Raqia - O Caminho do Céu
6 Os Santos
A caminhada por aquela nova etapa de floresta era curiosamente distinta da anterior.
O cenário devastado de guerra começava, de maneira sutil, a ser substituído por minúsculos trechos de uma vegetação rasteira. Um ou outro pequeno jardim de preces era visível ao longe. Algumas árvores exibiam uma tímida vegetação. A vida parecia lutar para existir ali superando a estagnação e o miasma oriundo dela...
Munido do artefato que Mihai tinha lhe dado, Adrian ia se guiando. Enquanto a gema não brilhasse, ele saberia que estava em um caminho seguro.
Ao longe, na linha do horizonte, ele percebia que a linha de luz rósea ia crescendo.. Ver aquilo lhe produziu um estranho sentimento de esperança, o que o fez acelerar mais ainda o passo. Seria uma alegria imensurável ver o Sol após tantos dias de escuridão.
Enquanto passava rente a uma clareira, algo lhe chamou a atenção.
Era uma coisa disforme, cintilava em prateado e estava presa aos galhos de uma das árvores.
Adrian cogitou recuar. Sabia que a floresta de Yomi não era um lugar seguro, ainda assim, se a gema de fogo não havia reluzido...
Aproximou-se mais, estendeu a mão. Reteve o gesto na mesma hora.
A coisa era viscosa, parecia feita de inúmeros fios, como um casulo.
Ainda assim, não aparentava perigo. Adriana sentiu falta de Mihai naquele momento para lhe explicar do que se tratava aquela estranha forma.
E não era só uma. Conforme ia avançando na clareira, percebeu vários outros casulos presos nas árvores. Parecia uma versão macabra de um imenso berçário.
Resolveu retomar seu caminho. Sabia Deus o que ia sair daqueles casulos se demorasse ainda mais.
Foi quando percebeu algo. A partir daquele ponto, a floresta ia se enchendo de finos fios prateados, como se as teias de inúmeras aranhas fossem pendendo, lentamente dos galhos, ou se entrelaçando entre eles.
Adrian não precisava de muito para imaginar que tipo de horror poderia se esconder por aquela região.
"Era só o que me faltava", pensou.
Começou a correr, brandindo o bastão com a gema como se fosse uma arma improvisada, desfazendo as teias que apareciam em seu caminho. Olhava para os lados com receio de alguma coisa aparecer pulando sobre si.
Ao perceber um trecho de caminho sem fios, parou sua corrida. Ainda olhava desconfiado para os lados. A gema de fogo permanecia em sua tépida claridade marrom avermelhada. Sinal da ausência de perigo.
Relaxou a caminhada, parecia, mais a frente, que a floresta ia rareando, sinal que estaria, logo mais, adentrando uma planície.
Sentiu uma pontada de ansiedade. Seria ali que encontraria Raqia?
Deu mais um passo. Seu tornozelo atravessou algo fino, mas firme, como um fio.
A gema brilhou naquela hora.
Adrian mal teve tempo de ver a criatura disforme que avançou para ele de detrás de uma árvore. Possuia oito patas e um corpo que parecia mesclar aranha e escorpião. Tinha inúmeros olhos, luzidios e pretos, cobertos de uma gosma amarelada e uma boca imensa, cheia de presas brancas e um ferrão brilhante. A parte mais bizarra era que, além de tudo, ainda possuia um par de asas coloridas, nas quais estava desenhado um grande e horrendo olho que se movia.
Derrubado no chão, Adrian tentou tatear o seu bastão, a claridade da gema lança luz sobre a nefasta cena.
A coisa prendeu Adrian com suas muitas patas. Da boca demoníaca foi escapando uma substância de aspecto leitoso, a qual as patas dianteiras iam enrolando ao redor de Adrian como um casulo.
A criatura avançou com o ferrão. Adrian, com a mão que ainda estava livre, conseguiu agarrar o galho e bateu com ele na cara da criatura. Onde a gema vermelha encostou, ficou uma marca de queimadura. O monstro vacilou. Adrian escapou engatinhando, ainda com os fios gosmentos enrolados em seu corpo.
Um guincho alto se fez ouvir quando o monstro tentou novo ataque. Adrian quis atingi-la de novo com a gema, mas o demônio recuou, brandindo a cauda, também ferroada numa clara tentativa de intimidação.
Adrian se dispôs a correr, não deu muito certo, o inseto maligno levantou um vôo rápido e baixo e o encurralou de novo no chão. Dessa vez a tocha mágica caiu longe demais do alcance da mão.
Foi quando algo luminoso cortou o ar e fundiu a cabeça da fera em dois. Da abertura, escapou um líquido gosmento e escuro.
-Você tá bem?- O homem alto, ruivo, usando uma capa branca com detalhes em cinza chutou o corpo do monstro de cima de Adrian. O nefasto cadáver se desfazia naquele líquido pútrido.
-Eu... Eu...-
-Levante- O homem lhe estendeu a mão e o ajudou a se pôr de pé. Adrian percebeu que ele segurava uma espada de metal impecavelmente brilhante.
-Quem é você?- Foi o que conseguiu perguntar.
-Eu...- Mas o homem não conseguiu completar a frase. Outro guincho e dois novos monstros insetoides apareceram.
-Para trás de mim filho- Ele empurrou Adrian e brandiu sua arma novamente.
Não precisou fazer muito. Duas setas de brilho prateado passaram por cima dos seus ombros e atingiram, cada uma, um dos monstros.
-Como essas pestes continuam se multiplicando?- Uma mulher de cabelos loiros e curtos apareceu, imediatamente do meio das árvores. Ela disparou mais duas setas, que se materializaram automaticamente quando ela retesou a corda do arco contra os monstros que ainda agonizavam.
-Quer uma ajuda?- O homem ruivo brandiu sua espada. A lâmina ficou envolta em chamas.
-Sempre um cavalheiro Ronan- Ela sorriu, materializou mais duas flechas e encostou as pontas das mesmas na lâmina da espadas. Com as pontas incandescentes, ela disparou pela última vez na boca dos insetos, produzindo uma explosão daquele chorume estranho.
-Precisamos falar com Noru- Disse a mulher -Só dois caçadores por vez pode não ser o suficiente-
-Aséra não está interessada em treinar novo pessoal, você bem sabe- O homem ruivo, Ronan, embainhou a espada enquanto a mulher baixava o arco.
-Mas o miasma tem se espalhado mais, se não tivermos novos recrutas...- Disse ela
-Hã...-
Ronan e a mulher se viraram para Adrian.
-Quem...? Onde...?-
-Tinha me esquecido de você- Sem pedir licença, Ronan foi tateando Adrian e girando-o num gesto avaliativo um tanto rude -Está bem ? Aquela coisa feriu você?-
-Não, eu...-
-Ele parece bem abalado- Comentou a mulher
-Pudera, olhe de onde ele saiu- Ronan se virou -Devíamos levá-lo. Aséra pode avaliá-lo-
A mulher deu um sorrisinho sardônico.
-Até porque deixar um pobre coitado aqui para ser comido não parece muito do nosso feitio não é?-
Adrian não soube a razão, mas de repente pensou em Amut.
-Vamos guri- O homem deu um leve tapa nas costas de Adrian, encorajando-o a andar.
-Espera eu...- Adrian deu pela falta do bastão. O achou caído em meio a uma moita.
-O que é isso?- Perguntou a mulher.
-É meu guia contra perigos...-
Ronan riu pelas narinas.
-Parece que não funciona muito bem não é?-
-Bom, eu...- Adrian não foi capaz de refutar, ao invés disso, perguntou:
-E quem são vocês?-
-Sou Ronan- Disse o homem ruivo -Esta é Vanessa- Ele indicou a mulher de cabelos curtos.
-Somos o que você pode chamar de "Santos"- Ela complementou -Os protetores de Raqia-
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