Raise your glass

9 Capítulo 9-Passagens -parte1.


Notas iniciais
Olha só quem está de volta! Bom meus queridos, como vocês podem ter notado eu desapareci por meses e eu só tenho 100000000000000 de desculpas pra pedir pra vocês. A faculdade tentou me matar e eu decidi deixar a RYG de lado um pouco pra me dedicar (risos) a ela, mas agora as férias chegaram e eu voltei! Eu tenho um milhão de coisas pra falar mas vamos deixar pras notas finais pra vocês aproveitarem esse capítulo enorme e que demorou tanto a sair. Só duas coisinhas, a primeira é que como sempre esse cap é dedicado a bae @bluesorgent (rip @jamespottrer), miga você a é a melhor ♥ (ela cobrou esse cap incansavelmente então espero que cê goste) EEE em segundo lugar, devido ao fato que faz mil séculos que eu não posto, talvez ajude dar uma relida no último cap só pra dar uma situada (conselho de mãe gente), Sem mais delongas, divirtam-se! PS: eu passei as ultimas duas horas tentando postar esse ca´, mas por algum motivo eu não consigo postar com muito mais do que 4 mil palavras, então eu vou ter que dividir ele inteiro, perdão ♥

—AQUI! -Tommy gritou quando nós entramos no Três Vassouras. Ele estava sentado em uma mesa bem no canto, enquanto nós nos aproximávamos eu ouvi Pads murmurar algo como "exibido" e não pude conter uma risadinha.

Sirius tinha estabelecido dias atrás enquanto tentava me ensinar a jogar Mario Kart que já tinha superado o que ele chamou de "momento Moony".

—Foi o calor do momento. -Ele disse enquanto jogava uma casca de banana no meu caminho, me fazendo bater o carrinho.

Naquele dia eu fingi acreditar no discurso dele, mesmo quando ele mesmo se traía.

A mesa em que Tommy estava se apresentava um pouco lotada, Madame Rosmerta, nosso querido Aleron Zonko, alguns outros adultos aleatórios e um grupo bem heterogêneo de alunos de Hogwarts estavam todos sentados ao redor de Thomas.

—...E então ela olhou pra mim. A cara toda cheia de cobertura de cereja e perguntou toda inocente. "Thomas, você acha que alguém vai notar?" -Todos na mesa começaram a rir incontrolavelmente, inclusive eu. Eu conhecia aquela história, era sobre Sarah, a primeira namorada de Tommy. -Ei pessoal! -Ele disse animado nos cumprimentando. -Puxem uma cadeira, tem espaço para todos! Remus, tem uma cadeira vaga aqui... se você quiser.

Eu dei uma risada incrédula. "Suave Thomas, muito suave" pensei.

Eu fui com James e Sirius e nós pegamos uma cadeira cada, nos sentando ao redor da mesa, do meu lado uma Lufana do sétimo ano apoiava see queixo sobre a mão, olhando com atenção psicótica para Tommy. Era impressionante como ele tinha esse dom de atrair os olhares, a única outra pessoa que eu conhecia que também conseguia fazer isso era Sirius.

Eu olhei para ele e tive de colocar a mão no rosto para não dar uma gargalhada. Pads estava sentado, com os braços cruzados na frente do corpo, o rosto marcado em uma carranca, olhando acidamente para Thomas, que agora contava como foi sua visita ao circo e como ele quase deixou o leão escapar (eu estava lá, isso realmente aconteceu).

Eu me movi até perto de sua orelha e sussurrei.

—Olhando assim, não parece que seu "momento Moony" foi só uma fase.

Ele rompeu o contato visual, parecia que ele queria colocar a cabeça de Thomas para queimar. Então me olhou no fundo dos olhos e franzindo os lábios me mostrou seus dentes muito brancos.

—Calma totó. -Eu disse correndo minha mão pelos seus cabelos pretos. -Uou. -Eu falei como se uma revelação dos céus tivesse me atingido como um raio. -Seu cabelo é tão gostoso.

—Assim como o resto do corpo. -Ele falou com um sorriso malicioso, eu ignorei aquele comentário idiota e continuei mexendo no cabelo dele. Entendam, eu tenho essa queda do tamanho do Everst por mexer nos cabelos dos outros, ainda mais quando esse cabelo tem a textura das asas de um anjo. Eu me perdi naquilo pensando em milhares de outras coisas e outros momentos.

Eu puxei minha mão de volta bruscamente quando ouvi alguém me chamando.

—Como? Eu estava distraída.

—Eu notei. -Tommy disse sorrindo, as covinhas bem marcadas. As pessoas da mesa riram, eu senti meu rosto queimar. -Eu te perguntei se você se lembra o nome do circo que nós fomos quando crianças.

—Sranko Bros. -Eu disse ainda um pouco desconcertada.

—Esse mesmo! -Ele disse estralando os dedos, era um hábito que ele tinha quando algo que ele estava esperando acontecia. Por exemplo quando o papai Noel deixava presentes embaixo da árvore, quando ele conseguia um encontro com a o amor platônico da vez ou quando ele se lembrava de uma palavra que ele esqueceu. -E aí um dos irmãos Sranko, o próprio, veio conversar comigo...

As histórias dele tinham sempre esse ar cativante, que te fazia querer ouvir mais e mais. Thomas era o centro das atenções e isso costumava incomodar algumas pessoas. Já para mim, era só mais um dia comum com ele.

Ele continuou contando suas histórias, ora tirando suspiros de seu público, ora fazendo eles chorarem de rir. Para mim o mais importante de tudo aquilo é que eu nunca tinha visto Remus rir tanto na vida e eventualmente, até Sirius caiu nas graças de Thomas.

—Ele não é tão ruim. -Eu sussurrei mais uma vez.

Agora Tommy e James falavam sobre os casos mais bizarros que aconteceram em estádios de futebol por toda a Grã-Bretanha.

—Podia ser pior. -Ele respondeu.

A conversa continuou por mais alguns minutos até que Aleron se levantou.

—Surrane, -Ele começou fazendo uma leve reverência. -Tem sido um prazer imenso conversar com você, mas minha loja não é mágica, infelizmente, e nada lá se vende sozinho. -Ele esticou o braço por sobre a mesa e esticou a mão para Tommy, ele se levantou e a apertou com um imenso sorriso. -Não desapareça garoto.

—Não irei senhor. -Ele falou olhando de relance para baixo, onde Remus estava sentado. -Pretendo ficar mais um tempo nas redondezas.

Aleron deu um último sorriso e com um beijo rápido na mão de Madame Rosmerta se virou para a saída, mas se deteve.

—Oh, eu estou ficando mesmo velho. -Ele disse voltando para a mesa. -Potter, Black, vocês precisam de mim. -Ele falou sério, a mão apoiada no meu ombro olhando fixamente para os dois.

—Como? -Prongs falou com o cenho franzido.

—Detalhes me fazem perder tempo valioso, venham comigo de uma vez. -Ele se encaminhou mais uma vez para a saída. -Vamos? -Falou para trás, mas sem se virar.

James e Sirius se levantaram, murmuraram alguns "até logo" e saíram juntos a Zonko.

—Não é adorável? -Rosmerta falou quando a porta voltou a se fechar.

—O quê? -Um corvino perguntou.

—Como Aleron trata os meninos, uma graça.

Eu olhei para Remus com um sorriso de lado, ele também sorriu.

Logo Rosmerta e os outros adultos também se foram, mas não sem antes constatar que garoto interessantíssimo Thomas era, e dizendo aquelas frases de velho como "não perca nunca sua essência", "não mude nunca, garoto". Odeio esse tipo de coisa, somos humanos por sermos seres mutáveis.

Os alunos se foram também e com uma dose por conta da casa que Ma’am R (apelido criado por Tommy) nos deu, nós finalmente ficamos sozinhos na mesa.

—Eu não sei o que é isso, -Thomas disse com seus olhos brilhando ao observar sua cerveja amanteigada. -Mas parece excelente.

—O gosto consegue ser melhor que a aparência. -Eu falei depois de dar uma golada enorme do meu copo.

—Pietra é suspeita para opinar. -Remus disse empurrando seu copo em minha direção, eu agarrei sem pestanejar. -Ela gosta demais disso.

Eu bebi mais um gole e fiz uma careta com o bigode de espuma. Eles gargalharam e eu notei que aquilo abriu uma brecha para Tommy passar seu braço ao redor dos ombros de Remus, eu vi isso como a minha brecha para sair dali.

—Bom, acho que eu vou ver o que o Aleron queria com os meninos...

—NÃO! -Remus falou segurando minha mão contra a mesa. Eu e Thomas o encaramos um pouco assustados. -Quero dizer... nós acabamos de chegar...

Eu não precisei de muito mais para entender o recado, Moony estava desconfortável com toda aquela situação e eu não poderia culpá-lo por isso. Foi tudo rápido demais, e eu não sei se o quanto daquela "relação" não era simplesmente um artificio para tirar Sirius do caminho. Será que Remus estava arrependido, como eu imaginei que aconteceria?

Eu afastei todo aquele nó de perguntas da cabeça por um momento e virando o meu caneco, agarrei o de Moony.

—Eu nem ao menos acabei a cerveja, suponho que eu posso ficar mais um pouco. -Eu sorri e Remy sorriu de volta, quase em agradecimento.

Mas Thomas não era nenhum idiota, tão singelamente como começou, ele retirou seu braço dos ombros de Remus, mas sem perder a pose.

—E como vocês se conheceram? -Ele perguntou olhando de mim para Moony. -Deve ter sido amor à primeira vista. -Ele completou com um sorriso malicioso.

Eu gargalhei, deliciada. Remus mordeu o lábio inferior.

—O que foi? -Tommy perguntou um pouco desconcertado.

—Não se pode dizer que nós éramos exatamente "amigos" até poucas semanas atrás. -Eu respondi.

—Não acredito nisso, vocês são melhores amigos!

Eu dei de ombros como quem diz "ora, isso acontece".

—Ela invadiu nosso quarto e roubou uma cueca, o começo é mais ou menos aí.

—Minha garota. -Tommy falou me dando uma piscadela, então ele repensou o que acabara de ouvir. -Pera aí, ela fez o quê?!

Foi minha vez de morder o lábio.

—Eu precisava da cueca, OK? Vocês não vão me julgar por isso!

A boca de Thomas se entreabriu, ele olhou para Moony em busca de algum suporte, mas ele apenas revirou os olhos.

—Vocês então não são amigos de longa data e só viraram amigos por um roubo de cueca? -Ele estava incrédulo.

—O chute nas partes baixas de Lucius ajudou muito também... -Remus falou com uma mão sob o queixo.

—Ohhh, bem lembrado.

—Chute em quem? Espere aí, esse é o garoto que está te infernizando? -Ver Thomas perdido assim podia entrar na minha lista de esportes favoritos.

Eu assenti.

—E você chutou ele... nas bolas...

—Foi mais uma joelhada, mas sim, eu fiz. Bem ali aliás. -Eu apontei para a parte de trás do pub.

O rosto de Thomas se iluminou em um enorme sorriso.

—Ma’am R! -Ele chamou com um aceno. -Mais uma rodada, temos muito a comemorar!

—X-

A pouca neve que estava espalhada por Hogsmeade da última vez já tinha derretido e agora uma mistura de lama e folhas amareladas fazia o caminho. Eu andava um pouco na frente, me lembrando em quantas vezes diferentes eu e Thomas já tínhamos irritado minha mãe ao extremo nessa época do ano.

—Se vocês voltarem com um grama de lama na roupa de vocês, eu não vou lavar nada. -Ela dizia com a testa franzida, um vinco de preocupação cortando a pele anormalmente branca.

E lá íamos nós, brincar no balanço, ou nos montes de folhas que se formavam nos pés das árvores. Em questão de segundos nós éramos lama de cima a baixo. Eu sempre me desesperava, olhando para minhas roupas enlameadas e pensando no quão brava minha mãe ficaria e Thomas sempre me puxava para perto dele, tirava uma ou duas folhas do meu cabelo embaraçado e limpava o meu rosto, molhado de sujeira e lágrimas.

—Você se preocupa demais, -Ele dizia com um sorriso muito branco por baixo do rosto marrom de terra. -Nada de ruim pode te acontecer se eu estiver por perto.

Mas ele não estava lá o tempo todo.

—Pietra. Pietra! -Eu sacudi a cabeça como que para fazer os pensamentos se calarem quando ouvi alguém me chamando. Era Moony. Eu olhei para trás e vi que tinha aberto uma distância absurda entre nós, eu voltei até onde eles estavam.

—Você começou a andar rápido para lá, sem ouvir nada. -Remy falou me encarando profundamente, eu desviei o olhar.

—Uh... Eu... Eu me distraí. -Eu disse, sentindo as bochechas corarem.

—Podia ser pior? -Thomas perguntou sem me olhar, isso era um código. Toda vez que minha mãe tinha uma crise, eu saía do quarto e ele me perguntava se "estava tudo bem", e eu respondia num fôlego só, "podia ser pior". Depois de algum tempo, ele apenas me perguntava se "podia ser pior", de uma vez ao que eu assentia, sem tocar mais no assunto.

—Podia ser pior. -Eu respondi, mas logo abri um sorriso, Moony não precisava de nenhuma negatividade da minha parte. -Vamos levar Tommy até a Casa dos Gritos!

Eu vi Remus considerar aquilo por um momento. Diferentemente de mim, ou dos meninos, Moony não tinha aquela admiração macabra pela Casa do Gritos. Mas ele concordou e nós retomamos nosso caminho.

—Eu nunca ouvi nada, para ser bem sincera. -Eu disse muito séria. -Mas Yan Chang disse que ouviu alguém lá dentro uma vez. -Eu vi Moony revirar os olhos, mas Tommy estava concentrado no que eu dizia. -E Dick Creswell jura de pés juntos que viu uma garota de branco andando pelos jardins. -Eu continuei muito animada, eu adorava as histórias a respeito da Casa.

Nós andamos lado a lado até alcançarmos a trilha de pedras cheias de musgo que levavam a porta principal da casa.

—Eu vou ficar por aqui. -Remus falou parando subitamente.

—Ah não Remyyyyyyy. -Eu soava infantil. -Venha conosco.

—Eu estou bem. -Ele respondeu mordendo a parte interna da bochecha.

—Remus a casa é inofensiva!

Ele olhou para a Casa e para mim depois.

Mas antes que ele tivesse tempo de falar qualquer coisa, ele já estava no ar. Mais rápido do que eu imaginava ser possível, Thomas o tinha pegado no colo.

—Você pode escolher entre o "noivinha" e o "bebê coala", mas você vai conosco. -Ele falou entre os gritos de protesto de Remus. -Ei, ei! -Ele chamou Remus que reclamava e se debatia. -Nada de ruim pode te acontecer se eu estiver por perto.

Eu senti minha visão se embaçar graças a um grupo de lágrimas oportunistas, um sorriso crescendo em meu rosto.

Moony merecia ouvir aquela frase tanto quanto eu, anos atrás.

—Ele não vai soltar Remy. -Eu disse entre risadas.

—BEBÊ COALA! EU QUERO O BEBÊ COALA!—Remus gritou, muito irritado.

—Muito que bem. -Thomas disse colocando Moony no chão e se colocando na sua frente, abaixando um pouco.

—Eu não vou subir nas suas costas. -Remus resmungou, desamassando seu cardigan mostarda.

—Ah, então você prefere a noivinha de novo?! -Thomas falou com um sorriso de lado.

Moony olhou para mim em desespero, eu dei de ombros.

Resmungando mais do que o normal, Remus pulou nas costas de Thomas, que mal pareceu notar seu peso.

—Estamos prontos Dora, nos leve em uma aventura. -Tommy disse com um sorriso, eu sorri de volta.

—Ugh. Vocês são umas crianças. -Moony falou revirando os olhos.

—Não sou eu que estou sendo carregada como um bebê coala.

—Touché. -Moony disse, se agarrando ainda mais no pescoço de Tommy. Esse em contrapartida parecia ter recebido os presentes de natal mais cedo.

Nós fomos até a entrada da Casa e fizemos a volta completa, eu ia contando tudo que eu sabia sobre ela pelo caminho, quando nós estávamos nos fundos da casa, onde um grande e destruído quintal se estendia, Thomas me chamou.

—Essa janela, -Ele disse encarando uma pequena janela que, como todas as outras, estava coberta por largas tábuas de madeira. Mas ao me aproximar devagar eu pude ver que não havia tábuas naquela. -Quantas pessoas já fizeram isso? –Ele perguntou com o cenho franzido. Ele correu o dedo pelo vidro esverdeada pelo musgo, não parecia muito grosso.

Eu sorri para ele.

—Nenhuma. Ainda.

—NEM PENSEM NISSO! -Remus gritou, voltando a se debater, tentando se soltar de Thomas, que agora segurava suas pernas firmemente.

Nós dois ignoramos Moony.

—Eu faço as honras. -Eu disse puxando o cachecol azul e cinza que estava no pescoço de Thomas, Remus ainda esperneava.

Eu passei o cachecol em volta da minha mão, como os lutadores de boxe fazem com as faixas e, dando um passo para trás, soquei o vidro esverdeado e sujo da janela. Ele se quebrou com um som estridente. Eu olhei para Thomas e ele me deu uma piscadela. Eu terminei de quebrar alguns pedaços que continuaram pendurados na moldura. Agora eu tinha que dar um jeito de abrir a estrutura de madeira, sem perder tempo, eu comecei a andar pelo quintal e em pouco tempo encontrei o que eu precisava, uma longa barra de ferro enferrujada estava apoiada numa grossa cerca-viva, eu a peguei com cuidado e voltei para a frente da janela.

—Você vai nos matar. -Remus falou num sussurro.

—Eu estou com a barra cheia de tétano na mão e eu vou ser a primeira a entrar, quem aqui vai morrer?

Ele se calou. Eu usei a barra como uma alavanca entre uma banda da janela e outra, usando o peso do meu corpo para forçar a madeira. Depois de alguns segundos e uma segunda tentativa a janela se abriu com um som rangente horrível, algumas pequenas lascas voando para todos os lados.

Eu fiz menção a jogar a barra longe, mas Thomas disse o contrário.

—Deus sabe o que tem lá dentro, a barra vai ser útil.

Eu assenti e joguei-a para dentro da casa, o cheiro de mofo invadindo nossas narinas. Eu peguei meu celular e liguei a lanterna, e tomando fôlego, me apoiei no batente, me projetando para cima, colocando primeiro as pernas dentro da casa, para enfim entrar de uma vez.

Logo que meus pés bateram contra o assoalho, eu pude sentir um arrepio correndo por cada centímetro do meu corpo, eu usei a lanterna para ver onde eu estava.

Era um quarto. Pelo menos há uns 60 anos aquilo era um quarto; no canto direito uma armação de madeira antiga resistia ao tempo e mostrava onde um dia ficou uma larga cama, na parede logo a minha frente, o papel de parede com o tema de flores de Lótus a muito já tinha descascado, mostrando a parede cinza crua por baixo, o chão estava empoeirado, mas o assoalho ainda estava inteiro. Todo o lado esquerdo estava tomado por um armário velho e enorme, as portas caídas de seus batentes. Dentro do armário várias caixas e papéis corroídos ainda permaneciam incólumes em suas prateleiras.

Eu voltei a olhar para o lado de fora, onde os dois mantinham uma discussão sussurrada até que Moony soltou um "que seja" e logo depois suas pernas longas, cobertas por uma calça cáqui de barra curta, apareceram pelo batente, eu o ajudei a se pôr de pé.

—Brilhante plano o de vocês. -Ele disse tossindo. -Matar a todos nós.

—Ninguém vai morrer. -Thomas disse tentando tirar o pó dos seus jeans, ele pegou o cachecol que ainda estava enrolado em minha mão e avaliou o estrago, eu peguei a barra do chão. -Não enquanto nós tivermos o Remus para nos proteger. -Ele concluiu com um sorriso largo. Eu não precisei colocar a lanterna na cara de Moony para saber que ele estava corado.

—V-vamos. -Ele falou meio sem jeito, tropeçando em seus próprios pés e saindo aos trancos do quarto, eu fui com ele.

—Quero ver esses papéis aqui. -Thomas disse indo em direção ao armário e ligando seu celular. -Encontro vocês daqui a pouco.

—O primeiro passo para a morte de todos os personagens em filme de terror é a separação. -Moony murmurou, mas mesmo assim saiu para o breu que era o corredor.

Nós não pudemos andar lado a lado graças ao quão estreito era o espaço, então eu fui na frente. Não houve discussão, eu e Moons sabíamos que ele estava com medo demais para seguir na frente. Eu também estava, mas o sentimento de aventura me valia.

—Família de quatro pessoas. -Ele disse enquanto passávamos por uma parede coberta por quadros e porta-retratos. -Bem típico.

—Huh? -Eu perguntei parando em frente a uma das fotos e a observando com mais profundidade. Uma bonita garota de cabelos negros como os meus, com não mais que 12 anos me encarava, os olhos estrábicos, na sua mão um cesto vazio, todas as flores recém colhidas estavam no chão, seus pés as esmagando. Sem sorrisos, sem emoção, apenas um segundo capturado que mostrava nada mais que um corpo sem vitalidade. Eu estremeci.

—Sabe, o de sempre, pai provedor, mãe dona de casa, filha mais velha linda e adorável, filho mais novo.

—O filho mais novo não tem adjetivos? -Eu disse olhando para Moony, ele esquadrinhava com os olhos cada uma das fotos com uma fascinação assustadora.

—Normalmente o filho mais novo é o problema. -Ele disse sem desgrudar os olhos das fotos.

—Problema? -Eu disse baixo. De repente, eu não estava mais tão inspirada para uma aventura.

—A criança possuída; filho do Demônio; anticristo. A maldição varia. -Ele descrevia aquilo como se fosse uma velha senhora compartilhando uma receita de bolo de cerejas.

Eu respirei fundo, tentando fazer o nó na minha garganta se desfazer. Não adiantou. Movendo meu olhar vagarosamente do rosto de Remy para as fotos, eu tentei achar uma em que o garoto estivesse.

Não demorou muito, um menino, de cabelos muito pretos e escorridos, o corpo rechonchudo, coberto por uma roupa escura grossa, sentado em um balanço decrépito. Assim como sua irmã, ele não sorria, apenas apertava com a mão firme o que eu supus ser um pequeno coelho de pelúcia, rasgado e surrado, e encarava a câmera.

—Nada bom. -Remus disse com urgência, me empurrando sem muita delicadeza para o lado, ele soltou um gemido.

—Que foi agora!?

—Vê esses quadros mais novos? -Ele disse apontado para uma sequência mais à esquerda na parede.

Eu aproximei a luz até ver com distinção os quadros. A mãe, ao que parecia, havia sumido. Já o pai e as duas crianças tinham mudado de uma forma quase inacreditável. Tornaram-se apáticos, de aspecto doente, os bonitos cabelos negros estavam sujos e ralos, os dentes amarelados, a garota perdera o brilho nos olhos enquanto seus dois companheiros mostravam o olhar dos loucos.

A última foto, um pequeno retrato com moldura grosseira, mostrava apenas o pai e o garoto, agora já um homem, no que parecia ser o leito do patriarca. Eu fechei os olhos tentando afastar tudo aquilo da minha cabeça.

—Eu quero ir embora. -Eu disse em um murmúrio.

—A primeira boa ideia que você tem em sécul... -Ele parou a frase no meio encarando um ponto atrás de mim. Eu ouvi passos e me virei pronta para bater com a barra no que quer que fosse, mas era apenas Tommy.

—Que é isso Thomas? -Remus perguntou com as sobrancelhas franzidas. Eu me pus na ponta dos pés para ver por cima do ombro de Remus o que aquilo se tratava.

Aninhando entre seus braços, Tommy trazia uma pequena bola de pelos.

—Se isso for um rato... -Eu falei com nojo, ele sorriu e me mostrou o que estava em seu colo.

—Claro que tinha de ser um gato. -Eu disse revirando os olhos, mas ao que parece eles estavam dispostos a me ignorar, Remus se aproximou mais de Thomas, encarando o pequeno demoniozinho com um sorriso bobo.

—Como...? -Ele perguntou sem fôlego.

—Ao que parece a mãe veio para cá para ter os filhotes, talvez fugindo do frio. Ele é o único sobrevivente, estava no meio daqueles papéis.

Naquele momento eu podia até mesmo afirmar que gatos eram seres radioativos, imortais, de alma sombria, mas Moony já estava comprado.

—Podemos ficar com ele papai? -Eu disse debochada. Thomas me encarou. -Você é a mamãe Thomas, não se anime.

Remus deu um sorriso de lado, mas se conteve.

—Você vai levá-lo para o Cavern? -Remus perguntou, eu pude notar um tom levemente estridente em sua voz, ele queria o gato.

—Não posso, -Tommy disse baixo. -Tony é alérgico.

O sorriso de Remus iluminou o breu do corredor.

—NÓS PODEMOS FICAR COM ELE!

—Eu não posso ficar com nada, -Eu disse com uma carranca. -Se vira com essa coisa.

—Pietra! -Os dois falaram ao mesmo tempo.

Eu os ignorei e continuei andando pelo corredor. Mas mais cedo do que tarde eu senti o piso ruir sobre meus pés. Eu não me lembro de ter gritado, mas o arranhar no fundo da minha garganta que me acompanhou pela semana seguinte me entregou.

Meus pés logo bateram num chão duro, que minhas mãos reconheceram como terra batida, eu respirei fundo, como se aquele fosse meu primeiro e único fôlego em toda a vida, mas eu me arrependi dessa decisão. O ar de seja lá onde eu tinha caído estava quase palpável, macilento e cheio de pó. Eu tossi com força, ainda segurando com força o pedaço de ferro.

—MINI! MINI VOCÊ TÁ BEM? -O rosto de Thomas apareceu num buraco acima de mim, logo os olhos arregalados de Remus também me encaravam, ele mordia o lábio nervosamente.

Eu tossi mais um pouco e dei um sorriso de lado.

—Não podia estar melhor.

Eles riram, aliviando um pouco o clima.

—Eu vou procurar alguma coisa aqui em cima pra te tirar daí! -Thomas falou saindo de vista.

—Tenta ver se tem alguma corda ou escada aí Wormy. -Remus falou se debruçando mais sobre a borda instável da madeira quebrada, o gato firmemente apertado contra seu peito.

—Claro, -Eu disse apontando a luz para os cantos do buraco onde eu estava. -Se eu criasse uma armadilha mortal dentro da minha casa, eu deixaria uma escada.-Moony riu baixinho.

—Oh. -Eu disse em um murmúrio.

—Que foi? Que você está vendo?

—Chama o Thomas aqui, eu não tenho que subir, vocês que tem que descer. –Eu disse enquanto encarava uma passagem escura que levava pra sabe-se lá onde.

—x-

Notas finais
cooooooooorre pra parte 2.