Raqia - O Caminho do Céu
5 Limiar
O topo da cachoeira se erguia quase infinitamente contra o céu.
A água que vertia era de um tom claro e gélido, quase prateado. Uma névoa cintilante se espalhava pelo ar, oriunda do baque da água contra as pontiagudas pedras.
-Aqui estamos... Mnemosine, o Rio da Memória-
Adrian ainda olhava para o mesmo, hesitante.
-Qual é o problema?- Mihai aparentava confusão por debaixo do rosto de chacal.
-O que vai acontecer depois que eu entrar aí...?-
Mihai suspirou, aborrecido.
-Vocês eram mais inteligentes no meu tempo, o nome do rio já não lhe dá a pista?-
-Não falo disso!- Agora Adrian quem parecia irritado –Vou parar em algum lugar? Simplesmente desaparecer? Voltar de onde eu vim?-
Mihai coçou o queixo metálico da máscara.
-Sabe que eu não sei? Nunca entrei neste rio-
-Ué, então você não tem memória nenhuma de si ?-
-Sei que sou um guardião de almas perdidas, e só. Me basta saber disso-
-Então você não liga de não saber quem foi? Quem você amou? Odiou...?-
Mihai deu de ombros.
-Confie em mim rapaz, as vezes, a ignora^ncia é a melhor política-
Adrian ainda hesitava.
-Qual é! Vai entrar ou não?-
-Eu...-
-Ah, pelo amor dos deuses!- Mihai bufou, mal-humorado –Olha, se quiser, pode ficar aqui sozinho contemplando a margem do rio pelo resto da eternidade, ou arriscar ser capturado pelos Errantes, meu trabalho está feito!-
-Vai simplesmente me deixar aqui?!-
-Eu não tenho mais nada que fazer aqui-
-Você simplesmente guia as almas e some?-
-É meu meio de vida. Além do mais, eu lhe dei meios mais que o suficiente para chegar aonde você quer chegar. Agora é com você Adrian!-
-Como aquela pedrinha vai me ajudar?-
Mihai estendeu a mão, ainda visivelmente irritado. Adrian lhe passou a pedra.
Ele pegou um dos galhos do chão, um mais longo e, munido de uma faca que Adrian não tinha percebido até aquele momento, abriu um sulco na extremidade do mesmo, onde encaixou a pedra.
-Sempre que houver perigo por perto, ela vai brilhar como fogo. Quando você estiver chegando à Raqia, o brilho vermelho dela vai se apagar-
-O...Ok- Adrian recebeu a tocha improvisada.
-Agora...- Mihai indicou a água turbulenta.
Adrian suspirou (ou fez um movimento parecido com isso) e entrou na água. Estava gelada ao toque. Ele recuou.
Olhou para Mihai, o mesmo não parecia nem levemente inclinado a ajuda-lo.
Voltou a adentrar o rio, fechou os punhos e trincou os dentes.
-E agora?!- Ele se voltou para Mihai
-Eu tentaria submergir se fosse você. Lembre que está morto, não tem o menor risco de você morrer afogado-
Ainda contra sua vontade, Adrian fez como lhe era pedido.
O toque da água em seus ombros e pescoço foi como um choque elétrico, fazendo-o retrair-se ainda mais.
Mergulhou.
Por um tempo, não viu nada demais, só o céu escuro e a distorção que a água causava nas imagens acima.
Fechou os olhos.
O som abafado da corredeira foi sendo substituído por outro. Mais alto, mais claro e agudo.
Estava chovendo. Ele se lembrava.
Uma avenida cheia.
Um sinal vermelho.
A dor.
Suas mãos estavam vermelhas de sangue.
Ele sentia algo em sua garganta que o sufocava.
Havia mais alguém. Precisava ajudar.
Mas doía. Por que doía tanto ?
Tentou identificar seu ferimento, era na altura da barriga. Parecia um tiro, ou esfaqueamento.
As lembranças, de súbito, foram ficando difusas.
Havia mais alguém, ele sabia disso.
-Adrian...?- Uma voz feminina o chamou.
Abriu os olhos.
A mão de Mihai estava sobre seu peito. Pesada. Firme.
A sensação de engasgo não havia passado. Adrian tentou abrir a boca. Uma substância escura saiu dela.
Estava sufocando, se é que aquilo era possível. A realidade alternava entre o rio e o lugar do acidente. Ela o chamava de maneira persistente. Quem era aquela pessoa ?
A dor foi crescendo, alcançando peito, braços e mãos. A voz dela era um grito desesperado.
Adrian ergueu as mãos. Agarrou o braço de Mihai. Sentia medo. Ele queria afoga-lo?
Tinha mais alguém, ele precisava salvar a dona da outra voz.
-Adrian...-
Um rosto apareceu em sua mente. Então outro.
Uma fúria, sem precedentes tomou seu corpo. Ele agarrou o braço de Mihai com mais força e aplicou-lhe uma rasteira, conseguindo derrubá-lo dentro do rio.
Respirou. Pela primeira vez desde que havia chegado ali, percebeu que conseguia respirar.
Olhou para baixo. O chacal o encarava do leito do rio.
Recuou. Percebeu que as águas prateadas a seu redor haviam se tornado negras.
Mihai sentou-se.
-É... Nunca é um processo simples- Ele se pôs de pé e foi voltando para a margem.
-Você tentou me...-
-Matar? Esqueceu que você não pode morrer aqui? Divina Maat, eu estou ensopado-
-Então o que foi aquilo?!- A voz de Adrian estava aguda.
-Vontade- Respondeu Mihai –O rio da Memória só restitui a identidade àqueles que ainda tem vontade de seguir. De lembrar. Por isso que ele não me afeta. Já você...-
Ele então, indicou as águas, a mancha escura já estava se dissipando depressa.
-O que é isso?- Perguntou Adrian.
-Todo o miasma que você acumulou deste lado do rio. Agora está limpo. Pode seguir adiante-
Adrian se pôs de pé.
-E você?-
Mihai pegou a tocha com a pedra vermelha e jogou para Adrian.
-Como eu disse... Meu trabalho aqui acabou. Guiei você pelo processo da morte, agora você segue sozinho a sua nova vida-
Ficou em silêncio mais alguns instantes, antes de acrescentar;
-Não tenho vontade de sair daqui Adrian. Não sinto vontade de saber quem fui, quais meus pecados ou virtudes. Diferente de você, estou condenado a ficar preso neste lugar de passagem até que os deuses, se ainda existirem até lá, decidirem mudar meu destino-
Adrian olhou para a tocha improvisada que lhe fizera;
-Eu ainda não lembro de muita coisa-
-Mas vai lembrar- Mihai ia dando as costas –Memórias são como o fluxo dessa água. Agora que você está limpo, deixei-as correr livremente. Na hora certa, lembrará de tudo-
Quando estava há alguns passos de distância, virou-se:
-Adeus, pequena alma. Foi no mínimo interessante caminhar com você-
E assim partiu. O facho de sua tocha foi a última coisa que Adrian viu antes de tomar a margem oposta.
Ao longe, no horizonte, brilhava algo que poderia ser o Sol.
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