Rainha do Gelo
1 Prologo
Prólogo
Sorbo acordou afogando-se nos mares de sua cama.
Em seu pesadelo, um mar escuro o envolvia e o engolia nas profundezas do nada, não havia ar, e ele sufocava e se nadava procurando a superfície da escuridão, mas não havia superfície para encontrar.
Quando abriu seus olhos, a escuridão ainda o acompanhava, mas ele não precisava ver para saber que o pesadelo tinha acabado, podia sentir o conforto de seus lençóis, o macio de sua cama, o queimar de seu pulmão.
Não, o pesadelo não havia acabado, o pesadelo apenas havia trocado de cenário, ele ainda se afogava. Sem ar, e sem tempo, suas esqueléticas mãos tateavam o escuro a procura de seu sino de cabeceira.
Seria agora sua hora? Perguntou uma voz suave.
Ele pode sentir a delicada madeira do sino tocar um de seus dedos, mas ao tentar fechar sua mão sobre o pequeno objeto, a qualidade da madeira e sua polidez e tudo aquilo que fazia o pequeno sino valer mais que outros sinos, fizeram com que eles escorregassem por entre seus dedos e caísse sem fazer barulho em seu igualmente caro tapete importado.
Não. Sorbo gritou em sua mente sem conseguir emitir nenhum som em sua cama. Seu pesadelo era real, ele sabia agora, mas não era em águas que ele se afogava, e sim no catarro preso em sua garganta. Eu quero viver maldita, você me prometeu vida.
Alto será o custo. Falou a voz que vinha de lugar nenhum.
Não foi coragem que guiaram suas mãos até seu pescoço. Medo e somente medo guiavam seus dedos e unhas a dilacerarem sua pele fazendo seu sangue fluir.
Era um plano aterrorizador, porém prático. Rasgar sua garganta até alcançar sua traqueia para que pudesse respirar pelo buraco. No inicio, sua pele se partia sem muito esforço, mas, a medida em que o sangue fluía, seu dedos escorregavam e rasgavam os lugares errados fazendo com que sangrasse mais, deixando ainda mais apavorado.
Foi então que sua primeira unha se partiu. Sorbo não desistiu mesmo quando quase todas suas unhas se quebraram.
Enlouquecido ele tentou enfiar seus dedos dentro da ferida, mas, estes se dobravam para o lado errado de suas juntas e se partiram como se fossem gravetos. Não. Não me abandone agora, você me prometeu.
A única promessa de vida é a morte meu bravo Sorbo. Ela que não estava lá falou com uma imensurável ternura.
Ele ainda ouvia, mas as palavras já não tinham significado, um animal irracional habitava agora o seu peito, uma criatura desumana que possuía apenas um sentimento, apenas um propósito.
Quando a escuridão o engoliu por completo, Sorbo não fugiu do animal. Ele se entregou à fera, mergulhou nas profundezas de seu medo. Sorbo então gritou e gritou, até que o silencio não mais tinha forças para calar sua voz.
Num espasmo de vontade e força, ele ouviu seus gritos entre os jatos de vômito e catarro que jorravam de sua boca ao mesmo tempo em que defecava e urinava em sua cama.
Não havia vergonha, não havia mais medo, seu primeiro suspiro foi seu momento de maior prazer em toda sua longa vida. Sorbo sorria mesmo deitado numa cama de sua imundicie, ele sentia algo que não sentia há décadas, felicidade.
Seu prazer contudo foi passageiro, e com cada suspiro que dava, ele sentia suas dores voltar.
As pontas de seus dedos desunhados, as juntas distendidas, seus dedos fraturados. Dores competindo entre si por sua atenção, sua garganta dilacerada, seu coração podre.
Sorbo então chorou, mas não de tristeza ou dor como era seu costume. Hoje as lágrimas que escorriam sobre as bolsas negras de seus olhos eram lagrimas de alegria. Eu venci, eu venci outro dia.
Levou a mão trêmula ao peito e sentiu a chapa de ouro que substituía o lugar de seu tórax, o metal protegia seu coração, mas ao redor, onde a pele encontrava o metal por meios de parafusos e grampos, uma infeção se alastrava, matando sua carne e produzindo um odor putrífico.
Quanto tempo?
Ouviu passos. Depois o barulho da porta do quarto se abrindo. Sua guarda pessoal permitiu que entrasse uma pequena legião de médicos e enfermeiras.
Mesmo estando com seus dedos fraturados ele pegou o pesado cobertor poluído e o usou para limpar suas lagrimas. Que me vejam caído mas não derrotado.
Para a decepção de Sorbo, não havia pena nos olhos de seus médicos. A médica que liderava o grupo fez um gesto sutil para que quatro enfermeiras o despissem e trocassem sua roupa e lençóis. Então, abriu as cortinas e a luz do sol invadiu o quarto, revelando um aposento vasto e soberbamente decorado.
Era o seu ritual diário de humilhação. Ser limpo e vestido como um bebê. No começo de sua invalidez ele pensou que a vergonha um dia passaria. Mas, mesmo depois de décadas de covalência, Sorbo descobriu que a vergonha somente iria embora no dia em que ele fosse embora. Ate lá, eram todos atores, ele fingia não sentir vergonha, eles fingiam não sentir nojo ou pena.
Na parede mais decorada do aposento, um quadro parecia rir dele, a pintura tinha sido feita após sua cerimonia de ascensão, os jovens sonham com o que vão ter, já os velhos sonham com o que um dia tiveram. Por isso, o quadro ria. Quem eu fui e quem eu sou.
No quadro o pelo de Sorbo era lustroso, com um tigrado de vermelho e marrom em todo o corpo. Menos no peito, que era branco e no rosto e focinho que era negro como a noite. Ele não permitia espelhos em seu castelo, mas ele não precisava de espelhos para saber que hoje seu pêlo era branco como a neve suja.
Duas das enfermeiras usavam panos molhados em água morna para limpá-lo, uma delas tirava de seu pescoço os pedaços quebrados de suas unhas, enquanto a outra recolhia seus lençóis.
Sorbo fechou seus olhos como fazia todos os dias, escapando dali, buscando refúgio nas lembranças de seus dias de glória. Eu era o Paramor da minha Linhagem.
Dentro da pintura estava o dia mais feliz de sua vida, seu refúgio preferido. Foi nesse dia em que seu pai se ajoelhou aos seus pés. Ele podia ver seus irmãos, lado a lado, sorrindo com os dentes e invejando com os olhos, ao se ajoelharem eles beijaram sua mão. Depois se recolheram, e junto aos colares de prata, testemunhavam o fim de uma era.
Seu pai colocou o brasão de ouro na mesa de mármore, e com o descer de um martelo, quebrou os contornos de seu rosto que estavam gravados na porcelana. O novo brasão tinha um novo semblante, o semblante de Sorbo, o símbolo sagrado que servia de farol para o futuro de todos de sua linhagem.
O brasão de ouro com seu semblante em porcelana, era o símbolo do Paramor. Seu corpo agora era sagrado, sua aparência desde a tonalidade de seu pelo, há espessura de seu focinho, eram agora o novo modelo de perfeição. Muitos achavam que o pêlo cinza de seu irmão mais velho seriam o novo ideal, mas não, eu fui o Paramor, e minha beleza se tornou o símbolo do poder.
Seus pensamentos então foram levados ao seu primeiro dia no senado, ele foi o mais novo senador da história de Caltos. Mais novo ainda que o imperador escravo. Durante as décadas que precederam, ele saboreou o poder absoluto, todos o obedeciam, todos o temiam, muitos até o amavam. Eu dei a minha vida em troca de poder e riquezas. Apenas para descobrir que elas não compram ou tomam a única coisa que importa. Tempo.
Ele abriu os olhos e viu Clôdia ao seu lado. Ele a amava e a odiava ao mesmo tempo, ambos sentimentos sempre na mesma intensidade.
Envelhecer e se tornar uma criança outra vez, o mundo se torna menor, e as únicas pessoas que importam são as que cuidam de nós, nos alimentam de comida e atenção, e como eu anseio a sua atenção, como eu repudio a profunda e instintiva vontade que sinto em lhe agradar. Teria eu amado minha mãe algum dia como eu amo você hoje? Meu amor por você é minha fraqueza e meu ódio e minha força. Há de chegar o dia em que um desses sentimentos vai trasbordar. Te ter nua em meus braços ou ter sua pele esfolada para que sua beleza não me assombre mais. Ambas atitudes de um tolo, mas quem sou eu se não um tolo diante dos seus olhos...
Ele observava enquanto a médica preparava a pasta cinza que era seu alimento, já fazia alguns anos que não podia mais engolir sólidos. E ia chegar o dia em que ia engasgar com a água que bebia. Em seu estômago havia uma sonda, sua comida era prensada todos os dias para dentro do estomago. Comida essa, sem sabor algum, que não servia nem para saciar a sua inseparável fome.
Clôdia era uma, de uma dezena de outros médicos. Todos alinhados na parede esperando sua vez de atendê-lo, um processo que levava entre duas a quatro horas. Todos os dias.
Mas ela não era como os outros médicos, era especial: não apenas por liderar os demais. Era especial por ser uma felina num mundo de caninos. Vinda do distante reino de Tróferos, Sorbo pagara uma fortuna para tê-la ao seu lado.
Ele já havia matado Felinos, como um dia matou quase todas as raças que sobreviveram à grande guerra. Mas nunca tinha feito sexo fora de sua Linhagem. Sexo fora de minha linhagem é uma desonra, diz o Código de Sulaki. Meu pênis obedeceu ao código, até que minha mente se livrou dos dogmas de meus tolos valores. Mas então era meu pênis que já não me obedecia. E se eu morrer hoje? Vou morrer sem saber o prazer que se esconde entre suas belas pernas, Clôdia.
Ela desbridava a pele morta de seu peito, enquanto ele admirava intensamente seu rosto que lhe irradiava paz e conforto. Ela era esbelta, delicada, longilínea e sem curvas. Sua pelagem curta tinha as extremidades lilases. A mesma tonalidade dos olhos. Já havia atravessado a fronteira dos cinquenta anos, mas a jornada não lhe tinha roubado a feminilidade e nem o sorriso jovial.
– Por que você não me deixa morrer minha bela Clôdia?
– Você me paga para lhe manter vivo.
– E se eu lhe pagasse para acabar com minha dor, o que você me diria?
– Não.
– Que lhe importa se eu vivo ou morro?
– Não é uma questão de importância, é uma questão de integridade.
– Integridade? — Sorbo ri. – Não se iluda minha bela, qualquer que seja seu real motivo para fazer o trabalho que você faz, tiraram totoalmente sua integridade.
Clôdia continua a sorrir.
– Minhas palavras não carregam peso com você, eu posso xingar, gritar, chorar, eu posso vomitar e sangrar, eu tenho sua atenção mas não tenho sua compaixão, seu sorriso nada mais é que sua gentil indiferença a mim.
Clôdia toca no rosto de Sorbo com carinho.
– Eu não sou indiferente, meu propósito é cuidar de você, para que seus dias sejam dias de dignidade.
– Meus últimos dias você quer dizer.
– Sim.
– Presta atenção Clôdia, meus dias de dignidade são memórias, assombrações. Minha dor só aumenta, eu não tenho uma noite que não seja pior e que a noit anterior. Me diga, se eu pedisse para morrer, quanto eu teria que chorar e implorar para que você me desse a misericórdia da morte?
– Chore até ficar seco ou grite até perder a voz. Malcriado ou obediente, eu vou lhe manter vivo independente de ambos.
Sorbo acena a cabeça sorrindo.
Por isso a coloco à frente de todos. Se um dia minha vontade falhar, se um dia a dor for demais, você vai continuar me arrastando, até que eu fique louco, ou recobre o juízo. Abençoada seja sua crueldade, minha preciosa.
– Muito bem minha bela, juntos até o fim então.
Algumas horas depois no salão, Sorbo se mantinha sentado no trono com dificuldade. O peso de suas roupas lhe pesava tal qual uma âncora. Seu corpo fora cuidadosamente coberto com uma longa capa púrpura, com detalhes em ouro, que escondiam suas pernas e os braços descarnados. As mãos estavam cobertad com luvas. O pescoço e a cabeça envolvidos por um elegante capelo que deixavam à mostra apenas o seu rosto e suas pequenas orelhas.
Ao seu lado, Clôdia apontava uma seringa de vidro para a placa aberta em seu peito. O colete desabotoado desnudava o lado direito de seu tórax. O coração batia exposto, o órgão parecia murcho, quase negro e parcialmente coberto por uma estranha mucosa vermelha.
Dentro da seringa de vidro, um líquido negro e viscoso se movia como se estivesse vivo. O vidro estava se rachando, eram pequenas e delicadas rachaduras, mas estas iam se espalhando lentamente pelo vidro.
– Você tem certeza? – a médica quis saber.
Sorbo apenas acenou que sim. A agulha de marfim penetrou o coração. Sentiu o líquido milagroso arder nas veias de todo o corpo. Era uma dor que aliviava as outras.
– Sinto vida... – murmurou.
– E um risco desnecessário. – ela reclamou, enquanto fechava a tampa de metal e abotoou seu colete. – Seu coração não vai aguentar muito mais.
– Como diria os que me odeiam, eu não tenho coração minha bela. – Virou-se para os guardas. – Abram o portão!
As portas duplas do salão eram decoradas com relevos em prata e ouro, com uma cena de batalha entre Caninos e Gorilas. Estes últimos retratados como demônios. Quando se abriram, oito servos entraram carregando uma luxuosa liteira. Sentado sobre suas inúmeras camadas de gordura, um suíno morbidamente obeso fazia sua majestosa entrada. Seu corpo era monstruoso, sua cabeça e braços eram pequenos comparados a abundancia de sua massa, e se ele tinha pernas estas estavam perdidas dentro das dobras adiposas de sua barriga. E como se isso não bastasse, o suíno estava enfeitado exageradamente em jóias. Tantas que cada passo que os servos davam, suas joias faziam um som sem melodia, como centenas de guizos.
Os escravos eram da subespécie dos javalis, musculosos e de aparência feroz. Todos seminus, usando apenas sandálias e tangas que pareciam fraldas.
– Seja bem vindo! Perdoe-me, não sei o seu nome.
– Meu nome não importa nobre Sorbo, cuja face está estampada na moeda da grande República de Caltos. Perante ti, quem sou eu? Ninguém. Apenas um humilde funcionário, autorizado a representar os interesses do Banco dos Gigantes, em vista de sua persistente solicitação de um novo empréstimo.
– Sua presença me traz grande conforto. Por demais espero uma resposta.
– Meu nobre me convocou e aqui estou. Não seja dito que nossos ouvidos estão surdos aos apelos da Linhagem de Narácio, entretanto, lamento que minha mensagem sejam ecos das enviadas anteriormente.
O porco sorriu antes de continuar. Seu rosto rosado estava enfeitado com brincos nas orelhas e no nariz achatado. Quinze argolas ao todo, todas de ouro. Tinha uma aparência boba e inofensiva. Seus olhos, no entanto, contavam outra estória. – A resposta é “não”. – finalizou.
Sorbo fez um sinal com a mão e os javalis colocaram a liteira no chão. Agora Sorbo na altura de seu trono, olhava o porco de cima para baixo.
– Uma viagem longa para uma declaração tão curta.
– Menos poderia ser entendido como um insulto.
– É um insulto.
– Lamento.
– Ninguém me diz “não”, porco! – Sorbo não alterou o tom da voz. Ela era firme, porém baixa. Ninguém me diz “não”, senão minha Clôdia.
– Permita-me discordar, pois por quatro vezes lhe dissemos não por meio de mensageiros. Aqui estou eu em carne lhe dizendo seu quinto não.
– Acorrentado no meu calabouço, tendo como único alimento os próprios dedos, eu lhe vejo me dizendo “sim”, cinco mil vezes.
– Certamente, meu nobre. Não obstante, seriam cinco mil súplicas que meu nobre teria dificuldade em coletar nos cofres do Banco dos Gigantes.
– Talvez uma aula de História seja necessária para que você relembre a Grande Guerra, onde sua raça caiu, juntamente com tantas outras que se puseram em nosso caminho. Olhe no mapa e me diga: quem domina hoje as terras que ontem foram suas?
– Os Caninos de Caltos reinam nas terras de muitos. Terras justamente compradas com sangue e guerra.
– Quem é você, Porco, e quem sou eu?
– Eu sou eu, e você é você meu nobre. Quem mais haveríamos de ser?
– Uma vez eu perguntei ao meu pai por que todas as Linhagens de Caltos eram diferentes uma das outras. “Igualdade é uma mentira”, foi o que ele me respondeu. E me contou a estória que seu pai tinha lhe contado. No começo, antes da república, antes mesmo da Grande Guerra, em algum lugar dos dias esquecidos, diz a lenda, que os Caninos de Caltos, eram todos irmãos. Todos iguais, com os mesmos pelos, os mesmos traços. Vivíamos da terra e dividíamos o pouco que possuímos uns com os outros. – Sorbo aponta para o seu belo salão e continua. – Mas prosperidade procria discórdia. E com o transformar de vilas em cidades, houve a sutil, porém irremediável, separação entre os irmãos. Uns prosperaram, outros não. Os filhos nascidos do privilégio usavam suas pequenas vantagens para conseguir ainda mais, e os filhos de seus filhos continuaram a tradição, até que uma sutil diferença, e uma pequena vantagem fizeram brotar da terra os muros que dividiram nossas cidades. De um lado, os que serviam. Do outro, os que eram servidos. Os que tinham muito casavam com os que tinham muito, e os que tinham nada casavam com os que tinham nada. Haviam exceções é claro, nem todos os pobres tinham nada, alguns nasciam dotados de algo tão precioso quanto o ouro: beleza. Com sua beleza eles compraram seu direito de viver dentro de nossos muros, no conforto de nossas camas. Com o passar dos anos, cada cidade tinha uma Linhagem, e enquanto que os pobres eram uniformemente feios em sua insignificância. Os ricos se tornaram uma única família. Unidos dentro de um mesmo ideal de beleza, privilégio e poder.
– E suas cidades se tornaram cidades-estados, cada qual com uma única Linhagem, e cada Linhagem liderado por um Paramor, escolhido pouco por seus méritos e muito pela fascinação que sua raça tem com suas extravagantes e diversas aparências. Eu sei sua história, meu nobre.
– Trinta cidades-estados. Trinta Linhagens.
– Seu ponto?
– Não somos iguais, Porco. Eu nasci para ter o que quero ter. E você nasceu do outro lado do muro, destinado a encontrar seu propósito no servir dos meus anseios.
– Meu nobre é generoso. Sinto-me humilde diante de suas duras, mas verdadeiras lições de História. Permita-me então pagar minha dívida com uma aula em Sociologia. Seu mundo mudou. Enquanto é verdade que não temos mais terras a serem conquistadas, e que não possuímos povo ou bandeira; Essa não é nossa fraqueza e sim nossa força. Quando fomos expulsos de nossa terra, nós aprendemos a grande lição: sábios são aqueles que temem os Caninos de Caltos. Não obstante, vocês não são nossos mestres e sim nossos liberadores. Mostraram-nos que terras podem ser conquistadas, castelos destruídos. Espalhamo-nos pelo vento levando conosco a importância de sua lição, e nosso ouro. Não se pode destruir ou conquistar o que está além de suas fronteiras. O Banco dos Gigantes existe em todos os lugares onde existe o ouro. Nosso ouro. Ouro que vendemos tanto à sua nação como a todas as outras. Somos verdadeiramente Gigantes com nossa sombra se estendendo por todo o mundo conhecido. Somos muito maiores e estamos muito além do alcance de apenas uma.
– Seus bancos e seus irmãos que habitam minha nação, estão eles fora do meu alcance?
O porco riu.
– Funcionários e papéis podem ser substituídos.
– E você, porco? Pode você ser substituído?
– Eu não estaria aqui, se não pudesse. Sou apenas um funcionário. Meu tamanho pode ser maravilhoso, mas existem outros ainda mais belos, alguns ainda maiores que eu.
Sorbo percorreu seus olhos pelo corpo do porco, sem esconder o nojo que sentia.
– É verdade que as fêmeas da sua raça são atraídas pela gordura de seus machos?
– Eu sou divino aos olhos dos meus, e não apenas para as fêmeas. Basta um olhar e todos sabem quem é o mais rico e notável. Cada quilo em meu corpo carrega consigo seu valor em prestígio.
“Meu nobre Sorbo, mesmo com todo o seu poder, aos olhos dos meus, você seria considerado um mendigo.”
Sorbo sorri, revelando uma boca com poucos dentes.
– Daqui vejo um aleijado. – Sorbo pausou, deixando o insulto se estender no silêncio. – Se eu colocasse um copo com água a dez metros e proibisse seus servos de ajudá-lo, você morreria de sede, incapaz de andar os poucos passos salvadores. Sua raça sofre de um dilema parecido. Acumulam riquezas que não usam, senão para criar mais riqueza. Ouro comprando ouro, competindo entre si, para ver quem tem a maior pilha de moedas, enquanto tolos os carregam em suas costas sustentam o peso de sua gula. Mas se aproxima o dia em que suas costas vão quebrar e eles vão cair. Abrirão os olhos e verão, finalmente, que são muitos sem nada, servindo poucos que têm tudo. Neste dia hás de entender o valor da minha espada, assim como a mentira e a ilusão dos seus valores.
– Novamente, meu nobre, transborda sua generosidade em forma de conselhos. Tão precioso presente me endivida. Permita-me pagar palavra por palavra, a verdade que seus olhos veem, pela verdade que os meus observam.
– Fique à vontade.
– Diante de mim, vejo um velho moribundo. – a voz do porco era fria e seus olhos desmentiam a aparência inofensiva. Sério, seu rosto era outro, implacável e severo. – Diga-me, seria você capaz de andar os dez passos para beber do metafórico copo com água que salvaria a vida, seja ela minha ou sua?
Sorbo não respondeu. O porco continuou.
– Permita-me então estender a você a verdade do grande Império de Caltos. O mundo que vocês subjugaram com suas espadas, as maravilhas que construíram para celebrar suas vitórias, são hoje escombros do passado. Olhe para si mesmo e veja o que o tempo fez a ambos. Um reino falido, uma República dividida e ineficaz. Suas escolas reescrevem o passado usando o dogma religioso no lugar da verdade. Enquanto isso, para além dos seus muros e fronteiras, o mundo floresce.
Sorbo não disse uma palavra. Seu olhar era uma incógnita para o porco, que se manteve firme em sua retórica.
– Caltos foi uma nação gloriosa. – continuou o porco – Digna de temor. O tempo, porém, foi um adversário implacável, ao qual nem vocês puderam derrotar. O tempo destrói a tudo e todos. Não me digas quem fostes ontem, pois o ontem se foi e o hoje está aqui. Meu nobre Sorbo, hoje quem são vocês? Quem são vocês senão velhos. Velhos débeis e moribundos, revivendo memórias de glórias e poder. Não obstante, meu caro, sua glória e poder se foram como se foram seus dentes. Nada os trarão de volta.
O porco olha sem piedade Sorbo baixar sua cabeça.
– Quanto tempo ainda lhe resta, Sorbo? Semanas? Dias? Qual o custo de cada um de seus dias? Você esbanjou toda a riqueza de sua família comprando o Sangue Negro – Sorbo levanta a cabeça e se permitiu um olhar indignado, mas o porco não interrompeu o discurso. – Sim, sei dos seus gastos. São poucos, no mundo conhecido que podem adquirir uma gota de tal líquido. O seu ouro, a fortuna de sua família, trocada por alguns litros desse veneno. Diga-me, quantas gotas você ainda tem?
– O suficiente. – Sorbo responde, com olhar gelado.
– Seu filho Gládios nos procurou um pouco antes do seu chamado. Por direito, e me corrija se estiver errado, aquele que senta na cadeira do Senado é o verdadeiro Paramor da Linhagem dos Narácio. Ele me assegurou que a República não aumentará sua enorme dívida. Um acordo para pagá-la está em andamento e será apresentado pelo Imperador Escravo na próxima assembleia. Você está acabado. Não desperdice o pouco tempo que lhe sobra alimentando sonhos impossíveis. Venda o que sobrou do Sangue Negro. As crianças de Caltos morrem de fome em seus orfanatos. O custo de um dia de sua vida salvaria centenas de outras. Será que você acredita mesmo que sua vida vale o futuro de sua Linhagem. De suas crianças?
Sorbo olha para o lado. Um de seus guardas se aproxima, carregando uma pequena caixa de prata com o brasão da família em ouro. Sorbo olha novamente para o porco e fala, com um sorriso desdentado.
– Fodam-se as crianças!
O guarda abre a caixa. Dentro dela há uma cabeça canina. Sorbo continua.
– Meu filho, Gládios! – o porco engasga. – Sofreu um acidente de caça. Temos o costume de enterrar nossos mortos, mas mandei o taxidermista preservar sua cabeça para que meu filho pudesse me acompanhar onde quer que eu vá, e lembrar a todos, o valor do nosso código, o valor da obediência.
– O Senado...
– Eu sou o Senado. –Sorbo interrompe, se levanta, apontando o dedo para o suíno. – E você, seu porco desgraçado, é a minha esposa. Estamos caindo, você diz. O que você chama de empréstimos eu chamo de tributo.
– O Banco dos Gigantes é maior que qualquer nação.
– Porque nós permitimos que ele fosse. Qual o real valor do seu ouro?
– Civilização é o real valor do ouro.
– Não. O real valor do ouro é a promessa. Algumas promessas são cumpridas, outras não.
– Será mesmo tamanha sua hipocrisia que permite à sua língua, ao mesmo tempo, implorar por nosso ouro e negar o seu valor?
– Nós dois sabemos a verdade, porco! Não existe ouro suficiente no mundo conhecido que corresponda ao valor de nossa dívida. É por isso que seus Bancos guardam apenas papéis com promessas de pagamento.
– Se nosso ouro não existe, qual o objetivo em nos pedir mais?
– De que me importa, suíno? Promessas falsas alimentam o coração dos tolos. Se eles querem trocar o fruto de seu trabalho por mentiras, não me faltam mentiras para contar.
– Guerra é suicídio. Será a ruína da sua República!
– Somente se perdermos. E não temos como perder, não com o que podemos comprar em armamentos, não enquanto as outras nações vão trocar conosco suas riquezas pela promessa vazias dos seus papéis.
– E se eu disser não?
– Caltos não pagará a sua divida.
– As consequências seriam desastrosas.
– Talvez, mas eu quero essa guerra. E eu estou disposto a ver minha nação, junto com todas as outra queimarem no fogo do meu desejo.
– E se você morrer, o que será de seus planos?
– Eu não vou morrer. – Nunca. – Agora, dê-me a resposta. Cinco vezes você me disse “não”. E o que me diz agora?
– Eu não tenho autoridade...
– Eu quero uma resposta, e agora, porco! É agora ou nunca.
O porco faz um sinal. Os servos levantam sua liteira. Observa demoradamente a cabeça de Gládios. Finalmente olha para Sorbo.
– Sim.
O porco é escoltado para fora. Sorbo experimentava algo que há muitos anos não sentia: Paz! O coração volta a pulsar forte em seu peito. Por alguns momentos ele se esquece de sentir dor. Eu venci. Vou viver. Viver para sempre!
Neste instante a dor volta. Como um punhal perfurando seu coração, ela retorna. Olhando ao seu redor, tudo deixava de existir. Até a dor estava lhe abandonando. Sorbo caiu ao chão, apertando a placa de metal em seu peito.
Clôdia foi a última coisa que viu quando seu coração parou de bater.
O lindo semblante da única a quem ele amou.
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