Raise your glass
10 Capítulo 9-Passagens -parte2.
O caminho era úmido e ainda mais escuro, o que eu até então julgava ser impossível.
Thomas ia na frente, a mão esquerda contra a parede de pedra e o celular na direita; Remus vinha atrás, carregando o gato e lhe fazendo carícias de tempos em tempos; e por fim lá estava eu, tentando me localizar mentalmente dentro daquele túnel estreito.
Quando eu sugeri que os garotos deveriam atravessar a passagem que eu tinha recém-descoberto comigo, ambos ficaram hesitantes e só desceram quando eu disse que “se vocês são muito frouxos para se aventurarem comigo, eu vou sozinha”.
—Você vai acabar morrendo e o Tony vai me matar se ele souber. -Thomas disse passando as pernas pelo buraco e caindo graciosamente do meu lado.
—Ainda bem que eu valho muito para você. -Eu disse batendo em suas costas para tirar um grande rastro de cal e pó.
Foi a vez de Moony descer. Primeiro ele entregou o demônio peludo para Thomas, sendo que todos nós sabemos que ele podia ter arremessado a peste lá de cima e ela estaria ilesa, o que comprova minha teoria de que eles são seres enviados à Terra diretamente por Satã.
Depois ele sentou na borda do buraco, hesitando.
—Por que vocês não podem ser pessoas normais? Sei lá, que gostam de ver filmes comendo pipoca, ler um livro...
—Remus mova essa bunda enorme e reclamona aqui para baixo.
Os pés de Moony balançaram de lá para cá. Thomas deu um passo à frente.
—Pode descer, eu vou te segurar.
Essa foi a primeira vez que eu pensei em Ludo desde o "incidente Sirius", um pequeno desconforto tomou conta do meu coração, mesmo assim eu provoquei Remy.
—Jogue-se nos braços de seu amado, Julieta!
—Nós tínhamos estabelecido que eu era o homem aqui, não tínhamos?
—Justo, se você fosse uma mulher você já estaria aqui embaixo junto comigo, e não aí mimimizando. -Eu disse cruzando os braços, minha paciência chegando ao nível morto. Eu queria saber até onde aquela passagem ia, custasse o que custasse. Remus enfim se deixou cair, gracioso como uma borboleta... com as asas quebradas.
Mas Thomas cumpriu sua parte, e com nenhum esforço aparente, segurou Moony o rodeando com seus longos braços, eles sorriram um para o outro.
Agora nós estávamos andando e minha mente trabalhava como um motorzinho.
—Há quanto tempo nós estamos nessa marcha? -Eu falei mordendo a parte interna da bochecha.
—Tempo demais. -Remus falou suspirando.
—Eu estou falando sério.
—10... 15 minutos. -Thomas respondeu, e prevendo minha próxima pergunta disse. -A parede já mudou de textura duas vezes. -Ele fez uma pausa. -Marcha contínua?
—Sim.
—Talvez uns dois quilômetros?
—Um momento, -Remus falou olhando de mim para Thomas. -De que diabos vocês estão falando?
—O irmão do meu avô era tenente do exército, antes de deserdar pelo menos, -Tommy começou, a lanterna do celular lançando seu feixe de um canto a outro. -Ele ensinou algumas coisas bem legais para nós dois. Marcar marcha e localização por exemplo.
—A menos que eu esteja muito enganada Moony e eu não costumo estar, -Eu consegui praticamente ouvir os olhos de Remus revirando. -Nós estamos logo abaixo da Trilha do Lutador.
Trilha do Lutador era o caminho pavimentado que levava de Hogwarts à Hogsmeade.
Eu vi Remy olhar com descrença para mim, mas ele não se manifestou mais.
Alguns minutos depois, nos quais Moony não se cansava de resmungar e bufar, enquanto Thomas aumentava cada vez mais o ritmo, eu pude notar que o caminho estava em desnível e por isso começamos a subir levemente.
—Eu achava que Sirius e James me colocavam em ciladas, mas vocês excedem as expectativas.
—Moony, você vai me agradecer em breve.
—Que isso quer dizer? -Ele perguntou ácido.
Eu não respondi e nós retomamos nosso entediante caminho silencioso.
De repente Remus parou e eu trombei contra sua estrutura ossuda. Antes que eu reclamasse, notei que ele só tinha parado por que Tommy também parou, eles se moveram um pouco para o lado para eu ver o que se estendia logo a frente.
Basicamente era uma parede, assim como todas as outras, colocada ali para barrar nosso caminho e isso tornaria tudo muito decepcionante se não fosse por uma moldura iluminada no meio do paredão de pedra.
—Uma porta? -Eu perguntei tentando focar mais nas linhas luminosas.
—Uma porta. -Eu não precisava olhar para Thomas para saber que ele estava sorrindo.
Ele deu um passo à frente colocando sua mão contra a parede.
—ESPERA! -Eu gritei enquanto ele empurrava.
Os dois me olharam com olhos arregalados.
—E-Eu acho que sei onde estamos... -Me espremendo entre os dois, eu passei a frente, me colocando de frente para a parede com a porta misteriosa. Sem precisar fazer muita força eu usei a barra de ferro para alavancar a abertura, funcionou. Sem rangidos ou barulhos fantasmagóricos ela se abriu e eu tive um claro vislumbre do corredor Leste do Castelo de Hogwarts eu olhei nervosamente para os lados, mas ninguém estava por perto. Apenas uma estátua de uma velha anciã que eu apelidara de Margô estava bem a nossa frente, eu ouvi Moony emitir um som estrangulado.
—Nós... nós encontramos...
—Sim Remy, nós achamos uma passagem secreta.
Eu usei meu “cajado” enferrujado para puxar a porta de novo, nos enclausurando mais uma vez.
—Não podemos ser vistos. -Eu disse.
—Isso extrapola todos os níveis de exploração. -Thomas estava muito feliz.
—Não podemos contar isso para ninguém, claro, ninguém além de Pads e Prongs. -Remus falou finalmente. Eu olhei curiosa para ele. -Isso é nosso bilhete de saída daqui. Bem mais fácil que roubar o carro do Slug.
—Eu ainda não me conformo que vocês roubaram o carro de um professor.
Eu sorri cúmplice para Moony.
—Você quer dizer que nós vamos fugir com mais frequência Remy? -Eu perguntei provocadora.
—Sabe como é... -Ele disse segurando um braço contra o outro. -Agora eu tenho um motivo para fugir. -Ele olhou de relance para Tommy que parecia um bebê babão.
—Eu venho... aqui... natal... -Ele não conseguia formular frases coerentes, encarando o rosto rosado de Moony, eu lhe dei um tapa forte nas costas. -AI!
—Foco em mim Thomas, você pode se perder no charme de Remus mais tarde.
Os dois coraram.
—No natal eu venho buscar vocês. -Agora ele fazia bem mais sentido. -Vocês querem passar o natal conosco? No Cavern?
—Eu vou falar com os meninos. -Eu disse simplesmente. -Remy te manda uma mensagem sobre isso.
Ele assentiu, um pouco magoado. Eu me virei para Moony.
—Nós vamos sair de uma vez, ok?
Ele concordou, arrumando o gatinho melhor em seu colo.
Eu puxei Thomas para um abraço apertado, eu não queria que ele ficasse chateado.
—Obrigada por tudo. -Eu sussurrei.
—Irmãos estão aí para isso Mini. -Eu senti o ar saindo do meu pulmão de uma vez. Ele tinha dito o que eu tinha ouvido mesmo? Bem, agora não era hora para meus dramas, eu tinha um objetivo a concluir, então eu simplesmente lhe dirigi um sorriso e deixei ele se despedir de Remus.
—Cuide do nosso sobrevivente, huh? -Thomas falou acariciando a barriga rosa do filhote, Remus sorriu a isso.
—Vou cuidar.
Nós três caímos em um silêncio estranho.
—Bom, -Tommy disse depois de alguns segundos. -Acho que é isso...
Foi tudo muito rápido, em um segundo estávamos nós três lá, naquela situação repentinamente desconfortável e no momento seguinte Remus e Thomas estavam se beijando. A iniciativa partiu de Moony, colocando a sua mão livre ao redor do pescoço de Tommy e o puxando para si. A mão esquerda de Thomas não demorou para se perder nos cabelos castanho-avermelhados de Remus, a mão direita em sua cintura, trazendo-o para mais perto.
Eles enfim se separaram, olhando com sorrisos de lado um para o outro, eu fingi tossir.
—Então... -Eu fiz uma cara de "uou! Isso é muito estranho para mim, vamos embora!" E os dois entenderam.
Tentando expulsar a imagem do beijo do meu cérebro eu alavanquei a porta mais uma vez, e me certificando novamente que ninguém estava no por perto, entreguei a barra para Thomas e saí com rapidez para o corredor iluminado, Remus demorou alguns segundos, mas logo saiu também, nós usamos nosso peso para empurrar a porta para seu lugar de origem.
—Eu disse que você ia me agradecer. -Eu falei para Remus e ele retribuiu com um sorriso sonhador.
—X-
Nós estávamos no dormitório dos garotos, sentados na cama de Remus com as cópias das plantas originais de Hogwarts em nossos colos.
—Você acha que eles acrescentaram depois que o projeto já estava feito? -Eu perguntei colocando um grande pergaminho contra a luz. Definitivamente o corredor secreto não estava desenhado ali.
—Duvido muito, acho que aquele corredor sempre foi pra ser o que ele é. Um segredo. -Ele olhou para algum ponto acima de nós por vários segundos, roendo suas unhas já curtas demais. -Wormy, se você tivesse um enorme castelo todo para você e seus três amigos, quantas passagens de emergência você faria?
Eu entendi onde ele queria chegar.
—Com certeza mais do que uma.
—Tá aí, eu faria mais que uma também.
Eu encarei o pergaminho mais uma vez, era enorme e tinha um daquele para cada andar. Consegui-los por um dia já foi um inferno. Srta. Peincè, a velha da biblioteca nos fez assinar mil comprovantes de responsabilidade, nos fez responder várias vezes para qual aula precisávamos daquele material ao que nós respondíamos em uníssono "Geometria, Srta. Peincè" e nos fez prometer que devolveríamos o material ao cair da noite, sob pena dela mandar Filch atrás de nós.
—Nós dois nunca vamos conseguir achar outra. -Eu falei sem esperança.
Ele ponderou aquilo por um segundo.
—Eu sei quem pode nos ajudar.
E como numa prova olímpica de nado sincronizado, Sirius e James entraram no quarto.
—Onde vocês estavam?! -Prongs perguntou jogando diversas sacolas e caixas em cima da sua cama.
—Nós trombamos com o príncipe encantado no caminho, ele está lá no Três Vassouras com todos aqueles admiradores dele. -Sirius falou mordendo um alcaçuz enorme. Eu decidi ignorar o comentário, Moony fez o mesmo.
—Nós entramos na Casa dos Gritos. -Remus falou como se não fosse nada demais. Sirius engasgou com seu doce, Prongs parou de mexer em suas sacolas e nos encarou com a boca semiaberta.
—E descobrimos uma passagem secreta que leva da Casa até o corredor Leste.
Padfoot tinha lágrimas nos olhos devido ao engasgo, ele agora dava soquinhos em seu peito, tentando desesperadamente falar alguma coisa.
—Vocês precisam me levar lá agora. -Prongs falou com um sorriso maníaco, os olhos brilhando.
—Você é engraçado James, -Eu disse o encarando. -Nada de "vocês estão mentindo", ou "isso é uma brincadeira?"
—Vocês são meus amigos, por que mentiriam?
—Touché. -Moony falou ao meu lado, eu concordei com ele.
Quando Sirius finalmente recuperou o ar, o rosto vermelho ele apontou para o canto do quarto, se contorcendo de raiva.
—O QUE É AQUILO?!
Ao que parece eu não era a única que odiava gatos.
—x-
Estávamos parados perto da estátua de Margô, Remus mexia nervosamente em sua bolsa estilo carteiro marrom, onde o gato estava.
Moony era um ser tão incerto das coisas que o gato por enquanto chamava-se "gato", simplesmente.
Eu e Sirius estávamos sentados no chão, um do lado do outro batendo nossas botas uma contra a outra para tentar fazer o tempo passar. Alguns segundos depois James voltou de sua ronda. Desde que nós encontramos mais algumas passagens dentro de Hogwarts nossas rondas “anti-Filch” se tornaram muito mais eficientes. Nós podíamos, por exemplo, entrar numa pequena porta de ferro nas estufas e sair bem no meio do calor das fornalhas; podíamos ir da sala do Flit até a do Slug em apenas alguns passos graças a um corredor alternativo que ficava atrás de outra estátua. Depois que Padfoot e Prongs se uniram a nossa jornada, nós encontramos mais quatro atalhos internos. Infelizmente, a passagem da Margô era a única que nos levava para fora.
—Ninguém ainda. -Ele disse parando ao lado de Remus. Aquilo não era uma grande novidade, era véspera de Natal, quase ninguém ficava em Hogwarts nessa época do ano, já que podiam passar os feriados com os familiares, o que era uma coisa positiva, exceto para mim e Pads.
Prongs notou a frágil situação de Sirius logo no primeiro ano, ficando com ele em Hogwarts desde então, não demorou para Moony fazer o mesmo, eu fui a quarta aquisição aos Marotos então aqui estávamos nós.
E agora eu teria o meu primeiro Natal decente desde... bem, fazia muito tempo.
—Se McBoo nos pegar... -Eu disse deixando a frase morrer no ar, eu não estava preocupada para valer, mas era uma sensação gratificante ver Moony ainda mais nervoso.
James olhou para Remus que agora segurava Gato em seu colo, a perna se mexendo sem parar. Prongs me dirigiu um olhar reprovador e colocou uma mão no ombro de Moony.
—Vai dar tudo certo. -Disse sorrindo.
—E se Wormy estiver certa? E se formos mesmo pegos!?
—Pegos pelo que Moony? Ficar perto da estátua da Margô?
—Admitam, eu dou nomes ótimos para estátuas. -Eu disse, mas fui ignorada.
—Podemos ser expulsos.
—Você está problematizando. Ninguém sabe da passagem. -Era verdade, quando nós finalmente conseguimos fazer Sirius se acalmar por causa do Gato (Remus teve de prometer que a coisa nunca chegaria a menos de 5 metros dele e que Pads nunca teria que cuidar/limpar/dar carinho) nós levamos eles para o corredor Leste.
Nossa próxima semana se resumiu em descobrir se alguém conhecia aquela ou qualquer uma das outras passagens, desde alunos até a própria McBoo.
Remus agarrou uma barra de chocolate dentro de sua bolsa e enfiou uma quantidade enorme na boca.
—Me dá...
—NÃO!
Nós caímos em silêncio de novo e eu voltei a fazer o que estava fazendo desde o começo, nada.
—Seu namorado não te mandou mensagem não? -Sirius perguntou finalmente, uma sobrancelha arqueada.
—Ele não é meu namorado. -Remus resmungou mas olhou seu celular mesmo assim. -Oh.
—Oh? -Nós três indagamos em uníssono.
—Ele já deve estar chegando.
Menos de um minuto depois ouvimos três batidas metálicas vindas do outro lado da parede. Nós quatro olhamos a nossa volta procurando por alguém e atestando que tudo continuava vazio, respondemos com mais três batidas. A parede se abriu a nossa frente e um sorridente Tommy apareceu do outro lado.
—Feliz natal! -Ele usava um chapéu vermelho de papai Noel daqueles com pompom branco na ponta e tudo. Isso em contraste com o pé-de-cabra reluzente em sua mão dava a cena um ar macabro.
—Madame Rosmerta nos deu um estoque quase inesgotável de cerveja amanteigada! -Ele disse levantando um cooler amarelo e verde com um enorme sorriso no rosto.
—Nós estamos indo para um bar e você está levando a cerveja? -James falou com um meio sorriso, Thomas deu de ombros. -Gostei do seu estilo. -James concluiu entrando na passagem.
Sirius fez um maneio de cabeça, cumprimentando Tommy e foi atrás de Prongs sem dizer mais uma palavra.
Eu me estiquei para poder abraçar um Tommy vinte e um centímetros maior que eu, sentindo seu cheiro característico de fumaça do bar e o perfume cítrico que Tony comprava para ele; eu puxei o gorro e coloquei na minha cabeça.
—EI!
—Eu fico mais bonita com ele. -Eu disse com um sorriso, indo atrás dos meninos.
Eu não me virei para saber como Remus e Thomas se cumprimentaram e também não deixei Sirius olhar. Seja lá o que eles estavam fazendo era assunto deles, de mais ninguém. Mas isso não impediu que ele falasse um pouco alto de mais um "Arrumem um quarto!"
—Você não presta. -Eu falei para Sirius emanando ondas de falsa raiva pelo corredor. A verdade é que eu também não era a pessoa mais feliz pela relação entre os dois, mas isso não cabia ao meu julgamento, eu não tinha nada a ver com aquilo, Sirius também.
—Eles não podem simplesmente... -Ele começou cochichando e eu o interrompi.
—Simplesmente o que? Namorar? Ficar? Ter uma relação qualquer? Sirius, por favor...
Ele entendeu onde eu queria chegar e nós permanecemos o resto do caminho em silêncio, que foi apenas cortado pelos miados do Gato e por uma interjeição de surpresa quando eu me aproximei dele colocando meu braço ao redor de sua cintura, eu e ele tínhamos essa coisa que nos impedia de tocar nos outros com a mesma frequência que as outras pessoas. Eu duvido que a casa dos Black fosse um lugar que você pudesse chamar de acolhedor, e por muitos anos a casa Bouler também não foi.
Nós andamos abraçados até chegarmos ao buraco na Casa dos Gritos, que agora estava estrategicamente guarnecido de uma escada. Eu apertei minha bolsa mais forte nas minhas costas e me icei para cima. No fim da escada a mão calosa de Prongs me pôs de pé, eu bati o pó das pernas e esperei os meninos subirem.
Logo nós estávamos a caminho da velha Kombi verde de Tony.
Thomas corou quando Sirius riu escandaloso ao ver nosso transporte.
—Sabe como é. -Ele disse coçando a nuca.
—Ela é bem... charmosa. -Remus disse mordendo o lábio inferior.
Quando crianças, eu e Thomas apelidamos aquela joça de Tétano. Detalhes adicionais a isso são completamente redundantes.
—Bem garotos, espero que vocês estejam com as vacinas em dia. -Eu disse fazendo força no canto da porta e elevando ela levemente para a esquerda, um macete antigo que fazia a porta abrir sem grandes esforços. Tommy me deu um sorriso de lado ao ver a porta deslizando. -É como andar de bicicleta, a gente não esquece.
Prongs foi o primeiro a subir, sua mala era a maior de todas e eu tinha a leve impressão que ele estava carregando suprimentos para um mês em um apocalipse zumbi.
—Nunca se sabe. -Ele disse quando eu perguntei o porquê de tudo aquilo.
A verdade é que eu tinha certeza que Sirius e James estavam aprontando alguma coisa desde que Aleron lhes contou o segredo do século na Zonko's dias atrás.
Ao que tudo indicava, Hogwarts ia receber pela primeira vez em cinquenta anos o Torneio Intercolégios.
Aleron disse aos dois que viu a última edição, e que quando um garoto se perdeu nos jardins durante a última prova e foi encontrado apenas dois dias depois, a organização decidiu dar uma pausa no Torneio, uma pausa de meio século. Mas, segundo fontes confiáveis (que eu tenho certeza ser algum bêbado do Três Vassouras), o Torneio estava de volta e agora muito mais seguro.
Segundo Aleron, três colégios vão participar da competição. Hogwarts era obviamente um deles, mas ele não sabia dizer quais eram os outros.
"Vocês vão descobrir tudo na reunião de pais e mestres", ele disse aos meninos.
Pensando nisso ao entrar no Tétano eu chamei a atenção de Tommy que se colocava atrás do volante, um tímido Moony que segurava com força a barra da sua blusa de mangas muito compridas estava ao seu lado.
—Hey Tommy, você acha que Tony pode se passar por meu avô ou algo assim lá em Hogwarts?
Um silêncio mortal se abateu sobre o carro, só então eu notei os olhares de condescendência que Moony e Thomas me dirigiam pelo retrovisor.
Eu me senti com seis anos mais uma vez.
—Foi uma ideia idiota... -Eu disse olhando para minhas botas.
—Talvez funcione se nós... -Remus começou, mas eu o cortei.
—Esquece isso, Remus. -Eu disse bruscamente. Eu não queria parecer rude, mas eu também não queria mais falar sobre isso.
—E aí, rola uma música ou eu vou ter que cantar pra vocês? -Sirius falou logo em seguida, cortando o assunto com a mesma rapidez com que tinha começado. Eu me senti muito aliviada.
—SING US A SONG, YOU'RE THE PIANO MAN! -Padfoot começou a plenos pulmões, mexendo os braços furiosamente. James então, que estava sentado no conjunto de bancos atrás de nós se projetou para frente colocando sua mão sobre a boca de Sirius.
—Rápido! -Ele gritou tentando segurar um Pads que ainda cantava e se debatia contra sua mão. -EU NÃO VOU CONSEGUIR SEGURÁ-LO POR MUITO TEMPO!
Thomas, como sempre quando estava sobre pressão, se atrapalhou com os botões e peças faltando do rádio, mas antes que Sirius voltasse a gritar como uma gralha, o som começou a ecoar levemente.
—AH! -Prongs gritou tirando a mão de perto de Padfoot. -VOCÊ ME MORDEU?!
—Talvez. -Sirius falou com um sorriso de lado, passando a mão pelos cabelos muito pretos. -Você não pode simplesmente tocar esses lábios e sair impune.
—Babaca.
—Otário.
—Esperem aí. -Eu disse me virando para eles enquanto Thomas tentava a todo custo dar partida no carro. -Esses são seus melhores xingamentos?
Os dois se entreolharam, acenando timidamente em seguida.
—Meus pais são bem religiosos.
—Meus pais se acham aristocratas.
—Ugh. Vocês têm muito a aprender. -Eu disse sorrindo para eles.
—Ah, e você é exatamente o que? Uma especialista? -Sirius perguntou arqueando uma sobrancelha.
—Quase isso. Ser filha de pai marinheiro e viver dentro de um bar não te tornam exatamente uma dama puritana.
—Não culpe o Cavern por isso, você já era um monstrinho quando foi para lá. -Thomas falou sorrindo pelo retrovisor.
Eu concordei veementemente sorrindo de volta.
—Touché.
—Eu preciso de um bordão novo. -Remus disse. Foi o suficiente para ver a mão de Thomas deixando o volante por um segundo e se dirigindo a perna de Remus. Eu olhei quase que por instinto para Padfoot. Ele estava cor de cereja, os punhos cerrados.
Mais uma vez James se projetou para frente sussurrando algo no ouvido do amigo. Eu não consegui entender tudo que ele disse, graças ao maravilhoso motor 1964 do Tétano, mas eu entendi o contexto geral.
"Padfoot... Não... Sua propriedade... Babaca..."
Ao que parece, James não era tão tapado para assuntos amorosos quanto parecia.
Ele sabia sobre Remy desde... Bem, desde antes do próprio Remus saber e ao que parece sabia sobre "momento Moony" tão bem quanto eu. Pensando bem, fazia sentido. James estava vinte e quatro horas por dia lado a lado com Sirius pelos últimos quatros anos, eu não podia esperar nada menos que uma conexão que transcendesse a compreensão comum.
Eu me apressei a retomar o rumo da conversa.
—Como eu dizia, você deve começar pelo remetente. A quem seu xingamento se dirige? -Eu perguntei olhando para os dois, esperançosa que aquilo aliviasse o clima.
Sirius apenas murmurou, os braços cruzados. Mas Prongs, após pensar por um momento, o cenho franzido, o indicador batendo contra a armação dos óculos bem na ponte do nariz, exclamou.
—MALFOY!
—Oh, -Eu disse com um sorriso malicioso. -Isso vai ser bom. Podemos começar por exemplo com "chupador de rola".
—Não que isso seja de todo ruim. -Thomas falou dando de ombros. Um momento de silêncio se seguiu enquanto todos assimilavam o que ele disse e então uma risada histérica escapou de mim.
Todos começaram a rir, mesmo um mais-que-envergonhado Remy e o clima na Kombi melhorou.
Quando eu parei de rir eu voltei ao raciocínio.
—Bom, mesmo com a pequena interrupção, -Eu vi Tommy sorrindo pelo retrovisor. Ele adorava a ideia se provocar a alegria dos outros. -Nós podemos continuar. Você pode também partir para os xingamentos com a senhora Malfoy.
—Uh, -Thomas falou animado lá da frente. -Esses são especiais.
Eu concordei.
—Vamos fazer um jogo. -Eu disse me virando para Prongs e Pads. -Eu começo, sim? -Eu imaginei a mãe de Lucius e ele bem na minha frente. Um arrepio de excitação passou pela minha pele. -Tua mãe é tão gorda que ela ficou entalada num buraco negro.
Os garotos riram e foi a vez de Sirius.
—Tua mãe é tão gorda que ela teve que ir até o Sea World pra ser batizada!
Ele e Prongs compartilharam um soco em cumprimento.
—Tua mãe é tão velha que quando Deus falou "e que se faça a luz" ela apertou o interruptor. -Prongs falou depois de pensar um pouco.
—Tua mãe é tão burra que se enroscou num telefone sem fio! -Tommy disse.
Nós continuamos por mais algum tempo, Remus apenas ria das nossas caras e ficava vermelho com as piadas mais pesadas.
—Remy, -Eu chamei. Ele me encarou pelo retrovisor. -É sua vez. -Meu rosto se contorceu num sorriso afetado.
—Oh. -Ele estava com os olhos arregalados, procurando algum amparo.
—Sim Moony. Você não pode simplesmente passar em branco por essa! -Prongs ressaltou, eu concordei com ele.
—Eu não... -Moons começou mas a voz áspera de Sirius o cortou.
—De uma vez, como band-aid.
Eu olhei para Sirius, ele parecia mais alegre desde que eu e Prongs começamos a tentar animá-lo com todas as nossas forças. Isso era uma coisa engraçada em Padfoot, para quem não conhecia os Marotos, um olhar bastaria para dizer que o badboy Sirius Black era aquele tipo de garoto inabalável. Mas... quando você o conhecia de verdade, era claro que ele estava quebrado.
Eu não consigo pensar em uma palavra melhor, "quebrado" resumia os fatos.
James sabia disso, Remus sabia disso, eu sabia disso. Mais ninguém. Talvez Regulus também soubesse, mas ele não parecia se importar, o que, de uma forma ou outra, era pior.
Moony respirou fundo.
—Tua mãe é tão velha que quando você chupava os peitos dela, saia leite em pó.
Eu consigo me lembrar de poucos momentos que eu ri tento na minha vida. Os meninos no Tétano eram responsáveis pela maioria dos meus bons momentos, aqueles que fazem a pena continuar vivendo.
Eles e Ludo.
Pensar em Ludo era um misto de frio na barriga e pontada no peito. Eu queria ele ali, eu queria que ele entendesse.
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