Raqia - O Caminho do Céu

2 Burocracia dos Mortos


-O que?!- Foi tudo que conseguiu dizer após segundos de pesado silêncio.

-Qual parte você não entendeu?- O tom de voz do Corvo era condescendente.

-Como eu posso estar na Casa dos Mortos se eu...-

-Ah...- O Chacal suspirou por debaixo da máscara -Nada fora do esperado-

-A maioria dos mortos costumava chegar aqui sem ciência do que tinha, de fato, acontecido. Sua confusão é normal. Se me permite...-

O Corvo tirou sua máscara. A alma deu um grito de pavor.

O rosto do homem a sua frente era dividido. Um lado era de uma pele oliva escuro, com um olho preto e brilhante e nariz adunco. Ele era careca.

O outro era apenas osso, exposto e amarelado.

-Experimente ficar um milênio exposto a miasma para você ver se consegue ficar bonitinho também- O Chacal removeu a máscara logo depois. Ele tinha cabelos escuros e ondulados, pele clara e olhos escuros. Seu rosto só estava 'vivo' até o nariz, a boca e o queixo eram ossada pura.

A alma olhava de um para o outro, perplexa.

-Então eu estou... Eu estou...?-

O Corvo ergueu a única sobrancelha que tinha.

-Isso é o Inferno?-

O Chacal riu. O que produziu o som de um estalo, muito alto.

-Não passou nem perto-

-Aqui, como dissemos- Continuou o Corvo em seu tom calmo -É o miasma. Não é o Inferno, e definitivamente, também não é o Paraíso. É um, como direi... Lugar de passagem-

-De onde ninguém tem passado, no último milênio, não desde...- O tom do Chacal era sombrio.

-Mihai!- O Corvo o censurou.

-Desculpe- O Chacal, ou Mihai, olhava para a parede.

-Mas o que aconteceu no último milênio ? Se aqui é um lugar de passagem, para onde eu deveria ir ?-

O Corvo ergueu a mão. O encarou por alguns segundos em silêncio.

-Para onde você acha que deveria ir ?-

A alma piscou, perplexa.

-Bom... Eu acho que eu lembro de terem me falado do Inferno, do Céu...-

-Geralmente é a primeira lembrança que os despertos tem- O Corvo tamborilou os dedos, que também eram de osso, sobre a mesa — Sobre o que ouviram relativo a sua sina final. Não que tenham havido muitos despertos ultimamente...-

Os três voltaram a ficar em silêncio.

-Mas se não há um Inferno e um Paraíso...-

-Nunca dissemos isso!- Mihai voltou para a conversa -Acontece que as coisas estão... Diferentes...-

-Mihai!- Nova censura do Corvo.

-Ele vai descobrir de qualquer jeito Tutmés!-

-Sabe que não é bom ficarmos dando qualquer informação assim aos que tem a sorte de acordar!-

Mihai ergueu as mãos, rendido.

-Não sei para que tanta preocupação com burocracia!-

-Alguém tem que manter esse lugar funcionando...- Começou Tutmés.

-Okay!- A alma gritou -Eu preciso de algumas respostas... Certo? Não sei quem vocês são, mas aparentemente eu morri e... Que loucura toda é essa?-

Tutmés suspirou.

-Bom, há tempos as almas que vem para esse limbo, simplesmente vem e ficam apodrecendo aqui, em sono perpétuo. Uma ou outra tem despertado e, geralmente, quando acontece, ou convidamos para ficar aqui, protegendo os outros mortos ou... Mandamos embora-

-Embora?!-

-Sim...- Mihai respondeu -...Mandamos para Raqia. O Caminho Sagrado-

-O Céu?!-

-Não exatamente- Disse Tutmés.

-Por que tudo aqui é "não exatamente"?!- A alma estava em revolta.

-Por que as coisas são diferentes do que você conhece- Mihai sorria, sardônico -Mas, como dissemos, pode ficar aqui, cuidando dos outros mortos e da Amut-

-Aquela coisa que tentou me comer?!-

-Não ia comer você- Tutmés voltou a tamborilar os dedos na mesa -Bom... Não desde o exaustivo trabalho que tivemos para domesticá-la. Ela agora está aqui para proteger os que ainda dormem, embora sim, esteja ficando um tanto agressiva nos últimos tempos-

-Proteger do que?-

-Demônios- Mihai circulava pela sala -Deuses inferiores e outras coisinhas malignas que vem perturbar o sono do mortos. Fomos designados para vigiar essas almas junto de Amut desde que...-

Outro olhar severo de Tutmés o fez se calar.

-Entendo- A alma não tentou insistir no assunto.

-Bom... Agora a decisão é sua... Como disse que era seu nome ?- Perguntou Tutmés.

-Eu...- A alma parou. Percebeu que não lembrava o próprio nome.

-Nada fora do esperado... De novo- Mihai estendeu a mão com uma rapidez surpreendente e agarrou algo que andava entre os pergaminhos.

Era um rato. Exceto que a cauda era feita de ossos e espinhos do mesmo material nasciam de suas costas. Afora o tamanho anormal para um roedor comum.

Mihai sentou-se no chão e, sem a menor cerimônia, começou a dilacerar a criatura com seus dentes afiados.

-Certos hábitos nunca morrem- Tutmés revirou seu olho vivo.

-O seu de ser um velho rabugento mesmo, ainda está bem vivo- Refutou Mihai enquanto sangue escuro lhe escorria do queixo ossudos.

-Sobre meu nome...- A alma se voltou para Tutmés -...Vocês saberiam me dizer qual é? Não consigo me lembrar de nada-

Tutmés deu um sorrisinho sem graça.

-Provavelmente saibamos, a questão é...- Ele indicou a sala bagunçada -... Até olharmos todos os pergaminhos...-

-Pensei que vocês cuidavam dos mortos!-

-Cuidamos- Mihai esfregava os dedos gosmentos na manta negra -A burocracia insuportável que virou a chegada de vocês aqui é que é outra história-

-Mas então como alguém pode relembrar sua própria história?-

-Há um jeito... Fácil, por assim dizer, que não envolve papel velho e burocracia- Disse Tutmés.

-Qual é?-

-Você precisaria ir até o Mnemosine, o Rio da Memória. Não é longe, mas... Não é uma caminhada agradável- Mihai continuava sentado no chão, parecendo uma criança.

-Por isso mesmo, Mihai irá com você- Disse Tutmés.

-Ei!-

-Você está tão preocupado com o destino dessa alma... Nada mais justo-

-Você quer mesmo que eu saia naquela floresta...!- Mihai se pôs de pé.

-Perdão- Tutmés revirou o olho -...Não sabia que você tinha medo...-

-Eu não tenho medo!-

-Então você mesmo o levará... E esse assunto está encerrado- Tutmés se pôs de pé, pegou sua máscara -Vou vigiar os corredores da ala sudoeste. Mas acredito que não teremos novas intercorrências até lá. Boa sorte pequena alma. Tenho quase certeza de que em Raqia você achará o que procura-

-Não vai tentar convencê-lo a ficar aqui?- Mihai pegou a tocha.

-Ele não tem o espirito de um psicopompo Mihai. Deixemos para uma próxima...-

Mihai sorriu, ou pelo menos, foi o que o brilho nos seus olhos ainda vivos, sugeriu.