Rainha do Gelo
14 Kallissa 7
Notas iniciais
Kallissa 7
Kalli olhava por horas e horas para o vazio onde deveriam estar suas mãos.
Ataduras sujas cobriam o corte com firmeza. Ela sentia uma compulsão para tocar nas ataduras, sentir o material com pontas de seus dedos. Mas não havia mais pontas, nem dedos.
Eu perdi tudo. Tudo.
Cada pedaço destrocado de sua vida vinha se despedir em sua mente. O sorriso que sua mãe lhe dava todos os dias quando tomavam seu café da manha. Seu irmão que apesar de dizer que não se importava com ninguém sempre escolhia um lugar próximo dela para ler os seus livros. Alex lhe ensinado a cavalgar. Pequenos gestos que passam despercebidos quando vivemos num mundo de inocência e alegria. Felicidade e como um sonho, por mais que durem anos e anos, quando acaba, e como se nunca tivessem existido, um sonho de outra pessoa, e quanto melhor fosse esse sonho, e quanto maior a felicidade encontrada dentro dele, maior nossa queda ao despertar de nosso verdadeiro viver.
As palavras de seu pai ecoavam em sua mente. Eu matei todos os meus filhos. Como ela tinha sido tola, ele tinha tentando explicar o que estava por vir.
Agora eu entendo pai, você precisava de mim ao seu lado, e eu não estava lá. Você não me matou, eu matei todos nos. A culpa e minha só minha.
Kalli estava perdida dentro de si, relembrando, mergulhada dentro de seu passado, mas mesmo nas profundezas escuras de suas saudades ela podia ouvir os sons de seu novo mundo procurando sua atenção, o som que começou com um suspiro, agora se tornavam gritos. E os gritos lhe roubavam a paz, lhe puxavam de dentro de suas profundezas de volta a superfície, de volta ao mundo cruel.
Os gritos da pequena hiena faziam Kalli ter vergonha da sua dor. Como ela poderia pensar em seu sofrimento, enquanto que a poucos passos, alguém sofria tão terrivelmente e mais intensamente que ela.
Para, por favor, para.
Se tivesse mãos ela teria tapado os ouvidos. Mas não, ela era obrigada a ouvir tudo, os risos, os sádicos risos que nunca calavam. Eles cantavam para ela, num musical mórbido de sadismo e terror, que começava seus versos nas batidas de murros e chutes, que duravam ate o som de choro, ai o ritmo mudava e para um frenético choque de carne contra carne, num crescente que culminam num grito animalistico de prazer, essas eram as letras finais da mórbida melodia, mas o final de um verso era o começo de outro, e com as batidas e risos, a terrível musica voltava ao seu primeiro refrão.
– Me deixa em paz. – Ela gritou na direção da cela das Hienas.
Mas não haviam mais gritos. À noite tinham vindo de algum lugar, e as sombras já estavam em todo lugar. Todos dormiam. Todos menos dois, a pequena hiena, esta ainda chorava baixinho num canto, deitado em algum lugar dentro da escuridão. O segundo a se manter acordado era a Hiena maior, o líder. Este estava de pé, na frente das grades, olhando odiosamente na sua direção.
– Ela quer te matar. – Falou o Gorila sem se aproximar.
– Ela?
– Não deixe o pênis te enganar, não e de verdade.
Kalli olhou novamente para a hiena líder, tinha quase dois metros, seu mamilos eram mamilos de machos, seu corpo não tinha curvas, apenas músculos e rigidez. Mas ela sabia que o Gorila falava a verdade, tinha lido em algum lugar, ou talvez Mars tenha lhe dito. Hienas são uma das poucas raças matriarcas, onde as femeas são os Kam e os machos os Wokam.
– Por que ela quer me matar?
– Sexo, e como elas controlam os machos, você roubou o poder dela.
– Ela esta certa, eles queriam a mim não ele.
– E se eles tivessem tido você, seria isso mais justo?
– Sim.
– Você estaria morta.
– Eu sei.
– Você quer morrer filha de Eru, e isso?
E isso?
Kalli não estava mais amarada a cama, o colchão tinha sido retirado, junto com sua roupa, apenas um cobertor sobre seus ombros escondiam sua nudez.
– Eu fiz uma pergunta filha.
– Eu não sou sua filha.
– Você não tem medo de mim?
– Não.
– Por que não vem na minha direção e diz isso de novo.
Kalli se levanta deixando o cobertor cair de seus ombros, vestida agora apenas com as ataduras que ganhou no lugar de suas mãos, ela andou para dentro das sombras em direção à voz do Gorila.
– Não. – Ela repetiu ao ficar a um palmo do Gorila.
O Gorila era muito mais alto e largo, o topo da cabeça de Kalli mal alacava seu peito.
– Eu tenho algo pra te mostrar então minha filha.
Ele estendeu sua mão lentamente na direção do rosto de Kalli que se manteve impassível. Ele tocou e depois acariciou seu pescoço, depois subiu sua mão para o alto. Quando sua mão desceu seu punho estava fechado, e murro foi de tão desproporcional forca que ela caiu ao chão.
Sentindo o gosto de sangue em sua língua, Kalli voltou para o dia em que seu pai tinha lhe derrubado ao chão com o chicote. Foi assim que tudo começou.
Ela se levantou e se colocou no mesmo lugar, ao mesmo palmo de distancia. Desta vez o murro não foi em seu rosto, o Gorila mirou em seu estomago. Ela caiu então de joelhos. Mal conseguindo respirar. Outra vez, ela se levantou.
– De novo. – Ela falou.
E o Gorila o fez, com sua mão aberta ele esbofeteou Kalli, cada tapa estalava com um trovão dentro dos seus ouvidos. Ele batia primeiro com a palma, jogando seu rosto para esquerda, e voltava com traseira de sua mão jogando ela para direita. Ate que num dos tapas ela caiu novamente ao chão.
– Isso não e o suficiente. – Kalli falou se levantando. – Termina. – Ela gritou.
Os risos voltaram, em algum lugar das sombras as Hienas tinham acordado para ver o espetáculo.
– Você quer dor? – Perguntou o Gorila.
– Eu quero mais que dor.
O Gorila pegou nas extremidades dos braços dela, uma mão segurando o ferimento sob suas ataduras. O toque era gentil quase que carinhoso, mas ela sabia o que estava por vir, e respirou fundo quando sentiu as mãos grossas espremerem sua carne.
A dor era surreal, quase tão pura quando a que sentiu as chamas cobriram suas mãos pela primeira vez. Só que desta vez ela não ia fugir, desta vez ela ia seguir em frente, do outro lado seus pais esperavam por ela.
– Mais forte. – Ela conseguiu falar.
Ele então soltou dela.
– Não. Termina, por favor, termina.
– E seu irmão?
– Eu não posso salvar ninguém. Olha pra mim. Eu estou morta.
– Você pode me salvar.
Antes que Kalli pudesse responder o Gorila estava sobre ela. Sua boca lambendo o sangue do seu rosto. Suas mãos procurando segurar seus pequenos seios.
Para. Ela pensou, mas não disse. Ela queria dizer, ela queria gritar como a Hiena gritou, mas algo dentro dela a impedia. Ela tentou pensar em Edruss, mas Edruss estava morto. Perdido para ela juntos com todos os outros. Ela não tinha nada que não este momento.
Parte dela queria sentir nojo, sexo fora das Linhagens era um crime, sexo fora de sua raça era uma abominação. Kalli sabia que não tinha escolha quanto a ser possuída, ela podia sentir a urgência e rigidez dele buscando o caminho por entre suas pernas. Mas ela tinha a escolha entre ser cumplice ou vitima.
Ela não sentia atração por ele, não sentia prazer nenhum com seu toque, mas no desejo dele ela encontrava conforto, alguém a queria, ela era de ninguém agora, mas naquele momento, ela era dele.
A dor de perder sua virgindade foi insignificante. Existia mais dor no contraste entre a magica do que deveria ser seu encantado momento de conhecer o amor e a realidade mecânica e monótona de ser montada por um animal de vontades e necessidades das quais ela não conseguia compartilhar.
Quando ele terminou, depois que explodiu dentro dela, o Gorila não se moveu, e nos seus olhos sempre sem expressão, ela viu um reflexo de ternura.
– Você ainda quer morrer?
Ela acena.
– Você quer que eu te mate?
Ela acena novamente.
– Muito bem.
O Gorila pega um pano sujo de sangue seco e o emerge num balde d’água, depois de espremer o sangue na agua, ele pega o tecido humedecido e limpa o sangue de Kalli, começando pelo seu rosto, depois indo ate as ataduras que existiam no lugar de suas mãos, e terminando finalmente nas grandes quantidades de sangue que novamente vertiam da nudez entre suas coxas.
– Eu prometo te matar. – O gorila falou ao terminar, o balde d’água agora parecia ser um balde de puro sangue. – Mas em troca você vai ter que me prometer a me ajudar a escapar dessa cela.
– Eu matei meus pais. Eu não tenho como ajudar ninguém. – Kalli falou.
– Você quer morrer ou viver filha de Eru?
– Morrer.
– Me prometa obediência e eu lhe prometo a morte.
Kalli acena.
– Muito bem, muito bem. – O gorila falou ao coloca-la de volta a sua cama de palha. – Dorme filha de Eru, se eu estiver certo, amanha nesta mesma hora, você vai se juntar aos seus pais.
O gorila então sorri, antes de voltar para a escuridão.
E Kalli sentiu que as rodas não mais rodavam sobre uma estrada, quando olhou para as frestas no teto de sua cela, ela viu flocos de neve entrar.
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