Rainha da Neve

9 Lordes Encantados


Os primeiros vassalos de Arendelle chegaram no dia seguinte. Eram três lordes diferentes que somavam um total de nove mil homens, dezenas de criados e alguns membros de suas respectivas famílias. Quando, naquela manhã, Elsa foi acordada pela agitação no castelo, ainda sem saber o que estava acontecendo, teve vontade de mandar todos embora, sentindo saudade dos tempos em que o castelo se encontrava sempre silencioso.

Agora, entretanto, devidamente inteirada da situação, tudo o que ela pensava era em como conseguiriam alimentar todas aquelas pessoas em pleno inverno.

Caminhava para se reunir com os três lordes, imaginando se nove mil homens e quinze homens gigantes de neve com suas armas congeladas seriam o bastante para combater o exercito que Rosalya parecia ter levado anos para construir.

Elsa desejava poder construir mais seres congelados para ajudar. Mas a energia necessária para dar vida a tais porções de neve a cansava rapidamente, levando-a à exaustão em pouco tempo.

Os lordes que haviam respondido ao seu chamado eram de feudos não muito distantes. Seus nomes se perderam na história, mas há relatos que afirmam que suas iniciais eram F, A e P, apesar de eu não poder confirmar a veracidade desse fato.

De qualquer jeito, o dia passou agitado enquanto os homens e criados dos três lordes eram devidamente alojados e os próprios lordes tinham reuniões particulares com a Rainha Elsa. Eles tendiam a se esquecer sobre a magia o tempo todo e pareciam completamente fascinados com a ideia de poder usá-la. Um deles chegou mesmo a perguntar para Elsa por que – já que ela tinha a magia ao seu favor – ela precisava da ajuda deles.

– Porque Rosalya também tem magia. E porque Rosalya tem magia – foi a resposta da Rainha. – Você são minha vantagem.

No final, eles estabeleceram que a prioridade deles seria salvar os prisioneiros que Rosalya tinha com ela, tanto os homens que haviam saído com Kristoff, quanto o próprio Kristoff e a princesa Anna. Concordaram também que, apesar de eles próprios precisarem de tempo, não seria bom dar muito à Rosalya. Pelo que Elsa observara, a prima parecia estar perdendo a lucidez e não queria esperar para ver o que faria com os prisioneiros que tinha em mãos, principalmente com sua irmã.

Ao mesmo tempo, uma missão que envolvesse muitas pessoas chamaria a atenção desnecessária de Rosalya para eles.

– Precisamos de um grupo pequeno. Cinco homens no máximo; quanto menos, melhor – Elsa disse para os lordes em sua presença. – Ao mesmo tempo, será muito arriscado. Seria necessária muita bravura, discrição e rapidez… Quem são seus melhores homens? – perguntou.

Elsa era uma Rainha, mas era uma Rainha solteira e precisava de um rei. Recebia muitas propostas de casamento, inclusive dos próprios lordes ali presentes e de seus herdeiros. Havia recusado todas até então, entretanto. Possivelmente foi a ideia de agradar Elsa salvando sua irmã para mais tarde conseguir um casamento que fez os três lordes tomarem a decisão que tomaram.

– Nenhum dos meus homens seria bom o bastante para tal situação, eu temo. Não que não confie a eles minha vida, mas sou um homem muito mais robusto e fácil de proteger. A vida de sua irmã é um bem mais precioso e é necessária uma proteção especial. Eu me candidato à missão.

– Pois eu digo o mesmo – falou o segundo lorde, e muitas dessas palavras foram anotadas por um escrivão que participava da reunião. – Meus homens são bons homens, mas não tem a nobreza necessária para lidar com princesas nem a lábia para negociar com Rosalya se preciso. São homens simples que sabem lutar. É necessário algo mais complexo do que isso. Também me ofereço para participar.

– Faço minhas as palavras de meus companheiros – disse o terceiro lorde. – A sutileza da vida de uma princesa precisa dos cuidados de algo mais nobre do que simples soldados. Eu e toda minha família somos feitos de um material mais puro e apto para essa missão. Imploro pela honra de servi-la, minha Rainha.

A Rainha Elsa hesitou um pouco antes de responder. Pergunto-me se ela teria percebido a corte feita pelos homens, quer em beneficio próprio ou de seus herdeiros. Para eles, não era apenas a vida de Anna e as de todos os prisioneiros de Rosalya que estavam em perigo. Não, muito mais importante do que isso, estava a decisão sobre quem desposaria Elsa e ganharia Arendelle.

– Muito bem… – começou Elsa. – Tragam minha irmã de volta e serão recompensados. Mas terão que ter cuidado, Rosalya mantem-se instável. Mas se é um risco que vocês estão dispostos a correr, eu posso apenas lhes desejar boa sorte.

No documento registrado pelo escrivão, consta que foram pelo menos três horas de reunião para acordar todo o plano sobre o salvamento de Anna e os outros prisioneiros de Rosalya. Nem tudo é legível, visto o passar dos anos e os fenômenos naturais, como a umidade e o mofo, mas pelo que pude ler, eles levantaram todas as questões que podiam dar errado e acharam uma resposta razoável para cada uma delas. Estavam convictos do sucesso da missão de resgate.

Elsa ainda permanecia preocupada, é claro, era de sua irmã que se tratava. Apesar de tentar disfarçar para passar confiança aos homens, seu semblante tenso era óbvio para todos que olhassem para ela.

Desta forma, ainda naquele dia, os três lordes e dois de seus herdeiros foram guiados até a Montanha do Norte por Olaf, que ficou esperando por eles na base da montanha quando chegaram lá. Antes do anoitecer eles deviam voltar com Anna, Kristoff e quem mais pudessem encontrar.

Claro, havia sempre a possibilidade de Rosalya já ter matado alguns deles – ou todos – para compensar a morte de Marshmallow… Mas nenhum deles queria pensar nisso e foi uma ideia que evitaram ao máximo durante todo o tempo.

O clima era mais ameno naquele dia. Parecia um simples dia de inverno como era esperado que fosse – sem que Rosalya interferisse no clima e o mantivesse mais gelado do que devia – o que apenas encorajava ainda mais os homens.

Não está registrado em lugar algo, mas não é difícil imaginar o que eles conversaram durante o percurso. Penso que se tratou de uma série de indiretas jogadas ao vento e coletadas como ameaças por todos eles, como havia sido quando ainda estavam na cidade.

Enquanto eles subiam, Rosalya estava em seu quarto, acordada desde cedo e fazendo uso interrupto de seus poderes enquanto construía mais armas para a guerra em que estava começando a entrar.

O problema era que os nobres se aproximando não sabiam que a autonomeada Rainha da Neve tinha seres congelados espalhados pela montanha, estes prontos para dar o alerta de sua aproximação. Afinal, morando ali por anos sem a presença de mais ninguém e apenas treinando seus poderes, era natural que ela tivesse desenvolvido maneiras de garantir que ninguém apareceria ali sem que soubesse.

Foi nesse momento que um pássaro feito de neve entrou pela janela, emitindo alguns sons estranhos que Rosalya pareceu ter entendido, pois arreganhou um sorriso e fez um gesto com a mão, desfazendo seu criado gelado.

Olhou então para Anna e Kristoff presos em seus globos de neve, o sorriso sádico no rosto.

– Ah! A cavalaria está a caminho, priminha! Aparentemente vocês são muito queridos, você e seu noivinho! Parece que eles ainda não entenderam o que eu quis dizer com poder de neve e gelo, certo? – e riu alto, deixando o quarto em passos confiantes e barulhentos.

Kristoff olhou para o rosto assustado de Anna no globo vizinho. Colocou a mão no vidro, em uma tentativa de chegar mais perto dela, mas sem sucesso. Ambos tinham entendido o que Rosalya dissera, sabiam que alguém tinha vindo tentar salvá-los, e Kristoff entendera a preocupação de Anna. E se Elsa estivesse com eles, e Rosalya a machucasse também?

Elsa não estava com eles, mas Anna não estava completamente errada em suas preocupações.

Rosalya esperou pelos nobres dentro do castelo, mantendo-se avisada da presença deles pelas suas criaturas nevadas. Ela estava sentada em seu trono, esperando e planejando o que faria quando eles chegassem. Até que teve uma ideia brilhante e escreveu uma carta, entregando-a a um de seus pássaros de neve para levar à Arendelle.

Então empurrou o trono para baixo, fazendo-o ser consumido pelo chão de gelo, e levantou-se para ir em direção ao subterrâneo do castelo.

Era por ali que os lordes tinham entrado no castelo, fazendo um buraco no gelo e achando que Rosalya não perceberia. Provavelmente perceberam que a coisa não estava muito bem para o lado deles quando logo de cara se depararam com as estátuas congeladas dos homens que haviam subido a montanha com Kristoff.

Um deles sufocou um grito com a mão e todos pareciam igualmente chocados. Mas com certeza foi a visão de Rosalya descendo as escadas que fez com que eles soubessem que o plano fracassara.

– Olá! – ela cumprimentou com cordialidade, como se tivessem se encontrado casualmente passeando pelos jardins do castelo real. – Belo dia, não, cavalheiros?

Nenhum deles respondeu, no entanto, paralisados em terror.

– Sabe… – ela se aproximou deles. – Acho que tenho que agradecê-los por subir até aqui. Foi muito gentil da parte de vocês, assim eu que não tenho que descer. – conforme ela falava uma camada de gelo subia pelos pés dos homens e os envolvia, prendendo-os ao chão.

Eles até tentavam resistir. Alguns devem ter gritado e se desesperado. Mas também não devem ter demorado muito para perceber que isso era inútil.

– Enquanto vocês subiam, – a mulher continuou – eu fiquei imaginando se minha querida prima Elsa está achando que isso é uma brincadeira infantil. Eu mostro a ela meu brinquedo novo pessoalmente, ela declara guerra e envia insetos até mim. Elsa tem medo de deixar Arendelle, é isso? Ela mantem-se escondida em seu castelo como tem feito a vida inteira?

Um silêncio pairou entre eles. Os homens estavam tomados pelo terror e sendo consumidos pelo gelo que subiam por eles.

– Eu fiz uma pergunta! – Rosalya bradou enquanto cerrava o punho e o gelo em volta do corpo dos homens os apertava dolosamente.

– A Rainha Elsa nos enviou! – um deles respondeu. – Para salvar a princesa Anna!

– Ah! – Rosalya sorriu. – Anna de novo. Bom, quando fui eu que fiquei aqui por anos, não recebi nem mesmo uma carta. Mas essa já é a segunda vez que Elsa envia homens atrás da preciosa irmãzinha – ela andou devagar até as estátuas de gelo, falando em uma voz suava e inabalável. – E foi isso o que aconteceu com os primeiros que tentaram. Todos mortos.

O gelo envolvendo os homens já chegava aos seus ombros. Em pouco, seriam estátuas como as que já existiam. Em pouco, estariam mortos.

– Você nunca vai conseguir! – o mais velho deles bradou, em seu último ato de coragem – Nunca vai tomar o posto da Rainha Elsa como governante de Arendelle! O povo nunca vai aceitá-la e vai lutar até conseguir destruí-la! Nunca será mais do que uma princesa esquecida. Nunca será Rainha!

E, por fim, diante das faces cobertas de terror dos nobres, o gelo cobriu a todos…

Rosalya aproximou-se do que falara por último, tocando seu rosto agora morto e congelado, mais uma de suas obras.

– É aí que você se engana – disse, mas sem parecer tão satisfeita como antes. – Eu já sou uma Rainha.

E, com um toque, a agora estátua do homem quebrou-se em vários pedaços, desfazendo-se.

Ao mesmo tempo em que Rosalya voltava ao seu quarto depois de ter lidado com os homens enviados pela prima, o pássaro de neve que ela enviara para Arendelle chegava ao castelo real, entrando por uma janela aberta e voando rapidamente pelos corredores como uma rajada de vento frio, levando a carta até o salão onde Elsa esperava pelo retorno dos lordes.

A carta de Rosalya caiu no colo de Elsa, e a ave se desfez.

Elsa assustou-se com a movimentação, mas abriu a carta e viu a assinatura da prima antes do conteúdo, o que apenas serviu para deixá-la nervosa. Fechou os olhos e contou até dez antes de ler o que Rosalya escrevera.

Todos os homens que você enviou estão mortos. Anna espera que você venha buscá-la ao invés de ficar escondendo-se atrás de outras pessoas e deixo-as morrer por você. Eu estou esperando. Ou você pode continuar se escondendo, prima, mas logo não haverá lugar para se esconder.

Elsa fechou os olhos pesadamente. Seu plano fracassara. E não só isso, mas naquele dia tinha enviado mais cinco homens para a morte.

Eles tinham querido casar com ela. Agora nenhum deles iriam sequer casar.

Era hora de fazer uma visita familiar.

Notas finais
Sim, eu sei que não posto há mil anos. Mas eu prometo que o próximo capítulo sai quando eu tiver dois comentários nesse, ok? :D Então... Comentários? *-*