Raise your glass
4 Capítulo 4-Wormtail
Notas iniciais
Esse capítulo foi de longe o mais difícil para mim de escrever e eu sinceramente não sei se vocês vão gostar do resultado (tô na torcida para que gostem), eu precisava dar alguma profundidade para os personagens, mas eu notei que não sou muito boa nisso. Mas, apesar dos pesares, eu fiz meu melhor. Espero que vocês gostem ♥ Nos vemos nas notas finais!!
Ps: Eu já estava com tudo prontinho, revisado e formatado ontem na madrugada, mas meu computador destruiu toda a minha formatação e eu demorei muuuuuuuito tempo para arrumar isso D:
Saímos de Hogsmeade com mais sacolas do que podíamos carregar.
-Seus pais vão te matar por essa Padfoot. -Remus falou, enfrentando dificuldades com uma sacola cuja alça estourara. -Eles tem que me pegar primeiro. -Sirius disse sorrindo o sorriso canídeo dele. -Eles são muito ruins? -Eu perguntei com a boca cheia de sapos de chocolate. Depois de saírmos da Zonko's, Sirius insistiu para que fossemos na Dedosdemel gastar mais um pouco do fundo de emergência que seus pais lhe davam. A visita envolveu uma briga entre James e Sirius entre qual chiclete Buba Gum era mais gostoso até que eu e Remus enfiamos os dois sabores na boca, atestando que ambos eram igualmente ruins. Compramos um estoque de chocolate também e feijãozinhos de todos os sabores, além de quatro tipos de bolos, doce de abóbora, coco e de doce de leite. -Me fazem parecer a porra de um príncipe. -Sirius falou levemente irritado, James e Remus apenas concordaram, quietos. Eu decidi não tocar mais no assunto. Depois de algum tempo foi a vez de Lupin se manifestar. -Vocês estão prontos para uma deliciosa sessão de estudos? -Ele falou sarcástico. Nós três resmungamos. Remus fez questão de nos lembrar que nenhum de nós havia se dignado à ao menos olhar para as listas da McGonagall. -Você poderia apenas nos passar os exercícios feitos não é, Remyzinho? -Eu disse com a melhor cara de cachorro-que-caiu-do-caminhão. Remus apenas me encarou, levantando uma sobrancelha e eu sabia que a resposta era "não". -Você vai descobrir, -James falou enquanto tirava um chocolate da mão de Sirius e jogava de volta na sacola. -Que Moony não sabe levar a camaradagem a sério. -Tirar meu chocolate não é uma forma de ser um grande companheiro. -Sirius falou chutando uma pedrinha no caminho. -Sem doces antes do jogo. -James respondeu. -Arrume uma boca para beijar ou ligue o video game, mas sem doces. -Aquela sua amiga Alice, -Sirius falou se colocando do meu lado. -Tá disponível? Antes que eu respondesse, Remy pigarreou. -Não querendo estragar seu encontro de última hora, Padfoot. -Ele falou, o rosto sério. -Mas você tem listas para fazer. -Ah pelo amor de Merlin! -Sirius disse revirando os olhos. -Eu desisto. Nós passamos pelos portões de Hogwarts com o sol se pondo atrás de nós, Filch estava sentado exatamente no mesmo lugar, mas Madame Nor-r-r-a não estava mais em seu colo, nem em nenhum lugar que eu pudesse ver. Filch nos dirigiu um muchocho de desaprovação enquanto passávamos e voltou a encarar o portão, gritando eventuais ameaças aos alunos que por ali entravam. -Biblioteca ou Sala Comunal? -James perguntou mesmo sabendo a reposta. -Sala Comunal. -Nós falamos em coro. Subir até nossa Sala Comunal se mostrou uma tarefa interessante. Pela primeira vez na minha vida, os cochichos às minha costas eram sobre algo que eu fiz e não quem eu era. As palavras "Malfoy" e "chute" eram facilmente distinguidas nos grupos pelos quais passávamos. A cada pessoa que perguntava se tinha sido eu realmente que havia calado a enorme boca de Lucius Malfoy, Sirius tinha uma história diferente para contar. -Ela deu o golpe de Karatê da Cegonha Adormecida. -Ele disse a um grupo particularmente grande de meninas da Lufa-Lufa. -Malfoy nem viu o que o tinha atingido. -Ela esperou Lucius atacar primeiro, -Ele disse muito sério, para dois meninos do segundo ano da Corvinal. -E então desviou do golpe, tipo Matrix, saca? Os garotos apresentavam olhares encantados e eu não sabia como reagir a tudo aquilo, uma parte de mim estava morrendo de medo de ser punida. Quer eu quisesse, quer não, os Malfoy eram uma das famílias mais influentes do núcleo social britânico, eles eram ricos, podre de ricos e influentes. Mas ao mesmo tempo, uma parte ligeiramente maior de mim, queria aquela atenção, queria que as pessoas se lembrassem de Pietra Bouler como alguém forte e não digno de pena. Eu queria aquela nova versão de mim, então não impedi Sirius de se divertir às custas da briga. Nós passamos pela sala de McGonagall, a porta agora fechada, e o remorso me atacou mais uma vez. Eu olhei para a sala com uma onda de desespero me atingindo. E se dessa vez eu estivesse encrencada para valer? McGonagall foi bem específica em atestar que eu não estava em posição em fazer mais alguma merda e talvez, apenas talvez, atacar o babaca do Malfoy entre na categoria "fazer merda". Eu não tinha para onde ir, e caso eu fosse realmente expulsa de Hogwarts, será que eu teria que voltar à minha antiga vida? Um arrepio correu a minha espinha enquanto eu encarava a porta da sala da McGoo, eu nem ao menos percebera que tinha parado na frente dela. Eu senti uma mão no meu ombro. Era Remus. -Nós e mais metade do colégio vimos o que e como aconteceu. Se acalma, essa não vai sobrar para você. -Ele exibia um sorriso encorajador, eu tentei sorrir de volta. Nós retomamos nosso caminho e Sirius já estava ficando sem histórias novas quando entramos na Sala Comunal, os grifinos estavam espalhados, executando as mais diversas atividades, mas quando viram quem passava pela porta, formaram uma barreira na minha frente. Por serem da minha Casa, eu suponho que o pudor não lhes era necessário. Eles perguntavam abertamente as coisas mais ridículas.
"A quanto tempo você faz Taekwondo?", "Pode me ensinar seus golpes?", "Ele chorou?", "Ele sangrou?", "Você cuspiu mesmo na cara dele?". Eu só queria espaço, de repente toda aquela atenção não era mais tão agradável. Eu tentava empurrar delicadamente o grupo quando fui puxada para um abraço apertado, uma parede de músculos me abraçava com força e eu nem ao menos sabia quem era. Quando a pessoa me soltou por um segundo e me deu dois beijos estalados nas bochechas, eu tive certeza que era Ludo. -Pietra! -Ele disse com seus olhos de um azul absurdo brilhando, um sorriso infantil no rosto. -Ah, Pietra! -É meu nome. -Eu disse tímida, tentando me desvencilhar de tudo aquilo. Não adiantou, Ludo me puxou para mais um abraço. -É claro que é seu nome! -Ele disse gargalhando. Enfim ele me soltou, ainda sorrindo. -E-Eu tenho que fazer as listas... As listas da McGonagall... -Eu tentei falar para o grupo que nos cercava, insegura. -ESCUTEM AQUI, -James gritou, aquilo era habitual demais. -PIETRA QUER ESPAÇO, ELA VAI FICAR MUITO IRRITADA SE VOCÊS CONTINUAREM ESSE FUZUÊ TODO! VOCÊS QUEREM QUE ELA FIQUE IRRITADA?! A massa de pessoas murchou tão rápido quanto as palavras saíram da boca de James e poucos momentos depois eles voltaram às suas posições originais, mesmo que eu ainda notasse olhares curiosos espalhados pela Sala Comunal. -Bem melhor, -Remus falou com um suspiro. -Vou pegar o material. -Ele disse se dirigindo para as escadas. -Eu vou no meu dormitório, -Eu disse indo em direção contrária a de Remus. -Vejo vocês em cinco minutos! Eu entrei no dormitório e encontrei as três sentadas na cama de Lily, que me encarava com um sorriso no rosto, Molly também estava sorrindo, mas Alice me olhava com um olhar indignado. -Olá. -Eu disse e elas me cumprimentaram de volta. -Você foi para Hogsmeade. -Alice constatou logo depois. -É... Fui. -Eu disse incerta, eu não sabia se Alice estava brava comigo ou não. -Com Potter, Black e Lupin. -Ela continuou a afirmar. -Sim também. -Eu disse me virando para encará-la, Molly e Lily também pareciam não saber onde aquele papo iria chegar. -E então você deu uma joelhada em Lucius Malfoy. -Ela disse, inclinando levemente a cabeça. -Você é o policial malvado? -Eu disse com um sorriso nervoso. -Você deu uma joelhada em Lucius Malfoy. -Ela repetiu, o clima ficando mais pesado no quarto. -Sim, Alice. Eu dei uma joelhada em Lucius Malfoy. Ela continuou me encarando, até que seu rosto sério foi mudando vagarosamente para um sorriso deliciado. -Ela deu um chute em Lucius Malfoy! -Ela falou se virando para Prewett e Evans. -Para valer! — Então ela voltou a me olhar. -Cara, quem é você? Eu poderia ter respondido "Eu me faço essa pergunta todos os dias e eu não tenho a menor ideia Alice e as pessoas preferem apenas criar uma caricatura de quem eu sou, mas eu continuo aqui, mais firme do que forte." mas eu apenas sorri e respondi. -Pietra... Pietra Bouler. As meninas me fizeram repetir como tudo tinha acontecido, desde minha recente relação com os garotos até o chute, eu não contei tudo, mas foi o suficiente para as três. -Pietra querida, -Molly falou com um ar preocupado. -Você podia ter se machucado. -Tenho certeza que ela pode se cuidar muito melhor que nós Molly. -Alice disse. -Da próxima vez então, -Lily começou. -Você pode ir para Hogsmeade conosco, a menos que o Potter seja uma companhia melhor. -Ouvindo você falar tanto dele Lily, alguém podia achar que você está apaixonada por ele. -Alice falou com um sorriso de lado, recebendo um soco de Lily no ombro. -Okay, okay, não tá mais aqui quem disse. -Como eu estava dizendo, antes de ser rudemente interrompida, -Lily disse dirigindo um olhar frio à Alice. -Nós adoraríamos te mostrar o lugar, andar com você e tudo. Molly assentiu veemente e eu me senti um pouco culpada; as meninas sempre queriam me incluir nos planos delas e eu sempre neguei. Então eu tive uma ideia. -Vocês querem fazer as listas da McGoo? Eu estava indo fazê-las agorinha mesmo. -Ah, -Molly disse um pouco decepcionada. -Eu pedi a ajuda do Arthur hoje mesmo, eu já estava indo para a biblioteca. -Eu pretendo copiar tudo do Frank quando ele acabar. -Alice falou com um sorriso satisfeito. Molly e Lily encararam-na com olhares de repreensão. -Que é? Eu me garanto. -Jones disse em resposta aos olhares das amigas. Ela e Frank eram amigos desde a infância e nos últimos meses a amizade era algo "a mais", Alice não gostava de dar nome as coisas, então Molly e Lily se referiam a eles como "o casal de não-namorados". -Eu vou, -Lily disse animadamente. -Eu queria terminá-las mesmo. Eu cocei a nuca, apreensiva. -Er, Lily... Só tem um probleminha pequeno. -O que? -Ela disse franzindo o cenho, ela sempre enrugava o nariz quando fazia isso. Era adorável. -É que, o Potter... O Potter e os meninos, eles vão estar lá conosco. Eu vi o olho de Lily tremer levemente. -Potter, huh? -Ela perguntou em um suspiro. -Tudo bem, claro. Eu não vou simplesmente evitar os lugares onde o idiota está. Não é mesmo? -Ela parecia ansiosa. -Claro, -Eu disse, tentando fazer a situação o melhor possível. -Vocês nem precisam se comunicar. Só... Coexistirem no mesmo lugar ao mesmo tempo. Lily pareceu se acalmar um pouco. -Sim, claro. Não vai ser tão ruim. -O Potter não é tão horrível... -Eu comecei, mas o olhar de Lily fez meu cérebro petrificar e eu decidi apenas calar a boca. Nós duas descemos as escadas que levavam ao Salão Comunal conversando sobre a Casa dos Gritos. -Só mais uma lenda construída por locais. -Ela disse com autoridade. -Provavelmente a própria estrutura envelhecida produza os sons que eles ouvem e eles acharam que isso é prova de fantasmas ou algo assim. -Ela continuou. -Você está completamente equivocada. -Uma voz disse atrás de nós, era Sirius. -Nós já estivemos lá dentro, sabe? Os fantasmas são reais. Lily revirou os olhos. -Claro, Black. Claro. Ele abriu a boca para manter a discussão viva mas eu cochichei "deixa quieto" e indiquei James com a cabeça. Ele pareceu entender e ficou em silêncio até chegarmos à mesa redonda em que James e Remy já estavam. -Pietra do meu lado! -Sirius falou se sentando rápido ao lado de Remus, eu também entendi o plano dele, puxando outra cadeira eu me sentei ao lado de Sirius, deixando apenas um lugar vago, ao lado de James. -Eu trouxe a Evans, -Eu disse, tentando fazer com que James parasse de babar olhando para ela. -Algum problema? -Nenhum, -Remus disse com um sorriso. -Olá Lily. Lily me encarava com aquele mesmo olhar frio, depois olhou para o lugar vago e para James, que ainda parecia fora do planeta. Eu dei de ombros, tentando pedir desculpas silenciosas. Ela enfim se sentou, relutante. -Olá Remus. -Ela disse com um sorriso agradável, eu achava impressionante como o ódio de Lily se restringia à James. Ela conseguia transitar pelas emoções com facilidade. -Potter, moscas vão entrar por essa caverna que você chama de boca se você não fechá-la. -James pareceu acordar do transe quando Lily disse isso. -Eu estava apenas admirando como seu cabelo parece feito de fogo na luz alaranjada. -Ele deu um sorriso de lado. -Guarde essa para outra Potter, eu estou aqui apenas para fazer as listas. Aliás se você quer mesmo me agradar você podia permanecer no mais sagrado silêncio. -Sirius soltou uma risadinha e eu dei um pisão em seu pé. Tenho a leve impressão que Remus fez a mesma coisa, por que Sirius murmurou "isso é um complô", zangado. -Seu desejo é uma ordem, Madame. -James falou, fazendo o sinal de passar um zíper sobre a boca. Nós começamos a nos concentrar nas listas, mas eu notei, minutos mais tarde Lily puxando uma mecha de seu cabelo e examinando. Eu dei um pequeno sorriso. Não foram necessários mais do que cinco minutos para que todas as pessoas da mesa notassem que eu não sabia nada de álgebra. -Não Pietra, -Remus falou com uma paciência de santo, ele havia se colocado atrás de mim para me observar fazendo os exercícios. -Você não pode somar antes de multiplicar. -Você tá no primeiro exercício ainda? -Sirius falou incrédulo, puxando minha folha. -Talvez... -Eu falei baixo. Remus puxou a folha de volta da mão de Sirius e me entregou. -Ignora ele, -Remus falou. -Ele acha que Stálin é o lugar em que se constroem os navios. -Você disse que não ia contar! -Sirius disse contrariado.—Você começou. -Remus disse com um sorriso vitorioso. Os dois se encararam.
-Voltando aos estudos. -Eu disse estralando os dedos na cara dos dois. Eles cortaram o contato visual. Remus se abaixou e voltou a me explicar o exercício. Sirius se virando para olhar para ele de tempos em tempos. Mais alguns minutos se passaram quando eu cutuquei o braço de Sirius. -Huh? Eu fiz um movimento de cabeça indicando James e Lily, o sorriso que Sirius abriu ao ver o que eu estava vendo poderia iluminar seis cidades diferentes. Ele cutucou Remy com o cotovelo. Potter estava debruçado sobre a mesa, ao lado do caderno dela, os dois trocavam palavras rápidas e escreviam freneticamente na lista, a cada vez que Lily se abaixava para escrever, James tirava um segundo ou dois para admirar o rosto concentrado da garota e então também corria para marcar sua lista. Cochichos murmurados de "não é assim", "isso!" e "finalmente" eram frequentes e pouco tempo depois ambos fecharam seus cadernos. -Acabamos. -James disse, satisfeito. -Boa equipe vocês formaram. -Eu disse tentando colocar meus papéis em ordem. -Eu sou o cérebro, Evans é a beleza. -James retrucou, colocando as mãos atrás da cabeça. Antes que eu mesma pudesse gritar que ele tinha acabado de destruir tudo, Lily revirou os olhos, recolheu seu material e se levantou. -Da próxima vez, -Ela disse olhando unicamente para mim. -Eu vou preferir fazer a lista sozinha Pietra. Algumas pessoas não sabem guardar o próprio ego para si. Eu apenas assenti, uma súbita vontade de espancar James Potter surgindo em minha mente. -E que fique bem claro Potter. -Ela falou olhando para ele. -Eu sou a beleza E o cérebro, você é só o cara que atrasou meu desempenho em -Ela olhou seu delicado relógio de pulso. -17 minutos. James abriu a boca, mas o olhar que eu dirigi a ele fez com que ele a fechasse. Lily se virou e subiu mais uma vez para o nosso dormitório. Quando eu não pude mais ouvir os passos dela, eu me joguei para o lado dando um tapa na cabeça de James. -Ei! -Ele disse passando a mão na nuca. -Eu não fiz nada! Eu ignorei o comentário dele e massageando as têmporas constatei. -Isso vai ser mais difícil do que eu esperava. -O quê vai ser mais difícil? -James perguntou curioso. -Te fazer parecer menos babaca egocêntrico perto da Lily. -Eu não sou um babaca egocêntrico! -Ele falou irritado. -Eu sei disso, -Eu falei olhando no fundo dos olhos dele. -Black sabe disso e o Remy sabe disso também. Até os meninos do time sabem disso, mas a Lily não sabe. E. Você. Não. Colabora. -Eu falei a última parte pausadamente, tentando fazer com que meu instinto de dar-lhe outro tapa diminuísse. -Eu não sei por que eu falo essas coisas... -Ele falou olhando para os papéis em cima da mesa. Sua mão caminhando por uma folha rabiscada com a letra de Lily. -Eu só quero falar qualquer coisa para impressionar. -Você deveria aprender com o Deus da sedução A.K.A. Sirius Black. -Minha cabeça e de Remus se viraram tão rápido para olhar para Sirius que eu tive certeza que nossos pescoços iam se quebrar. -Quantas garotas você já namorou Black? -Eu perguntei com uma sobrancelha arqueada. -Quem precisa de namoradas? Agora me pergunte com quantas garotas eu já fiquei. -Remus revirou os olhos, como sempre, e suspirou. Eu apontei um dedo para Sirius e voltei a falar com James. -Essa atitude de macho alfa, é tudo que Lily despreza, está me entendendo? -James assentiu, e pelo canto dos olhos eu vi Remus mandando Sirius calar a boca. Sirius cruzou os braços, rabugento. -Aja naturalmente com a menina pelo amor de Deus! Não seja machista, nem babão. Apenas seja o James que você é normalmente, o menino que se mata pelo time, que comenta como o cabelo da Evans se move quando ela anda, que ajuda garotas que entram no quarto para roubar cuecas e coisas do tipo. -Eu dei um sorriso tímido. -Entendidos? Dessa vez ele assentiu mais veemente, sorrindo. -O único problema garanhão. -Sirius falou, saindo do seu estado emburrado. -É que você desperdiçou a única vez, em anos, que ela ficou perto de nós sem querer te bater, ou me bater. O que é bem pior. -Eu nunca vou conseguir conquistar ela! -James disse, dramático, colocando a cabeça entre os braços e se jogando na mesa. -Essa parte vocês deixem comigo, -Eu disse mordendo a parte interna da bochecha. -Eu arrumo alguma coisa. -Mas toda essa missão vai ter que ficar para depois. -Remus falou olhando seu relógio. -É hora do jantar. Nós quatro descemos para o Grande Salão sem maiores problemas. Haviam olhares curiosos e cochichos excitados, mas o alvoroço maior passara. Ao chegarmos na nossa mesa, eu fiz menção a ficar no meu canto habitual. Afinal eu já tinha tomado o dia inteiro deles e eu imaginei que eles já estavam levemente cansados da minha insistente presença. Remus me segurou pelo ombro. -Não fuja Wendy, você tem vários meninos perdidos para cuidar.—x- Durante todo o jantar eu tentei evitar qualquer tipo de contato com a mesa da Sonserina. Não que estivesse com medo do Malfoy e sua horda de cascavéis (eu sei que eles não tentariam nada estupido dentro do colégio e bem abaixo do nariz do Dumbledore e da McGoo), mas eu não queria atrair mais atenção, foi o suficiente para um dia. Quando o jantar acabou eu decidi subir rápido para o Salão Comunal para terminar os últimos exercícios da lista antes que ele ficasse lotado. -Eu vou com você. -Remus falou, bebendo um último gole de suco de tomate. Ele se virou para perguntar se Sirius queria vir conosco mas a pergunta ficou presa na garganta. Sirius estava de pé, alguns passos longe da mesa, conversando com uma corvina alta, de cabelos muito pretos e olhos acinzentados, eu não sabia seu nome, mas ela provavelmente estava no último ano. Ela riu de forma suave de alguma coisa que Sirius disse e colocou uma mão no peito dele, eu pude ouvir a risada áspera dele em contraponto a delicada dela. -Acho que ele tem coisas mais interessantes para fazer do que as listas da McGoo. -Eu disse com um sorriso de lado. A garota era realmente muito bonita, seu cabelo ondulado preso com um laço branco. -Remy? -Eu tentei chamar a atenção de Remus que encarava os dois atento. -Remy? -Ah, oi. -Ele disse cortando o contato visual e enfim me encarando, visivelmente constrangido. -Sirius está roubando sua garota? -Eu disse com outro pequeno sorriso. -Não. Não é nada disso. -Ele disse sério e saiu do Salão, sem me esperar. Do outro lado da mesa a conversa de Sirius e a garota desconhecida continuava. Eu olhei para James mas ele parecia entretido demais, contando para os gêmeos Prewett como foi conhecer Lionel Messi em uma viagem de férias da família para ser interrompido. Então eu segui Remus. Ele chegou primeiro que eu na Sala Comunal e como se nada tivesse acontecido, começou a me explicar, no tom normal de sempre, como resolver uma inequação de segundo grau. Eu o cortei no meio da explicação. -Você ficou estranho, tipo, do nada. -Eu falei tentando fazer com que seus olhos verdes encontrassem os meus, manchas caramelo faziam um padrão ao redor de suas íris. Eu amava os olhos dele tanto quanto os profundos olhos verdes de Lily. Era um hábito meu notar os olhos das pessoas e suas risadas. Por exemplo a risada de Remus era bem mais rara que a da James ou Sirius e durava menos também, mas era mais contagiante, sempre começava com uma tentativa de não rir, que normalmente falhava, então a risada dele soava como algo proibido que sem querer foi libertado, era tímida mas fazia com que os olhos de Lupin se acendessem, as bochechas corassem levemente e ele sempre respirava fundo algumas vezes depois de uma boa risada. Eu gostava de observar as pessoas, simples assim. -Eu sou estranho Pietra. -Ele disse com uma sobrancelha arqueada, dando de ombros. -Snivellus Snape é estranho, Slughorn é estranho, até Dumbledore é estranho do seu próprio jeito, você não. -Você não chamava ele de Snivellus antes. -Não mude o foco desta conversa Remus. -Não há foco nesta conversa por que ela não tem pé nem cabeça! -Não pense que eu vou me esquecer disso. -Eu disse cruzando os braços. -Acabo de sentir um arrepio de medo, bem aqui, na minha coluna vertebral. -Eu apenas o encarei desgostosa e ele voltou a explicar o exercício. Quase quinze minutos mais tarde, Sirius e James chegaram, acompanhados de todo o time da Grifinória. James segurava um pedaço de papel cor-de-rosa, como se fosse uma relíquia sagrada. Todo os garotos tentavam tomar o papel da mão dele ou pelo menos dar uma boa olhada. Sirius exibia um sorriso cheio de dentes, jogando o cabelo para trás, orgulhoso como um leão. Os não-muito-silenciosos garotos se aproximaram da mesa onde nós estávamos. -Black conseguiu o telefone da Indina Chersnott. -Dick falou se jogando em uma cadeira e olhou para mim e Remus como se esperasse uma reação. -Legal? -Eu disse incerta, não sei exatamente como reagir a esse tipo de informação. -Legal?! -Ludo disse abismado em outra cadeira. -É sensacional Pietra pelo amor de Deus! -Então super legal! -Eu disse com falsa animação. Uma risadinha escapou de Remy. -É a garota com quem você estava conversando? -Eu disse me virando para Sirius, ele assentiu. -A menos que Indina Chersnott seja objeto de estudos. -Remus falou pausadamente os olhos presos no rosto de Sirius. -Ela não devia ser um assunto da mesa de estudos, que é onde estamos, neste exato momento. Os garotos do time balbuciaram algumas desculpas e se afastaram da mesa, ainda comentando sobre os "atributos" de Chersnott. Sirius e James, entretanto, ficaram conosco, Black agarrou o papel rosa e anotou o número em seu celular e o guardou mais uma vez no bolso. Desde que chegou perto da mesa, Sirius me parecia estranho mas eu não consegui definir com exatidão o motivo, antes ele era todo sorrisos e cabelos ao vento, agora estava quieto encarando o celular. O que fez com que um suspiro de frustração escapasse de minha boca. Eu não gosto de deixar coisas como essa passarem sem eu saber exatamente do que se tratam. Sirius e Remus estavam estranhos e eu iria descobrir o porquê, custasse o que custasse. Nós voltamos a fazer a lista e enfim, a muito custo, eu terminei aquele inferno. -Da próxima vez a McGonagall podia me mostrar todos esses exercícios feitos por ela mesma. Duvido que ela faria em tão pouco tempo. -Eu disse bufando. No segundo seguinte a porta da Sala Comunal se abriu e Minverva McGonagall adentrou nosso recanto. A respiração ficou presa na minha garganta, ao meu lado eu podia ouvir Sirius e James segurando a risada. Milhares de pensamentos começaram a ferver em minha cabeça, um atropelando o outro. "Ela me ouviu falar sobre as listas", "Lucius contou sobre a briga", "Eu nunca mais irei para Hogsmeade", "Eu vou ser suspensa", "Eu não posso ser suspensa, eu vou ser expulsa", "Esse é o fim", "Tudo por causa de um idiota como Lucius Malfoy", "Eu sabia que nunca devia ter ido para Hogsmeade", "Eu estava completamente bem até hoje de manhã". Eu prendi o cabelo em um rabo de cavalo bem apertado e então ela começou a falar. -O professor Dumbledore e os líderes das Casas fizeram uma reunião após o jantar, -Ela disse calmamente, entrelaçando os dedos na frente do corpo, eu comecei a hiperventilar. -E chegamos à um consenso. A pedido do próprio Dumbledore eu estou aqui para repassar a mensagem o mais rápido possível. -Ela fez mais uma pausa encarando com olhar gélido Gid e Fab que conseguiram tropeçar um sobre o outro, mas agora ja estavam bem. Ela continuou. -Após as festividades de Natal, para discutirmos um evento que o colégio abrigará, nós teremos uma convocação de pais. Se possível avisem seus pais com a maior antecedência. -Ela encarou cada um de nós individualmente, então fez uma mesura com a cabeça, e nos desejando boa noite, saiu da Sala. Eu respirei tão fundo que meus pulmões chegaram a doer. -Bem, -Sirius disse afastando a cadeira dele um pouco e jogando os pés em cima da mesa, ouvi um murmúrio de desgosto escapando a boca de Remus. -Essa foi por pouco. -Ele piscou para mim. -Mas, ainda temos que lidar com o pequeno problema de que uma infinidade de Blacks estará dentro deste colégio depois das festinhas de fim de ano e nenhum deles é bonito ou charmoso como eu. -Seus pais vem? -James perguntou também colocando os pés sobre a mesa, Remus se contorceu levemente na cadeira. -Não viriam por mim, mas tem ele. -Sirius revirou os olhos. O modo como Sirius falava dos pais dele me irritava um pouco, mesmo eu sabendo, por cima, que os pais dele não eram nenhum modelo de propaganda de margarina, mas ele pelo menos tinha os pais. "Isso não é da sua conta, cada um sabe o que se passa entre quatro paredes", o Eu interior gritava, então eu tentei deixar para lá.
-Bom, é uma festa na qual eu não tenho que marcar presença. Para azar de vocês garotões. -Eu também me reclinei na cadeira colocando os pés na mesa, um "Porra" baixo mais raivoso escapou os lábios de Remy. Não era sempre que ele xingava, mas era um som que eu podia me acostumar com facilidade. -Mas... Bem, não tem ninguém, tipo, mesmo? -James falou, incerto. -A linhagem dos Bouler infelizmente se resume a esta que vos fala. -Eu disse com um sorriso fraco, não que fosse uma novidade para todos que eu era orfã, mas acho que ninguém contava com o fato que eu não tenho ninguém mesmo. Irmãos, tios, primos, avós, nada. Os garotos ficaram um momento em silêncio até que Sirius se manifestou. -Posso te vender minha família por um maço de cigarros. Mas não aceito devoluções. -Te dou dicas de orfanatos não tão ruins em troca de uma bota nova. -Eu não podia mudar a relação que Sirius tinha com seus pais, então eu não estragaria a minha relação com qualquer um dos garotos por causa disso. Os garotos olharam para as minhas botas e eu não me senti desconfortável por isso, a cada segundo que corria, eu me sentia cada vez menos culpada de ser eu mesma, pelo menos quando eu estava perto deles. As botas estavam destruídas para dizer o mínimo e mesmo eu as tento comprado três tamanhos maior do que o que eu calçava na época, agora elas começavam a ficar um pouco apertadas, mas tinham uns rabiscos legais que eu fiz no decorrer dos anos. -AC/DC?! -Sirius falou agarrando meu pé direito um pouco animado demais. -Brian Johnson ou Bon Scott? -Bon Scott. -Eu disse com um sorriso aberto, Sirius assentiu veementemente a cabeça como se tivesse acabado de ouvir a palavra do Senhor da boca do próprio Jesus. -Minha garota! -Ele disse esticando a mão para um high five. Os três continuaram a me perguntar incansáveis sobre tudo que estava marcado ali, o que gerou muitas discussões e vários interesses em comum. Eu nunca diria que James Potter é um fã de animes até ouvir da boca dele que One Piece é muito melhor que Naruto. E eu também tive uma briga acalorada com Sirius sobre qual animal era mais inteligente, pinguins ou cachorros, e como em qualquer discussão com Sirius Black, pelo que eu pude perceber, eu acabei tendo de admitir que ele estava certo se não ele não iria parar de gritar a letra de "Barbie Girl" com os dedos nos ouvidos. E por fim, Remus recitou de cor o poema "The Raven" de Edgar Allan Poe, cuja frase "Never more!" Estava rabiscada em letras garrafais na lateral da bota. Eu, Sirius e James encaramos Remy boquiabertos enquanto ele recitava, o poema é enorme e deveras complexo, mas ali estava o garoto fazendo parecer não mais difícil que decorar uma cantiga de ninar. Quando ele enfim acabou e encarou nossas caras de espantosa admiração, suas bochechas pálidas coraram. Eu não pude evitar o instinto que se apoderou de mim e eu tive de apertar as bochechas dele. Depois do meu momento tia avó maníaca do dia e de mais algumas conversas dispersas, James deu um grande bocejo. Eu encarei a Sala Comunal, notando pela primeira vez que nós estávamos completamente sozinhos. -Merda. -James falou olhando o celular. -Já é meia noite. Nós nos despedimos, fazendo mais algumas piadas e subimos para os respectivos dormitórios. Eu abri a porta vagarosamente, tentando ignorar o quanto ela rangia, e entrei no quarto escuro. Eu não tenho um celular ou qualquer coisa para iluminar o ambiente, então nesses quatro anos eu tive de me tornar uma especialista em andar e desviar com perfeição no nosso dormitório. Eu desviei intuitivamente da onde eu sabia que haveria uma pilha de roupas da Alice jogadas e dei um passo para a direita para desviar do local onde Lily costuma guardar os livros dela. Contei mais um, dois, três passos e segurei a madeira da cabeceira da minha cama. "Muito bem Pietra, mais um dia sem acidentes", Eu me parabenizei e agarrei o pijama que eu deixava ali. Então eu dei meia volta e fui tomar banho. Enquanto estava no chuveiro, que eu agradecia diariamente por possuir água quente, eu pensei no dia estranho que eu tivera. Talvez estranho não seja a expressão correta, mas sim um dia extraordinário, no sentido radical da palavra e no figurado também. Eu dividi os novos rumos da minha vida em tópicos enquanto me ensaboava. Ponto número 1- Se eu já não tinha problemas o suficiente com os sonserinos, agora eu tenho. Ponto número 2- Lucius Malfoy geme como uma gata no cio, e eu sinto uma mistura de repulsa e satisfação quanto a isso. Ponto número 3- Eu vou descobrir o que está errado com Remy e eu pressinto que isso vai me dizer o que está errado com Sirius de quebra. Ponto número 4- Se alguém me perguntasse porque eu estou tentando juntar Lily Evans e James Potter, eu não teria uma resposta decente. Algo neles apenas me parece certo, e eu odeio estar errada. Ponto número 5- Os garotos agora sabem mais sobre mim do que qualquer um. Então eu me lembrei, e com uma súbita raiva me consumindo, eu soquei os azulejos do banheiro. "Eles não sabem mais sobre mim do que qualquer um" eu pensei cerrando os punhos com força. "Severus sabia tudo sobre mim e mesmo assim ele fez o que fez, não posso cometer o mesmo erro duas vezes. Se eu estou viva até hoje é por que eu aprendo com erros". "Mas os garotos não julgaram você em nenhum momento," uma voz mais suave dentro de mim sussurrou "eles te apoiaram incondicionalmente". "Não seja idiota Pietra, não mais uma vez". Eu respirei fundo, tentando fazer aquela sensação pesada sair do meu corpo e agarrei uma toalha. Eu voltei para o quarto e refiz meus passos, chegando ao mesmo ponto da cabeceira. Eu me sentei na cama, mas alguma coisa já estava lá e grunhiu para mim. Com um grito preso na garganta eu pulei para fora da cama e tentei não entrar em pânico. Meus olhos já começavam a se acostumar a escuridão do quarto e pouco a pouco eu pude distinguir o contorno de Trevo, enrolado no meio da minha cama. Mas ele não estava sozinho. Deixando um som estrangulado sair de minha boca, eu notei que Trevo e uma gata, que eu logo notei ser madame Nor-r-r-a estavam tendo um momento... Íntimo.Na. Minha. Cama. Eu pensei em espantá-los, mas Trevo provavelmente me atacaria, como sempre, e isso acordaria as meninas, além do fato de que eu não queria deitar na minha cama, a menos que eu exorcizasse e queimasse ela antes. Então eu muito a contragosto agarrei o único travesseiro que parecia ter escapado de qualquer contato com os depravados amantes e mais uma vez abandonei o quarto. Eu pensei nas minhas opções, que eram na verdade bem limitadas. Eu podia tentar ir até o dormitório de outras meninas, mas eu não achei uma boa ideia, primeiro por falta de camas e segundo por falta de qualquer empatia com elas. Eu desci irritada de volta para a Sala Comunal e me joguei em uma das poltronas. -Gatos. -Eu resmunguei, encarando a lareira apagada. -Pequenos satãs peludos. -Eu soquei o ar, ridiculamente infantil. A Sala não era tão aconchegante e agradável quando estava vazia e silenciosa mas pelo menos ela não tinha nenhum quadro, apenas um retrato grande de uma cantora de ópera do lado de fora, eu nunca gostei de quadros por que eu tenho certeza que eles podem me ver. Eu tentei me ajeitar na poltrona mas o couro fazia um som insistente que me incomodava, eu estava começando a me arrepender de não ter arremessado os gatos pela janela direto no lago quando eu ouvi passos na escada. Eu me coloquei de joelhos na poltrona para poder olhar melhor para as escadarias e então eu vi a figura pálida e alta de Remus Lupin me olhando de volta. Ele sorriu. -Me seguindo até aqui? -Tenho certeza que quem chega depois é o perseguidor. -Eu disse retribuindo o sorriso e caindo pesadamente mais uma vez na poltrona, o som de couro contra pele me dando arrepios. -Touché. Bonito pijama aliás. -Ele disse depois de sentar com as pernas cruzadas num sofá na minha frente. Eu agarrei o travesseiro e joguei na frente do meu pijama largo e surrado de dálmatas, fingindo estar constrangida. Sinceramente eu não me importava nem um pouco com esse tipo de coisa, eu convivi com muitos garotos para tentar esconder qualquer coisa. -Tsc Tsc, que pervertido. -Eu disse sacudindo a cabeça. Eu encarei as roupas dele. -Bonito pijama. -Eu disse no mesmo tom que o dele. Ele olhou rápido para baixo, corando levemente, mas logo se recuperou. Ele usava uma calça de moletom preta com uma camiseta muito maior que o seu número por cima. Na camiseta o cantor Morrissey da banda The Smiths aparecia apenas com um tapa sexo, com uma mão sobre a boca da rainha Elisabeth II. E um balãozinho sobre o cantor dizia "Quanto mais você me ignora, mais perto eu chego!" -Abaixo a monarquia! -Ele disse levantando o punho dos anarquistas, eu ergui meu punho também e nós dois demos risada. -Fazendo o que acordado? -Eu disse logo depois. -Fugindo dos meus sonhos. -Existe uma certeza, um tipo de sentimento, que todas as pessoas que sofrem com os próprios sonhos, possuem. Nós sabemos quando alguém é como nós. Remus sabia sobre meus pesadelos, eu sabia sobre os dele, nós não falávamos sobre isso. Fim de conversa. -Você? O rosto dele estava visivelmente cansado, mas eu não iria sugerir para ele ir dormir. Às vezes conversar, simplesmente, mesmo que exausto, relaxa mais do que uma noite fugindo dos monstros da nossa própria cabeça. -Tem dois gatos transando na minha cama, agorinha mesmo e eu decidi não cortar o clima. Ele deu uma risada curta e rouca. -Sábia decisão. Odiaria viver em um mundo em que dois amores tem seu momento ápice interrompido por uma simples mortal. -Um dos gatos é a Madame Nor-r-r-a. -Filch vai ser avô? -Eu sempre imaginei ele como marido da Nor-r-r-a. -Nojento. -Estamos falando do Filch aqui, quais sãos os limites para o nojo? -Touché. -Eu quero te perguntar uma coisa, -Eu disse pausadamente, encarando os olhos verdes dele. Eu não queria magoa-lo, mas eu era muito curiosa para ficar quieta e alguma coisa me dizia que eu podia ajudar Remus, pelo menos, euq queria ter a chance de tentar. -Tem a ver com o fato de que eu supostamente "fiquei estranho" depois do jantar? -Tem. -Eu disse assentindo. -Nós já discutimos isso. -Ele disse cortando o contato visual e encarando a lareira. -Por que essa merda está apagada no meio do inverno? -Não comece a mudar de assunto mais uma vez. -Pietra, não. -Ele voltou a me olhar, e mais do que as palavras, foi a cor sumindo momentaneamente de seus olhos que me fez parar. Eu estava machucando ele, mesmo que isso nunca tenha sido minha intenção. Ele voltou a olhar a lareira. -Não faz sentido algum. -Ele disse baixo, e eu já não sabia dizer se ele estava falando da falta de fogo ou se já tinha se perdido em seus pensamentos. Nós nos mantivemos em silêncio mais alguns momentos até que eu ouvi o mesmo som de antes, passos na escada. -Malditos dementadores. -Eu ouvi Sirius falando e logo depois bocejando. Eu me coloquei de joelhos mais uma vez na poltrona. -O que são dementadores?! -Eu perguntei de maneira infantil. Os olhos de Sirius se arregalaram levemente com o susto que ele levou, ele levou uma mão ao peito. -Você podia ter me matado! -Tento de novo na próxima vez. -Eu disse sorrindo. -Agora os dementadores, o que são? -Ela tem algum botão de desligar? -Sirius perguntou para Remy. -Aparentemente não. -Ele falou revirando os olhos. -Vocês dois, -Eu disse apontando um dedo para cada um. -Vão se foder. Agora, os dementadores, o que são? -Minha curiosidade também me irritava, mas era inevitável. Sirius respirou fundo e foi até o sofá em que Remus estava, foi nesse momento que eu notei que Sirius estava sem camisa. Eu respirei fundo, tentando desviar os olhos. Sirius era gostoso. Eu não tenho como colocar em outras palavras. Fatos são fatos. Ele era moreno, definido, forte e para o desespero da humanidade, ele sabia disso. Eu podia sentir o calor subindo pelas minhas bochechas, como fogo. Malditos instintos femininos. Eu respirei fundo mais uma vez. -Bicho papão. -Sirius disse com um suspiro. -Huh? -Eu falei, tentando focar minha mente em algo que não fosse o abdômen de Sirius Orion Black. Ele deu um sorriso malicioso esquadrinhando cada centímetro do meu rosto, ele sabia que eu estava abalada e ele estava gostando disso. Ele se espreguiçou vagarosamente antes de me responder, os braços atrás da cabeça, se recostando no sofá. Eu decidi que olhar para Remus nesse momento era uma ideia melhor do que babar bem na frente de Sirius. Mas uma visão engraçada se seguiu, Remy parecia levemente catatônico, encarando Sirius e mordendo a parte interna da bochecha, vidrado no mesmo abdômen definido. Se eu tivesse um espelho, eu diria que aquela era a cara que eu estava fazendo. Finalmente Sirius deu uma pausa no meu sofrimento e voltou a falar. -Como você já ouviu, até demais, minha família não é exatamente, hm, normal? -Ele olhou para Remus a procura de um apoio. Remus, que parecia ter saído do transe assentiu. -Não havia histórias de ninar para mim, Regulus ou minhas primas. Eles contavam histórias de terror. "Enaltece a alma", eles diziam. Eu tinha cinco anos! Cinco anos e os porras me diziam que meu irmão e eu seríamos mortos pelo beijo de um dementador. -Ele passou as mãos pelo cabelo. -Um dementador, -Ele continuou. -É um ser mitológico, feito de medo e desesperança e, segundo consta, ele suga toda sua felicidade até que você não é mais quem era. Uma casca. Meus pais nos prendiam no sótão, toda vez que nós chorávamos. Nós éramos uma desonra para a família, algo que só poderia ser encarado com nojo. Eu segurava Regulus nos meus braços até que ele adormecesse, preocupado com cada tremor, cada sonho ruim que ele tinha quando estávamos presos lá em cima. Depois de alguns anos, eu parei de chorar, mas eu fingia que chorava para poder ficar com ele durante a noite. Demorou mais algum tempo antes que eu notasse que os dementadores eram ninguém além do que meus pais e pouco a pouco eles desmontaram cada pedacinho do meu irmão para montar o filho que eles sempre quiseram, uma casca oca, que repete ideologias vazias. Eu sonho com eles com alguma frequência desde então. Eu acho que Regulus ainda chora. Coisa fascinante o medo. -Ele olhou no fundo dos meus olhos, sem raiva, sem ira. Eu via apenas dor, a mesma dor que eu via em Remy, a dor que eu sentia em mim. Se eu tivesse que apostar, eu diria que foi naquele momento que eu percebi que os meninos não se colocariam contra mim, ou julgariam, por que eles entendiam o que era sofrer em silêncio, e esse é o tipo de fardo que amigos estão dispostos a carregar. Naquele exato segundo, eu queria que toda a dor de Sirius fosse minha dor. Eu queria que o mundo que machucou Sirius tivesse me machucado ao invés dele. E mesmo que o mundo tenha me destruído antes de eu conhecê-los, eu não me importaria de encarar tudo de novo, por ele, por Remus, por James. -Meu pai me contava sobre os Dibbuk, sabe? -Eu comecei, tentando fazer com que minha voz não falhasse, eu não sei o que me levou a contar essa história, mas eu continuei. -São demônios, da cultura judaica eu acho. Eles levam a pessoa que eles possuem a loucura. Sentimentos bons são substituídos pouco a pouco, pelo ódio e o medo. Meu pai era marinheiro, toda a família dele era, vinham dos portos mercantes de Liverpool antes mesmo de Liverpool ter um nome. Um dia ele voltou de uma viagem longa, me chamou ao seu lado e me disse que um Dibbuk estava com ele e que ele estava com medo. Ele me perguntou se eu sabia o que ele tinha que fazer. -Eu olhei para o teto, tentando me por em ordem. -Eu disse que não, "o que você deve fazer papai?", ele não respondeu, ele apenas me afastou com delicadeza de perto dele, um sorriso congelado no rosto, e foi para perto da nossa janela, encarar o mar por sobre a tempestade. Uma criança de seis anos não conhece sinais sutis como esse, mas eu entendi. Ele havia me ensinado o que os Dybbukim eram, o que faziam. Subitamente eu sabia o que meu pai tinha de fazer, e ele fez. Duas semanas depois ele embarcou em um navio pesqueiro e ninguém mais o viu. Os marinheiros não sabem o que pode ter acontecido. Se foi um acidente ou algo assim. Mas eu sei o que foi; ele se livrou do Dibbuk, antes que o Dibbuk se livrasse dele. Eu nunca o julguei por isso, mas eu também nunca velei sua morte. Eu apenas continuei, um passo de cada vez, por que eu sabia que o demônio não era um monstro, mas era real, ele era uma parte do meu pai. No fim, eu fui mais forte que ele, fui mais forte que meu pai por quase toda a minha curta existência e eu acho que foi isso que ele sempre quis. Que o meu Dibbuk nunca me tocasse, nunca me destruísse. -O olhar que Sirius e Remus me dirigiram transmitiam a mesma sensação que eu tive momentos antes, a de querer que a dor pare, que ela vá embora. Eles não ostentavam o olhar de pena, que eu conhecia tão bem, era algo mais profundo. Eles estavam sentindo por mim, o mesmo que eu sentia por eles. Uma onda de alívio e gratidão percorreu todo meu corpo enquanto eu respirava pesadamente para não chorar.
-Você precisa de um nome. -Sirius falou decidido momentos depois. -Até onde consta, eu tenho um nome. -Eu disse com a voz embargada. -Um nome dos nossos, como Padfoot, Prongs e Moony. Remus olhou para Sirius com um sorriso maravilhado, eu em contra partida não sabia como reagir. -Eu... Posso? -Não babacona, eu falei isso só pra te enganar. -Ele falou sarcástico. -Vamos precisar do Prongs. -Remy falou. -Merda, verdade. Vou mandar mensagem. Eu vi Sirius pegar o celular e mandar milhares de mensagens, digitando rápido como um datilógrafo. Alguns segundos depois ele recebeu uma mensagem de volta. -O senhor Prongs aprova nosso plano e diz que Pietra pode ganhar um nome, ele também mandou eu ir me foder por tê-lo acordado na madrugada e disse que isso vai ter volta amanhã. Nós três rimos. -Me ajude com isso Moony. -Sirius falou se levantando e indo na minha direção. Remus fez o mesmo. Os dois começaram a me encarar de cima baixo. -Alguma coisa com a cor dela talvez? -Sirius falou com uma mão sob o queixo. -Nah, esse já sou eu. -Remus respondeu. Os dois continuaram essa discussão por algum tempo. Murmurando palavras e as descartando em seguida, minhas unhas pintadas de preto, as sardas, meus olhos castanhos, minhas botas, minha voz, tudo foi considerado. -E o cabelo? -Sirius falou finalmente. -Ela tem aquela coisa de prender ele toda hora. -Não é uma "coisa", -Eu falei ofendida. -É uma mania. -Parece um rabicho. -Sirius falou puxando meu rabo de cavalo. -EI! -Eu disse puxando o cabelo de volta. -Wormtail? -Remy falou, pensativo. Sirius abriu um sorriso enorme. -Wormtail. -Ele concordou. -Agora eu vou avisar o Prongs. -Ele vai te matar. -Eu disse. -Ele pode tentar. Sirius enviou mais milhares de mensagens e a resposta veio. -Ele está feliz com o nome, disse que foi muito criativo da sua parte Moony, ele também disse algumas palavras horríveis e impróprias para nossos puros ouvidos e ressaltou que ele assiste muito CSI, e sabe como fazer um assassinato parecer suicídio.-Ele deu uma risada. -Bem isso quer dizer que você é parte da gangue agora, Wormtail. -Sirius, não, Padfoot disse esticando uma mão para mim. Quando eu segurei sua mão ele me puxou para um abraço, o que me fez sentir animadíssima e muito embaraçada ao mesmo tempo. Ele ainda estava sem camisa. -Bem vinda Wormy. -Moony disse também me abraçando. Eu abri a boca para agradecer, mas Padfoot me interrompeu. -Não me agradeça por ser incrível, benevolente, protetor dos renegados, adorável e muito bonito. -Eu na verdade ia te dizer que seu cabelo está horrível. -Meu cabelo nunca está horrível, não é mesmo Moony? -Podia estar melhor Pads. -Remus falou enrugando os lábios. -Mentirosos, meu cabelo está sempre lindo. Todo o tempo, ele está maravilhoso. -Cala a boca Padfoot. -Dez segundos e eu já quero te expulsar da gangue. -Você pode tentar. -Isso foi um touché, Pads. -Moony falou com um meio sorriso. Nós continuamos conversando, até que Pads já estava caindo de sono, eu e Moony também. A conversa se tornou mais escassa até que virou apenas grunhidos. Padfoot bocejou mais uma vez e sem nenhum aviso, deitou sua cabeça no colo de Remy, sua mão direita descansando sobre a coxa do garoto. Eu fingi que estava dormindo quando notei que Moony me encarava, eu não queria estragar aquilo. Pads murmurou mais alguma coisa, se fazendo ainda mais confortável antes de finalmente cair no sono. Antes que eu mesma apagasse naquele que prometia ser um sono profundo, eu pude ver Remy entrelaçar seus dedos nos cabelos de Sirius e dar um sorriso contido para o garoto em seu colo, encostando a cabeça no sofá e deixando o sono abraçá-lo. Algo ali me dizia que nenhum de nós teria pesadelos aquela noite.
Notas finais
Bom, alguns recados:
Todos os momentos Jily nesse capítulo são dedicados a maravilhosa @jamespottrer (eu juro que vai ter maissss); os momentos Wolfstar vão continuar sim (e cada vez mais fofos se deus quiser), como eu disse lá no início, Wolfstar é um dos ships principais dessa fanfic, mesmo que o foco não sejam os casais em si; os próximos capítulos vão ser mais animados/engraçadinhos eu juro. (!!!); eu tenho uma dificuldade monstruosa em falar do passado da Pietra por que eu tô muito apegada nela (ah vá), mas daqui pra frente vocês vão conhecer ela mais e mais; sim foi um capítulo meio deprê então me desculpem antecipadamente.
É isso pessoal, vejo vocês quinta que vem
Fale com o autor