Era lindo.

Um oásis de vida em meio aquele deserto de escuridão e morte.

Flores imensas, brancas, azuis e prateadas pareciam projetar uma luminosidade suave na clareira. Quase como se a lua cheia iluminasse o lugar.

-Um Jardim de Preces...- Murmurou Adrian..

-Nascem quando uma comunidade grande o suficiente no mundo dos vivos ainda se lembra de rezar pelos seus entes queridos- Explicou Mihai -Estão começando a escassear. É raro achar um desse tamanho-

Adrian se abaixou perante um botão que se abriu imediatamente. Uma bola de luz azul-esbranquiçada se desprendeu das pétalas e saiu voando pelo céu nebuloso.

-Para onde ela vai?-

-Tentar acordar os mortos que estão adormecidos no Miasma. Antes, essas preces serviam como guias entre as almas e os reinos superiores. Por isso que lhe digo que não havia necessidade de passagem por aqui. Era um lugar temporário-

-Acha que uma prece me acordou?- Adrian se pôs de pé.

-Provável. Embora não esteja acontecendo com muita frequência, como lhe disse- O tom de Mihai era sério

Houve um momento de silêncio antes de Adrian perguntar:

-O fato de as almas não estarem conseguindo despertar tem algo a ver com o que eu vou descobrir em Raqia, não é?-

-Se você tiver sorte- Respondeu Mihai.

Naquele momento, algo chamou a atenção dos dois. Uma flor brotou em meio a tantas.

Exceto que suas pétalas não tinham a cor fantasmagórica das demais. Suas pétalas lembravam o brilho de uma opala, refulgindo em várias cores.

-Ora, isso é novo- Mihai se aproximou com cautela.

-A comunidade que fez essa prece devia amar muito alguém-

-Mas isso não são preces comuns- Mihai aproximou os dedos esqueléticos do botão, e os afastou, de súbito.

Por um momento, sua mão readquiriu o aspecto de uma mão vivente.

Mas foi rápido, logo o aspecto de morte retornou.

-Isso foi interessante...- Comentou ele, ainda olhando a própria mão.

-O que?-

-Isso não parece uma prece humana comum. Nenhuma teria tanto poder a ponto de quase purificar o miasma-

-Então quem...?-

Os dois olharam para cima ao mesmo tempo.

-As preces são uma forma de os humanos chamarem a atenção dos deuses...-

-...Então pode ser que o divino esteja querendo a atenção dos humanos?- Perguntou Adrian sem pensar.

Mihai ficou olhando para ele sob a máscara.

-Que foi?-

-É bom irmos andando... Esse lugar não vai existir por muito tempo e você não quer perder mais muito tempo nessa floresta-

Houve um silencio diferente na caminhada para fora do jardim. Não era aquele silencio taciturno de um guia contrariado, mas algo quase reflexivo. A visão da flor de opala permanecia intacta na mente de ambos.

-Estou ouvindo água- Comentou Mihai, de repente -Mnemosine não deve estar longe-

-Ótimo- O tom de voz de Adrian não era muito animado.

-Algo errado?- Mihai se virou para ele.

-Eu estou pensando... E depois que eu reaver minhas memórias ? Pelo que você diz, ninguém está se movendo para lugar nenhum, seja o Inferno, o Céu ou onde quer que seja...?-

-Já lhe dissemos isso. Vá para Raqia-

-Mas o que é Raqia exatamente ?-

Mihai suspirou.

-Raqia é o produto do que aconteceu há tempos atrás. É um lugar de segurança para os que estão perdidos, como você-

-Como se fosse um asilo, ou coisa assim?-

Mihai deu de ombros.

-Pode-se dizer que sim. Eu nunca fui lá de fato-

-Ué! E como você vai me guiar até lá?!- Adrian parou.

Mihai se virou e caminhou até ele.

-Eu vou guiá-lo até o Rio da Memória. A partir daí, está por sua conta-

-Mas Tutmés...-

-Tutmés acha que manda, mas não manda. Ele ainda segura alguma ilusão de controle dentro do caos que virou esse plano depois daquela tragédia...-

Adrian não se moveu.

Mihai suspirou, aborrecido.

-Se serve uma palavra de consolo, Raqia não fica muito longe depois que acharmos Mnemosine, basta você...-

Súbito, se calou.

-O que...?- Adrian franziu o cenho. Mihai levou um dedo aos lábios para mandar que fizesse silêncio.

Havia sons vindo de algum lugar, mas não eram os ecos espectrais da Floresta.

Esses ecos, vozes, eram mais tangíveis e pareciam se comunicar em um idioma bem claro.

-O que aconteceu?- Murmurou Adrian se achegando a Mihai.

A luz da tocha diminuiu de súbito.

-Evite fazer muito barulho... Se não teremos problemas- O tom de urgência na voz de Mihai era assustador.

Foram avançando devagar entre arbustos e moitas secos. Adrian segurava a parte de trás das vestes de Mihai, apavorado.

Em outra clareira próxima, havia um fogueira de luz prateada e fria. Ao redor da mesma, estava sentado um grupo de seres que não podiam ser considerados humanos, muito pelo contrário, lembravam os aspectos de Mihai e Tutmés.

Alguns tinham a cabeça totalmente transformadas em osso. Outros estavam apodrecendo visivelmente. Bebiam um sumo escuro dividido por eles em uma grande caneca de ferro.

Mas o mais assustador eram as duas criaturas que rondavam o grupo. Uma, era um vulto alto e encapuzado em uma mortalha negra e que segurava uma foice retorcida. O segundo, lembrava um cachorro, imenso, de olhos amarelos e cuja metade inferior do corpo era a de um antílope. Ele parecia preso a mão do aparente líder do grupo, o único cujo rosto ainda estava vivo sob inúmeras tatuagens, por uma coleira de ferro.

-São Errantes- Murmurou Mihai

-São o que?-

-Almas que conseguiram fugir do julgamento divino. Agora vivem condenadas a andar entre Yomi e Raqia se alimentando de miasma e fazendo pactos para sobreviver-

-Pactos... Tipo demônios?-

-Demônios, deuses inferiores, feéricos...- Mihai fez sinal para que continuassem andando -...Esses espíritos agem como mercenários, não atuando em lado nenhum. Trabalham para quem pagar mais, embora aqueles claramente tenham seus acertos com o Submundo-

-Aquelas duas criaturas que vimos...?- Começou Adrian.

-Demônios, sim- A luz da tocha voltou a brilhar quando ficaram a uma distância segura do grupo -Embora não sejam de casta muito elevada. Provavelmente foram escravizados por aqueles Errantes-

-E você quer que eu siga para Raqia sozinho, com aquele grupo a solta?-

-Aquilo era uma parcela deles, e...-

Mihai estendeu a mão e uma língua de fogo se desprendeu de sua tocha formando uma pequena pedra vermelha, a qual ele entregou a Adrian.

-Isso vai guiá-lo em segurança... Agora basta você não ser idiota e se distrair por qualquer coisa- Ele deu um leve tapa na nuca de Adrian.

-Agora vamos, já perdemos tempo demais aqui. Mnemosine não deve estar muito longe, está ouvindo ?-

Adrian apurou os ouvidos e percebeu o som cristalino de uma cachoeira.