Raise your glass

13 Capítulo 13- Cabeças Verdes


Notas iniciais
Nem lembrava mais dessa vida de escrever fanfic, mas graças ao clamor da nação estou de volta. Espero que vocês ainda lembrem de mim e da história uauasbsuabsuabs, gostaria muito de agradecer a nana por ter me ajudado com tudo e não ter me deixado abandonar a fic. sem mais delongas sejam bem vindxs ao novo cap, nos vemos nas notas finais!

—Wormy, eu preciso da sua ajuda, -James disse se jogando no braço da poltrona em que eu estava sentada e puxando meus fones de ouvido, algo que acarretou em um desconforto irritante, mas mesmo assim menor do que ser incomodada no meu único horário livre em toda a semana. Eu mantive os olhos fechados. –É um caso de vida ou morte.

—O dormitório está pegando fogo?

—Não.

—Você tem algum tipo de doença rara e incurável?

—...não.

—Evans quer te socar por ser um ser humano excepcionalmente irritante?

—Bem, não ainda.

—Então não é um caso de vida ou morte.

—Wormy por Deus, eu estou tentando falar sério.

—Eu também. –Eu recoloquei os fones e The Clash voltou a soar um pouco alto demais. Ele os puxou mais uma vez.

Eu não tentei reprimir o gemido de frustação que escapou pelos meus lábios e pela primeira vez no dia eu realmente abri os olhos.

—Você tem toda a minha atenção, infelizmente. –Prongs não me esperou falar duas vezes, com um sorriso de lado ele se enfiou na pequena poltrona para uma pessoa que eu já estava ocupando.

—Espaço pessoal. –Eu murmurei, levemente sem ar devido ao repentino aperto a qual agora eu estava sujeita. Ele me encarou e sua testa se franziu numa sincera careta de dúvida. Ao que parece “espaço pessoal” não é um dos conceitos que ele entende perfeitamente. –Deixa pra lá. –Eu disse com um aceno irritado de mão quase implorando para que ele dissesse logo o que queria e eu pudesse voltar ao meu estado de semiconsciência.

—Padfoot me deixou na mão.

—Uou, isso é extremamente inusitado e inovador. –Eu e Sirius estávamos sem nos falar desde que voltamos do Cavern, mesmo com todo a conversa que eu tivera com Prongs no dia eu ainda esperava um pedido de desculpas, mas ele não veio.

—Quando foi que você se tornou uma versão mais amarga dele?

—Quando minha vida se tornou mais amarga que a dele.

—E depois eu sou o dramático. –Ele disse cruzando os braços, parecendo uma criança emburrada, o movimento fez com que eu me sentisse mais apertada.

—Você não tinha alguma coisa para me pedir?

—Como eu estava dizendo antes de ser rudemente interrompido, Padfoot e eu tínhamos um... exercício em andamento. –Ele disse baixando o tom. Não que fosse necessário, nós éramos as únicas pessoas na Sala Comunal, fazia uma bonita manhã de sábado e a maioria das pessoas não considerava “ficar sentado na poltrona tendo pena de si mesmo ouvindo músicas dos anos 80” a ideia mais incrível de diversão.

—“Exercício”, hm? –Eu me permiti dar um leve sorriso, mas antes que Prongs notasse eu adotei mais uma vez a máscara de total desinteresse.

—Sabe como é...

—Vocês pretendiam pregar uma peça nos sonserinos antes que os pais cheguem para a reunião de hoje.

—Precisamente.

—Interessante.

—Interessante? Quer dizer que você vai me ajudar?

—Não Prongs, quer dizer exatamente o que foi dito. “Interessante”: aquilo que desperta interesse, que motiva, que não entedia.

—Wormy, eu não tenho tempo. Você sabe que eu não pediria se não fosse de máxima importância. –E por mais que me irritasse admitir, eu sabia que isso era verdade. Prongs me dera o espaço que eu rudemente requeri desde que eu e Sirius nos beijamos.

Ele precisava de mim, e não é como se a ideia de ferrar com alguns sonserinos me fosse desagradável.

Eu empurrei ele para o lado e me levantei sem olhá-lo nos olhos.

—Eu não estou dizendo que aceito seu pedido... –Eu comecei devagar, os olhos fixos na lareira apagada. –Mas caso eu aceitasse, qual seria o plano?

—x-

-Me lembre mais uma vez por que eu estou fazendo isso.

-Pelo bem maior. –Ele fez uma pausa, coçando o começo de uma barba ridícula que nascia no seu queixo. Eu fiz uma anotação mental de arrancar aquilo da cara dele enquanto ele dormia. –E para manter nossa reputação como maiores pranksters dessa escola.

-Eu achei que esse fosse o Aleron.

-Ele passou o legado.

-Quanta responsabilidade. –Eu disse com um sorriso contido. Eu tentava parecer o mais relaxada possível mas por dentro, cada fibra do meu ser tremia e lutava contra o que estava prestes a acontecer.

Prongs colocou uma mão sobre meu ombro, a luz baixa fazendo seus olhos brilharem em tons dourados por baixo dos óculos.

-Nós não precisamos fazer desse jeito, nós podemos pensar em algo. -Eu coloquei minha mão sobre a dele e apertei levemente, dando mais um sorriso que eu não tinha muita certeza de onde vinha.

-Nós não temos tempo, e você mesmo disse, é questão de vida ou morte. –Eu baixei a mão e comecei a andar. –Te encontro aqui, antes do almoço... se tudo der certo. -Eu saí da sala Comunal, rumando para o lugar que iniciaria a primeira fase do nosso plano.

Tudo parece quieto demais quando sua cabeça está muito barulhenta. Eu andei pelos corredores ouvindo apenas o som dos meus próprios passos. Eu tentei respirar fundo, mas meu peito parecia pesar uma tonelada e meia.

Eu continuei andando, procurando qualquer sinal de vida pelas salas vazias. Naquele momento a única coisa que eu conseguia pensar é em como Moony poderia ter visto as falhas que se escondiam nas fronteiras do meu plano e de Prongs, só ele poderia me prevenir de entrar numa situação como essa.

Mas ele não estava aqui, e não esteve pelos últimos dias. Eu o afastei assim como afastei James. Assim como eu afasto a todos.

Na noite em que todos dormiram no Cavern, meus olhos não se fecharam por um único instante. Eu vi o amanhecer tingir a noite de laranja enquanto caminhava pelas ruas que antes eu chamava de minhas. Meus lábios ainda carregavam a sensação de ter beijado Sirius Orion Black, minha cabeça ainda carregava o peso de ter ouvido Remus e Tommy indo para o quarto. Juntos.

O quão egoísta era afastar um amigo só por que ele é feliz?

E no fundo é exatamente isso, eu não suportava aquele momento que ele estava vivendo, e eu nem ao menos sei o porquê. Eu estava me comportando como Snivellus em pessoa e eu não sabia como fazer parar.

Era com isso em mente, os punhos fechados numa raiva que eu nem sabia de onde vinha, que eu quase não percebi um garoto sentado na sala de geometria, sozinho.

John Goyle quase escapou do que estava por vir. Quase.

Eu entrei na sala, fazendo questão de ser mais barulhenta que o necessário. Ele levantou seus olhos arregalados até encontrar com os meus. Seu rosto se contorceu em um desgosto que claramente não era seu. Provavelmente, se não fosse por Lucius, ele não me odiaria. Era nessa esperança que meu plano se baseava.

-Olá. –Eu disse com um leve aceno, eu fiz o máximo esforço para não demonstrar que eu estava tremendo. Ele emitiu um grunhido e baixou os olhos novamente para os livros que o cercavam.

-Seus miquinhos amestrados não estão aqui. –Ele disse e eu tive certeza que ele não era capaz de entender o significado de amestrados. Provavelmente Malfoy tinha criado aquele apelido. A mera ideia dele falando dos meus amigos fez todo meu corpo se contorcer numa raiva febril.

Eu dei mais um passo na direção de Goyle e ele fechou o livro que estava lendo com força, o “tump” abafado dos livros mais antigos da biblioteca.

-Vai embora. –O tom dele não era mais carregado de desgosto, ou ameaça, era quase uma súplica. Eu dei enfim o último passo e agarrei o livro para ver seu título antes que ele pudesse me impedir.

“William Shakespeare: ensaios e poemas. Texto integral”.

Eu olhei para ele com o cenho franzido. De todas as pessoas, bem esse troglodita estava lendo Shakespeare? Mas minha indagação durou apenas alguns segundos até eu me dar conta que o idiota provavelmente só estava com muito medo de ficar de recuperação.

Eu quase pude ouvir as engrenagens do meu cérebro funcionando. Talvez seja mais simples do que eu previra. Eu tomei fôlego e com um leve pigarrear comecei a recitar palavras que eu achei estarem perdidas no fundo da minha memória.

-“ Reputação é uma imposição tremendamente falsa e inútil, muitas vezes angariada sem mérito e perdida sem um real motivo. “ –Um silêncio constrangedor se seguiu enquanto Goyle me encarava perdido. Ele não tinha ideia do que eu acabara de recitar, provavelmente ele nem entendeu que se tratava de uma frase de Shakespeare e não minha. -Otelo. A frase na verdade é do Iago, mas você entendeu. –Eu disse, pausando o livro novamente sobre a mesa. Ele continuava com a boca semiaberta, a luz contra a pele oleosa fazendo com que ele parecesse um boneco de cera de olhar extraviado. –Você conhece Otelo, certo?

-Eu estou estudando Shespere agora, caso você não tenha notado. –Ele cruzou os braços contra o peito inflado. Tentando estabelecer dominância. Pobre ser primitivo.

-Certo, -Eu disse puxando uma cadeira e me sentando bem à frente dele. Eu vi sua boca se abrindo em protesto, mas eu voltei a falar antes que um sacrilégio maior fosse feito contra os grandes autores. –Talvez uma boa forma de começar a estudar seja aprender a pronunciar corretamente o nome do autor que você está estudando. –Suas narinas se abriram e fecharam como um touro raivoso. Ótimo Pietra, estragando o plano antes mesmo dele começar.

Ele começou a se levantar, mas eu o segurei pelo antebraço. “Vou precisar esterilizar todo meu corpo depois de hoje”, eu pensei tentando não franzir o nariz.

-Eu vou te ajudar. –Eu disse abrindo o livro, eu tentei levantar o olhar, mas eu não tinha tanto autocontrole. Ele se sentou mais uma vez.

-Lucius sempre diz para não falar com você. –Sua voz soava infantil, um contraste estranho vindo de um garoto de quase dois metros de altura. –Além do mais, ele disse que suas notas são ruins.

-Você já é um garoto bem grandinho para escolher com quem fala ou não, -Eu fiz uma pausa dramática. –E as minhas notas não são ruins. –Eu tinha me sentido pessoalmente atacada por essa, claro que minhas notas não eram as de Moony, mas em inglês eram dignas de inveja. –Agora chega disso, vamos logo, eu não tenho o dia todo.

Eu o vi vasculhando o ambiente, mas com um muxoxo de desgosto ele pegou o livro mais uma vez e o abriu.

—Goyle?

—O que é agora?

—O livro está de ponta cabeça. -Minha voz saiu mais fina que o normal, na minha falha tentativa de não rir da situação. As bochechas dele queimaram em tom carmim.

—Eu sabia. -Mesmo assim ele inverteu a posição do livro. -Agora vá embora.

Eu me levantei sem rodeios, decidindo adotar uma outra tática e rezando para que ele não quisesse partir para a violência. Quando eu cheguei a porta eu me virei mais uma vez. Jogar alto poderia me garantir o sucesso no plano, ou um olho roxo, eu estava disposta a receber qualquer um dos dois.

—Eu não estou vendo seus bons camaradas por aqui... -Eu comecei devagar, observando as mãos enormes e calejadas dele. -Não me diga que eles estão lá embaixo nesse excepcional dia quente enquanto você está aqui. -Ele abriu a enorme bocarra de dentes amarelos para rebater o que eu acabara de dizer, mas eu o cortei. -Como eu sou estúpida! É claro que eles não fariam isso bem com você. Provavelmente Malfoy vai passar por essa porta a qualquer segundo, então é melhor eu tomar meu caminho. – Eu dei um passo para fora da sala, mordendo o lábio na antecipação.

—Ei, Bouler!

Idiota.

Eu escondi meu sorriso e me virei em direção a ele. -Sim?

—Talvez... talvez você possa ficar... eu preciso dessa nota. -A última parte saiu como um sussurro.

—x-

Goyle não estava facilitando a minha vida. Eu senti meu telefone vibrar com mais uma mensagem desesperada de Prongs.

“ESTAMOS FICANDO SEM TEMPO, WORMY!!!!”

Até em mensagens o maldito não parava de gritar. Eu guardei o celular e olhei para Goyle, ele passava as mãos desesperadamente pelo cabelo. Eu tentei imaginá-lo sem toda aquela marra, sem as piadas, sem o deboche, sem aquela raiva de todos.

Tentei imaginá-lo como uma criança vivendo no orfanato comigo, ou andando junto pelos corredores de Hogwarts, tentei imaginar como isso podia ser algo comum, ajudar ele numa prova, e ele fazendo seja lá o que ele faz bem. Eu usei cada parte da minha massa cinzenta para imaginar essas coisas, mas tudo que eu via era uma sombra distorcida e musculosa de Lucius. Uma sombra do meu pesadelo.

Quando eu olhei para baixo, as dobras dos meus dedos estavam esbranquiçadas, eu estivera apertando as mãos uma contra a outra com força. Eu relaxei, inalando e exalando. Ele ainda recitava a trancos e barrancos o epilogo de Rei Lear. Eu fingi um sorriso.

Chega de ajudar Goyle, agora era a vez dele me ajudar.

Eu coloquei minha mão, ainda marcada de vermelho onde eu estava apertando, contra a dele, eu senti ele se retrair, mas eu o segurei, o mesmo sorriso no rosto.

—Você foi incrível. -Eu sentia meu estômago se contorcendo. -Você é incrível.

Os olhos dele se abriram como duas crateras. -O que você disse?

—Você me ouviu muito bem. -Eu soltei uma risadinha infantil. Que nojo. Ele continuava tentando se esquivar, mas minha mão era uma garra. -Eu vivo te olhando por aí Goyle, observando. Você acha que eu não vejo como você olha para mim? -Eu engoli um refluxo horrível que veio parar no meio da minha garganta. -Eu sei o que você quer, e eu posso te dar isso. -A mão dele parou de fazer força contra a minha e seus olhos se encheram de um brilho nojento. Desejo.

Por Deus eu ia vomitar.

Eu teria só uma oportunidade.

Ele se aproximou de mim e eu pude sentir o hálito dos ovos que ele comeu no café da manhã. Sem saber como ser gracioso, seus movimentos na minha direção derrubaram seu caderno e o livro. Pobre livro. Pobre Pietra.

Seu rosto já estava tão perto do meu que eu podia as espinhas da sua testa, a boca entreaberta dele me fez ter mais uma onda de náusea, mas pelo menos ele tinha fechado os olhos. Minha chance.

Eu agarrei seu uniforme na altura do bolso da camisa e puxei ele contra mim.

Sem língua, com raiva, sem demora. 100% profissional. Quando eu começava a me separar dele, tentando lembrar das desculpas que James e eu ensaiamos mil vezes e que desapareceram da minha mente, meu celular vibrou mais uma vez.

“VOCÊ TEM CINCO MINUTOS, SE NÃO EU VOU ABORTAR O PLANO!”.

Meu ticket de saída desse circo de horrores.

—Me desculpa. -Eu disse sem olhar para Goyle. -Eu tenho que ir, boa sorte com a prova.

Eu já estava no corredor quando eu o ouvi começar a praguejar. Eu também estaria xingando se o meu prêmio do dia não estivesse contra minha palma, me lembrando da vitória de hoje. Eu me apoiei contra a parede de pedras frias e encarei o pequeno cartão verde que eu roubara do bolso da camisa de John Goyle.

O cartão magnético que abre a porta dos dormitórios da Sonserina.

—x-

Quando eu voltei para os dormitórios, Prongs estava numa conversa cochichada com os gêmeos Prewett. Nós quatro trocamos um sorriso cúmplice quando eu levantei o cartão a altura dos olhos.

—Você não pode ser real. -James disse vindo na minha direção, eu estiquei a mão para cumprimenta-lo, mas ele me ignorou. Quase sem algum esforço, ele me segurou pela cintura e me levantou no ar. Eu dei uma das poucas risadas reais dos últimos dias, enquanto a sala comunal da Grifinória girava em tons de vermelho.

Com cuidado ele me pôs no chão e Gid e Fab se revezaram para me abraçar e me dar tapinhas nas costas. Era quase como estar no time de futebol e ter marcado o gol da final, e não posso negar, eu me sentia muito bem.

—Agora nós temos que correr, -Prongs começou, encarando seu relógio da Dora, a aventureira. Não me pergunte, eu também não sei qual é a do relógio.

—Vocês vão conosco? -Eu me virei para encarar os gêmeos.

Eles se encararam assombrados.

—Nós não podemos...

—Se a Molly nos pegasse...

Eu dei uma risada alta,

—Ao que parece a doce Molly Prewett pode ser incrivelmente assustadora.

—Você não faz ideia. -Eles disseram em uníssono antes de nos entregarem uma pequena caixa embalada com um papel esverdeado metálico.

Era nossa deixa para colocar a parte dois do plano em ação.

—x-

—Não Prongs, eu não vou roubar um frasco do perfume dela para você. -Eu cochichei na orelha dele, nós dois estávamos parados no corredor que levava diretamente aos dormitórios da Sonserina, foi ideia dele que nós esperássemos para ter certeza de que ninguém estava lá dentro quando nós entrássemos.

—Não é como se você não tivesse tentando roubar pertences alheios antes.

—Eu roubei sua cueca por motivos acadêmicos, não para entregá-la para Lily Evans para ela ficar cheirando-a por aí. -Antes mesmo que eu terminasse a frase eu notei o quão errada ela soara. Eu e Prongs não conseguimos conter uma gargalhada. -Shhhh. -Eu disse depois de alguns segundos. E então, indicando em direção a porta, nós fomos em direção a porta grande de madeira, esculpida com desenhos de cobras prateadas. -Talvez, -Eu comecei dirigindo a Prongs um meio sorriso, eu passei o cartão no leitor e a porta se abriu com um satisfatório “clic”. —Eu possa roubar o perfume do Snivellus para você.

—Que perfume? -Ele disse com um largo sorriso. -Aquele cheiro de babuíno velho emana naturalmente daquela pobre alma.

—Touchè.

A Sala Comunal da Sonserina era insana. E eu digo isso no sentido ruim da palavra. Primeiro, que diferentemente da Sala grifina, o ambiente sonserino parecia querer te cuspir dentro do Lago. Era frio, úmido, escuro e verde. Todas coisas que eu odiava.

—Me lembre de nunca mais reclamar do nosso cafofo. -Eu disse antes de soltar um estrondoso espirro. Ele apenas concordou, andando em direção a masmorra de tortura que nós supusemos ser o banheiro.

—Show time. -Prongs empurrou a porta e nós começamos a por a última parte do plano em ação. Eu andei entre os boxes do chuveiro, agarrando os vidros de shampoo e os entregando a James. Ele, por outro lado, abriu a caixinha que os Prewett nos deram e tirou de lá um frasco. Com o cuidado de um especialista, ele deixava algumas poucas gotas caírem do frasco nos vidros de shampoo.

Na última cabine, eu encontrei uma quantidade tão grande de produtos de cabelo, que eu tenho certeza que deixariam Sirius Black com inveja. Eu olhei para o rótulo e meu rosto se contorceu num sorriso.

Achei você.

—Ei, Prongs. -Eu joguei a embalagem na direção dele. Ele agarrou sem nenhum esforço, para variar. -Acho que essa merece um tratamento melhor.

Ele deu uma risada grave e deliciada. Sem nem ao menos me avisar antes, ele se virou de costas para mim e abaixou as calças.

—Nós estamos em um banheiro, você podia usar uma das cabines. -Eu disse exasperada, mas sem conseguir desviar os olhos de sua bunda morena. Uma pequena marca de nascença em formato de coração marcava sua nádega direita.

—Não temos tempo, Wormy. -Mesmo de costas eu pude ter certeza que ele estava sorrindo. -Prontinho. -Ele disse se balançando e jogando por fim, o resto do conteúdo do frasco dentro do shampoo. Ele estendeu a embalagem para mim.

—Ugh, não mesmo.

—É só uréia. Eu faço exercícios, como bem, não bebo ou ingiro outras substâncias. -Ele fez uma pausa dramática para me lembrar do incidente da maconha. -É o xixi mais puro que seu corpinho malcuidado vai ver.

Nó recolocamos tudo no lugar, apagando nossos rastros e logo saímos do banheiro. Enquanto nós andávamos mais uma vez pela Sala medonha, eu notei um movimento estranho vindo de uma das poltronas do outro lado, antes que eu pudesse avisar James, a luz de um abajur se ascendeu.

Por um milésimo de segundo, vendo aqueles cabelos negros e olhos penetrantes eu respirei aliviada, mas aquele não era Sirius.

—Boa noite. -Regulus disse com sua voz mansa e monótona. Sua pele pálida como a do irmão adquirira um tom amarelado graças a luz fraca. Nós ficamos em silêncio por um segundo e então Prongs soltou uma risadinha falsa.

—Black, meu camarada! Ainda bem que você nos achou, nós nos perdemos, cara. Estávamos quase entrando em pânico! -O rosto do mais novo se manteve impassível, alternando o olhar entre Prongs e eu.

—E onde vocês pretendiam ir, antes de... se perderem.

—Banheiro.

—Biblioteca.

—Hm, banheiro e depois a biblioteca. -James tentou arrumar, enquanto eu já pensava em formas de escapar dali. Se tudo já parecia ruim antes, a presença repentina do fantasma de Pads me dava calafrios.

—Como vocês podem ver, aqui não é a biblioteca. -Ele olhou ao redor. -Nem o banheiro.

—Tem certeza disso? Esse cheirinho de merda não me engana. -Antes mesmo de terminar a frase, eu pude sentir o cotovelo de Prongs indo dolorosamente contra minhas costelas, eu voltei a me calar.

—Eu sempre culpei a umidade, -Regulus disse cheirando o ar. -Mas pensando bem, é merda mesmo. -Ele deu um meio sorriso e eu quase perdi o compasso ao perceber o quão parecido ele podia ser com Padfoot. Fisicamente era claro, estava ali para todos verem. Mas naquele meio sorriso e no humor ácido, eu vi a proximidade que os unia e que foi quebrada por uma coisa ridícula como as Casas de Hogwarts. E o que antes eu julgava ser impossível aconteceu, eu odiei a Sonserina ainda mais.

Regulus forçou um bocejo alto e se levantando quase teatralmente rumou para um dos dormitórios. -Suponho que vocês saibam onde é a saída. -Ele não se virou para nos olhar. -Eu não vou falar nada. -Só então ele nos encarou. -Por Sirius.

—x-

—Eu encontro vocês lá embaixo, sério. -Os três estavam excepcionalmente bonitos, vestidos em ternos novos em folha. Até mesmo Sirius com uma berrante veste roxa de veludo. -Vão logo.

Antes deles saírem, Remus veio até mim com uma gravata verde esmeralda nas mãos que combinava com seus olhos. -Uma ajudinha com o nó?

Eu e ele sabíamos o que era aquela gravata representava. "Você beijou o cara que eu gosto e de quebra me ouviu transar com o garoto que você considera um irmão, quites?" Eu não peguei a gravata imediatamente. -Por favor?

Quando eu finalmente agarrei a gravata e olhei para ele, eu percebi o quanto aquela semana tinha sido estranha por não estar com ele. Claro, nós andávamos juntos para todos os lados, uma vez que, à exceção de Prongs, só tínhamos uns aos outros de amigos. Mas não parecia certo, nós quase não conversamos e nas poucas vezes em que nos dirigimos ao outro, não falamos sobre o que aconteceu no natal. Foi quase a mesma coisa com Pads, a única diferença é que com ele as conversas passaram a conter um alto grau de sarcasmo.

E isso tinha um gosto amargo, um gosto que eu estava disposta a abandonar.

Eu coloquei a gravata ao redor do pescoço dele com delicadeza, ajustando as pontas. O movimento me pareceu tão natural, que por um segundo eu me senti mais uma vez arrumando a gravata de Tommy antes de todos irmos para a missa de domingo.

—Thomas te contou sobre a missa? -Eu disse sem poder evitar um sorriso.

—Só que ele odiava bastante, e que por isso vocês dois criaram uma linguagem secreta de códigos para poderem conversar. Ah! E que você sabe a letra de todas as músicas.

Eu soltei uma risada e cantarolei um pedaço de "Erguei as mãos, e daí glória a Deus".

—Eu estou traumatizado. -Padfoot falou do canto do quarto, se olhando no espelho.

—Jesus vai te punir por essa insolência. -Eu disse tentando imitar um padre estranho que passou apenas alguns meses na igreja e que eu e Thomas concordávamos se tratar de um serial killer disfarçado.

—Jesus não negaria abrigo para alguém como eu, -Ele fez uma pausa para arrumar o cabelo (pela décima quarta vez). -Eu sou um anjo.

—Você se parece com um anjo, você anda como um anjo, fala como um anjo, mas nós dois sabemos que você é o demônio disfarçado. -Eu disse enquanto terminava de arrumar a gravata.

—Isso é o que o Moony chamaria de um "touchè", Padfoot. -James era o único que já estava pronto, como sempre. Apoiado no batente da porta, ele parecia uma visão de um filme antigo. O cabelo continuava desarrumado -não havia o que fazer quanto a isso, mas o terno branco com uma meiga gravata borboleta fazia de Prongs tudo que esperaria de um cavalheiro.

—Minha palavra marcante vai ser em coreano. Assim nenhum de vocês vai roubar.

—Ib dagchyeo, Moony.

Os três me olharam sem entender.

—Cale a boca, Moony. Ao menos escolha uma língua que você entende.

—Você fala coreano?

—Não, mas eu sei mandar as pessoas calarem a boca em várias línguas. Algo que, sinceramente, eu considero muito útil. Agora, se eu tiver que mandar vocês descerem logo mais uma vez, vocês vão acabar aprendendo alguns palavrões em coreano.

—Não demora, ok? Nós temos que ver nossa obra de arte ser completada. -Prongs disse colocando a mão no meu ombro, eu a apertei.

—Não demoro.

E assim, os três saíram dos dormitórios da Grifinória e rumaram para o Grande Salão, onde os pais de todos os alunos estariam os esperando para um maravilhoso jantar e depois juntos eles ouviriam as grandes notícias que Dumbledore tinha para contar. Todos menos eu.

Quando eu tive certeza que mais ninguém estava no dormitório, rumei até meu quarto e tirei o vestido que Molly tinha me emprestado, tirei também a maquiagem que Alice tinha se dado ao trabalho de fazer, no lugar coloquei um jeans, uma camiseta que eu roubei de Sirius (que ainda tinha seu cheiro aconchegante) e calcei minhas velhas botas.

Eu vi Trevo e Gato enrolados juntos na minha cama, se isso não era uma praga bem rogada, eu não sabia o que era.

Pegando meu walkie man eu rumei para o único lugar onde eu podia ficar sozinha naquela noite infernal.

—x-

A sala de astronomia não possuía nenhuma luz artificial, mas a enorme janela transmitia o brilho do céu noturno. A lua minguante jogava sua luz pálida sobre a minha pele, fazendo com que eu parecesse um cadáver.

Eu pensei nos meus pais. Pensei como, naquele momento, eu parecia mais com eles do que jamais pareci enquanto eles estavam vivos. Pensei no oceano que guardava meu pai como um caixão, e pensei no caixão que eu não pude comprar para a minha mãe.

E eu fiquei com raiva.

O colégio já se enxia dos sons da festa que se aproximava. Do alto da torre eu podia ver os carros chegando pela pequena rodovia que trazia os carros com pais cheios de saudade. Prontos para embraçarem seus filhos com beijos e carícias que eu não teria. Da torre eu não podia ver os sorrisos, o calor de um abraço, o amor. Mas eu podia sentir.

Até aquele momento todos nós erámos iguais, todos estávamos no mesmo colégio, separados de nossas famílias, apenas tentando fazer os dias passarem. Mas agora não mais. Agora eles eram filhos, netos e irmãos. E eu era Pietra.

Eu pensei em ir com eles, pensei em ficar com os Potter, ou os Lupin. Fingir por mais um dia.

Mais uma vez eu levantei os olhos para a lua. A mesma lua que estava lá no dia em que meus pais se conheceram. No dia em que eu nasci. No dia em que meu pai foi embora. No dia em que minha mãe morreu. E agora éramos só eu e ela. Os outros se foram.

—Ela se afasta quatro centímetros a cada ano, sabia?

Eu tomei tamanho susto, que eu consegui, em um único movimento, derrubar o walkie man e bater o cotovelo contra o parapeito da janela. Eu gritei de dor, susto e raiva. Eu escaneei cada centímetro da sala sem encontrar ninguém. O medo fez um nó na minha garganta.

-Aqui atrás, menina.

Eu segui a voz, me sentindo mais familiar com sua fonte a cada passo que eu me aproximava da mesa do professor. Eu olhei atrás da escrivaninha e me deparei com uma juba de cabelos tão loiros, que na luz pálida pareciam brancos. Meu coração perdeu um compasso quando eu pensei que Lucius Malfoy estava bem ali na minha frente. Mas então grandes olhos azuis levemente vesgos me olharam curiosos no meio daquele emaranhado de cabelos.

—Lovegood.

—Você veio acompanhar os discos também? -Xenophilius Lovegood já não estava mais me encarando, agora, mexia em uma pilha de papéis que eu tinha certeza que ele mesmo tinha escrito.

—Discos?

—Voadores. As previsões dizem que todos irão se encontrar hoje, bem aqui! Os discos! -Ele notou que eu ainda não fazia ideia do que ele estava falando, então num único pulo ele já estava de pé e me arrastava de novo para a janela. -Veja, bem ali. -Ele apontou para mais uma das milhares estrelas que coroavam o céu. -Está vendo?

Eu decidi colocar o plano de Padfoot em prática, eu podia ouvir sua voz ressoando em meus ouvidos, “caso você se encontre com o bom e velho Xeno, apenas concorde com tudo e saia de perto o mais rápido possível, ele não está muito de acordo com as novas regras de saúde mental”.

—Claro, eu estou vendo. -Eu disse, tentando arrumar qualquer sentido no encontro inesperado.

—HÁ! Eu sei que você não está vendo. Aquilo é só uma estrela. -Ele deu uma risada deliciada. –“Claro que eu estou vendo”. -Ele imitou minha voz. -Essa foi boa.

Eu tentei segurar a risada, mas alguma coisa no jeito de Lovegood me agradava profundamente.

Ele voltou a escrivaninha e se sentou no chão. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer a seguir.

—Ei, menina. Vem aqui. -Sua voz era suave, contrastando com seu jeito elétrico. Eu fui.

—Eu tenho um nome, sabia? -Com alguma dificuldade, eu sentei ao lado dele, entre a parede e a mesa.

—Eu sei disso, Pietra Bouler. -Ele sorriu. -Pedra.

—E o seu nome, o que significa?

—Que meu pai era muito criativo, ou um potencial psicótico.

—E cadê os seus pais? -Eu disse com uma pontada de esperança crescendo em mim. Talvez Xeno fosse como eu.

—Eu ainda estou esperando eles. -Ele disse olhando para a janela, o olhar perdido. -Eles ainda não chegaram. -A esperança se esvaziou como um balão.

—Talvez eles estejam lá embaixo com todos os outros, e você não sabe porque está escondido aqui.

—Oh, você acha que eles virão para o jantar? Não bobinha. Eu estou esperando o disco deles.

—Seus pais são... aliens? -Eu não podia crer no rumo que aquela conversa estava tomando.

—Não seja doida. Eles foram abduzidos. -Seus olhos se fixaram nos meus e eu pude perceber que na verdade eles eram de tons ligeiramente distintos. -Você entende?

Eu pensei no meu pai, que dizia estar cheio de dibu

ks em seu corpo, pensei em minha mãe, definhando a cada dia mais, enlouquecendo na sua própria tristeza. -Eu entendo.

—Bom, muito bom. Seus pais também não estão aqui, estão?

—Não estão.

—Talvez você queira acompanhar o encontro dos discos comigo, seus pais podem estar lá.

O sorriso que se formou em meu rosto era tão sincero, que ele entendeu como um “sim”. Ele olhou a hora no seu relógio e eu não pude deixar de notar que ele tinha o formato dos relógios derretidos de Salvador Dalí. -Já vai começar.

Nós andamos juntos até a janela e nos apoiamos no parapeito, esperando ansiosos. Eu não sabia o que eu iria ver, mas eu estava disposta a ver meus pais no que quer que fosse. Afinal, todos os pais estavam em Hogwarts essa noite.

Alguns minutos se passaram até que eu vi a primeira atividade do que Xeno descreveu ser “claramente atividade de OVNI’s”, eu sabia que eram estrelas cadentes. Mas eu gostava mais da primeira hipótese.

—Tenho certeza que aquela é a dos meus pais. -Eu disse enquanto um meteoro cruzava o céu. -Eles estão ajudando os alienígenas a tramarem uma estratégia para roubar os planos intergalácticos.

—Wow, sim! Mas na verdade nossos pais são agentes duplos, enviados pelo Imperador para resgatar a princesa perdida!

—Xeno, acho que enfim nós entendemos o que aconteceu com nossos pais, o universo precisava mais deles do que nós.

—Mesmo assim eu ainda sinto falta deles, menina. -Ele disse fazendo um formato de luneta com a mão e colocando contra o rosto.

—É... eu também. -Eu fiz a mesma coisa que ele estava fazendo, e nós continuamos procurando pelos discos voadores dos rebeldes plutonianos.

—É, eu preciso mesmo te agradecer Wormy, -Mais uma vez, eu dei um salto, assustada como um coelho, com todas essas pessoas surgindo atrás de mim, vindas aparentemente de uma fenda no inferno. Um James Potter com o rosto muito vermelho estava levemente ofegante, parado na porta da sala de astronomia. -Eu precisava mesmo queimar todo aquele macarrão que eu comi ontem. -Ele apalpou a barriga inexistente.

—Menino! -Xeno falou com um grande sorriso no rosto. Não sei porque eu ainda me surpreendia com o fato de que todos conheciam Prongs naquela escola.

—Xeno, meu camarada! -Prongs andou até o loiro e ambos começaram a execução de um toque secreto cheio de high fives, soquinhos, palmas e giros de bailarinas. Isso já era demais para a minha cabeça. -E então, o que estamos fazendo essa noite?

Lovegood agarrou os papéis e os enfiou embaixo do nariz de Prongs. -Discos, menino. Discos!

—Oh meu Deus, o encontro dos discos é essa noite? -James me pareceu verdadeiramente preocupado. -E você não me avisou?!

Xeno nem se deu ao trabalho de enrubescer, puxando Prongs com a mesma vivacidade que ele me puxou anteriormente, ele começou a mostrar as estrelas cadentes ao moreno. Eu pensei em me manifestar, mas o olhar caloroso e amigável que James dirigia a Xeno toda vez que o loiro falava, se transformava em uma nevasca quando ele olhava para mim.

Depois de muito tempo nisso, Prongs finalmente voltou a falar.

—Xeno, agora eu preciso lidar com a enguia da minha vida. -Ele me mostrou um sorriso cheio de dentes.

—Claro, claro! -Xeno respondeu, mas ele já não estava mais prestando atenção em nós.

—Enguia? Malfoy já fez melhor. -James soltou o ar pelo nariz de um jeito indignado quando eu disse isso. Postando-se na minha frente, ele cruzou os braços e ficou me encarando.

—Então? -Ele parecia mesmo chateado, e isso me irritou tanto quanto o fato de que ele podia ser amigo de todas as pessoas o tempo todo.

—Desculpe, papai. -Eu disse com sarcasmo e o empurrando com o ombro, rumei para a porta. Ele era mais rápido, e em um piscar de olhos, ele já estava bloqueando a saída.

—Isso te lembra algo? -Ele perguntou, o fantasma de um sorriso passando por seus lábios.

—Potter, saia do meu caminho.

—Me obrigue.

Eu me abaixei um pouco, de modo a fazer com que meu corpo batesse com maior força nas costelas de Prongs, quando ele cambaleasse para o lado, eu usaria meu tamanho diminuto para passar por ele. Pareceu um plano bom, mas antes que eu pudesse colocar ele em prática, James segurou meus pulsos, impossibilitando qualquer movimento seguinte.

—Me... solte... porra. -Eu disse tentando acertar suas canelas, eu não queria brigar com ele, mas ele não estava facilitando a minha vida.

—Para de ser criança, Pietra. -Os dele estavam fixos nos meus, a luz limitada do ambiente escurecendo-os até o ponto de parecerem um oceano sem fim. -Eu corri atrás de você, dia após dia, semana após semana. Mesmo assim, no menor problema, você foge. Nossa amizade sempre pesou menos que seus problemas. De algum jeito, suas decisões sempre são baseadas em fazer o que é melhor para você. Você me disse que sua amizade com Snivellus acabou porque ela era muito unilateral, o que isso te parece, agora? -Os olhos dele estavam marejados, como se o oceano tivesse começado a se esvair na areia da praia que era seu rosto. Ele estava bravo, ele estava triste.

Eu senti o ar sair do meu peito como se eu tivesse levado um soco. James deve ter notado que eu estava abalada, porque no mesmo segundo ele soltou minhas mãos. Eu cambaleei alguns passos para trás.

—Eu não... mas.. eu não queria... -Eu senti as lágrimas encherem meus olhos. Ele estava mesmo certo? Prongs sempre estava certo. Mais uma vez eu me vi sentada na biblioteca ao lado de Snape, ouvindo ele falar sem parar. Mais uma vez eu estava no quarto dos garotos, roubando a cueca de Sirius. Mais uma vez eu estava no Cavern, servindo drinks para todos eles. E então eu estava de novo na sala de astronomia. Sempre fugindo.

—Wormy, -Eu sei que James estava prestes a formular um pedido de desculpas, e eu não queria que ele fizesse isso. Não quando ele estava certo.

Eu me joguei contra ele, desesperada por me sentir acolhida, desesperada por poder parar em um único lugar. Eu senti seus braços me envolverem enquanto eu soluçava contra seu peito.

—Me-me desculpe.

—Shh, tá tudo bem. Está tudo finalmente bem. -Eu senti uma lágrima dele caindo contra a minha camiseta. Eu segurava ele com toda a força que ainda me restava. Eu não queria fugir mais.

—Acho que vocês perderam os discos. -Xeno se manifestou cabisbaixo, eu nem ao menos lembrava que ele ainda estava ali. -Mas encontraram alguma coisa mais importante, né?

Eu soltei uma risada tão alta, tão deliciada, que eu me senti como se eu estivesse sem respirar até aquele segundo. Prongs riu também.

—É, Xeno, encontramos mesmo. -Ele puxou os óculos e inconscientemente me entregou para eu passá-los na minha camiseta. Foi tão natural, como se nada tivesse acontecido. -Acho que se a gente correr ainda pegamos a sobremesa.

—Você vem, Xeno?

—Eu? Bom... os discos já se foram. -Ele olhou pela janela. -É, eu comeria um pouco de pudim.

—x-

Foram os sons de risadas e música vindas do Grande Salão que me fizeram congelar no lugar.

—Wormy? -Eu senti a mão de Prongs contra minhas costas, mas eu não conseguia fazer meus pés se mexerem. Eu estava em pânico, e essa não era uma situação que eu enfrentava com frequência. E como quem lê mentes, James continuou. -Nós gostamos de você, tenho certeza que nossos pais também vão gostar.

Eu pensei em Hope Lupin, com sua cachoeira de cabelos e seus sorrisos fáceis, ela tinha gostado de mim naquela época. Talvez James tivesse razão. Eu me coloquei em movimento mais uma vez, mesmo que bem menos confiante agora.

—Pronta? -Nós estávamos a um corredor de distância do Salão.

—Pronta.

Hogwarts nunca cansava de me surpreender, desta vez o Grande Salão estava todo decorado em tons pastéis de verde e azul. Todas as mesas estavam abarrotadas de comidas que eu não saberia nem ao menos pronunciar o nome e ao fundo, uma pequena orquestra estava embalando o jantar. Era tudo como um sonho.

Descontando a mesa da Sonserina -que contava apenas com os pais, uma vez que os alunos se recusaram a descer. Todas as mesas estavam lotadas de pessoas que eram como vagas pinturas daqueles que estudavam comigo todos os dias.

Eu podia ver Lily, com uma garota não muito mais velha sentada ao seu lado, parecendo entediada, e a sua frente uma mulher com um cabelo tão vermelho quanto o seu, e um homem rechonchudo, com um sorriso que cruzava todo o seu rosto. Os Evans eram exatamente como eu achei que eles seriam.

Perto deles eu vi um homem alto e sisudo, os lábios contraídos em uma linha dura enquanto Alice tentava, sem muito sucesso, explicar que Frank-o-amigo-de-infância, estava mais para Frank-o-namorado. Scott Jones tinha os mesmos olhos azuis da filha, mesmo que eles não vibrassem com a mesma intensidade.

Mais à frente da mesa eu podia notar uma aglomeração tão grande de ruivos que meus olhos doeram. Tanto os Prewett quanto os Weasley estavam sentados juntos, rindo e contando piadas.

No fim da mesa, eu tive a visão que quase fez meu coração parar. Ludo estava com um pequeno menino sentado em seus ombros. Uma cópia exata do mais velho, e os dois riam para duas mulheres que estavam sentadas na frente deles. Hannah e Marie Bagman, as mães de Ludo, e seu filho mais novo, o pequeno Otto.

Na mesa da Lufa-Lufa eu consegui distinguir Amos Diggory e quem eu supus ser sua mãe, tentando impedir que três meninas, que eu supus serem suas irmãs, destruíssem tudo. Enquanto na mesa da Corvinal, Yan Chang devorava um enorme pedaço de torta enquanto era repreendido por sua mãe.

Antes de finalmente achar nosso lugar, meu olhar vagou até a mesa da Sonserina. Onde uma série de pais esperavam ansiosos e irritados para ver seus filhos. Diferente de mim e de James, eles não entendiam por quê suas crias estavam demorando tanto para vir para o jantar.

-Slug subiu para buscá-los agora a pouco. -Prongs cochichou no meu ouvido. -Nós ainda não perdemos o show.

-Pietra! -O rosto jovial de Hope Lupin não tinha envelhecido um único centímetro desde que eu a vi a primeira vez, quase cinco anos atrás.

—Senhora Lupin, é tão bom vê-la.

—Me chame de Hope. Sente-se aqui, -Ela empurrou o marido para o lado sem delicadeza. -Deixe-a sentar do meu lado Lyall.

Lyall Lupin, um homem mais baixo que Hope, de cabelos escuros, diferente dos castanhos claros de sua esposa e filho, sorriu para mim.

—Senho... Hope. Não precisa, eu posso me sentar bem aqui. -Eu apontei para o lugar onde Remus estava sentado.

—Blasfêmia! Lyall já saiu do caminho.

Eu senti Prongs me empurrando levemente, então eu me sentei, da forma desconfortável, entre os pais de Moony. Lyall me estendeu a mão. -Então você é Pietra Bouler.

—As notícias correm. -Eu dei um sorriso amarelado. Logo depois os longos braços de Hope estavam me apertando em um abraço.

Na minha frente, James se sentou e me apresentou seus pais, Sirius sentava-se ao lado deles como se fosse mais um Potter.

—Euphemia, Pietra. Pietra, Euphemia. -Euphemia Potter era uma mulher mais velha que Hope, e ambas eram mais velhas do que minha mãe seria se ainda estivesse aqui. Seus olhos eram azuis como os do filho. E por mais que o rosto fosse sereno, seu olhar era duro. Mesmo assim sua voz soou doce.

—Prazer.

—O velhote aqui, -Ele disse dando um tapa forte nas costas de seu pai. Senhor Potter retribuiu o tapa com tanta força quanto. E com isso eu entendi de quem Prongs tinha puxado, bem, tudo. -É Fleamont.

Ele estendeu sua mão para mim e quando eu fui cumprimenta-lo eu senti uma picada forte contra a minha palma. Ele, James e Sirius começaram a rir desesperadamente.

—O que é isso?!

Fleamont virou sua mão na minha direção e eu vi que entre seus dedos um palito de dentes estava escondido.

—Fleamont... -Euphemia disse em tom sério, os três homens ficaram subitamente em silêncio.

—Acho que nós devíamos comer as sobremesas. -Lyall disse, os olhos cravados em um mousse de chocolate.

Todos murmuraram em concordância.

—Você quer um bolo? -Hope estava colocando tudo que ela encontrava na mesa no meu prato, fazendo-o parecer o encontro da pirâmide de Quéops com a casa doce da bruxa de João e Maria.

—Hope, eu não vou conseguir comer tudo isso.

—Besteira! -Lyall falou do meu lado, a boca cheia de torta de maçã. -Sempre cabe mais um pouco.

—Remy come tão pouco... -Ela disse olhando para o prato do filho. Moony estava apenas comendo alguns morangos. -Eu fico animada vendo outras pessoas.

Com isso dito, eu peguei o prato e tentei comer toda aquela montanha.

—Se acostume, -Remus disse indicando mãe com a cabeça. -Ela é sempre assim.

Eu notei que os Lupin eram bem mais humildes que os Potter. Hope usava um vestido vermelho longo com leve cheiro de guardado, e seu pai vestia um terno talvez um número menor que o seu, as abotoaduras simples. O terno me fez lembrar o terno que minha mãe roubou de meu avô para dar para o meu pai antes de fugir de casa. Só que o dele era bem maior que o seu tamanho.

Meu pai só usava aquele terno em ocasiões especiais e provavelmente ainda estava guardado num baú abandonado na última casa em que eu morei com a minha mãe.

Já os Potter estavam vestidos como os próprios príncipes de Gales, Euphemia vestia um vestido verde água, provavelmente recém saído da loja. Enquanto Fleamont usava um terno claramente cortado para ele, bonitas abotoaduras de ouro ornando contra o tecido negro.

Mesmo assim as mães conversavam como velhas amigas, discutindo sobre a escola, a grade de aulas, o futuro dos filhos e o cuidado da casa. Enquanto isso, Lyall, Fleamont e os garotos falavam sobre o último jogo da Inglaterra.

Meu telefone vibrou em meu bolso.

Se divertindo?

Era Moony, mesmo sentando apenas a uma pessoa de distância de mim.

Podia ser pior.

Você se acostuma. É melhor do que estar sozinha, pelo menos.

Seus pais e os Potter já se conheciam?

Se conheceram na plataforma no fim do primeiro ano. Eles não conversam muito, mas acho que eles se gostam.

Tenho certeza disso.

Padfoot tem ficado com os Potter desde o segundo ano.

E os pais dele?

Wormy... olhe para eles.

Eu levantei meus olhos para a mesa da Sonserina mais uma vez, eu vi uma família grande, que eu tinha certeza serem os Black, discutindo em voz alta com Sprout e Flitwick, sobre a demora de seus filhos. Eles eram rudes, e esnobes. E só de olhar para eles, meu estômago revirou.

No momento em que eu vi uma mulher muito parecida com Bellatrix colocar um dedo no rosto de Sprout, a porta do Grande Salão se abriu. Primeiro eu vi Slug, que vinha de cabeça baixa, um olhar preocupado no rosto, logo atrás dele, eu vi uma legião de meninos e meninas de cabelos verdes.

Um verde berrante, quase fluorescente.

O plano tinha funcionado perfeitamente.

Eu olhei para Prongs do outro lado da mesa, que já estava rindo histericamente, batendo suas mãos contra a mesa. Todas as outras pessoas no Salão mantinham o rosto congelado numa expressão de surpresa. Eu vi James fechando a boca escancarada de Sirius. Esse era o plano deles, e nós o tínhamos executado sem sua participação.

Um grito de puro horror cortou o silêncio mortal da marcha das crianças verdes.

Todos os olhos foram na direção do som, e demos de encontro com o rosto distorcido de uma das muitas Black.

—BASTARDOS! -Ela disse correndo na direção de Regulus, que assim como todos os outros, apresentava as madeixas verdes. Eu tinha que dar o mérito ao garoto, mesmo conhecendo nosso plano, ele se deixou levar, afinal, se só ele mantivesse os cabelos pretos, o que todos pensariam? Que não toma banho, em um primeiro momento. E que fizera parte do esquema, quando pensassem melhor. -QUE TIPO DE LUGAR IMUNDO É ESSE?

Fleamont olhou para seu relógio, e com um suspiro, se dirigiu a Sirius.

—Te devo 5 pratas.

—Eu nunca perco.

—O que eu perdi?

—A aposta anual de “quanto tempo vai demorar até que Walburga comece um escândalo”. -James disse com um sorriso maroto. Sirius deu uma gargalhada canídea.

—Batemos um recorde esse ano.

—Shhhhh, -Hope disse para eles. -Eu quero ver no que vai dar.

Todos os professores saíram de suas mesas e correram na direção da confusão, eu posso jurar pela minha vida que vi os finos lábios de McBoo curvados em um sorriso.

—Senhora Black, -Eu ouvi Sprout tentando acalmar as coisas. Mas Walburga a cortou com mais um grito.

—EU QUERO VER O DUMBLEDORE.

Todos caíram no mais profundo silêncio. Se Walburga queria ver Dumbledore, assim seria.

—Eu vou busca-lo. -McGonagall falou com dureza.

—De castigo. -Euphemia disse, enquanto os sonserinos encontravam seu lugar na mesa. -Vocês dois. -Ela apontou para James e Sirius.

—MAS MÃE, -Os dois começaram ao mesmo tempo. Ela apenas levantou a mão e os dois pararam de falar. Eu não sabia que Sirius chamava Euphemia de mãe, mas fazia algum sentido.

—Você também. -Hope disse se virando muito séria para Moony.

—Eu não fiz nada!

—Vocês sempre estão fazendo alguma coisa. -Lyall disse, os olhos ainda grudados nos cabeças-verdes.

—E dessa vez foi incrível! -Fleamont disse, mas logo se retratou ao ver o olhar de Euphemia. -Quero dizer, foram longe demais.

Os pais deles sabiam que tinham sido eles sem nem ao menos perguntar. Pela primeira vez na noite, eu agradeci por ser órfã.

Mais uma vez a porta do Grande Salão se abriu, e McGoo e Dumbledore entraram no recinto.

—Walburga, -Ele disse sorrindo. -Que bom revê-la.

—Não venha com joguinhos Albus. Eu sabia que cedo ou tarde você destruiria essa escola.

Se Dumbledore não ouviu o que Walburga disse, ou se ele preferiu ignorar, nós nunca saberemos. Mas graciosamente, as vestes longas que ele usava sem motivo algum acompanhando seus passos, ele foi até Lucius e puxou uma das madeixas dele.

—Hmmm... -Dumbledore arrumou os óculos meia lua no nariz aquilino. -Talvez um tom mais musgo combinasse melhor com seu tom de pele. Sabe, na sua idade eu tinha os cabelos tingidos de roxo. -Ele fez uma pausa. -E eu acho melhor você trocar a tinta, Lucius. Está cheirando estranho.

Como sempre, todos ouviram o que Dumbledore tinha a dizer. O Salão todo ribombou com as gargalhadas. A maioria não tinha tantos motivos para rir quanto eu ou Prongs, afinal, nós dois sabíamos da onde o “cheiro estranho” vinha.

—Seu homenzinho... -Walburga começou, mas Dumbledore levantou um dedo ossudo, e ela se calou.

—Pense bem no que você vai dizer agora, Walburga. Essa ainda é a minha escola.

Dumbledore se afastou da mesa da Sonserina, andando até seu lugar na mesa dos professores.

—E quanto a nós? -Bellatrix gritou histérica. -Você não vai fazer nada quanto a isso? -Ela apontou para o enorme arbusto que estava sobre sua cabeça.

—Me parece muito claro o que tem de ser feito, Bellatrix, -Ele disse a olhando por cima dos óculos. -Esperar até que a tinta saia, ou raspar a cabeça. Fora isso, eu achei o gesto válido para mostrar seu orgulho por ser Sonserino.

Mais uma vez o Salão caiu em gargalhadas, só parando quando Dumbledore pigarreou em um microfone que estava colocado na frente do seu palanque em forma de fênix.

—Que noite maravilhosa, -Ele olhou para cada uma das mesas separadamente. -Eu não vou tomar mais do seu tempo, afinal nós sabemos que nos reunimos aqui hoje pela comida. Então, como os alunos já estão tão acostumados, aqui vão alguns avisos.

Eu me encontrei com o diretor de três outros internatos nas últimas semanas, e nós decidimos trazer à tona novamente, uma das tradições mais antigas dessa escola. O Torneio Intercolégios. -Ele sorriu seu sorriso sem dentes. -Seus filhos serão submetidos a alguns testes interdisciplinares, com atribuição de pontos. A escola que obtiver mais pontos ganhará a taça do campeonato.

O Torneio será dividido em quatro etapas. As duas últimas, uma caça ao tesouro pelo castelo, e o cumprimento de um labirinto, terão seus competidores escolhidos por meio de seleção com inscrição prévia.

Já as duas primeiras etapas, um campeonato de futebol e um circuito a ser completado com base em conhecimentos escolares, tiveram seus alunos escolhidos por um comitê individual de cada escola. Portanto, eu gostaria de apresenta-los o comitê de seleção de Hogwarts desse ano. -Primeiro vieram os professores, Mcboo, Sprout, Slug, Hooch e Flitwick. Era a escolha mais óbvia. Dumbledore começou então a listar as pessoas de fora que também faziam parte do comitê. -Abraxas Malfoy, -Eu vi o pai de Lucius se levantar da mesa, o rosto contorcido em uma careta furiosa. Mesmo assim, ele cumprimentou Dumbledore. Os outros, subiram ao palanque uma a um. Bartolomeu Crouch, Manfred Lion e Clarry Jaymes. Por fim, olhando fixamente para nossa mesa, disse. -Hannah Bagman!

Nossa mesa irrompeu em palmas. Eu vi o olhar surpreso de Ludo, eu não pude conter um sorriso a notar que, como nós, ele não sabia. Hannah, era uma mulher alta e forte, a pele escura como carvalho, seu sorriso vinha mais dos olhos que dos lábios. Ela agradeceu os aplausos. Dumbledore prosseguiu. -Assim sendo, eu lerei os nomes escolhidos pelo comitê para ambas as provas. Após isso, eu gostaria que os pais dos alunos chamados viessem conversar comigo. Para aprovar, ou não, a escolha de seus filhos. -Ele pegou uma folha de papel e começou a ler os nomes. Eu podia sentir a tensão ao redor da minha mesa. Nosso time de futebol era o melhor, não havia dúvida, e nós tínhamos os dois melhores artilheiros, Sirius e James. Além disso, tínhamos Lily e Remus, dois dos alunos mais inteligentes. Todos sabíamos que a Grifinória seria bem representada. Mesmo assim, todos se sentiam ansiosos, inclusive eu.

—O time de futebol de Hogwarts será formado por: Lucius Malfoy; -Toda a mesa da Sonserina assobiou e aplaudiu. Era claro que Lucius estaria no time. -Yan Chang; Amos Diggory, Bartolomeu Crouch Júnior, Fabian e Gideon Prewett, Marcus Sinitt, Sirius e Regulus Black, Ludo Bagman e por fim, James... -Eu senti meu corpo ser tomado pelo alívio. -Poccan.

Eu falei cedo demais. Eu podia sentir todos os olhos em nós. Todas as mesas estavam focadas em Prongs. O melhor jogador. Aquele que não foi convocado. -James, querido... -Euphemia parecia outra pessoa. Eu podia ver o olhar preocupado dela que nada mais era que um espelho do meu próprio rosto. Durante a apresentação dos nomes, Hope tinha segurado minha mão e apertado com força. Ela ainda não tinha soltado. Dumbledore continuava a falar sobre os convocados para as outras provas. Eu ouvi o nome de Lily e Remus, mas eu não conseguia me fazer prestar atenção. Fleamont tentou colocar a mão sobre o ombro de James, mas ele não deixou. Num único movimento, ele já estava de pé e saindo do Salão. Euphemia começou a se levantar, mas Sirius a desencorajou. -É melhor não, mãe. Deixa com a gente. -Ele olhou para mim e para Moony. Nós não precisamos de maiores incentivos.

—O que nós dizemos ao Dumbledore? -Fleamont perguntou a Padfooot e só então eu me dei conta que eram os Potters os responsáveis por dar a autorização para Sirius jogar.

-Diga que eu não sei se ainda vou jogar. -Nós já estávamos nos afastando da mesa. -E que Abraxas pode me mamar. Eu vi os olhos dos quatro pais que ficaram para trás se arregalarem. Mas nenhum deles fez nenhuma repreensão. Todos nós entendíamos a gravidade da situação.

-PIETRA! -Eu ouvi alguém gritar meu nome enquanto eu já estava saindo pela porta enorme do Grande Salão. Era Lily. -O que foi isso? -Ela parecia tão irritada quanto todos nós.

—Abraxas Malfoy. -Eu disse entredentes. Eu não aguentava mais essa família.

—Diga ao Potter... -Ela começou incerta. -Diga que... -Ela não soube terminar a frase.

—Eu direi. -Eu sorri levemente e corri atrás de Sirius e Remus que já estavam saindo para o jardim.

James estava se sentando no coreto, com um graveto grande nas mãos.

—Você não perde a oportunidade de ser clichê. -Pads disse ao se aproximar. Ele não respondeu. Nós nos sentamos ao redor dele. Ele começou a rabiscar o chão com o graveto.

-Dumbledore. Dumbledore podia ter impedido isso. -O traçado no chão ficou mais irritado. -Quem chama um homem como Abraxas para o comitê em primeiro lugar?

-Não é como se fosse alguma novidade, e você sabe. -Sirius não estava sendo duro com Prongs, mas ele também não tinha paciência para dramas que não fossem os seus.

—Talvez Hannah possa nos dizer o que aconteceu. -Eu disse, tentando descobrir o que James estava rabiscando. Era o começo de um rosto. Remus concordou.

—Não importa o que aconteceu. Importa? Todos foram convocados e eu não. Só para Lucius ter seus 15 minutos de fama. Como se ele precisasse disso. -Ele levantou os olhos na minha direção e eu pude ver o brilho característico de quem estava perto de chorar.

-Então está decidido. -Pads disse, batendo uma mão contra a outra. -Ninguém vai jogar.

—Não seja ridículo, você foi convocado.

—E? -Vocês não pode abandonar o time. Se você não jogar, nós não teremos nenhuma chance de ganhar.

-Então que percamos. Não é como se eu ligasse mesmo.

-MAS EU LIGO. -As lágrimas cortaram as bochechas dele. -Você tem que ganhar. Por nós dois. -Ele olhou para nós desamparado. -Por nós quatro.

—James, -Eu comecei, eu queria abraça-lo e fazer tudo aquilo ir embora como ele fez uma hora antes. -No final, todos nós caímos na mesma Casa por um motivo. Se não podemos ganhar juntos, vamos perder juntos e arrastar Lucius Malfoy conosco. Independentemente do que aconteça, seremos sempre nós.

James procurou algum apoio, mas já estava decidido. Ou você estava conosco, ou estava contra nós. Os Grifinos iam entrar em greve.

Minutos mais tarde, os Marotos saíram juntos do coreto. Deixando a cabeça decepada de Lucius Malfoy desenhada na terra para trás.

—x-

No dia seguinte, eu encontrei Remus sentado em sua poltrona habitual na Sala Comunal, Gato estava enroscado em seus pés. Eu me sentei defronte a ele no sofá.

-‘Dia.

-‘Dia.

Nós ficamos alguns segundos em silêncio. Era estranho não ter o que falar com Moony, mesmo com tantas coisas a dizer.

-Thomas quer saber por que você não responde as mensagens dele, -Ele levantou o celular, talvez para me lembrar que esse tipo de tecnologia existe. Eu quase nunca usava o meu.

-Sem bateria. -Era verdade, mas não era só isso. Tudo parecia ter chegado em um ponto em que todos nós nunca estivemos. Era como um limbo da amizade. Mesmo com a noite anterior, mesmo com tudo que fizemos algo parecia fora do lugar.

Ele concordou lentamente. -Eu disse isso para ele. Talvez você devesse...

-Eu sinto a sua falta. -Eu disse sem ao menos pensar. -Eu sinto muito... por tudo. Sua vida não está em uma passarela para eu julgar, eu fui injusta com você e eu juro que eu não sabia o que o Sirius ia fazer. Mas quando ele me beijou... eu só... eu...

Ele se levantou, o que assustou Gato que rosnando, se desenrolou dele. Ele se sentou ao meu lado no sofá e puxou o telefone do bolso, sem dizer uma palavra, me entregou um fone e colocou o outro, o som áspero da voz de John Lennon inundou minha mente. Era “Jealous guy”, eu não sei se a música era para mim ou para ele, talvez para ambos, talvez para nenhum, talvez para o garoto de cabelos negros longos que dormia suavemente no andar de cima.

De qualquer forma aquilo era um pedido de paz, e eu já tinha visto muita guerra por uma vida para me negar esse privilégio.

Notas finais
bom, por hoje é só migs :) titia ama vcs. gostaria de avisar que a partir de agora a fic entra na reta final, então os proximos 5/6 caps serão os ultimos :( espero que vcs tenham gostado ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.