Raise your glass
3 Capítulo 3-Superiores
Notas iniciais
Acordei sobressaltada, respirando rápido. Pesadelos estavam longe de serem incomuns quando se tratava da minha pessoa. Eu corri as mãos pelo rosto e encarei o quarto.
Um raio de sol, ainda pálido, entrava por uma fresta na janela. O quarto estava silencioso, apenas os sons suaves da respiração das meninas e o ronronar do gato de Alice. Eu não gostava dele, não exclusivamente óbvio, era um problema geral com todos os gatos.
Hogwarts permitia que nós tivéssemos um animal de estimação.
"Ajuda na adaptação." Eles diziam aos pais quando nós chegávamos ao primeiro ano. Quer queira, quer não, ficar sete anos dentro de um colégio, voltando para casa apenas para férias e feriados de final de ano, pode ser uma experiência traumática. Então nós podíamos ter um bichinho, mas eu não tinha nenhum, mesmo sempre sonhando com uma coruja, qualquer pássaro serviria na verdade, mas eu sabia que corujas não precisam ou podem ser presas. Sim, é piegas e arcaico, mas eu gosto de pensar na liberdade dos pássaros, gosto de vê-los voando, então eu sonhava com a minha coruja enquanto tentava driblar os ataques surpresas do Trevo, o gato da Alice.
—Hm, -Molly resmungou esfregando os olhos, os cabelos armados e sedosos fazendo uma coroa ao redor de sua cabeça, e caindo como uma cascata em seus ombros. Eu pensei nos meus cabelos pretos, ressecados. Uma pequena pontada de inveja corroendo meu corpo.
—Bom dia, querida.-Molly disse sentando-se, ainda sonolenta.
—'Dia Molly. -Eu disse me levantando e andando até os armários.
—Muito, muito cedo. -Eu ouvi Alice resmungar jogando as cobertas por cima da cabeça.
—Bom dia para você também, Alice. -Eu disse rindo e agarrando um suéter cinza que estava velho e não muito bonito, mas era confortável. Nessa altura da vida eu já não me importava com o que achavam das minhas roupas.
Alice apenas murmurou enquanto Trevo pulava em sua cama e se aninhava nela.
—É domingo. -Lily disse com o cenho franzido. -Pra que tanto barulho?
—Todas muito educadas por aqui como você pode notar Molly.
Ela sorriu, o sorriso de Molly era suave, e todos os seus trejeitos e gestos a faziam parecer com uma mãe muito cuidadosa, coisa que ela deixava claro ser de seu agrado ao declarar para quem quisesse ouvir que ela queria pelo menos 5 filhos. Assustador, eu sei, mas o namorado dela, Arthur, parecia achar a coisa mais legal que poderia acontecer com ele. Adultos em corpos de jovens, é o que eles pareciam.
—Me sinto em um zoológico. -Ela disse.
Eu continuei arrumando minha roupa quando, de repente, Lily se sentou em um pulo.
—QUE DIA É HOJE?
Molly se virou para ela assustada, enquanto eu tentava fazer com que a sola da minha bota não saísse completamente.
—Domingo. -Eu disse entredentes enquanto apertava os cadarços da bota. -Você mesmo disse.
—DO MÊS, BOULER! O DIA DO MÊS!
—Eeeei. -Eu disse levantando os braços. -Vamos nos acalmando.
—27. -Molly disse com o celular em mãos.
—HOGSMEADE! -Lily disse simplesmente. Em um segundo as cobertas de Alice já estavam no chão e Trevo pulava para longe, assustado.
—HOJE?! -Alice perguntou com um sorriso que cobria todo o seu rosto rosado, os olhos caramelo brilhando de alegria e os cabelos curtos e pretos espetados para todos os lados.
Lily concordou com a cabeça.
Nos minutos que se seguiram eu vi as garotas correndo animadas pelo quarto, experimentando roupas diferentes, arrumando os cabelos e colocando maquiagem enquanto conversavam rápida e excitadamente. Hogsmeade era o vilarejo em que Hogwarts estava inserido, em algumas datas especiais os alunos a partir do terceiro ano podiam passear por lá, fazer compras no Zonko's, loja de travessuras ou na Dedosdemel, uma das melhores lojas de doces da Grã-Bretanha e ir no Três Vassouras, um bar antigo que era o mais próximo que tínhamos de um pub, além de ser um dia fora do colégio. Apenas que está a anos em um colégio interno sabe a alegria de passar um dia o mais longe possível disso.
Óbvio que todos esses dados eu sei pelo que as garotas me contaram, eu nunca fui até Hogsmeade; e não foi por falta de insistência de Molly, ela sempre pergunta se eu não vou. E quando eu digo que não, Alice sempre quer saber o porquê. E ela sempre recebe olhares reprovadores de Evans e Prewett. Diferentemente de Alice, elas sempre respeitaram meu jeito de nunca contar nada a ninguém.
Eu não culpo Alice, entretanto, conviver quatro anos com uma pessoa sabendo pouco mais que apenas seu nome?
Eu ficaria curiosa também.
—Pietra, -Molly começou, quando as garotas terminaram de se arrumar, mas eu cortei-a.
—Divirtam-se, vejo vocês no jantar.
As três assentiram e saíram do dormitório conversando.
Eu deitei na cama mais uma vez, encarando as treliças da cama de Lily. Eu peguei meu walkman na cômoda ao meu lado e dei play. Era uma fita de David Bowie que tocava suavemente.
Enquanto Space Oddity ressoava nos meus ouvidos, eu me lembrava dos meus anos antes de Hogwarts. Eu tentava ao máximo não pensar sobre isso, mas era algo recorrente quando estava sozinha o que era basicamente o tempo todo.
Eu decidi ir tomar café, antes que os pensamentos me dominassem, aproveitar que os alunos tinham ido até Hogsmeade e passar um tempo perto do lago. Ir até a biblioteca seria uma boa ideia também, eu passava quase todas os horários vagos na biblioteca e mesmo assim todas as minhas lições estavam atrasadas, eu devia parar de ler todos os livros interessantes que eu achasse nas prateleiras e usar os livros que eu realmente precisava para as aulas. Eu peguei minha bolsa, um pedaço de couro surrado que se colocava a tiracolo e joguei o walkman lá dentro, agarrei mais uma fita, uma blusa e o livro que eu estava lendo e rumei para o Grande Salão.
Andar pelo castelo semivazio era uma sensação um pouco desconcertante, os primeiros e segundanistas andavam em grupos grandes e fechados, sempre cochichando.
Eu encarava cada pedacinho de Hogwarts com a mesma admiração do meu primeiro dia no colégio. As paredes gigantes, os quadros, as esculturas, tudo parecia planejado nos mínimos detalhes e diziam que foi mesmo. Os fundadores da escola eram quatro dos mais importantes senhores feudais dos reinos anglos saxões. Godric Gryffindor, Salazar Slytherin, Helga Hufflepuff e Rowena Ravenclaw que se uniram com o objetivo de aproximar as relações entre seus territórios. Treinando os futuros cavaleiros e vassalos mais importantes, além, claro, dos filhos da nobreza. Cada um fundou uma Casa baseando-se nos valores que eram mais apreciados por suas linhagens, rezam as lendas que na era de ouro de Hogwarts os jovens do primeiro ano realizavam uma série de desafios e provas para saber em que Casa estariam; hoje em dia, entretanto, nós fazemos uma entrevista com o Sr. S. Hat, um velho decrépito cuja pele parece feita de couro. Ele nos faz algumas perguntas, nos faz pensar em algumas palavras, olhar umas imagens e voilà! Os próximos 7 anos da sua vida e as pessoas que o passarão com você acabam de ser decididos por um homem que não conseguiria diferenciar uma lontra de um suricato.
Por mais que eu reclame, eu gostei da escolha da minha Casa, mesmo que eu não me veja em nenhuma das qualidades de um grifino. Coragem, companheirismo, ousadia, bravura, cavalheirismo, pés no chão e coisas do tipo. Mas até aí, eu também não me vejo em qualquer outra Casa.
Justos e leais são os alunos da Lufa-Lufa, inteligência e perspicácia definem os corvinos, já os sonserinos são ambiciosos e astutos.
Tudo lindo no papel, já na vida real eu não me vejo em nada disso, então estar em uma Casa é lucro.
Eu cheguei nas portas do Grande Salão, o castelo tinha um pé direito tão alto, que o teto do Salão parecia ser, para mim, infinito. Os afrescos retratando o céu camponês da Inglaterra no teto mantinham essa ideia. Tudo ali era impossivelmente bonito, eu sempre tirava um momento ou dois para tentar descobrir algo novo nas pinturas, esculturas e nos objetos espalhados pelo espaço. Quatro anos no colégio e eu nunca me decepcionava, hoje não foi diferente, eu encarei uma estátua de mármore que ladeava a mesa da Grifinória, ela retratava um antigo lorde ou algo assim, a placa em seu pé era muito gasta e eu só conseguia distinguir a palavra Nicolas, então eu apelidei a estátua de Nick, sua roupa era pomposa e ele sorria abertamente, era a única imagem por ali que sorria. Pela primeira vez eu notei uma fina linha que cortava quase todo o pescoço da estátua, faltando apenas um pequeno pedaço em que o mármore estava intacto.
—Essa foi por "quase" não é, Nick? -Eu sussurrei, com um sorriso e andei até os alunos que se aglomeravam em um dos cantos da mesa.
Só quando eu já estava bem próxima deles que eu notei que um grupo anormalmente barulhento não era formado pelos segundanistas. Era James Potter gritando com todos os outros.
—BAGMAN! -Ele chamou um garoto um ano mais velho que nós. -Se você colocar esse bolinho na sua boca eu vou fazer você cuspir, VOCÊ ME OUVIU?!
Eu vi Ludo colocando o bolinho de chocolate de volta no prato, tristonho, logo depois ele dirigiu um olhar de desgosto a Potter.
—SIRIUS! -Potter continuou, se virando para Sirius que estava exatamente ao lado dele. -É melhor você se mexer e começar a comer alguma coisa antes que eu enfie um pedaço de pão pela sua goela!
—Prongs. -Sirius falou muito calmamente, com as mãos nas têmporas. -Se você não sentar nesse exato momento essa sua bunda ridícula no banco e calar a porra da sua boca, eu vou te afogar no suco de laranja, estamos entendidos?
James abriu a boca inconformado, ele olhou para os lados rapidamente e todos o encaravam com um sorriso disfarçado. Ele tentou falar alguma coisa ao que Sirius apenas respondeu com o gesto de um zíper sobre a boca. James se sentou, vermelho.
Alguns segundos se passaram em profundo silêncio até que eu notei um movimento leve no canto da mesa, Potter também percebeu.
—LUDO BAGMAN! -Ele falou se levantando mais uma vez, as mãos espalmadas no tampo de madeira, ele se levantou tão rápido que teve que agarrar seus óculos antes que esses caíssem no pudim. -O QUE EU FALEI SOBRE BOLINHOS?! -Ele continuou quando conseguiu recolocar os óculos.
O rosto de Ludo se contorceu em uma careta chorosa. E toda a gritaria de James recomeçou enquanto Sirius jogava os braços para o alto xingando.
Por um momento eu pensei em dar meia volta e sentar no outro canto da mesa. Mas eu vi que, de frente para Sirius, Remus estava sentado com fones de ouvido, remexendo seus ovos mexidos. Eu pestanejei, pensando no conforto de sentar-me sozinha. "Não se engane Pietra", meu Eu interior meu disse, "aquilo não é conforto, é solidão." Eu dei mais um passo em direção a mesa e parei mais uma vez. Será que eu iria incomodar os garotos?
"Você não tem como saber até tentar."
Eu caminhei até a mesa e me sentei ao lado de Lupin, ele logo tirou os fones com um largo sorriso no rosto, eu sorri junto.
—Bom dia. -Ele disse.
—Bom dia. Potter acordou animado hoje, huh?
—Ele fica assim antes dos jogos. -Remus disse suspirando. -É um inferno.
—Dumbledore não tinha cancelado os jogos esse ano? -A exceção de Lupin, todos os garotos que estavam ali eram do time de futebol da Grifinória.
—Ele permitiu alguns amistosos quando Prongs apareceu na sala dele chorando. -James era o capitão do time e levava os jogos mais a sério do que seria aconselhável para uma vida saudável.
—Moony! -James falou se sentando mais uma vez. -Eu ouvi isso.
—Dumbledore permitiu alguns amistosos quando Prongs, muito emocionadamente, pediu que os jogos não fossem cancelados. -Remus falou revirando os olhos.
—Bem melhor. -James falou.
—E quando é o próximo? -Eu perguntei.
—Terça. -Ludo falou. -E aí eu poderei comer meus bolinhos em paz! -O menino emendou encarando James.
—Blábláblá, Ludo. Eu estou zelando pela sua saúde.
—Você está zelando pela saúde do único zagueiro decente que você tem. -Ludo falou rancoroso.
—Dá na mesma.
—EI! -Gideon gritou da ponta da mesa. -Eu também sou um ótimo zagueiro! -Gid e Fabian, seu irmão gêmeo, eram do segundo ano, os dois eram enormes, gigantes mesmo, eles eram os irmãos mais novos de Molly, mas eram facilmente 20 centímetros maiores que ela.
—E eu sou melhor que vocês dois! -Gritou Fab.
—ISSO É O QUE VOCÊS PENSAM, SEUS TROGLODITAS! -Ludo se levantou, apontando um dedo para os garotos, era quase cômico dado que Ludo era quase um anão perto dos gêmeos.
—Você quer sair daqui? -Lupin perguntou em um sussurro, claramente preocupado comigo.
—Você tá louco?! -Eu disse gargalhando. -Isso é ótimo.
Remus arqueou as sobrancelhas me observando e então ele sorriu, sacudindo a cabeça.
—Se você diz. -Ele recolocou os fones.
—QUER SABER? EU ESTOU CANSADO DE VOCÊS INGRATOS RECLAMANDO SEM PARAR! -James estava de volta na discussão, suponho que ele não aguentaria ficar em uma gritaria geral sem ser o centro de tudo.
—ESSES GORILAS RUIVOS SÃO O PROBLEMA! -Ludo gritou, também se colocando de pé.
Um segundo depois eu vi Sirius se levantar, as mãos nos bolsos, cabeça baixa.
Eu cutuquei Remus.
—Huh? -Eu apontei Sirius saindo do Grande Salão com a cabeça.
Remus suspirou alto.
—Ele odeia manhãs.
—Notei.
—Você tem certeza que vai ficar aí? Eu vou ver como o Sirius está.
—Pode ir, eu quero ver até onde isso vai até a McGonagall chegar.
—Me encontra nas arquibancadas mais tarde, -Ele disse dando uma última garfada e se levantando. Ele teve que falar mais alto a última parte por que James gritava freneticamente "NÃO SE MACHUQUEM ANTES DO JOGO!" -Os garotos vão treinar e nós podemos conversar!
—Tudo bem! -Eu gritei de volta. -Te vejo lá!
Agora era Bartô Crouch, do sétimo ano, que falava. Eu odiava o jeito frio do garoto.
—Senhores, -Ele disse, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. -Peço que se mantenham civilizados. -Segundo depois de falar isso, o bolinho de chocolate que Ludo tentou comer minutos antes voou, acertando o rosto de Crouch em cheio.
Bagman riu abertamente.
—GOL! -Fab disse de forma infantil. Todos riram da cena, a exceção de Crouch e uma figura que surgiu atrás de Gid.
A figura pigarreou e pouco a pouco, todos pararam de rir, o olhar de surpresa e terror no rosto.
E então Minerva McGonagall, a figura, representante máxima da Grifinória, falou.
—O que exatamente está acontecendo aqui? -Ela disse, com os lábios franzidos. As mãos como as garras de uma águia nos ombros de Gid, que agora exibia um olhar de puro pavor. -Seriam um bando de babuínos bobocas balbuciando em bando? -Uma leve risada escapou os lábios de Fabian, mas ele logo engoliu-a ao receber o olhar reprovador de Minerva.
—Eu obviamente terei que punir os causadores dessa arruaça.
—Professora! -James começou, mas Minerva calou-o com um movimento de mão.
—Então, -Ela continuou. -Quem arremessou o bolinho? -Eu vi Ludo pronto para levantar a mão, e me lembrei de James falando sobre como ele deveria se manter íntegro para o jogo. Eu não era exatamente uma fã do time de futebol, mas perder para as outras Casas também não era minha ideia de diversão.
Sem pensar por mais tempo eu levantei a mão.
—Fui eu professora. -Eu disse. E foi então que os garotos notaram que eu estava ali, todos com os olhos esbugalhados, Ludo com a boca entreaberta me encarando.
—Senhorita Bouler? -McGonagall falou, o rosto fixado em uma expressão completamente incompreensível.
—Mas foi sem querer! Não é mesmo Bartô? -James falou, nervoso. Todas as cabeças se viraram para Crouch, o resto de cobertura de chocolate ainda carimbado em sua bochecha ossuda.
—S-Sim, professora, eu pedi para ela me passar um bolinho e e-ela errou o alvo, só isso. -Ele falou, vermelho como uma cereja.
—E aí nós começamos a rir. -Ludo falou, ele apertava uma mão contra a outra.
Gid e Fab assentiram, sincronizados.
—Escutem aqui, -McGonagall começou. -É melhor os senhores prosseguirem para suas atividades no mais profundo silêncio e que eu não saiba de mais um único fio fora do lugar causado pelos senhores, estamos entendidos? E a quanto a você, senhorita Bouler. -Ela se virou para mim. -Da próxima vez, passe a comida para as pessoas sem arremessar, a senhorita não está em posição de "errar o alvo". -Ela se virou e rumou para fora do Salão, mas antes ela olhou por cima do ombro e me dirigiu um leve sorriso. Eu voltei meu olhar para a mesa apenas para encontrar vários pares de olhos me encarando.
—O. Que. Foi. Isso? -James falou, pausadamente, o olhar dele preso no meu.
—PIETRA! -Ludo falou, se colocando do meu lado e puxando meu rosto, ele depositou um beijo em cada bochecha minha. -Ah, Pietra! Muito obrigado! -Eu afastei meu rosto suavemente de perto dele, me sentindo queimar por dentro. Nunca tantas pessoas juntas me olharam com admiração. Eu não sabia o que fazer.
—De nada...? -Eu falei incerta.
—Mas.... Por que?! -James falou, olhando para Crouch que agora limpava o rosto com um guardanapo.
—Eu sou uma grifina apesar de tudo, não é? -Eu falei tímida. -Dizem que companheirismo é uma de nossas características.
Todos riram e eu sorri para eles.
James coçou a nuca e encarou o time por mais alguns segundos. Depois ele olhou para mim e murmurou "obrigado", ao que eu apenas assenti com a cabeça.
Os garotos terminaram seu café e se dirigiram para o campo. Fab e Gid andavam lado a lado tentando repetir "babuínos bobocas balbuciando em bando" rápido. Às vezes era difícil lembrar que os garotos estavam apenas no segundo ano. Crouch e Bagman também andavam juntos, e eu ouvi Ludo balbuciar um pedido de desculpas.
Enquanto eu pegava minha bolsa notei James do meu lado.
—Er... -Ele começou passando a mão pelo cabelo.
—Não tem de quê, Potter. -Eu o cortei, notando a dificuldade dele. -Você também me ajudou ontem sem ter a mínima obrigação.
—Certo, -Ele disse, ainda tonto. -Você quer vir com a gente para o treino?
—Sim, o Lupin me chamou pra assistir vocês da arquibancada. -Eu disse, passando com ele pelas portas do Salão.
Nós andamos em silêncio até alcançarmos os corredores externos, enormes estruturas de pedra que ladeavam os jardins.
—Então, Bouler...
—Sim?
—Você é, bem, você é companheira de quarto da Evans, né?
Eu sorri. Demorou demais para o assunto tomar esse rumo.
—Sim, eu sou.
—Ah...-Ele disse.
—Potter vamos fazer um trato? -Eu disse tentando conter o riso do jeito do garoto quando se tratava de Lily. -Você é direto comigo, sempre e eu te ajudo fornecendo dados para o "Caso Evans". Que tal?
Ele se virou, um sorriso enorme no rosto, e estendeu a mão para mim, eu apertei.
—Temos um trato. -Ele disse. E então continuou. -Como ela é?
—Seja mais específico Potter.
—Do que ela gosta?
—Além de falar mal de você? -O sorriso dele desmanchou. Eu me senti mal por ter destruído a curta felicidade dele.
—Calma cara, -Eu comecei, um pouco incerta. -Ninguém gastaria tanto tempo falando mal do seu cabelo desarrumado se, no fundo no fundo, não gostasse de você.
—Você acha? -Ele disse, os olhos brilhando.
—É... Claro. -Eu queria encerrar aquele assunto rápido.
Nós continuamos andando até que ele se pronunciou de novo.
—Você acha que meu cabelo é estranho? Eu já tentei mudar, mas ele só fica assim. -Ele sorriu fracamente.
Eu olhei para o cabelo dele, era muito desarrumado mesmo, mas para mim qualquer coisa parece normal.
—Seu cabelo é.... legal. Não se preocupa com essa parte.
—Como assim "com essa parte"?!-Ele disse com os olhos esbugalhados. -Com o que eu tenho que me preocupar então?!
—Olha o Lupin ali. -Eu disse acenando para Remus na arquibancada. E me afastando rapidamente do Potter. -Falo com você mais tarde!
—BOULER! -James gritou, mas eu apenas fiz o símbolo da paz com os dedos e fui para onde Lupin estava.
—Eu saio por 10 minutos, -Ele falou quando eu me aproximei. -E você se torna a nova redentora da Grifinória?
—Sabe como é, eu tenho essa necessidade profunda de salvar o dia.
—O nome é "Complexo de messias".
—Nerd.
—Touché. -Ele sorriu, puxando os fones de ouvido e me entregando um, eu aceitei de bom grado. Diferentemente de Sirius ou James, eu conversava com Lupin antes da operação Nightshade, ele era minha dupla nas aulas da McGonagall, além de ter me ajudado com geometria no segundo ano. Desde então nós conversávamos pelos corredores e trocávamos piadas idiotas.
Sex Pistols tocava alto, eu encarei Remus incrédula. O garoto usando cardigãs e calça cáqui com alparcatas ouvia Sex Pistols?! Ele ignorou meu olhar inquisitivo cantarolando uma parte da música.
—Eu achava que Sirius era o punk do grupo. -Eu disse, tentando fazer ele falar sobre isso.
—Ele deve isso a mim. Gosto musical duvidável o pobrezinho tinha até me conhecer. -Remus estava com os olhos fixos no celular.
—Minha vida é uma mentira. -Eu falei passando as mãos pelo rosto.
—Basicamente? Sim. -Ele balançou a cabeça sério.
—Quer dizer que todas aquelas bandas nas camisetas do Sirius...?
—Eu o apresentei a cada uma delas.
Eu deixei a música tocar livremente enquanto encarava o campo. Ao que parecia, James ficava mil vezes mais irritado em campo do que no Grande Salão.
—VOCÊ TEM QUE PASSAR A BOLA FABIAN SE QUISER QUE O JOGO ACONTEÇA! VOCÊ AO MENOS SABE O QUE É FUTEBOL? -Dirk Cresswell, um garoto do 5º ano, colocou uma mão sobre ombro de James e ele voltou a correr com o resto do time.
Eu fiquei encarando Fab, ele olhava para sua chuteira, cabisbaixo.
—O Potter tem que ser tão babaca? -Eu pensei alto sem ao menos perceber e quando Lupin falou eu me assustei.
—Depois de três anos, todos se acostumaram com o jeito dele. -Ele disse calmamente. -É irritante, e ele se importa demais com isso, mas é um bom líder, apesar de tudo e esses garotos amam ganhar. James sabe como fazê-los ganhar. -Eu bufei, mas antes que respondesse, Lupin fez uma mesura com a cabeça. -Veja por si própria.
De forma agilíssima, Sirius subiu nas costas de Fab, que agora corria gargalhando pelo campo carregando o moreno. Ao ver a cena James abriu a boca, no que eu pude deduzir ser o começo de um sermão, mas ele desistiu, vendo a felicidade dos garotos. Agora Sirius gritava "Mais rápido Fab! Mais rápido!".
Então James gritou.
—Pausa de 20 minutos, aproveitem!
Dito isso, Gid correu em direção a James e o pegou no colo, como uma noiva. E então foi correndo para perto de Fab e Sirius, James ria abertamente agora. A brincadeira dos quatro transmitia uma alegria contagiante.
—Você estava certo. -Eu completei, contrariada. Remus me dirigiu um olhar que dizia "e quando não estou?" E se encostou na arquibancada, eu me encostei ao lado dele, ainda observando os garotos.
—Sabe, -Eu disse. -Eu também gosto de história. -Remus tirou o fone, me olhando curioso. Eu continuei. -Bem, eu tinha que gastar meu tempo em algum lugar, não é mesmo? Eu encontrei uns livros muito interessantes na biblioteca desde o primeiro ano.... É isso. Remy para de encarar. -Eu disse colocando uma mão na bochecha dele e empurrando seu rosto para cortar o contato.
—Você quer, hm, conversar sobre isso? -Ele disse esperançoso.
—Claro bobão, eu não teria trazido o assunto à tona se não fosse para conversar.
—Tem dias que eu quero falar com os dois sobre a situação dos imigrantes e eles me ignoram!
—Eles não conseguiriam manter uma conversa sobre os imigrantes e o aumento da xenofobia na Europa nem que a média deles dependesse disso. -Ele riu.
—Acho que essa situação relembra muito as crises do começo do século XX...
A conversa durou por muito tempo, muito mais do que toda a interação que eu já tivera com Lupin somada. Diferentemente de em qualquer outra situação, Remus ficava muito expansivo quando falava de direitos sociais, mexendo os braços, passando os dedos pelos cabelos, falando alto, se inflamando. Era engraçado vê-lo irritado, uma vez na vida que seja, para variar. Na maioria, nossos pontos eram convergentes e com frequência ele me perguntava "onde diabos você estava esse tempo todo?!" E eu apenas sorria e dava de ombros, quando na verdade tudo que eu pensava era "bem aqui, mas gastando meu tempo com as pessoas erradas."
Nós continuamos conversando por muito mais tempo até que James gritou.
—É ISSO POR HOJE, VEJO VOCÊS AMANHÃ DEPOIS DAS AULAS!
Todos, à excessão do Potter, resmungaram.
Os garotos andaram pelo campo, até chegarem no banco onde suas coisas estavam apoiadas, Sirius deu um passo e agarrou um squeeze dentro da sua mala, ele apertou perto do rosto, jogando água em tudo, logo depois ele soltou o cabelo que estava preso em um coque, sacudindo o cabelo preto para todos os lados. E tudo que eu conseguia pensar era "Uou".
—Pietra? -Remus me chamou, mas eu não estava prestando atenção o suficiente.-Pietra será que por um segundo você poderia desgrudar seus olhos do corpo de Sirius Black e me responder de forma que você não pareça um zumbi babão?
Eu o encarei, zangada.
—Cala a boca. -Eu disse simplesmente. Ele gargalhou e eu lhe dei um tapa no ombro.
—Não seria estranho, sabe? -Ele disse depois de respirar profundamente.
—O que?
—Ter um crush no Padfoot. Você não seria a primeira nem a última.
—Me dá um motivo pra não te dar um soco agorinha mesmo.
—Eu sou adorável e minha família ficaria muito triste em ver meu lindo rosto machucado.
—Faço isso pela sua mãe então, Remy. -Eu conhecera a mãe de Lupin 3 anos antes, eu estava sentada na antessala de Dumbledore, esperando para ser chamada, depois de ter jogado uma mistura química nas roupas de Narcissa Black, uma das irmãs de Bellatrix e prima de Sirius. Diga-se de passagem o fato que eu sabia perfeitamente que a mistura era inofensiva e que Narcisa tinha ME provocado. Mas Slughorn, nosso professor de química não viu a situação desta forma e portanto eu estava sentada sozinha na antessala, minhas pernas curtas faziam com que eu balançasse meus pés para lá e para cá. Então a porta de Dumbledore se abriu e de lá saiu uma mulher alta, muito branca, com os cabelos castanhos ondulados e uma saia comprida e florida, Remus vinha ao seu lado, quase se escondendo na saia da mãe. Ela me olhou, me deu um sorriso radiante e perguntou se eu era da turma de "Remy", ao que eu apenas assenti, tentando não rir do nome que ela o chamou. Se é que era possível, o sorriso dela se alargou. Então ela perguntou se eu queria uma bala de melancia, ao que eu novamente assenti, ela me entregou a bala, se despediu e saiu pela antessala. Eu nunca mais a vi, mas o "Remy" era eterno.
—Antes que eu me esqueça. -Eu falei apressada antes que os garotos chegassem. -O Sirius está bem?
Remus olhou para o amigo por um momento e então falou.
—Sim, ele só realmente odeia manhãs.
—Ei! -James falou chamando nossa atenção. -Nós só vamos tomar uma ducha e aí podemos ir, ok?
—Tudo bem. -Lupin falou guardando o celular e os fones na sua bolsa, era parecida com a minha, mas muito mais trabalhada.
—Onde vocês vão? -Eu perguntei curiosa.
—Hogsmeade e é "nós" vamos. -James falou fazendo um esforço monstruoso para limpar seus óculos na blusa sintética do time. Sirius me encara impassível.
—Primeiro, eu nunca fui até Hogsmeade e não será hoje. -Eu ignorei o olhar indignado do Potter. -Segundo, me dá isso aqui. -Eu tirei os óculos da mão dele e puxei um lenço da minha bolsa, eu limpei as lentes e devolvi para ele, me levantando.
—Bouler, -James me chamou. -Não nos faça entrar em uma discussão.
—Não tem o que discutir, eu vou até a biblioteca fazer as listas da Mcgoo.
—Vamos logo, se corrermos agora podemos encontrar coisas boas na Zonko's ainda!
—Eu não estou atrasando vocês, em fato são vocês que estão me atrasando.
—Vem conosco Pietra. -Remus disse.
—Deixem ela, -Sirius se pronunciou finalmente, azedo. -Alguém deve ter contado para ela algumas histórias da Casa dos Gritos e ela está com medo de ir até Hogsmeade.
—Querem saber. -Eu sorri forçadamente, algo na atitude de Sirius desde manhã estava me incomodando, aliás, algo na atitude dele desde sempre estava me incomodando. Eu não iria dar esse gosto para ele. -Até que não é uma má ideia.
—Ótimo! -James exclamou e batendo uma mão contra o ombro de Sirius, os dois foram até os vestiários. Ao que me pareceu, James ia perguntar a Black a mesma coisa que eu ia perguntar ao Lupin neste momento.
—Qual o problema dele comigo? -Eu falei, me sentando mais uma vez, agora de frente para Remus. Ele também se virou.
—Não é com você especificamente, se isso te consola.
—Não consola.
—Bem, ele tem esse jeito, hm, "super protetor". -Ele falou, fazendo aspas com as mãos. -Ele acha que pode proteger Prongs e eu de qualquer amizade potencialmente perigosa.
Eu ri de forma amargurada.
—Eu devia supor que vocês não iam querer que me juntasse ao grupinho.
—Não é isso. -Remus falou calmo. -Nós não temos nenhum problema com a sua aproximação, é só que o Sirius demanda mais tempo. Ele acha que duas amizades vão lhe bastar por toda a vida.
—Então é melhor eu não atrapalhar isso, não é mesmo? -Eu falei fazendo menção a me levantar mais uma vez.
—Bouler, -Remus falou muito sério, ele nunca me chamava pelo meu sobrenome e nunca exibia aquele semblante tão sombrio. -Nós vamos ter uma conversa civilizada, e conversas civilizadas não envolvem você fugir toda vez que ouvir algo que não é do seu agrado, sim?
Eu respirei fundo, ficar brava com Remus não fazia parte dos meus planos de domingo, eu levei as mãos ao cabelo e o amarrei com uma faixa que ficava no meu pulso. Momentos tensos exigem um cabelo bem preso.
—Sim. -Eu disse, concordando.
—Sirius não gosta de você, mas não é a sua pessoa que o irrita e sim o que você representa, você representa uma mudança, ele odeia a ideia de trocar de escovas de dente a cada 3 meses, como você acha que ele lida com mudanças reais? Ele também não gostava de mim, ou do Prongs, ou de qualquer ser que respire e não seja um cachorro. -Eu ri timidamente. -Você tem duas opções, voltar para o seu dormitório agora e fingir que você não preferia estar conosco, os caras mais legais deste inferno e ficar ouvindo Sam Smith até dormir com lágrimas nos olhos OU ir conosco até Hogsmeade, ter um dia de diversão e boas risadas e de quebra irritar tanto o Sirius que ele será obrigado a aceitar a sua presença.
—Eu nunca ouviria Sam Smith eu faço mais o estilo Adele.
—Falha minha.
—Eu estou indo apenas para irritar o Sirius, nada tem a ver com o fato de vocês se intitularem os "caras mais legais desse inferno".
—Eu vou fingir que acredito.
—É melhor vocês me ajudarem com as listas da McGoo, por que eu não menti quando disse que não tinha feito.
—Eu já acabei elas. -Remus disse colocando os braços atrás da cabeça e se encostando na arquibancada.
—Nerd.
—Touché.
—x-
Sirius e James voltaram 20 minutos depois, muito mais apresentáveis, Sirius mexia no seu celular.
—Vamos então? -James falou.
—Acho que eu preciso fazer uma coisa antes. -Eu disse pensando em um pequeno empecilho. -Vocês podem ir na frente, não vai levar mais que dez minutos.
—Por que será que isso me cheira a você nos dando um bolo? -James falou coçando o queixo.
—Eu juro que não é nada disso. Eu encontro vocês na Zonko's, prometo.
Remus olhou para mim com um olhar inquisitivo, eu repeti.
—Prometo.
—Na Zonko's então, -Remus disse. -E não demore, queremos mostrar Hogsmeade para você.
—Queremos? -Sirius falou levantando os olhos de seu celular finalmente.
—Sim, Padfoot. -James falou suspirando.
—Eu vou adorar te fazer várias perguntas Black! -Eu disse com um sorriso sarcástico.
—E eu vou adorar ignorar cada uma delas. -Sirius falou voltando a olhar para seu celular. Eu me dirigi à James e Remus.
—Eu não demoro.
—Até daqui a pouco então. -Remus falou enquanto eles se afastavam.
—Até. -Eu disse rumando para o outro lado. Corri para chegar mais rápido na sala da McGonagall. Pela primeira vez eu estava verdadeiramente ansiosa para estar com outras pessoas e não deixaria os garotos esperando por nada.
A porta estava aberta então eu apenas coloquei a cabeça para dentro da sala.
—Professora? -Eu chamei, ela estava sentada em sua cadeira, um livro enorme à sua frente e parecia mais concentrada que o normal, se é que isso era possível. Eu chamei mais uma vez. -Professora McGonagall?
Ela levantou os olhos vagarosamente, me encarando de cima a baixo.
—Senhorita Bouler, -Ela disse colocando as mãos sobre a mesa, os dedos entrelaçados. -Eu não esperava vê-la tão cedo.
—É que eu preciso falar com o professor Dumbledore.
—Dumbledore? Eu poderia saber o motivo?
—É sobre as visitas à Hogsmeade professora, -Eu disse depois de uma pausa, eu não sabia se devia comentar com a McGoo, mas pensando bem, ela era a pessoa que eu mais confiava ali, depois de Dumbledore é claro. -Ano passado Dumbledore disse que assinaria o formulário para eu poder ir, mas como eu nunca mostrei interesse em ir, ele não assinou. Mas agora eu quero. -Eu falei.
—Ah, sim. Ele abriu uma exceção no seu caso, não é mesmo?
—Bem... Sim. -Eu falei, me sentindo insegura ao extremo, eu não gostava de comentar sobre isso.
—Dumbledore não está. -McGonagall falou e eu senti um peso sobre meu peito, mas ela continuou. -Bem, dadas as circunstâncias, eu assino seu formulário.
Eu sorri tanto que chegou a ser doloroso. Ela abriu uma gaveta, puxou um grande pedaço de papel e rabiscou algumas coisas com uma caneta de pena.
—Pronto, -Ela disse me entregando o papel. -Dê nas mãos de Filch e diga que ele pode falar comigo se houver algum problema.
—Muito, muito, muito obrigada Professora. -Eu disse agarrando o papel perto do peito. Eu já estava saindo quando ela me chamou mais uma vez.
—Sabe, Srta. Bouler, -Ela disse virando uma página do seu grande livro e enfim me encarando por trás de seus óculos meia lua. -É bom vê-la se enturmando, finalmente. -Ela deu um pequeno sorriso e voltou a ler seu livro.
Eu não posso negar, depois de dar alguns passos para longe da sala da McGonagall eu dei um ou dois pulinhos, nada muito constrangedor.
Eu corri até chegar aos portões, Filch estava lá, sentado em um banco com madame Nor-r-r-a em seu colo, madame Nor-r-r-a assim como todos os gatos do universo, me odiava, e o Filch também, mas eu não era a única nesse quesito.
Eu murmurei um "bom dia" para ele e enfiei o papel embaixo do seu nariz, ele pegou-o reclamando e resmungando.
—Não é a autorização original. -Ele disse passando o nariz ranhento na manga de seu casaco.
—McGonagall disse que qualquer problema você pode conversar com ela. Mas você quer mesmo andar até a sala dela? -Eu disse sorrindo de lado. -Parece cansativo não é mesmo? -Eu continuei dando de ombros. Ele olhou para o castelo, então para mim e por fim para a autorização. Resmungando, ele olhou mais uma vez o longo caminho.
—Vá logo e suma da minha frente! -Filch falou irritado.
—Seu desejo é uma ordem! -Eu gritei de volta, já atravessando os grandes portões.
Se alguém me perguntasse como foi meu caminho até Hogsmeade, eu não saberia dizer, minha cabeça estava a milhão. Os únicos sons que eu ouvia eram meu coração ribombando nas minhas orelhas e o "Tump-tump" das minhas botas contra o chão que já exibia uma leve camada de neve. Minutos, que parecerem dias, mais tarde eu entrei finalmente no vilarejo.
Até onde minha vista alcançava, eu via o rosto conhecido dos meus colegas, eles estavam em todo lugar e isso me fez pensar em como os moradores de lá se sentiam quando essa invasão acontecia.
Hogsmeade era antiga, isso era óbvio, tão antiga quanto Hogwarts, provavelmente, mas muito menos intimidante. As paredes das construções eram todas de enormes blocos de pedra, e placas com os dizeres "desde 1700", "Desde 1670" eram comuns, não existiam edificações com mais de 4 andares e a neve fraca que caiu nos últimos dias dava ao lugar um ar quase clichê. Tudo que estava ali parecia vindo do mundo de um livro infantil.
Eu andei perdida por algum tempo procurando a Zonko's naquele mar de alunos, foi então que eu vi o rosto conhecido de Amos Diggory, um garoto da Lufa-Lufa e minha dupla nas aulas do Kettleburn.
—Diggory! -Eu gritei me aproximando e o segurando pelo ombro.
—Ah, -Ele disse surpreso. -Bouler, oi. -Ele estava claramente nervoso e eu notei que vários de seus amigos nos encaravam com os cenhos franzidos ou olhares indignados. Eu senti meu coração acelerar, enquanto a raiva corava minhas bochechas muito brancas.
—Você saberia me dizer onde é a Zonko's?
—Final da rua, é bem chamativa, não tem como não notar. -Ele falou tímido, colocando as mãos no bolso.
—Obrigada. -Eu disse tentando parecer a menos grosseira possível, mas eu não sei se funcionou.
Eu tirei minha mão de seu ombro e rumei para o fim da rua antes que eu ficasse irritada para valer. Enquanto eu me afastava eu pude ouvir parte da conversa do grupo.
—Essa não é aquela menina...
—Sim, é ela mesma.
Eu respirei fundo várias vezes, tentando fazer com que todo meu corpo desacelerasse. Minha resposta a qualquer problema era atacar de volta, mas eu não achei uma boa ideia atacar um grupo de lufa-lufanos no meio de Hogsmeade, por comentarem sobre um fato que não era inteiramente falso da minha vida. Minha visão ainda estava turva quando eu entendi o que Amos queria dizer com “não tem como não notar. ” A Zonko’s, loja de travessuras, era o lugar mais chamativo que eu já vira, era pintada de laranja e verde limão, pisca-piscas estavam espalhados por todos os lugares; pelas janelas palhaços e bonecas mecanizados estavam pendurados se mexendo e zumbindo. No alto, perto do telhado, vários planetas orbitavam em uma armação metálica. Uma placa enorme azul turquesa brilhava com os escritos: Zonko's -Loja de Travessuras.
Eu fui até a porta coberta por algum material peludo e roxo e entrei.
Assim como a fachada, a loja também vibrava e zumbia. Lá dentro, dezenas de alunos se espremiam, os rostos lívidos de alegria, com os mais diversos produtos em suas mãos, sacolas batendo nas laterais de seus corpos enquanto eles se apressavam para mostrar cada brinquedo aos seus amigos igualmente excitados.
Acima de todo o barulho, eu ouvi meu nome.
—BOULER! -Eu procurei na multidão, mas não encontrei os garotos.
—AQUI EM CIMA! -Remus gritou e eu olhei, eles estavam em um andar acima de mim, apoiados sobre a grade para poder me olhar melhor. Eu sorri e acenei para eles. A escada também fazia jus ao lugar, cada degrau tinha uma cor e emitia uma nota musical. Eu tive que me conter muito para não ficar pulando de degrau em degrau para formar uma sinfonia. Quando eu cheguei no 1º andar, encontrei os garotos conversando com um senhor muito idoso, vestindo um terno verde com gravata borboleta laranja e uma bengala das cores do arco-íris. Sirius estava com o braço ao redor dos ombros do velhinho, a outra mão segurava uma enorme sacola de papel pardo. James e Remus tinham sacolas iguais. O velho passava instruções para eles.
—Se vocês deixarem molhar, -Ele dizia sério. -O efeito não vai ser o mesmo, e vocês vão desperdiçar uma pegadinha ótima.
—Você sabe que nunca deixaríamos isso acontecer. -Sirius falou sorrindo.
—É bom mesmo! -O velho falou, repentinamente olhando para mim. -E quem seria essa gracinha?
—Essa é Pietra Bouler. -Remus disse. -Uma amiga do colégio.
Eu me aproximei e estendi a mão para o senhor, ao qual ele gentilmente pegou e levou até os lábios, depositando um beijo.
—Enchanté, mademoiselle. -Ele disse, soltando minha mão.
—O velho pervertido aí, -James disse me mostrando o símbolo da Zonko's em sua sacola. -É Aleron Zonko.
Aleron fez um maneio de cabeça e ajustou sua gravata.
—Aleron tem nos dados suprimentos para pegadinhas há muito tempo, não é mesmo? -James se virou para Aleron que lhe dirigiu um sorriso paternal. -Aleron foi considerado um dos piores alunos que Hogwarts já teve. -James completou e ao ouvir sobre seus tempos de colégio, Zonko se mostrou muito orgulhoso.
—Mas isso, -Ele disse um pouco mais alto que o necessário. -Foi até o pequeno Potter e seus amigos aparecerem.
Foi a vez de Sirius e James se sentirem pomposos.
—Suponho então, -Eu disse, me pondo na ponta dos pés para espiar a sacola de Remus. -Que esses são os suprimentos de pegadinhas dos próximos meses?
—Precisamente. -Remus disse com um sorriso no canto dos lábios. -Todos produzidos e testados pelo Aleron.
Aleron deu uma risada seca, que logo se tornou uma tosse. Sirius se adiantou, dando-lhe tapinhas nas costas preocupado.
—Aleron? -A tosse estava piorando e Zonko estava ficando muito vermelho.
—Um médico! -James falou, nervoso. Sirius nunca me pareceu tão assustado. Lupin já estava correndo para a escada quando Zonko voltou a rir.
—Peguei vocês! -Ele disse entre as risadas.
—Porra, Aleron. -Sirius falou enquanto recobrava a cor. -Não faça mais isso.
—Nada mal para um velho, huh? -Ele me deu uma piscadela, eu lhe retribuí com um sorriso.
—Nada mal. -Completei.
Nós conversamos por mais algum tempo e Aleron nos contou como foi estudar com Dumbledore.
—Ele sempre foi genial, genial em todos os sentidos. Eu admirava o homem entendem? E sabem o que ele me disse uma vez? Que admirava as MINHAS pegadinhas. Vejam vocês, eu mal pude crer. -Ele deu um suspiro nostálgico. -Grande homem, o Dumbledore.
De repente um enorme cuco surgiu de uma portinhola colocada na parede atrás de nós.
—Vejam só a hora! -Zonko disse com um salto. -Eu tenho que voltar aos meus afazeres.
—Não minta para nós Aleron. -Sirus falou sorrindo malicioso -Nós sabemos que você quer ir ver a Madame Rosmerta. -Aleron corou tão fortemente que era possível confundi-lo com um boto.
—Imagine! -Ele disse arrumando mais uma vez sua gravata. -Não seja impertinente pequeno Sirius. -Ele bufou, se virando. -Madame Rosmerta! Como pode? -Ele resmungou. Então ele me chamou. -Menina Bouler, venha cá.
Eu o segui até um baú que estava encostado logo abaixo do cuco. Ele abriu o baú revirando dezenas de peças, fantasias, brinquedos, todo tipo de bomba e fogos de artifício. Enfim ele encontrou o que queria.
—AHÁ! -Ele falou puxando uma bonita rosa vermelha. -Veja bem, -Ele disse acariciando as folhas. -As coisas mais bonitas, costumam ser muitíssimo perigosas. -Ele sorriu para mim e me deu uma piscadela. Ele me entregou a rosa. Vendo de perto, era óbvio que era sintética, mas não deixava de ser linda.
—Coloque na água e BOOM! -Ele demonstrou a explosão com as mãos.
—Eu não posso comprá-la, -Eu disse baixo, olhando para minhas botas.
—E nem deveria! -Aleron disse. -Trata-se de um presente.
—Oh, -Eu olhei para a flor explosiva, um presente inusitado vindo de um homem inusitado. -Muito obrigada, Aleron.
—Moças bonitas deveriam ganhar flores todos os dias. -Ele disse, segurando mais uma vez minha mão, dando um beijo. -Agora eu devo ir andando, adeus menina Bouler. Garotos.-Ele se despediu se curvando levemente e desceu as escadas, rápido como uma criança.
—X-
—Eu conheço o velho a mais tempo do que posso me recordar e o avarento nunca me deu um único pedaço de barbante. -James falou, analisando minha flor enquanto saíamos da Zonko's.
—Isso é por que da fruta dentro da sua calça o velho Aleron não é fã. -Sirius falou, remexendo sua sacola. -Acho que não comprei bombas de bosta suficientes. -Ele falou, ignorando minha carranca.
—Agora é tarde Padfoot, eu estou sonhando com cerveja amanteigada desde que soubemos que teríamos esse passeio. -James falou, abrindo a porta do Três Vassouras.
Assim como toda Hogsmeade, o Três Vassouras estava lotado como uma colmeia, pessoas no bar, nas mesas, de pé pelos cantos.
—Eu vou buscar umas bebidas direto no bar, para adiantar. -James falou, um pouco alto, para que ouvíssemos. -O que vocês querem beber?
—Cerveja. -Sirius disse. -Muita. -Acrescentou.
—Chá. -Remus disse, e coçando o queixo por um segundo completou. -Forte.
James olhou para mim com olhar inquisitivo. Eu pensei nos trocados amassados que eu tinha no fundo da minha bolsa, eu duvidava que aquilo pudesse pagar por mais que algumas balas.
—Eu não quero nada. -Eu disse para James, balançando a cabeça. -Estou bem.
—Ah, deixa disso. -James falou. -Vou te trazer uma cerveja, ok?
—Eu não quero mesmo, Potter. -Eu disse, em tom levemente suplicante, algo que me irritou.
—Então são três cervejas e um chá. -James disse se virando.
—POTTER! -Eu chamei antes que ele se afastasse muito. Ele voltou. Eu olhei para os lados, encarando cada um dos garotos, começando a respirar ofegante. Minhas mãos logo correram para meu cabelo, mas ele já estava amarrado.
—E-Eu... -Eu comecei. -Eu não posso... Eu não posso pagar. -Eu baixei meus olhos para minhas botas, mais uma vez, me pareceu melhor do que encarar o olhar dos meninos. Seria igual da última vez que eu proferi palavras como essas, eu podia sentir.
Foi a risada de Sirius que me fez erguer a cabeça.
—Não se preocupe com isso! -Ele disse jogando o braço ao redor dos meus ombros, na mesma posição que estava com Aleron minutos atrás. -Ser um Black tem uma vantagem ou duas.
—Padfoot sempre paga as bebidas, -Remus falou, dando de ombros. -É uma forma de mostrar pros pais dele que ele ainda está vivo e respirando.
—E bebendo. -Sirius acrescentou.
—Três cervejas, um chá. -James falou se virando mais uma vez.
Eu suspirei baixinho, aliviada, tentando segurar uma vontade intensa de chorar. "Péssima hora para ser mulherzinha Pietra." O Eu interior falou e eu me controlei.
Nós três corremos quando vimos um grupo de corvinos se levantando de uma mesa. Logo que nos sentamos, eu vi que o jeito que Sirius olhava para mim tinha mudado, mesmo que singelamente.
—Preciso de mais bombas de bosta. -Ele disse sério. -Nós estamos em guerra, companheiros.
—Eu tenho certeza que seu estoque pode acabar com um exército inteiro Padfoot. -Remus falou revirando os olhos.
—Nunca se sabe, -Eu disse. -Podemos ser atacados a qualquer momento, e se formos abatidos a culpa será sua soldado. -Eu sorri de lado.
—EXATO! -Sirius gritou batendo na mesa. -Como passaremos essas notícias para o nosso general? "Não senhor, fomos destroçados por falta de equipamento. De quem é a culpa? Soldado Remus Lupin, Senhor."
—Eu não estou preparada para passar tamanha vergonha. Imagine o que os outros pelotões irão dizer de nós. "Olhem lá! O pelotão destruído por falta de bombas de bosta!"
—Eu me mataria antes de passar por esse vexame.
—Eu também companheiro, eu também. -Eu falei dando tapinhas no ombro de Sirius.
Eu não sei se era anatomicamente possível para Remy revirar mais os olhos, mas ele revirou, suspirando.
James chegou logo depois, equilibrando os copos.
—O que eu perdi?
—Nós arrumamos mais um maníaco por guerras e armas não letais. -Remus falou esfregando as têmporas.
—Sem grandes novidades até aí. -James falou. -Enquanto tivermos tudo sobre controle.
—Como nós poderíamos ter tudo sobre controle se o Black não tem bombas de bosta suficientes? -Eu falei, e Sirius dirigiu um olhar de "ela está certa" para os dois.
Remus e James se encararam por um segundo e começaram a rir.
—Você me deve 5 pratas. -Potter disse a Remy, que já estava vermelho. Eu me virei para Sirius procurando respostas.
—Não olhe para mim, não tenho ideia. -Ele disse levantando as mãos espalmadas.
Quando os outros dois se recuperaram do surto, Remus falou.
—Apostei com James quanto tempo demoraria até Padfoot baixar a guarda contigo.
—Moony falou que seria pelo menos uma semana. Mas eu conheço o Padfoot.-Eu soltei uma risada incrédula, mas ao olhar para Sirius eu notei que ele estava muito vermelho. O clima permaneceu pesado enquanto eu bebia a cerveja, eu não queria beber tão rápido, parecendo uma desesperada, mas era delicioso. Remy riu da minha cara quando eu praticamente virei a cerveja. Eu puxei um guardanapo, para limpar o bigode de espuma. Sirius também já tinha virado a cerveja dele.
—Vou buscar mais. -Ele disse, rabugento. -E você vai aceitar Bouler, não há discussões agora.
—Deixa que eu busco! -Eu falei apressada. Acho que Sirius precisava de um segundo a sós com os amigos. Ele me parecia mais bipolar a cada segundo.
Enquanto eu me afastava, pude ouvir Black falando sobre "a aposta mais estúpida que eu já vi." Eu não pude conter uma risada. Eu fui até o bar lotado e logo notei a ilustre presença de Aleron, em seu chamativo terno, conversando animadamente com a bartender, que eu logo supus ser Madame Rosmerta. Ela se aproximou, um sorriso carinhoso que condizia com seu rosto rechonchudo e alegre.
—Sim querida?
—Três cervejas e um chá forte, por favor. -Ela assentiu e se afastou. Eu olhei para Aleron e lhe dei uma piscadela, fazendo sinal de positivo. Suas bochechas ficaram lívidas, mas ele retribuiu meu positivo.
Pouco tempo depois Madame Rosmerta voltou com as bebidas e eu me dirigi para a mesa.
Equilibrar tudo aquilo estava se mostrando uma tarefa mais difícil do que eu previra e por um instante eu me distraí com 3 corvinos brincando com um kit de mágica da Zonko's. Quando dei por mim, eu já havia batido contra alguém, as bebidas caindo em suas roupas enquanto eu era jogada para trás.
—Ai meu deus! Me desculpa! -Eu exclamei, quando consegui me equilibrar. Eu subi o olhar para ver em quem eu havia batido, apenas para encarar o rosto pálido e anguloso, emoldurado por uma profusão de cabelos loiros de Lucius Malfoy. O garoto exibia um olhar de nojo profundo. Eu agarrei alguns guardanapos na mesa em que eu havia me equilibrado e tentando ignorar a forma como ele havia me olhado, comecei a secar o casaco preto de Lucius. Ele empurrou minha mão para longe.
—Não me toque, garota imunda. -As palavras me atingiram como um choque elétrico. Eu nem ao menos consegui entendê-las direito quando notei Sirius ao meu lado.
—Do que é que você chamou ela, Malfoy?
—Há! -Malfoy desdenhou para sua horda de amigos, vários sonserinos estavam atrás de Lucius, inclusive duas primas de Sirius e seu irmão Regulus. -Se não é o vira lata Black! -Ele continuou. -Sabe Sirius, julgando pelo nome que você carrega, você devia se juntar a pessoas mais... Superiores. -Ele disse, medindo a mim e a Remus de cima a baixo. Sirius rosnou dando um passo à frente. Sem ao menos pensar eu agarrei seu ombro com força.
—Padfoot, não! -Eu falei com urgência.
—Obedeça Sirius. -Malfoy desdenhou. -Como o bom cãozinho que você é.
Os sonserinos riram em coro.
—Malfoy, -Eu disse chamando sua atenção. -Fui eu que derrubei a bebida.
Ele demorou muito tempo para deixar de encarar Sirius, que vibrava de raiva ao meu lado, de punhos cerrados, para voltar a me encarar.
—E por isso você me deve um pedido de desculpas apropriado, não é mesmo?
Eu cerrei a mandíbula com muita força, ao ponto de ranger e muito vagarosamente eu me curvei diante de Lucius Malfoy. Eu ouvi um som de desgosto saindo da boca de Sirius, enquanto ouvia James falar um "não" abafado.
—Me perdoe, senhor.
À minha frente todos os sonserinos riam.
—Sabe qual é o problema das pessoas superiores? -Eu falei muito baixo, baixo o suficiente para fazer Lucius dar um passo em minha direção para me ouvir melhor. Perfeito. -Eles não percebem quando estão prestes a serem atacados. -Antes que Malfoy ou qualquer outro pudesse entender do que aquilo se tratava, eu coloquei minha mão direita ao redor do pescoço ossudo de Lucius, tomando impulso com esse apoio, eu projetei meu joelho com toda força em direção das partes baixas dele. Enquanto ele caia para trás, se contorcendo, eu voltei a me equilibrar e saí do Três Vassouras.
Minha cabeça girava e girava como em um carrossel. Eu não ouvi ou vi nada até estar de frente à Casa dos Gritos. Eu nunca estivera lá antes, mas aquilo só podia ser a Casa dos Gritos. O lugar era uma casa decrépita, destruída pelo tempo, comida por cupins e infestada de musgo, por mais curiosa que eu estivesse, eu não conseguia me concentrar na casa, eu só conseguia repassar o que tinha acabado de acontecer. "Garota imunda" martelando na minha cabeça, como um peso que pressionava meu cérebro e não me deixava pensar em mais nada. Foi então que a cara contorcida pela dor de Malfoy apareceu diante dos meus olhos. Eu soltei uma risada rouca.
Maldito escroto, eu pensei. Nada disso teria acontecido se Severus tivesse mantido a porra da boca fechada, a amargura corroía cada célula do meu corpo.
Eu sentia meu corpo pesado, as lágrimas cortando minhas bochechas, eu apertei os olhos com força tentando espantá-las. Não adiantou. Foi então que eu comecei a tremer, um pouco pelo frio, muito mais pela raiva e aí eu senti um tecido grosso nas minhas costas. Eu me virei assustada.
James, Sirius e Remus me encaravam com olhos preocupados, o casaco de Sirius enorme em meu corpo trêmulo. Eu comecei a chorar mais, agarrando o casaco todas as minhas forças.
—Eu te chamei de Padfoot sem querer Black. -Eu disse entre soluços.
—Existem alguns benefícios que você ganha quando chuta Lucius Malfoy no saco. Esse é um deles. -Sirius deu um passo a frente e me abraçou, seu cheiro de perfume era forte e seus braços eram grandes o suficiente para me fazer sentir acolhida, um sentimento que eu desconhecia há muitos anos. -Esse é outro. -Ele disse se afastando.
Remus veio até mim e limpou as lágrimas do meu rosto.
—Como nova. -Ele falou com um sorriso gentil. Eu respirei fundo. Tentando recobrar o controle sobre mim. Eventualmente eu consegui.
—Vamos garotos? Temos algumas bombas de bosta para comprar. -Remus passou o braço pela minha cintura e nós quatro rumamos de volta para a Zonko's.
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