Seguiram por um corredor silencioso (como tantos naquele lugar estranho). O único som ecoando era o molho de chaves de Mihai.

-Agora ouça... Isto é importante- Mihai se virou para a alma. Havia voltado a usar sua máscara de chacal – Lembra que eu disse que a caminhada até o Mnemosine não era fácil?-

-Lembro- A alma parecia um tanto acuada.

-Pois bem... O lugar por onde iremos passar para chegar até lá é cheio de armadilhas, e algumas tão terríveis que não atacam você fisicamente, mas aqui...- Ele apontou a própria cabeça.

Houve um silencio pesado de alguns segundos.

-Mas... Basta fazer o que eu disser que talvez, só talvez você chegue a salvo em Raqia-

Ouviu a chave girar dentro de uma fechadura. Com um rangido alto e lamurioso, uma porta se abriu.

A paisagem que se descortinava a frente era a mesma que a alma havia visto pela janela; Uma grande floresta devastada sob um inverno perpétuo. Não havia luz, nem sol, nem cor...

-Bem-vinda ao Yomi- Disse Mihai -...A Terra da Morte-

A alma avançou para fora a passos tímidos. Recuou.

A porta que Mihai havia aberto ia dar em uma escadaria que se estendia por vários metros até a escuridão cerrada da floresta. Poderia ter só alguns metros, bem como quilômetros de altura.

-Vamos?!- Mihai bateu com seu cajado no chão. A chama da tocha brilhou mais forte. Um alento de luz em meio aquele deserto de trevas.

Por puro instinto, a alma agarrou as vestes escuras do guia.

Teve certeza que Mihai tinha rido por debaixo da máscara.

-Medo de altura ?-

-Um pouco- A alma olhava apavorada para baixo.

-Não se preocupe... Podemos ir bem devagarzinho-

-Ótimo- A alma deu um leve sorrisinho.

-Mas, particularmente, eu estou com um pouco de pressa- Mihai brandiu o cajado e bateu na parte de trás das pernas da alma fazendo-a perder o equilibrio e mergulhar na escuridão.

Gritou. O pavor, o medo de se machucar, da morte...

A queda foi rápida, mas dura. Sentiu todos os ossos se quebrarem, não seria capaz de se levantar novamente. Apenas podia chorar e berrar naquela terra escura e maldita.

Mihai estava parado sobre ela, mesmo sob a máscara de chacal, ele tinha uma expressão intrigada. A alma foi baixando o volume dos gritos.

-Meio que... Você tá lembrada que já morreu né?-

-Eu- A alma foi tateando sua própria estrutura corpórea. Tudo estava em ordem.

-Aquilo parecia tão alto-

-E é- Mihai foi andando na frente -Mas não é uma quedinha besta dessa que vai quebrar alguém. Levanta-

Com certa dificuldade (a memória da dor ainda era muito clara), a alma se pôs de pé.

Olhou o ambiente a sua volta. O chão parecia feito de cinzas e as árvores, vistas de perto, eram ainda mais feias e retorcidas.

Olhou para a estrutura de onde tinham acabado de sair.

Parecia uma torre, sem janelas visíveis, mais com inúmeras portas que iam se sobrepondo em níveis infinitos até o céu escuro.

-Você vem ou quer que eu te deixe aí?!- A voz de Mihai a arrancou do estado de contemplação.

Seguiram em silencio por vários minutos. A floresta parecia ficar mais densa e escura a cada passo, mas, paralelamente a isso, a tocha de Mihai parecia brilhar ainda mais.

-Outra coisa que eu não lhe disse- Começou ele -Essa é a parte de Yomi conhecida como 'Floresta das Vozes', está cheia da memória de espíritos que morreram perdidos ou abandonados em ermos como esse...-

Ele se aproximou mais da alma e disse quase num sussurro...

-Se os ouvir clamando por ajuda, não responda-

A alma (se é que era capaz disso) engoliu em seco.

-Está bem-

Retomaram a estrada. Mihai seguia mais a frente.

Não demorou muito para que estranhos ecos fossem percebidos.

Eram as ditas vozes. Chamavam por nomes aleatórios, ou gritavam por socorro. Ecos perdidos em meio aquela terra de devastação.

A alma manteve a orientação que Mihai lhe dera. Continuava andando de cabeça baixa e sem dar atenção aos gritos.

Até que uma voz, em especifico, lhe chamou a atenção...

-Adrian?-

Aquele nome, embora não soubesse de quem era, lhe tocou de alguma forma.

Por que aquele som parecia tão familiar?

-Adrian?- Voltou a chamar. Era uma voz feminina.

Virou-se. Imprudentemente foi em direção ao som.

-Quem é?-

-Adrian...?-

-Quem é? Onde você está?-

Ele perdeu a noção de onde estava. Do que estava fazendo e o motivo de estar ali. Só seguiu a voz perdida em meio a escuridão. As trevas pareciam se densificar, ele quase podia sentir que lhe tocavam os braços e pernas.

Até perceber que de fato, havia algo lhe tocando.

Eram mãos e garras, putridas, que arranhavam e puxavam para baixo, para o fundo...

Tentou gritar, uma das mãos tapou-lhe a boca, sentiu a escuridão crescer ao redor de si como um buraco negro...

Então veio o clarão.

Chamas douradas, laranjas e vermelhas se lançaram contra as mãos putrefatas fazendo-as recuar para as sombras como aranhas acuadas. A alma se voltou para trás, Mihai havia levado a tocha a boca e cuspia a onda de fogo que afastava a influência nefasta da floresta.

Quando finalmente se viram livres, Mihai agarrou a alma pelo pescoço e a pôs de pé.

-Você é idiota mesmo ou só está brincando?-

-Eu não...-

-Eu lhe disse para não prestar atenção nas vozes!-

-Mas uma chamou meu nome... Quer dizer... Eu acho que foi meu nome-

Mihai ficou olhando para ele. Devia estar com uma expressão intrigada.

-Bom... Isso já deve ser meio caminho para recuperar suas memórias. Mnemosine não deve ter muito trabalho- Ele deu de ombros e retomou a estrada.

-Eles me chamaram de Adrian-

-Fascinante. Agora, Adrian, se não quiser ser engolido por essa floresta, sugiro que ande!-

Seguiram por mais alguns instantes em silêncio, até Mihai perceber a inquietude em Adrian.

-Isso não acontece sempre- Disse ele.

Adrian ergueu os olhos.

-De almas serem engolidas por esse lugar. O que existe aqui são só ecos. Sombras de coisas que aconteceram em vida. Quase rancores vivos...-

-Então como...?- Indagou Adrian.

Mihai se virou para ele.

-Como o que?-

-Como vocês garantem que uma alma não passe por aqui ?-

-Almas não passam por aqui. Quer dizer, ao menos não deveriam , então eu, o chato do Tutmés ou outro psicopompo disponível tem que fazer esse trabalho desde que aquela desgraça aconteceu-

-A coisa que você não pode dizer ?-

-Exato-

Mais silencio.

-Muita coisa mudou desse lado, Adrian... Não pense que seguir adiante vai ser tão simples assim, eu mesmo, não gostaria de estar no seu lugar-

-No meu lugar ?-

-Como um Desperto- Disse Mihai -A maioria ali vai dormir por uns bons séculos até as coisas se ajeitarem, sendo otimista...-

-Imagino que eu não saber por você quais coisas precisam se ajeitar, correto ?-

-Em Raqia, você entederá tudo-

Seguiram em silencio por mais alguns minutos. Adrian fazia de tudo para ignorar os ecos persistentes da floresta.

Até que Mihai parou, de súbito. Adrian deu de cara na base das costas do psicopompo.

-Mas o que...?-

-Olhe- A voz de Adrian suavizou.

-Chegamos a um Jardim de Preces-