Raise your glass
12 Capítulo 10- Natal -Parte2.
O jantar era simples, mas foi a ceia de Natal mais interessante que eu tive em anos.
Eu estava sentada ao lado de James, o que me rendeu duas ervilhas arremessadas contra os meus cabelos.
—É maior do que eu. -Ele disse sorrindo, um grande bigode de cerveja amanteigada contra o rosto acobreado, eu tive que rir.
Thomas e Remus estavam sentados opostos a nós, sem se falar desde o incidente Surrane vs. Black. Sirius e Tony estavam cada um em uma ponta na mesa.
—Sirius, me passa o frango. -Eu me arrependi de ter dito aquilo logo depois.
—Ao que parece o Thomas está bem preso a cadeira para eu poder passá-lo para você.
Porra.
—O QUE VOCÊ DISSE?! -Thomas falou se virando, Remus tentando inutilmente segurá-lo pelo cotovelo.
—Você é surdo, Surrane?
Antes que eu e Prongs nos jogássemos pela mesa para tentar impedir a 3ª guerra mundial uma risada rouca correu por toda a extensão da mesa.
—Ah, você me lembra uma pessoa. –Tony mal conseguia parar de rir. Sua mão branquela apertava a barriga com força enquanto suas bochechas ficavam rosadas. Todos permanecemos em silêncio até ele retomar a história. –Eu estive em Woodstock, sabiam?
—Você conheceu a vovó lá. –Tommy murmurou. Remus o encarou com um sorriso de lado, alguma piada interna que eu desconhecia. Eu senti uma pontada de ciúmes.
Pare de me julgar, ninguém é de ferro.
—Mas não é só isso. –Tony sorriu para nós como um pai que vê suas crianças sendo muito ingênuas. –Eu estava acompanhado quando conheci sua avó.
Todos nós encaramos Anthony. Ele fez uma pausa dramática.
—Ariel, a melhor companhia que se pode pedir para um lugar como Woodstock. Foi o melhor fim de semana da minha vida. Ariel e eu chegamos nos gramados no primeiro dia. Não que eu me lembre muito. –Ele deu uma risada nostálgica. –Eu estava excepcionalmente chapado naquele dia.
Eu e Ari passamos a noite dançando perto de uma fogueira, e é engraçado por que eu consigo lembrar com clareza do tom acobreado que o fogo lançava contra sua pele morena, os longos cabelos pretos enfeitados com uma coroa de flores que eu mesmo tinha feito. A visão era linda. Nós dançamos até a exaustão nos fazer cair contra a grama para descansar, nós dormimos lá, abraçados sob um cobertor de estrelas.
Foi no segundo dia que eu conheci sua avó, ela estava com um grupo de amigas, todas tão lindas, os cabelos trançados e os corpos descobertos. –Ele encarou cada um de nós. –A geração de vocês deu o tom errado para os corpos. A questão não é ter o corpo certo, isso não existe. A questão é aceitar quem você é. Nós sabíamos fazer isso, nós sabíamos entender o outro. Eu não sei como nós criamos gerações tão ignorantes quanto a de vocês. –Ele não deu atenção para nossa indignação e continuou. –O risada de Chiara... eu poderia morrer e matar mil vezes para ouvir sua risada mais uma vez. –Ele correu as mãos pelos cabelos grisalhos. –Ela veio acompanhada de uma amiga até o Tétano. Eu e Ari estávamos acampados nele. Ela bateu na porta e perguntou se eu podia fazer coroas para suas amigas também, eu parecia ter esquecido como é que se falava. Foi Ari que respondeu por mim, disse que faríamos coroas para todas e se elas quisessem podiam nos encontrar ao cair da noite.
Quando elas se foram, eu ainda podia sentir o cheiro de lavanda dela. Ari disse que eu parecia ter me apaixonado pela primeira vez. Eu acho que tinha mesmo. -Eu queria muito perguntar mais sobre Ariel. Que garota em sã consciência dá risada do namorado se apaixonando por outra pessoa? Mas eu continuei em silêncio, como todos os outros, escutando atenta.
—Elas voltaram na mesma noite, eu e Ari tínhamos passado o dia fumando e terminando as coroas. Quando Chiara viu a última coroa, ainda interminada nas minhas mãos, disse que aquela seria a dela, disse que eu tinha feito aquela pensando nela. Eu nunca tive a chance de contar a ela que fiz todas aquelas coroas pensando nela, cada uma delas.
Os cabelos de Chiara eram curtos, assim como suas unhas roídas. Tudo nela sugeria que não conseguia parar em um mesmo lugar por muito tempo.
Ela era o oposto de Ariel.
Eu achei que meu coração tinha lugar para dois amores diferentes. Ari não pensou o mesmo.
Quando eu acordei no terceiro dia, a Kombi estava vazia. Eu sabia que estava sozinho antes mesmo de encontrar a carta. Nada de rancor, nada de raiva, apenas uma despedida cheia de lembranças e memórias. A letra muito mais cuidadosa que qualquer coisa que já possa ter feito. Minhas lágrimas encharcaram o papel pardo quando eu li seu pedido para que eu não deixasse Chiara escapar.
Eu não deixei, Ariel não me perdoaria se eu tivesse deixado.
Eu sinto saudade dos dois, todos os dias, da hora que eu acordo até o sono me levar toda noite. –Ele olhou para Sirius do outro lada da mesa. Os olhares se sustentaram, mesmo eu notando o nariz avermelhado de Pads. Eu não conseguia segurar o choro como ele, as lágrimas quentes cortavam minhas bochechas. –Você me lembra ele, Sirius. Você me lembra do meu Ari.
O ar ficou preso na minha garganta. Os olhos de Padfoot se abriram em duas luas cheias.
—E-ele?—Sirius disse, sem se controlar. Tony apenas sorriu para a pergunta.
Prongs abriu um largo sorriso.
—Bem, isso foi um plot twist daqueles.
Eu nunca quis tanto que meus olhos fossem uma câmera fotográfica quanto quando eu finalmente olhei para Remus. Seu rosto parecia ter cores novas, os olhos pareciam ter brilho novo, tudo nele parecia tão novo que eu nem ousaria dizer que aquele era o mesmo Moony de minutos atrás. Ele colocou a mão dele sobre a de Thomas, num movimente rápido e quase imperceptível e apertou a mão de Tommy contra a sua.
—x-
—Se eu for dormir vocês prometem não atear fogo no Cavern?
—Não posso prometer nada. –Sirius disse palitando os dentes.
Tony remexeu os bolsos e jogou uma caixinha metálica pela mesa.
—Isso vai deixar vocês calmos o suficiente para não destruírem o meu bar. –Ele sorriu e se dirigiu para as escadas. –Juízo.
Thomas pegou a caixinha e a abriu com um click alto. Eu me pendurei em seus ombros para ver o que era.
—Isso é...?
—Meu avô ficou louco de vez.
—O que é Thomas? –Remus perguntou se aproximando. –Oh.
—Pode não ser uma má ideia. –Eu falei dando de ombros.
—Mas do que macacos vocês estão falando? –James falou se colocando do meu lado. Até entender do que aquilo se tratava ele permaneceu em silêncio, a testa franzida. Seu rosto foi mudando aos poucos, primeiro veio a surpresa, então a incredulidade e por fim... –Nenhum de nós vai chegar perto disso.
Eu devia ter imaginado que os limites de Prongs para drogas eram bem claros. Um absinto (ou alguns) com os amigos e a garota que você gosta, tudo bem. Agora maconha? Isso era pedir demais do Mister Meu Corpo É Um Templo.
Eu peguei um dos seis becks que estavam dentro da caixinha e apertei contra meus dedos. Maconha não era exatamente uma novidade para mim, sempre que eu voltava ao o orfanato para passar as férias um garoto chamado Finn me dava um cigarro. Ele dizia que era um presente de bom retorno ao lar.
Finn era uma das poucas pessoas de lá que eu suportava. Mesmo quando ele acordava gritando no meio da noite assustado por alguém que não estava lá. Mesmo quando a maconha se tornou alguma coisa mais pesada que começou a deixar marcas no seu rosto. Mesmo quando ele atacou um dos nossos monitores. Mesmo quando eu não o encontrei pelos corredores com seus sorrisos fáceis e presentes de boas-vindas no último verão. Ele era um bom menino. Talvez, se ele tivesse encontrado uma família que o acolhesse, nada daquilo teria acontecido.
Talvez é uma palavra que causa dor demais.
—Não é uma má ideia. –Eu repeti girando o cigarro pelos dedos. Esquecer tudo e todos por algumas horas? Eu podia fazer aquilo.
—A maconha é a porta de entrada para outras drogas. –James falou com confiança, como se ele tivesse decorado aquela frase há muitos anos. Eu olhei para ele e sorri.
—Então o que estamos esperando?
Thomas foi o mais fácil de ser convencido, na verdade eu não precisei de esforço algum. Ele me entregou seu isqueiro e voltou a se sentar na mesa. Sirius que estava anormalmente quieto depois da história sobre Tony, Chiara e Ari apenas fez um maneio de cabeça. Ele também estava dentro.
—Eu não vou ficar aqui vendo vocês perderem seus neurônios a troco de nada. –James falou irritado se dirigindo para as escadas.
—É uma pena, -Eu disse tirando um pedaço do meu esmalte roxo do dedo anelar. –Que ninguém vai estar aqui para testemunhar todas as idiotices que nós vamos dizer, sabe como é, alguém que não esteja chapado...
Prongs se deteve. Quando ele se virou, um sorriso malicioso cortava seu rosto.
—Você é um demônio.
Eu não me dei ao trabalho de negar.
Era a vez de convencer Remus. Qual foi o tamanho da minha surpresa quando eu me virei para ele e ele me encarava com a mão esticada? Eu o encarei sem entender e ele impacientemente puxou o isqueiro da minha mão, no segundo seguinte o beck estava acesso. Ainda sem tragar ele o passou para mim.
—Vocês falam muito. –Ele disse e logo depois abriu um sorriso. –Você acha que só você pode tomar decisões estúpidas?
Eu sorri para Moony e trouxe o cigarro até meus lábios, sem maiores hesitações eu traguei como se minha vida dependesse daquilo, um arrepio de alívio percorreu meu corpo. Eu traguei outra vez e passei o beck para Remus.
Com passos lentos, andei até o velho jukebox que ficava do lado do pequeno palco e procurei por alguma coisa decente. Inexplicavelmente o nome da banda “The Human League” me fez rir sem parar, eu decidi que eles eram os sortudos escolhidos, dei play na primeira música do EP. Não era ruim e eu voltei balançando ao ritmo da música para a mesa.
Eu puxei o cigarro da boca de Tommy.
—Ei!
—Vem pegar, big boy.—Eu me arrependi do apelido logo depois de ter dito, só Ludo podia ser chamado de big boy. Mas sob o maravilhoso efeito da Cannabis meu desconforto se transformou numa história idiota. –Vocês se lembram, -Eu parei para dar risada. –Quando vocês ficaram torcendo para eu e Ludo nos beijarmos? –Nós passamos o próximo minuto rindo, mesmo Thomas que desconhecia os fatos. Pensando bem, James provavelmente não estava rindo conosco e sim de nós.
Thomas deu uma tragada profunda soltando vários arcos de fumaça, eu fiquei encantada com a visão, ele olhou para mim e me deu uma piscadela. Mais motivos para rir sem parar.
Eu decidi, sem mais nem menos, me levantar e dançar ao som da música brega que ressoava pelo Cavern, eu puxei Remus comigo.
—Eu acho que não sei dançar, -Ele disse coçando a cabeça como se alguma coisa tivesse se perdido. –Mas não tenho certeza.
—Vamos testar.
A música era animada e falava sobre um cara que se apaixonou por uma garçonete, eu imaginei Remy com aqueles aventais de garçonete de beira de estrada e a ideia me fez cair na gargalhada mais uma vez. Eu puxei Moony para perto de mim, mas foi um movimento muito repentino, seus pés se enrolaram neles mesmos e ele tropeçou caindo em cima de mim. O impacto da minha bunda contra o chão de linóleo foi anestesiado e eu demorei alguns instantes para notar que eu realmente estava sentada no chão com metade do corpo de Remus no meu colo. Eu empurrei ele para longe e não pude evitar a crise de riso que se seguiu ao ver seu rosto assustado.
—Vocês são péssimos dançarinos. –Sirius veio na nossa direção e nos levantou, eu dei um tapinha nas costas dele, ainda desajeitada.
—Ah e você é um mestre?
Ele deu de ombros e Remus revirou os olhos para ele.
—Então prove. –Eu disse colocando as mãos contra os quadris num desafio, ele não precisou de maiores tentativas de convencimento.
—Essa música é um lixo, precisamos de algo melhor. –Ele andou até o Jukebox e começou a procurar por alguma coisa, eu aproveitei para pegar o cigarro mais uma vez. Eu não sabia onde James estava, mas eu vi Tommy e Remus sentados no chão, as costas apoiadas na parede.
—ESSA! –Padfoot deu play na tal “música perfeita” e voltou com um sorriso malicioso.
—Tente me acompanhar. –Eu peguei a mão dele e nós dois fomos para perto do palco. Eu empurrei uma mesa que estava no caminho (não sem antes derrubar o saleiro que estava em cima dela).
Se alguém me perguntasse em detalhes como nós dançamos, eu não saberia descrever, envolveu tropeços, balanços descoordenados, pisões em pés e quase nenhum ritmo. Quando Sirius pisou pela quinta vez no meu pé, eu me virei para Remus para reclamar, mas minha crítica foi cortada no meio do caminho.
Thomas estava com uma mão entre os cabelos encaracolados de Remus, a outra puxava sua cintura na tentativa de reduzir a zero a distância entre os dois, já Moony agarrava a camiseta de uma bandinha indie desconhecida de Thomas na altura do peito. Os olhos de Thomas estavam totalmente concentrados em praticamente despir Moony mentalmente, ele, por outro lado, parecia bem interessado em encarar os lábios mordidos de Thomas. Eu conseguia contar os segundos que levaram para seus lábios se colarem. O beijo começou lento, derretido e, estranhamente romântico. As mãos de Thomas viajavam pelos cabelos castanhos de Moony, a mão firme na cintura esguia parecia apertar a medida que o beijo se intensificava.
Desviei os olhos do beijo quando ao meu lado Sirius fez um som gutural quase canino, seus olhos muito pretos estavam colados a cena, uma careta de raiva e dor distorcia o rosto que era a grande tentação da Grifinória, suas sobrancelhas se arquearam, sua boca fechada em uma linha fina e seu peito subindo e descendo muito rápido. Sirius apertou meu braço com força, suas unhas arranhando um pouco minha pele, tirei sua mão de mim e apertei entre minhas.
Pads...- quando o chamei por seu apelido ele desviou seus olhos enraivecidos do beijo, que agora estava muito mais chocolate quente que baunilha. Parecia muito determinado, e isso me assustava, quando Sirius tinha planos alguém acabava machucado, e eu rezava para que não fosse eu.
— Vamos mostrar pra eles como se faz, Wormy. – A mão que eu apertava me puxou para a pista de dança
—Você não está em condições de ficar dançando. –Eu murmurei, Padfoot estava me deixando verdadeiramente preocupada, mesmo com a sensação de leveza que o efeito da maconha me trazia. Ele baixou o olhar até que os olhos dele fuzilassem os meus.
—Você não vai me dizer no que eu estou ou não em condições de fazer. –Ele colocou ambas as mãos na minha cintura e me puxou para perto, ele estava menos bruto, o que era um bom sinal para ele. Se ele continuasse eu ia fazer dele o novo Lucius. O puxão que ele me deu, erradicando o espaço entre nossos corpos me fez exclamar surpresa. Antes que eu me desse conta sua boca estava contra meu ouvido.
—Eu não me canso de te ver corada. –Um arrepio inoportuno fez todo meu corpo se eletrizar, eu coloquei minha mão contra seu ombro e o empurrei levemente.
—Jura? –Ele sorriu seu sorriso canídeo. –Tudo bem, eu gosto de desafios.
—Eu não sou só uma conquista, Black. –Eu queria parecer séria, mas meus membros pareciam tão leves, eu tive certeza naquele momento que eu podia voar.
—Eu nunca disse que você era. –Ele se aproximou mais uma vez e eu não o empurrei de novo.
Tudo no meu corpo gritava “Não! Não! ”, mas eu não conseguia seguir nada que não meus instintos, eu quis gritar, mas ao invés disso eu sorri.
—Só uma dança.
—Só uma dança. –Ele repetiu sussurrando. Eu sabia que ele estava mentindo, talvez eu também estivesse.
Eu passei meus braços ao redor do pescoço dele, seus cabelos longos faziam um tipo engraçado de cócegas na minha pele.
—Você está sorrindo. –Ele constatou se aproximando mais uma vez do meu pescoço, eu suspirei.
Era Sirius que ditava o ritmo dos nossos corpos, eu só queria estar cada segundo mais perto dele, mesmo que isso fosse fisicamente impossível.
Eu ainda estava grogue, mas Padfoot era fluído em seus passos como um rio. Foi nesse momento que eu me perguntei pela primeira vez se eu tinha visto Sirius fumar o beck. Eu não consegui me lembrar.
—Foco. –Padfoot sussurrou e eu pude sentir seus lábios roçando meu pescoço
Não.
Não.
Não.
Merda.
Sabe quando todo o seu ser anseia por alguma coisa? Ansiar não é bem a palavra. Todas as células do seu corpo imploram por algo... mesmo você sabendo que alguma tragédia de proporções catastróficas vai acontecer se você ceder as vontades pecaminosas do seu corpo.
O meu problema era: Sirius Black era uma vontade pecaminosa extremamente irresistível.
Eu tinha que admitir que Sirius sabia muito bem como seduzir alguém. Ele roçava os lábios no meu pescoço e respirava fundo, fazendo com que todos os meus pelos se arrepiassem em um efeito dominó inebriante. Os lábios de Sirius eram macios. Não um “macio” como os cabelos, eram suaves como uma pétala de flor.
Ele subiu os lábios pela minha garganta, carregando a minha mente para a insanidade conforme acariciava as minhas costas... como se estivesse me dizendo com gestos que tudo ficaria bem. De um modo distorcido e complicado, eu sempre achei que Padfoot era um grande bruto. Sim, bruto. Mas ele sabia muito bem como usar todos os seus encantos e – por incrível que pareça – como tratar uma mulher com carinho.
Será que eu estaria mentindo se dissesse que eu não queria aquilo? Bem, acho que eu nunca vou saber.
Porque eu não o empurrei quando ele brincou com o meu cabelo, ou quando ele segurou a minha nuca com gentileza. Muito menos quando seus lábios se aproximaram dos meus e se juntaram em um selinho elétrico. Durou menos que um segundo, mas foi o suficiente para os ossos das minhas pernas virarem pó e abalar toda a minha estrutura.
Ele se afastou de mim, os olhos negros me fitando com uma intensidade que seria capaz de acender uma cidade inteira. Não vou dizer que só tinha percebido naquele momento o quanto Pads era lindo. Eu sempre soube disso – e obviamente, ele também. Mas naquele momento ele tinha uma luz diferente em seus orbes escuros, que os acendiam como se fosse um farol.
Eu tentei ler o seu rosto, mas como de costume, só Padfoot sabia o que se passava em sua cabeça.
Alguns caras olham para você como se só quisessem sexo. Pads olhava para você como se vocês já tivessem feito sexo, tivesse sido incrível e você quer mais, mas agora são só amigos.
Acontece que eu não me contento com vontades.
Sem pensar duas vezes, eu me joguei para frente e segurando suas dog tags com força, alcancei sua boca mais uma vez, dessa vez aprofundando um beijo mais intenso e irracional. Sirius agarrou minha cintura, fechando os braços fortes ao redor de mim e deslizando a mão pela minha coxa. Normalmente eu teria lhe dado um chute, mas eu não posso negar que estava gostando. A língua dele era doce e parecia soltar ainda mais alucinógenos em uma pessoa que já não estava mais em sua perfeita consciência.
Eu agarrei os seus cabelos negros, apreciando a sensação dos fios sedosos se enroscando entre os meus dedos e deixando que a minha mão alcançasse sua bochecha. Senti algo frio tocando minha pele e lembrei das argolas frias enfileiradas em sua cartilagem, o que, preciso admitir, fazia parte integral do sex appeal de Sirius. Minha cabeça já tinha dado umas trezentas voltas quando Pads interrompeu o beijo subitamente.
Ele me fitou com um sorriso preguiçoso. Eu respirava com dificuldade, minhas bochechas queimando tanto quanto o ardor que corria pelos meus lábios, já ele, não parecia ter feito interrupção alguma a nossa dança. Sirius desviou seu olhar do meu e só assim eu me lembrei que nós dois não estávamos sozinhos.
Remus.
Mas já era tarde, quando consegui expulsar o zumbido pulsante do meu coração ribombante contra meus ouvidos, Remus já tinha saído em direção ao estacionamento arrastando Thomas pelo braço.
Padfoot deu um longo suspiro e se jogou na cadeira mais próxima de nós.
—Acho que funcionou. –Ele sorriu para mim, como se eu fosse a cúmplice dele. Eu me senti subitamente enojada, todo o bar girava ao meu redor.
—Funcionou? –Minha voz saiu fraca, quase que como se não viesse de mim. Eu coloquei minha mão contra o tampo frio da mesa, a única sensação real que ainda me prendia aquele momento, eu achei que ia desmaiar.
Ele não respondeu, apenas olhou, com o cenho franzido, para a porta pela qual Remus tinha acabado de sair.
—Eu daria toda a fortuna da minha família pra saber o que eles estão falando lá fora.
Eu senti mais uma onda de enjoo se aproximando. Eu sabia que ele ia me usar, não sabia?
—Você é um filho da puta. –Eu queria sair. Sair do Cavern, sair de perto de Sirius, sair do meu corpo. Eu puxei meus cabelos e os prendi num coque apertado.
Ele gargalhou.
—É, você pode dizer isso da minha mãe.
Eu pensei em dar um tapa nele, eu acho que minha mão se ergueu, mas eu não tinha forças.
Quando me dei conta eu já estava ao pé da escada. Subi cambaleante o primeiro degrau, quando uma mão me segurou pelo pulso.
—Padfoot me lar... –Eu me detive quando notei que não era Sirius que me segurava. –Prongs. –Minha voz estava no fim de um túnel, muito longe de qualquer coisa.
Ele apertou meu pulso mais uma vez e a ideia de ele tentar me fazer dialogar com Black ou estar no mesmo ambiente que ele me fez tentar fugir mais uma vez.
James subiu a escadas atrás de mim. Gato estava nos encarando no fim da escada, os olhos brilhantes.
—Deixe ela ir! –Sirius ainda estava sentado na cadeira perto do palco, eu não me virei para olhá-lo.
—Cala a boca Padfoot, você já fez demais. –A voz séria, quase raivosa de Prongs me fez parar por um segundo, eu tentei entender o que acabara de acontecer, mas tudo parecia surreal.
Quando eu abri a porta do que seria meu quarto por aquela noite, eu pensei em fechá-la na cara de James, porém me detive.
—Se você não quiser minha companhia... bom, você não tem essa opção. Eu sou o policial bom E o policial mau.
Eu sorri e nós dois entramos no quarto
Aquele era o mesmo quarto em que eu e minha mãe vivemos por anos. Ainda era impessoal, frio e me dava arrepios. Por tanto tempo eu pedi para nós decorarmos o quarto, Tony até mesmo comprara latas de tinta colorida para nós e uma luminária nova.
“Nós não podemos decorar um lugar no qual vamos ficar pouco tempo” Ela sempre repetia, logo mudando de assunto ou irritada. Eventualmente eu e Tony desistimos da ideia.
Eu passei as mãos no rosto e me dirigi a até a cama. Me joguei na mesma com um barulho irritante de “Nhec”.
—Bem, -James disse apertando a cama com sua mão, a cama refez o som. –Isso é um baita de um corta clima.
Eu sorri sem muito entusiasmo, mas com algum esforço. Prongs não era o culpado pelo meu súbito mau-humor.
Ele se sentou ao meu lado e tirando os sapatos, cruzou as pernas se virando na minha direção. Eu desviei meu olhar do dele. Eu não queria sua pena.
—Padfoot... –Ele começou, mas se deteve. –Sirius, ele é uns quebra cabeças. –James parecia incerto com as palavras, como se elas tivessem gosto ruim.
—Ele é um bastardo filho da puta. –Eu disse com raiva, eu ainda sentia meus lábios quentes.
—Você pode colocar desse jeito.
Nós voltamos ao silêncio.
—Não quero ser indelicada... –Ele me interrompeu antes do fim da frase.
—Eu não posso ir embora até você falar tudo o que tem para falar. –Sua frase soou tão séria que por um único momento eu imaginei James como um pai. Que tipo de pai ele seria? O tipo protetor com certeza, porém para mim era maior do que isso, Prongs ia à extremos por seus amigos, ele seria capaz de matar e morrer por um filho. Eu sentia nos meus ossos.
—Eu não tenho nada a dizer. –O teto descascado me pareceu muito interessante quando as lágrimas decidiram me saudar. Prongs não respondeu. –Eu não tenho nada para falar. –A repetição foi muito mais para mim, para me convencer, do que para ele.
Eu olhei para James e tentei lhe dirigir um sorriso, um sorriso que o convencesse a sair dali sem qualquer culpa, mas eu não sabia mentir.
Eu respirei fundo e todo o ar do quarto me pareceu insuficiente.
—Eu acho... acho que Sirius não é muito melhor que Severus ou qualquer outro. –Eu disse me voz baixa, esperando pela fúria de Prongs a seguir, mas ela não veio. Seus olhos escuros estavam fixos nos meus. –Eles só quiseram me usar Prongs. E eu fui idiota o suficiente para acreditar todas as vezes, acreditar que ia ser diferente. Que talvez eles realmente quisessem alguma coisa maior... que talvez eu fosse querida. -Eu achei que agora fosse sua deixa para falar, mas ele me deixou continuar.
—Quando Severus contou sobre... bem, sobre tudo para Lucius, eu senti que todos aqueles olhares que se seguiram, todos os cochichos e risadas de lado às minhas costas fossem merecidas, como se eu fosse verdadeiramente culpada pelo que quer que fosse. E aí vocês estavam lá, e foi tão estranho por que eu não entendia por que vocês não me tratavam como os outros, por que vocês não perguntaram se as histórias eram verdadeiras.
Eu não sei por quanto tempo mais eu teria aguentado se não fosse por vocês. E agora, agora parece que meu castelo de sal está ruindo. Eu magoei o Remus, eu deixei que tudo isso acontecesse. Eu deixei o Sirius me usar.
Me parece quase surreal que não importa onde eu vá, que eu sempre serei só mais um objeto. Eu não... eu não sei James, eu verdadeiramente não sei. Talvez eu devesse ter fugido de vocês por mais tempo, talvez se eu tivesse fugido, essa nova Pietra que se criou dentro de mim nunca tivesse que passar pela dor de se quebrar mais uma vez.
Eu puxei o ar com força até meus pulmões implorarem por uma pausa, eu não queria chorar, eu não ia chorar.
James deixou sua cabeça cair levemente, o que lhe deu um ar quase infantil.
—Estranho.
—Estranho?
—Você me lembra Sirius em, bem... quase tudo.
—Me dê um motivo para não ficar muito irritada com isso.
—Eu o considero meu irmão, então alguma coisa boa ele deve estar fazendo.
Eu permaneci em silêncio, eu não sabia onde Prongs queria chegar, mas era bom ele se explicar rápido antes que eu me irritasse e isso não ia ser bonito.
—Sirius não sabe lidar com sentimentos, entende? Para ele coisas básicas como o fato de que ele não é o único ser da terra com sentimentos às vezes o confunde. Ao mesmo tempo, ele não sabe contornar as dificuldades do amor por exemplo. Ele não acredita no amor, simplesmente por que ele nunca foi amado. Você esteve muito perto disso... –Ele fez uma pausa e me olhou com os olhos arregalados. –Eu posso não falar sobre isso se você quiser.
—Não se preocupe. Acho que não falar sobre isso é o que está transformando essa situação no que ela é.
Ele assentiu.
—Quando seu pai se foi, sua mãe e você encontraram um lar aqui no Cavern. E mesmo quando vocês se foram, a certeza de que aqui você estaria segura nunca te abandonou. Se não fosse assim, você não teria vindo para cá quando pensou em abandonar Hogwarts.
Foi minha vez de arregalar os olhos.
—C-como você sabia?
—Que você queria sair de Hogwarts? Wormy por favor você é péssima em esconder segredos.
Eu abri a boca. Querendo fazer milhares de perguntas, mas eu não conseguia formular nenhuma. Ele continuou.
—Pads nunca teve esse “lugar seguro”. Isso até chegar a Grifinória. E mesmo assim ele não estava a salvo. Um Black na Grifinória? Sirius precisou de poucos minutos para ser taxado como um traidor do sangue, um traidor da própria família. Regulus e ele nunca mais se falaram como antes. -Ele deu de ombros, um sorriso triste. -Não que fizesse alguma diferença. O menino não tinha jeito para relacionamentos, mas Padfoot... Padfoot achava que devia protegê-lo.
Mas quem foi que protegeu PadS? Não digo dos outros, ele e você criaram esse muro ao redor de si próprios, essa armadura. –Ele olhou para as próprias mãos -Não é dos outros que estou falando. É de Pads, quem protegeu ele das maldições que sua cabeça criou? Quem o protegeu do que ele mesmo inflige em si? -Ele tirou seus grandes óculos redondos e os limpou na blusa do homem aranha. -Não estou defendendo as ações de Padfoot, até por que ele está além de qualquer defesa, em uma única tacada ele magoou você, Moony e ele mesmo. Estúpido, estúpido menino. -Ele deu uma risada anasalada, uma piada que só ele conhecia. -A questão aqui Wormy, é o quanto você está disposta a aguentar. Aguentar de erros dos outros e dos seus próprios erros. No fim, ser amigo é para isso. Nós erramos juntos, brigamos juntos e continuamos juntos.
Você viu os dois lados de Sirius, aquele que te protegeu no Três Vassouras, nos jardins. Que conversou com você sobre sabe-se lá o que na torre de astronomia por tanto tempo. E hoje você viu o outro lado da moeda, aquele que ele é conhecido por. Selvagem, rude, rebelde até o último fio de cabelo.
E no fim tudo se resume a isso, cada um de nós usa duas máscaras diferentes. Cada um de nós carrega um passado diferente e um monstro particular.
Nós não somos perfeitos Wormy, mas nós continuamos juntos por que no fundo sabemos que sozinhos nos afogaríamos, um é o suporte do outro. E assim a vida segue, as vezes engolindo um pouco de água, quase sempre brigando, mas tendo a plena certeza de que nós estamos juntos agora e vamos estar juntos até o fim.
Foi isso que você ganhou quando se tornou uma Marota, um pacote infinito de dramas, algumas decepções, um apelido muito maneiro e três amigos para a vida toda.
Ele se levantou em um pulo e andou em direção à porta e sem olhar para trás se despediu.
—Wormy.
—Prongs.
Aqueles apelidos nunca me pareceram tão grandes quanto naquele momento. Eles identificavam o fato de que não importava o que acontecesse, nós seríamos sempre quem éramos naqueleinstante, não importava para onde iríamos ou quem seríamos, no fim do dia nós éramos apenas os Marotos. E para mim, ser Wormtail era suficiente.
James se virou num último momento, a mão contra o batente.
—Sabe de uma coisa? Se vocês dois não estivessem tão apaixonados, você e Padfoot dariam um casal interessante. -Ele sorriu de lado, quase me desafiando a responder-lhe.
—Como assim se nós dois não estivéssemos apaixonados? Eu não estou... -Ele me interrompeu com sua risada sempre jovial.
—Hm, acho que vou procurar um bolinho lá na cozinha. -Ele se virou antes de saber se eu tinha entendido ou não a referência.
Mas é claro que ele sabia, ele sempre sabe.
—X-
Eu acordei com sons vindos da escada. A tela clara do celular em contraposição ao negrume do quarto fez meus olhos doerem. Uma e meia da manhã, eu não tinha dormido por muito mais que uma hora.
Eu voltei minha atenção novamente ao barulho. Agora eram risadas baixas seguidas por “shh’s” murmurados, então a passada pesada de quem quase tropeçou e mais risadas baixas. Por um segundo eu me deixei sorrir pensando serem apenas Sirius e James fazendo qualquer-uma-das-idiotices-de-sempre.
—Thomas, assim não!
Meu sorriso morreu aos poucos e eu me sentei na cama.
Mais risadas.
A porta do quarto ao lado do meu se abrindo.
O quarto de Tommy.
O estralar característico de seus dedos frisando que ele estava esperando pelo que quer que estivesse prestes a acontecer.
O barulho de corpos caindo pesadamente contra a cama.
Um gemido que não pode ser contido.
Eu me levantei agarrando minha bolsa e meu celular e saí dali tão rápido quanto minhas pernas permitiram.
Enquanto eu descia as escadas do Cavern eu notei que estava sendo seguida, era o Gato.
—Você tem que ficar. –Eu disse, quase que me desculpando com o bichano. Pensei em me abaixar e dar-lhe um afago, mas me lembrei que se eu fizesse isso ele provavelmente tentaria arrancar um dos meus olhos à sangue frio. Recuei em direção a porta.
—Cuide dos meninos por mim, sim? Eu preciso de um pouco de ar.
A noite me envolveu em seus braços gélidos.
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