Rainha do Gelo
13 Kallissa 6
Kallissa 6
Mars.
Kalli abriu os olhos e viu apenas escuridão.
– Mars...
Mal o nome partiu de seus lábios e uma mão peluda entrou em sua boca, e segurou a parte inferior de seu focinho. Ela não estava sozinha no escuro, algo ou alguém estava ao seu lado.
– Todos estão dormindo pequena filha de Eru.
Não era um canino, seu cheiro forte e denso era desconhecido. O estranho estava tão perto que ela sentia o calor do seu hálito forte.
– Eu vou tirar minha mão, mas se você gritar eu vou te machucar.
Kalli tentou se mover, e descobriu que estava amarrada na cama. Correias de couro prendiam seus pês, braços e peito. Suas mãos ardiam como se ainda estivessem em chamas. Mas a dor não importava, ou as ameaças, assim ele a soltou ela disse a única coisa que importava.
– Meu irmão, onde esta meu irmão?
Os olhos dele eram de um castanho tão claro que pareciam ouro, em sua testa uma tatuagem feito em cicatrizes na forma de um circulo com um símbolo desconhecido dentro.
– Qual a diferença? – Perguntou o estranho com desdém.
– Só me diz, só me diz se meu irmão esta bem.
O estranho cuspiu no rosto de Kalli. O catarro escorreu por entre seus olhos enquanto o estranho deu mais um passo a frente. Tao próximo agora que ela podia ver os contornos de seu semblante. Um calafrio subiu sua espinha. O estranho era um Gorila, um Gorila de Uro´kar.
Seu rosto era assustador, despelado, sua pele era grossa e negra, seu nariz achatado e largo. Ela ouviu o pequeno som de metal contra metal, foi quando reparou que o Gorila estava usando uma coleira de ferro, atado a uma corrente que se perdia na escuridão.
– Meu pai cuspia em mim quando eu demostrava fraqueza. Ele cuspia e me surrava. Eu deveria te surrar também filha de Eru, mas se eu acordar os guardas eles não vão entender, vão achar que eu quero o seu mal. – O Gorila limpou com sua mão o catarro do rosto de Kalli. – Eu não quero o seu mal filha de Eru. Como meu pai não queria o meu. Boas lições deixam cicatrizes. Quanto maior a cicatriz, maior a lição.
– Eu não sou filha de Eru.
– Somos todos filhos e filhas de Eru.
– E meu irmão?
– Não esta aqui.
Kalli olhou ao seu redor, agora já acostumada com o escuro. Sua cama estava ao lado de uma parede de madeira, num canto, barras de metal ficavam a sua direita, atrás dela outra parede e a sua frente ela via apenas sombras.
Eu estou numa cela.
– Onde eu estou, por que estou presa?
– Agora não e hora, eles vão acordar a qualquer momento, apenas saiba que não importa o que eles te digam, você e uma prisioneira. Peça para ser solta e você vai entender.
– Entender o que?
– Amanha.
O Gorila sumiu dentro do escuro da cela.
Kalli não queria dormir, ela queria saber mais, ela tinha que saber mais, contudo a dor em suas mãos intensificavam, ela tentava hora fechar seus dedos hora abri-los procurando aliviar a agonia, mas a dor só aumentava.
Mas essa dor também trazia conforto, ela afogava os sentimentos que ardiam em seu peito. E nos seus momentos mais intensos, a dor a protegia dos pensamentos que a assombravam, não pensar era um alivio. Não ver seus pais queimando, não ver ser irmão chorando e chamando por ela. Sentir a sua dor era preferível a imaginar a dor deles. E assim foi a noite. Duas dores lutavam dentro dela por soberania sobre o que a faria sofrer, seu corpo ou seu coração.
Quando acordou já era dia.Kalli não lembrava se tinha dormido ou desmaiado. As dores de suas mãos tinham diminuído, mas sua mente clara queria voltar para o incêndio, quando ela fechava os olhos ela podia ouvir os gritos de sua mãe. Kalli manteve seus olhos abertos, seu irmão ainda estava vivo, e isso era tudo que importava.
Olhando a sua volta, notou que não haviam janelas em sua cela, apenas pequenas frestas na parte superior das paredes de madeira. O Gorila dormia no chão, em cima de um punhado de palhas. Uma corrente se estendia por dentro de argolas de ferro presas a parede. A corrente passava por uma argola em seu pescoço, se ele se movesse a corrente corria as argolas permitindo movimento, mas ao mesmo limitando seu andar dentro da cela.
Um riso veio do seu lado direito, um riso macabro sem alegria.
Do outro lado de sua grade, Kalli podia ver a outra cela. Igual a sua em tamanho. Esta estava cheia, nela, onze selvagens dormiam enquanto um de pé olhava para Kalli e ria.
O repugnante cheiro de urina e podridão que ela sentia vinha deles. E eles eram tão feios quanto fedidos, com seus pelos sarrentos e seus dentes amarelos.
Hienas.
Todos estavam nus, acorrentados uns aos outros, cada um preso entre duas argolas. A hiena acordada, esta mais a frente das outras. Ao lado das grades, ainda rindo, um riso baixo, mas mesmo assim incomodo.
– Qual e a graça? – Kalli perguntou e não recebeu resposta. – Qual e a graça?
– Esse ai sempre acorda mais cedo, ele e o menor deles, se ele não comer antes dos irmãos acordarem, ele não come. – A voz vinha de um canino simplesmente lindo, sangue puro Kalli tinha certeza, usava um uniforme verde e amarelo com um medalhão de bronze com o símbolo dos Loccie. – Tallis. Vem cá, nossa convidada retornou ao mundo dos vivos.
As outras Hienas acordaram o menor se levantou e foi para perto das grades. Ele não ria, seu rosto mostrava desespero e urgência. Ele estendeu suas mãos para o belo guarda, indo ate onde suas correntes permitiam.
– Acho que estraguei o café da manha de alguém. – O belo guarda falou ao deslizar um pote com uma pasta cinza que não tinha nem cara nem cheiro de comida. Mesmo assim a pequena hiena pulou em cima e com as mãos colocou o máximo que pode em sua boca e tentou engolir, mas a comida era tanta que sua boca não fechava.
As outras Hienas se levantaram e tentaram ir ate a frente da grade, mas aos primeiros passos suas correntes a seguraram, ao mesmo tempo que arrastavam a hiena menor para traz.
Kalli entendeu o por que. Cada corrente estava ligada ao um chacal depois de ser dividida por entre dois arcos. De modo que para que uma hiena andasse para frente, as outras seriam puxadas para traz, não tinha corrente suficiente para todos se moverem, para que um alcançasse as grades, os outros tinham que ficar juntos a parede.
Agora como todos estavam lutando para ir em direção as grades, o máximo que a corrente permitia era distancia de dois passos. Mas com o movimento deles, a corrente da pequena hiena foi puxada para traz, colocando todos longe da grade, mas pertos o suficiente do pote de seu pequeno irmão.
O maior deles tomou o pote e sozinho comeu enquanto que os outros nove lutaram pelos restos babados que tiraram a força da boca do irmão menor.
– Animais. – O belo guarda falou virando as costas.
Ele abriu a cela.
– Onde eu estou? – Kalli perguntou. – Quem são vocês?
Ele estava para responder quando Tallis entrou. Ela era ainda mais bela que ele, usando o mesmo uniforme, tão parecidos um com o outro que Kalli diria que eram irmãos, não fosse e claro o medalhão prateado dela.
– Myr seja louvada, você vive. – Tallis falou ao cair de joelhos ao lado de Kalli.
– Ouviu isso Azberro? – Falou o belo guarda olhando para o Gorila no canto da cela. – Myr e não você que salvou a menina.
O Gorila sorria de forma tímida, algo estava diferente, era como se o dia o tivesse transformado o estranho da noite anterior. Se antes ele era alto e assustador, agora ele era pequeno e inofensivo. Seus olhos agora fitavam o chão. Ate sua voz tinha mudado de seria e severa para um tom subserviente quase infantil.
– Mestre, se Tallis agradece a Myr, então eu também agradeço a Myr.
– E se eu disser que foi você e não Myr que salvou a menina. Então qual de nós dois estaria certo? – Perguntou o belo guarda.
– Os dois então sempre certos meu mestre.
– Os dois não podem estar certos, um tem que estar errado, quem esta errado Azberro?
– Eu estou errado meu mestre. – O Gorila se ajoelhou. – Eu mereço ser punido por meu erro.
– Quietos os dois. – Falou Tallis sem tirar os olhos de Kalli. – Você e dos Hysku não?
Kalli acenou que sim.
– Qual o seu nome?
– Kallissa.
– O que aconteceu com você Kallissa?
Os olhos de Kalli se encheram de lagrimas, e a dor em suas mãos diminuiu ainda mais, em seu lugar veio a dor das lembranças, sua vila queimando, seus pais queimando. Ao terminar de contar sua estória, Tallis chorava com ela.
– Quando entregarmos os prisioneiros, eu vou levar você de volta a Basília.
– Não, eu tenho que encontrar meu irmão.
– Não sabemos onde seu irmão esta. Também não sabemos quem o levou.
– E pra onde? Você sabe pra onde eles foram?
– Uma trilha indo norte, três montarias uma delas levando uma carroça. Isso não e muito.
– E o suficiente.
– Você foi abandonada, quem quer que sejam não são de confiança. – O belo guarda falou. – Você esta melhor em nosso cuidado.
– Muito obrigada por tudo, mas eu tenho que ir norte.
– Você nunca vai conseguir encontrar seu irmão sozinha. – Falou Tallis.
– Eu quero ir embora.
Tallis troca um olhar com seu belo companheiro. Naquele segundo Kalli entendeu que eles estavam escondendo algo.
– Me solta. Me solta agora.
A cela sacodiu, ela sentiu o movimento de rodas, o balançar que já lhe era familiar.
– Onde eu estou?
– A caminho de Nuthunordrel. – O belo guarda falou usando uma voz sinistra.
– Eu sou sua prisioneira?
– Claro que não. – Respondeu Tallis.
– Então por que estou amarrada dentro de um cela?
– Estamos transportando prisioneiros.
– Isso não responde minha pergunta.
– Descansa. Azberro vai te dar de comer. Amanha eu te explico melhor o por que de você não pode ir.
– Não.
– Amanha eu volto. Não se preocupe, Azberro e inofensivo, ele vai cuidar bem de você. – Tallis falou já dando as costas.
Kalli queria dizer não outra vez, mas seria inútil, ela virou o rosto. Ouviu quando trancaram a cela, e depois a porta que dava para fora.
Ela estava sozinha com o Gorila novamente. Ele pegou o prato de comida e sentado no canto da sela comia. Ele não ofereceu a comida e ela não pediu, não estava com fome. Sentia apenas a dor em suas mãos, era uma boa dor, uma dor bem vinda que a ajudava a esquecer, afastando as lembranças.
Durante horas, nenhum dos dois falou nada, o único som vinha das rodas no chão de pedra, e os insuportáveis risos das Hienas. Mas ate mesmo este incomodo estava dando lugar a outro que era maior, e aumentava a cada segundo que passava. Kalli queria urinar já fazia algumas horas, ela aguentou o máximo que pode, ate que chegou um ponto que ela não podia mais suportar.
O sentimento de alivio foi imediato, mas junto com o alivio veio a vergonha e humilhação. O Gorila se levantou e pegou um balde e uma toalha que estavam ao pé de sua cama, fora de sua visão.
O Gorila estava diferente outra vez, andando totalmente ereto, serio sem nenhum traço de submissão, sem falar uma palavra ele colocou sua mão dentro do cobertor, chegando ate tecido sujo. Ela sentiu os dedos grossos lhe despirem.
– O que vocês querem comigo?
– O que eles querem, ou o que eu quero?
Ela sentiu agora o pano molhado sendo esfregado em suas pernas. Limpando sua sujeira, subindo sua direção ate entre suas coxas.
– O que tem em Nuthunordrel?
– Um inverno que nunca acaba, e uma torre.
– E o que acontece nessa torre?
– Grandes carroças como esta são levadas cheias, quando voltam, voltam vazias.
Ela sentiu o tecido sendo esfregado em sua parte mais intima, e os dedos gordos por trás do pano, não havia gentileza ou malicia. Mesmo assim um calor subia de suas coxas ate arrepiar os pelos de sua nuca. Ela tentava afogar a exitaçao tentando se focar na humilhação e vergonha que ela também sentia, mais quanto mais ela tentava menos ela conseguia. Ela então falou procurando quebrar a intensidade do momento.
– Por que eu estou amarrada?
Ele não respondeu. Terminou de limpa-la e com um grosso tecido limpo e seco, ele fez uma dobra de fralda entre suas pernas. Depois se sentou no mesmo lugar de antes.
As hienas riam e riam. Elas riem de mim.
– Calem a boca, por que vocês não calam a boca.
As hienas continuaram rindo, sem ao menos olhar na direção de Kalli. Com exceção do menor deles, este não tirava seus olhos de Kalli, sorrindo com seus dentes amarelos e podres, ele babava, deixando gotas de saliva caírem ao chão, rindo, sempre rindo. Kalli fechou os olhos, se concentrou na dor, deixando ela fluir por dentro dela, como ondas, e perdida nessas ondas, ela quase conseguia esquecer seus pais. Quase.
Kallissa estava em chamas, de volta as escadas de sua vila. Sozinha ela subia as escadas enquanto que os gritos de sua mãe chamavam por ela. – Me ajuda filha. – Sua mãe dizia. – Me ajuda antes que seja tarde.
Mas agora a vila não estava em chamas, ela estava, e onde quer que ela tocasse ou pisasse, ela deixava um rastro de fogo e destruição.
No topo da escada, Kalli encontrou sua mãe de mãos dadas com seu pai, ambos segurando no ombro de Mars. Todos vivos. Seu coração parou, o tempo parou, e o fogo que a encobria não mais incomoda. Ela tinha finalmente encontrado seu caminho de volta. O pesadelo tinha acabado. Mais alguns passos e tudo voltaria a ser como antes.
Kallissa abraça seus pais. E por um breve instante, o peso em seu peito desapareceu. Sua mãe sorriu, seu pai passou a mão em sua cabeça. Tudo estava perfeito. Ate que ela estendeu sua a mão a Mar e ele deu um passo para traz.
Mars se afastou olhando para ela como quem olha um monstro. Foi então que Kalli entendeu. O fogo que não a queimava se alastrava e encobria seus pais. Eles queimavam calados, mesmo quando sua pele em chamas mostravam o branco de seus ossos, eles não emitiam nenhum som. Apenas seus olhos falavam, mostrando sua decepção com sua filha que os traiu.
– Me perdoa, eu tinha que tocar em você, me perdoa mas eu tinha.
Foi quando ela sentiu a lamina que aparecia agora na mão de Mars, a lamina que estava agora enterrada em seu ventre.
Ela acordou com os urros, com o cheiro forte de sangue. Não foi um sonho.
Mesmo sem poder se mover ela sentia o liquido quente entre suas pernas, não havia duvidas ela estava sangrando.
Os urros aumentavam, junto com o crescente som de correntes se arrastando contra as argolas de ferro. Quando Kalli olhou para o lado, encontrou todas as Hienas olhando em sua direção. Elas urravam e se atiravam para frente movendo a corrente e competindo entre si para ver qual consegui ficar na frente uma das outras.
Algumas desistiram de avançar em sua direção e começaram juntas tentar quebrar uma das argolas da parede. A madeira estalava e rachava, mas se mantinha inteira o suficiente para segurar o metal em seus longos e grossos pregos.
Os olhos das hienas não eram olhos de ódio, eram olhos de desejo. Seus membros estavam eretos saltando por entre os pelos de suas virilhas.
Kalli só percebeu que Tallis e o belo guarda tinham aparecido quando eles já estavam abrindo sua cela.
– O que esta acontecendo? – Kalli perguntou.
– Tira o cobertor dela, tira os lençóis, leva para fora e queima. – Tallis falou para o belo guarda, mas este não obedeceu, ele apenas olhava para Kalli, com o mesmo olhar das Hienas.
– Seu inútil. Sai daqui. – Tallis falou e empurrou o soldado para fora do vagão. – Azberro, limpa ela. Rápido.
– O que esta acontecendo? O que eu fiz?
O Gorila tirou o cobertor, depois puxou o lençol branco, o meio do lençol estava encharcado em sangue.
– Eu to morrendo? – Kalli perguntou quando viu a quantidade de sangue.
Foi nessa hora que as hienas enlouqueceram, sem poder escapar de suas celas, elas voltaram seus olhos para o menor delas. Tudo estava acontecendo rápido demais, Kalli não conseguia entender, ou talvez ela não quisesse entender.
Ela assistiu enquanto as Hienas maiores subjugaram a Hiena menor, enquanto eles a surraram e o colocaram de joelhos. Quando eles o penetraram Kalli virou seu rosto, mas ela ainda podia ouvir, tanto os gritos de prazer quanto os gritos de dor.
– Kallissa me escuta você não esta morrendo, esse e o sangue da lua. E apenas seu cio.
Quando Azberro tirou o lençol ela viu que não estava cortada, que o sangue vinha da abertura em suas pernas. Mas isso não importava mais, os gritos de dor na cela ao lado também não importava mais. Kalli olhou para suas mãos, e o que viu quebrou seu coração e destruiu seu espirito.
As mãos de Kalli não existiam mais, em seu lugar ataduras e sangue seco.
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