Raqia - O Caminho do Céu
7 Raqia
Eles não seguiram imediatamente.
-Ainda há alguns casulos aqui- Disse Vanessa.
-Envie um sinal a Priya. Vamos precisar coletar o máximo que pudermos- Ronan estava sério.
-Você, guri. Pode esperar aqui?- Adrian se sobressaltou quando percebeu que falavam com ele.
-Claro!-
-Ótimo- Ronan sacou a espada novamente e adentrou a floresta. Vanessa mirou uma de suas flechas em um ponto acima dos galhos das árvores.
Disparou. Com um zumbido a flecha ascendeu rapidamente, explodindo no céu matutino como um pequeno sol azul-prateado.
Súbito, Adrian sentiu uma pontada na cabeça.
Fogos de artificio. Ele se lembrava de um evento alegre. Havia calor, havia risos, havia comida.
E uma promessa feita.
-Adrian...- A mesma voz. Aquela mesma voz.
-Ei, garoto- Vanessa o chutava de leve. Adrian havia caído.
-O que houve?- Ele se sentou, rapidamente.
-Você caiu, do nada. Está tudo bem?- Adrian percebeu que os dedos dela ainda pressionavam a corda do arco.
-Sim foram só... Lembranças, eu acho-
A postura de Vanessa relaxou.
-Ah... Mnemosine ?-
-Como você sabe ?- Perguntou Adrian.
-O processo de recordação é complicado. O rio traz suas memórias de volta, mas elas vem em 'pedacinhos' que vão se juntando pouco a pouco. Não dá para lembrar tudo de uma vez. A mente colapsaria-
-Eu...- Ia começar Adrian, mas ouviu um farfalho entre as árvores. Vanessa conjurou outra flecha.
-Ei! Sou só eu!- Outra mulher saiu em meio as árvores. Tinha feições e cores características do sul asiático, usava uma longa e elegante trança, as mesmas vestes militares de Ronan e Vanessa e no pulso esquerdo, havia um disco reluzente que lembrava um pequeno escudo. Ela também trazia uma bolsa.
-Priya, Ronan está precisando de você. Está abrindo os casulos que encontramos lá atrás- Vanessa indicou a trilha que Ronan havia tomado.
A moça suspirou.
-Os pobres coitados... E quem é esse ?-
-Achamos perdido aqui. Felizmente não foi consumido. Vamos leva-lo para Aséra-
-Ela vai adorar conhece-lo- Disse Priya, sem muita alegria na voz –Vou indo então-
Vanessa fez um gesto de aquiescência e a mulher sumiu de novo entre a vegetação.
-A propósito, como se chama ?- Vanessa se voltou para Adrian após alguns instantes de silêncio.
-Sou Adrian. É tudo o que lembro sobre mim-
-Vanessa. Como disse, sou um dos "Santos" que protege Raqia-
-Entendi- Não ocorreu mais a Adrian o que dizer.
Ficaram mais alguns instantes em silêncio quando Priya e Ronan voltaram. Traziam fardos de pano nos braços, os mesmos estavam manchados da mesma substancia escura que saíra da cabeça dos monstros insetoides e ainda pior... Envolviam uma ninhada de "bebês", na falta de palavra melhor para descrever aquilo.
Eram pequenos, mirrados, com enormes cabeças. Suas peles eram de um cinza pálido e alguns ainda se moviam em silenciosa agonia.
-Resgatamos os que pediam mais urgência- Explicou Priya –Ainda há outros casulos, mas Noru e os outros podem vir aqui depois-
-Muito bem- Vanessa tinha um ar contemplativo e triste ao olhar as pequenas criaturas –Vamos voltar então-
-Guri- Ronan se voltou a Adrian –Pode ajudar aqui?- Ele parecia carregar mais daquelas criaturas. Cerca de seis ou sete.
-Claro... O que são essas coisas?-
-Não chame eles assim!- Ralhou Priya – Não são coisas-
-São almas- Ronan brandiu a espada para a frente fazendo com que o fogo que emanava da lâmina clareasse o caminho para fora da floresta. Adrian pegou no colo três ou quatro. Eram muito pequenos, pouca coisa maiores que as palmas de suas mãos.
-Como eles acabaram assim?- Perguntou Adrian.
-Almas não podem morrer. Você deve imaginar- Priya ia ajeitando os bebês no próprio colo. Havia certa ternura no gesto dela –Mas tudo o que elas são pode ser ferido, consumido, rompido, de maneira tão drástica que elas são subvertidas a essa forma básica-
-É o que nós em Raqia chamamos de "segunda morte"- Ronan falava –Não é um fim definitivo mas um recomeço forçado, e agora que as portas da Reencarnação também se fecharam, não podemos manda-los de volta-
-Tem a ver com a tragédia que aconteceu aqui?- A pergunta de Adrian projetou um pesado silêncio sobre o ambiente.
Priya e Ronan se entreolharam. Vanessa, por outro lado, se virou para Adrian.
-Então você soube ?-
-Os psicopompos...-
-Típico- Vanessa suspirou –Aséra vai lhe explicar tudo com calma, mas, por hora... Deixe o conhecimento disto só entre nós. Muitas das almas que abrigamos lá sequer imaginam o que pode ter acontecido. Acham que estão em tipo de "Purgatório" ou coisa do tipo. Que continuem acreditando nisso-
O resto da caminhada foi feito em silêncio. Um dos bebês-alma se mexeu nos braços de Adrian, e ele deu por si sentindo uma estranha piedade daquelas criaturas. Priya porém, parecia enxerga-las com a doçura de uma mãe.
Então, a vegetação sob seus pés tornou-se totalmente verde. Montanhas cujos picos eram brancos de neve se erguiam ao horizonte. Um sol, branco e pálido se erguia sobre o imenso prado, no centro do qual, se podia ver uma cidade.
Uma grande muralha circular parecia envolver um aglomerado de pequenas casas que iam se organizando umas sobre as outras até formar a base do que poderia ser o projeto de uma torre. Os tijolos reluziam sob o sol com uma cálida claridade acobreada.
-Bom, chegamos- Informou Ronan –Bem-vindo a Raqia guri-
Chegando mais perto, Adrian percebeu que o lugar se organizava como um pequeno feudo. Havia campos, pomares e casebres fora da grande muralha. Pessoas circulavam de um canto a outro cumprimentando os santos com acenos de mão ou reverências sempre que passavam.
Chegaram a dois imensos portões de bronze que estavam abertos aquela hora.
-Ronan! Vanessa! Priya!- Alguém os chamou tão logo adentraram a luminosa e ruidosa cidade.
Era um rapaz de feições asiáticas, mais ligado a população do leste. Ele usava as mesmas roupas que os três santos, mas era mais baixo que eles. Quase da altura de Adrian.
-Yuto- Cumprimentou Vanessa.
-Aséra e Noru estão procurando vocês. Precisam organizar a próxima expedição. Quem é essa... Ou esse?- Ele apontou para Adrian.
-Um pequeno achado de Yomi. Ainda está se lembrando de quem é- Explicou Vanessa, calmamente.
-Bom, eu vou indo na frente- Yuto percebeu os bebês –Parece que vocês ainda tem trabalho a fazer-
Com um sorriso aos colegas ele saiu correndo.
-Como assim "essa" ou "esse"?- Adrian se permitiu perguntar.
-Ué, você já se viu depois que saiu da Floresta das Vozes?- Perguntou Priya –Vanessa, me ajude- Ele entregou os bebês –Olhe aqui- Estendeu o disco luminoso a Adrian.
Ele quase caiu para trás.
Seu reflexo revelava uma extremamente pálida, com tufos de cabelo de cor indefinida crescendo em desordem sobre os cabelos. Os olhos eram profundamente pretos.
-Mas eu pensei que...-
-Mnemosine limpou o miasma de você, mas não lhe devolveu a identidade plena. Quando conseguir se lembrar totalmente de si, recuperará a forma humana... Ou a forma que mais se adequar -
-Meu Deus...- Adrian ainda estava perplexo. Decerto que não tinha dado para pensar sobre seu próprio aspecto na pavorosa jornada até ali. Mas não imaginou que estivesse tão mal.
-Pode se limpar melhor na casa de banhos- Informou Ronan –E, se ainda tiver reflexos de fome, comer alguma coisa-
-Mas claro...- Disse Vanessa -...Isso tudo pode esperar um pouco- Ela olhou para Adrian. Sob a claridade do Sol ele percebeu que seus olhos eram espantosamente azuis e frios.
-Primeiro, vamos leva-lo a Aséra-
Fale com o autor