintassilgos que ela conhecia não eram tão corteses. O pássaro deu dois pulinhos calculados para a esquerda e dois para a direita, lustrou o bico no batente da janela e cantou. A música durou pouco, parecia muito bem ensaiada, notas precisas posicionadas nos tempos certos. A druidesa já havia escutado melhores, mesmo assim, se permitiu apreciar aquele momento.

Quando pequena, Seline pensava que druidas conversavam com animais através de um idioma mágico. Durante sua iniciação, a garota descobriu que não era assim tão fácil. A comunicação se baseava em empatia. Era necessário um profundo conhecimento sobre os hábitos do animal, dessa forma, era possível sentir como ele sente, viver como ele vive e, por consequência, pensar como ele pensa. Seline se orgulhava de ser competente nesse aspecto. Talvez por isso, tenha ficado ainda mais nervosa com a frase que leu na expressão do pintassilgo:

— Aê, tia. O showzinho acabou. Agora vai logo buscar meus farelo.

Aquilo queimou a sacerdotisa de dentro para fora.

— Que tia mais comédia, mano, fica só me olhando. Busca a parada lá, véi!

— Vai embora daqui, seu interesseiro!

O pintassilgo levantou voo e saiu, mas não antes de deixar um presente fedorento sobre a janela. A druidesa chutou a parede e fitou as fezes com ódio. O que Seline estava fazendo naquele lugar? A corrupção dos humanos contaminava até mesmo os seres da natureza.

A sacerdotisa posicionou suas mãos acima do excremento e começou a pronunciar uma série de grunhidos, cacarejos e piados. Os sons pareciam influenciar as fezes de alguma forma, elas derretiam como gelo dando lugar a uma mancha negra que se impregnou na janela. A madeira exalava um cheiro pungente conforme apodrecia.

— Cresçam, meus filhos, consumam esse grande excremento que os humanos chamam de cidade.

Uma batida na porta seguida de um susto foi suficiente para a magia se perder.

— Quem é?

— É o Petrus, escutei um grito e vim verificar o que estava acontecendo.

Petrus era filho da dona da pensão e também um cavaleiro da guilda Azorius. A garota não queria problemas, decidiu abrir a porta.

— Foi só um pintassilgo.

O homem estava sem camisa, evidenciando músculos definidos. Possuía o corpo bronzeado de alguém que passava horas treinando sob o sol. Usava um corte de cabelo simples, militar. Era jovem, talvez da idade de Seline ou pouco mais velho, devia ter uns vinte e dois invernos. A menina se surpreendeu, nas outras vezes que o vira, ele vestia metal da cabeça aos pés.

— Druidas e suas druidices.

Petrus sorriu. Um sorriso que fez as pernas de Seline fraquejarem. A sacerdotisa não sabia o que estava acontecendo, imaginou que fosse algum feitiço. O homem a segurou antes que desabasse no chão.

— Você está bem?

Os braços do cavaleiro envolveram o corpo da menina com firmeza. O contato com a pele dele era quente e aconchegante; a garota permitiu-se cair, sendo imediatamente aparada pelo homem. Aquilo deveria ser uma aura enfraquecedora dos guerreiros Azorius, talvez por isso eles fossem tão temidos em combate. Petrus levou-a até a cama e sentou ao seu lado.

— Você não me parece bem, minha mãe disse que anda pulando refeições. Vou buscar um pão e algumas frutas.

— Não.

Seline segurou o braço dele. Pela primeira vez naquela cidade, a garota havia se sentido bem, não queria que o momento acabasse. O homem a encarou por alguns segundos e voltou a se sentar.

— Não gosto de como aquelas duas mulheres te tratam. Elas são ignorantes, não fazem ideia do quão importante é o trabalho de um missionário Selesnya. Queria dizer que sua presença traz grande honra a esse humilde estabelecimento.

— O... obrigada.

Uma cicatriz recente saltava aos olhos. Se iniciava na base do ombro indo até o peito do homem.

— Deve ter sido um golpe horrível.

A menina encostou na marca com delicadeza.

— Sim. Foi uma amiga. Ela teve a mente subjugada por um feitiço Rakdos. A ferida foi curada, no entanto...

Petrus abaixou a cabeça, interrompendo a frase.

— Miau! — Seline emitiu um miado, levando a mão à boca no mesmo instante.

— O que foi isso? — Petrus franziu os cenhos e encarou a moça.

— Desculpa. Não sei o que me deu, estou elétrica.

O coração da garota apertou. Por que ela precisava estragar tudo? O homem a fitou com aqueles olhos cor de folhas do outono. Como uma pessoa conseguia compreender os pensamentos de um animal, mas falhava miseravelmente na leitura de sua própria raça? Será que ele estava bravo? Desapontado?

— Você é incrível.

Para a surpresa da garota, o cavaleiro empurrou o ombro dela de forma carinhosa. A moça virou o rosto para o lado corando. Criada desde pequena pelos velhos druidas, não tinha muito contato com homens. A menina tentou balbuciar algo, mas as palavras, teimosas, permaneceram em sua boca.

— Você pode me contar o objetivo da sua missão? Quem sabe não posso ajudá-la.

— Ah, claro! — respondeu Seline, saindo do transe. — Vim ter uma audiência com Stenner Valerian, juiz da quinta vara de Muv-Lear. Venho denunciar os Izzet por destruição da floresta dos centauros.

— Uhm. Admito que será desafiador, a venda daquela região foi perfeitamente legal.

— Isso não dá a eles o direito de acabar com inúmeras vidas inocentes.

Uma irritação brotava do estômago e começava a estrangular a sacerdotisa.

— O sétimo capítulo do Pacto das Guildas é bem claro sobre isso. No parágrafo doze inciso quatro, animais, bestas e plantas são classificados como recursos, portanto, devem ser administrados pelos donos das terras — disse Petrus, com um dar de ombros.

— Que um dragão devore o Pacto das Guildas!

— É graças a ele que temos paz em Ravnica.

— Paz? Os Izzet destroem milhares de vidas a cada segundo e você chama isso de paz?

— Procuramos fazer nosso melhor, mas você precisa entender que é difícil administrar tantas raças, credos e povos diferentes.

Petrus usava um tom calmo, mas sua expressão denunciava irritação.

— Agora entendo essa sua guilda Azorius. Como juízes, são os maiores beneficiários dessa corrupção que se alastrou por Ravnica.

— Se é assim que pensa.

— É assim que eu penso! – rebateu a druidesa em fúria.

Petrus levantou-se.

— Milady. Com sua licença. — Fez uma mesura e saiu.

— E não volte mais. Seu... seu lepisma!

Lágrimas dançaram nos olhos da menina, parecia que seu coração estava sendo esmagado por uma cobra constritora.

Seline sentiu que havia cometido um terrível engano.

Notas finais
*Lepisma é aquele inseto que come papel (traça).