Raqia - O Caminho do Céu
1 Miasma
Acordou. Era frio.
Mas não o frio comum que se lembrava de sentir nos meses invernais ou quando a chuva pegava os transeuntes de surpresa no caminho de volta do trabalho.
Era algo tangível, pegajoso, quase vivo.
Abriu os olhos.
Percebeu que estava nu. Nu e deitado no interior de alguma grande câmara de pedra.
Levantou-se, a sensação foi a de que sua pele estava se desgrudando de alguma coisa.
Não se lembrava de como tivesse ido parar ali.
A bem da verdade, não se lembrava de quase nada.
Mas sabia que existia. Que tinha um corpo. Pernas, braços, tronco, rosto...
E vestia algo. Era leve, delgado, com certeza, em meio aquela densa escuridão, ainda assim, não devia ocultar nada de sua nudez.
Teve receio. As mãos cobriram o meio das pernas. Não que parecesse provável alguém aparecer por ali.
Se percebeu que vivia, decerto devia ter uma voz...
-O...Olá...?-
Era um fiapo, quase um grunhido baixo como o de um bichinho achado abandonado em alguma viela.
-Oi...-
A voz saiu com mais vontade. Ainda muito rouca, mas com mais força.
Se pôs de pé. Parecia que estivera dormindo em um tipo de cama de pedra, ou esquife, até aquele momento.
Quando seus pés tocaram o chão, arrepiou-se. O contato com o solo era macio, úmido, e pegajoso. Nem quis imaginar no que estivera pisando.
Quando seus olhos se acostumaram as trevas quase sólidas da sala, ele percebeu um tipo de arco ou portal mais a frente.
Tateando as paredes e tentando tocar o vão a sua frente, dirigiu-se até lá.
O lado de fora da câmara de pedra era iluminado por uma luz fria, mortiça e azulada, como se a claridade do amanhecer estivesse entrando por algum tipo de janela ou abertura superior.
A luz ajudou a perceber tom de pele, dedos...
...No que estava pisando, o que lembrava um tipo de musgo negro do qual exalava nuvens de um diáfano vapor.
Havia outras câmaras ali. Iguais a qual havia acabado de deixar.
-Oi...?- Foi se aproximando da câmara a frente da sua. Não obteve resposta.
-Tem alguém aí?- A voz saiu mais forte. Ainda assim, silêncio absoluto.
-Eu... Eu não sei onde estou, se puder me ajudar...-
Adentrou a câmara, um aroma nauseante tomou-lhe as narinas. Deitado sobre outro esquife, ele percebeu um corpo, coberto por um véu branco.
Recuou imediatamente para o corredor mais claro. Que tipo de lugar era aquele ?
Saiu andando pelo corredor. As câmaras eram inúmeras, com certeza abrigando corpos como o que vira, mas o que, então, estava fazendo ali ?
Seguiu andando. O corredor parecia nunca acabar. Começou a acelerar o passo, e então a correr.
Escorregou no limo escuro.
O som de seu corpo caindo ecoou no corredor silencioso por um tempo surpreendentemente longo.
Tentou se levantar. Escorregou outra vez.
-Merda!
Apoiou-se em uma parede próxima. Era quase tão escorregadia quanto o chão, mas permitiu que conseguisse se erguer.
Foi quando percebeu algo. E aquilo fez com um medo, tão gélido e visguento quanto aquele musgo, se apoderasse de si.
Era um rosnado, como se um animal, grande e feroz estivesse se aproximando.
Virou-se. Não errou.
A coisa que se movia até ele em meio a escuridão tinha dois grandes olhos, que brilhavam como fachos de fogo em meio a neblina e, no meio dos dois olhos maiores, havia dois menores, muito vermelhos. Parecia pisar em patas muito pesadas e era possível ouvir que escorria baba de sua boca.
Movia-se sem pressa. Quase certa de que iria conseguir seu alimento.
A presa, apavorada, se pôs a correr.
Não chegou, porém, muito longe, o maldito limo fez-lhe tropeçar de novo. Caiu como um peso morto, enquanto a criatura demoníaca se aproximava, agora mais célere do que antes.
Gritou, tapou o rosto com os braços, como se tão simplório gesto lhe fosse capaz de proteger quando sentiu o peso do monstro sobre si.
-Para trás Amut! Atrás!-
O estalo de um chicote. O brilho alaranjado de uma tocha. A criatura rugiu contra quem quer que fosse. Descobriu os olhos.
Viu duas figuras altas, ambas vestidas de negro com mascaras longas. Uma lembrava a cabeça de um corvo, a outra, a de um chacal. O corvo brandia um chicote, equipado com pequenas pontas de metal, e o chacal segurava um bastão, que terminava em uma tocha. A criatura que tentavam afastar teria quase o tamanho completo do corredor, a parte anterior do corpo se assemelhava a de um leão, com uma máscara mortuária no espaço entre os olhos, e a parte posterior do corpo era a de um crocodilo.
-Atrás!- O corvo brandiu o chicote mais uma vez e a criatura desapareceu na escuridão.
Um silencio, não pacifico, mas pesado, voltou a tomar o lugar.
-Ela está ficando mais indomável a cada dia- Comentou o Chacal.
-Também pudera, está há milênios sem comer, ainda fica...-
Foi quando percebeu a figura caída.
-Oh, pelos deuses... Um desperto!-
O Chacal brandiu a tocha sobre ele.
-Parece que Amut não lhe causou dano. Devíamos tirá-lo daqui-
-De fato, mas só quando voltar a amanhecer...- Disse o Corvo.
-O...Onde eu estou ?- Perguntou.
O Corvo estendeu-lhe a mão para ajudar a se por de pé.
-Pobre criatura. Siga-nos, alma. Lhe diremos tudo o que precisa saber-
Registrou como o Corvo lhe tinha chamado. Alma...
Reparou também como eram surpreendentemente altos, os dois. Deviam ter pouca diferença de tamanho do monstro, Amut, ou como quer que fosse chamado...
Caminharam pelo corredor até uma escadaria. Felizmente, o piso dela já não era coberto pelo limo escuro. O Corvo começou a revirar um molho de chaves enquanto subiam.
Havia uma estreita janela pela qual se podia ver o mundo exterior. Densa névoa cobria o que parecia ser uma floresta de árvores secas. Mas não era possível ver mais nada além.
Chegaram a uma porta. O Corvo enfiou uma chave, branca como um osso na fechadura.
-Por aqui- Indicou. O aposento era uma sala, atulhada até o teto com inúmeros livros, rolos de pergaminho e papiro. No meio havia uma mesinha, cuja uma das pernas havia sido remendada. Na mesma constava outro imenso rolo de pergaminho, pena, tinha, e um prato contendo a ossada de um rato.
-Mas que lugar é esse ?- Perguntou ao entrar.
-Bom, jovem alma...- O Chacal colocou a tocha a um canto -...Aqui estamos no miasma-
-O que é miasma?-
-A passagem para o Além. A Casa dos Mortos-
Ao longe, pôde se ouvir o rugido de Amut.
Fale com o autor