Radioactive
6 Chapter VI: Old Friends
Chapter VI: Old Friends
Hiccup
Um silêncio confortável caíra sobre o nosso pequeno acampamento. Alice e Peter ainda não se sentiam completamente a vontade no nosso grupo, mas já contavam um pouco de suas vidas enquanto nós comíamos algo que Rapunzel havia achado nos carros a volta de uma fogueira improvisada. Falando na loira, ela tem andado extremamente confiante nesses últimos dias; segurando as armas com mais firmeza, um brilho divertido no olhar, erguendo mais seu rosto. Isso me deixa muito, muito feliz.
Quando eu e Punzie nos conhecemos, ela vivia quieta e todas as noites chorava baixinho, murmurando "Não foi minha culpa." Acho que um grupo maior realmente está fazendo bem a ela. Sai de fininho da roda e engatinhei vagarosamente até a tenda de Merida, que estava a alguns metros atrás de nós. O ferimento na sua coxa ainda estava feio, e provavelmente inflamado. Alice fizera os pontos de maneira precária, afinal estavam no meio da estrada. Abri o zíper com o máximo de silêncio que pude e entrei na barraca, torcendo para que ninguém visse. Era bem provável que se Jack visse isto me zoaria até o final do apocalipse.
– Ei Merida, acorda, temos que cuidar desse seu machucado.
– Mãe, só mais cinco minutinhos...
Abrindo apenas um único olho azul turquesa, ela verificou quem lhe chamava. Deu um sorrisinho de lado e se sentou de qualquer jeito, um gemido suficientemente alto escapou dos seus lábios vermelhos. Coçou os olhos e se espreguiçou, um bocejo longo e contagiante tomando conta do seu rosto fino. Os cabelos estavam uma bagunça ruiva de fios e algumas folhas, mas ainda sim continuava o mais belo anjo caído que eu tenha visto.
– Quer um babador, Haddock?
– Ahn, hein?! D-desculpe, eu n-não...
– Tudo bem cara. Vamos cuidar logo desse arranhãozinho.
– Arranhãozinho?! — exclamei, passando o algodão empapado de álcool pela extensão do corte.
– Qual é, eu vou sobreviver. — ela soltou mais um bocejo — Já amanheceu?
– Acho que à umas duas ou três horas.
– Merda, por que não me acordaram?! Eu poderia ter ido caçar!
– Caçar?! Enlouqueceu de vez?!
Ela me encarou com tanta intensidade que poderia ver as faíscas escapando de seus olhos e atingindo os meus. E parecia uma batalha entre floresta e céus. Verde no azul, azul no verde.
– Eu, ahn, estou atrapalhando?
Dei um pulinho de susto quando Rapunzel abriu o zíper com tudo. Merida gargalhou do meu embaraço e apenas abaixei a cabeça, não valeria a pena discutir com elas. Punzie, que também estava rindo, bagunçou meus cabelos e em questão de segundos seu rosto adquiriu uma expressão séria, quase mórbida. Calamo-nos no mesmíssimo segundo.
– Vim apenas avisar vocês que estamos saindo.
– Certo, vou ajudar a desmontar as barracas e...
– Não Merida! — ela apressou-se a dizer, colocando a ruiva sentada novamente, vendo que esta já estava de joelhos — Eu quis dizer que eu, Jack, Alice e Peter vamos sair. Procurar as velas de ignição e quem sabe uma nova Cidadel. Jack pediu para que vocês dois ficassem aqui e vigiassem o acampamento.
– Tudo bem. Mas fale pra aquele idiota do Frost me trazer algo decente, ou eu juro que arranco a sua pele e uso como pijamas!
– Pode deixar! — Punzie riu.
– Volte inteira certo maninha?
– Eu vou voltar Hick.
A loira deu um beijo no topo da minha cabeça e saiu em direção aos carros, que já estavam prontos pra sair. Dando-nos um último aceno, o grupo desapareceu entre os fósseis metálicos da estrada 72. Um ligeiro brilho de tristeza atravessou os olhos azuis de Merida, mas logo tomaram o habitual brilho travesso e animado de sempre. Ela segurou meu ombro esquerdo com força e se ergueu pra cima, resmungando algo que eu não conseguia entender. Assim que estava precariamente de pé, tentou forçar a perna ferida, que por um milagre conseguira suportar seu peso. Só consegui sair do meu transe quando Merida já estava quase do outro lado do acampamento, mancando e cambaleando na direção do jipe que Jack resolvera deixar aqui.
– Espera aí ruivinha! — corri até ela e passei seu braço pelos meus ombros — Se você piorar esse machucado, quem vai sofrer aqui vai ser eu!
– Dramático. Olha, deixaram um bilhete.
Com o braço livre, ela arrancou o papel amarelado do para-brisas do carro. Deu de ombros e me entregou o velho panfleto, que tinha a parte detrás rabiscada em uma letra forte e trêmula.
"Se uma horda aparecer, não hesitem de sair daí. A estrada está lotada deles, então tenham cuidado. Se por acaso precisarem sair, sigam para o norte, talvez nos encontremos lá. Um bom ponto de referência é o lugar onde achamos a ruiva machucada, debaixo da placa de Atlanta.
Sobrevivam, parceiros.
Peter."
– Acha que é melhor guardarmos as barracas?
– É, seria uma boa. — cocei a barba rala que estava começando a crescer — Ah cara, como eu sinto falta dos Gilletes!
Com uma risada alta, Merida começou a desarmar sua própria tenda, colocando tudo o que tinha dentro delicadamente no chão, do lado de fora. Mas então ergueu a cabeça como um cão e virou-a em direção a floresta, onde um arbusto farfalhava com ruídos altos e espalhafatosos. Armou sua besta com uma flecha, peguei minha pistola, e devagar nos aproximamos do mesmo. Silenciosamente, a ruiva contou até três, mas uma sombra negra e pesada pulou em cima de mim, e senti lambidas no meu rosto.
– Banguela!
– Que porra é essa?!
– Ele é o meu cachorro, Merida. Eu jurava que ele estava morto!
– Banguela! Vem aqui garotão! Cadê você?
Agaichei-me ao lado da garota, que segurou sua besta com mais intensidade. Ah sim, a droga da perna. Caxos loiros balançaram na nossa frente e meu pastor alemão começou a latir e rosnar, pulando em cima de quem fosse que o chamava. Gritos de dor e pura agonia cortavam o ar como uma navalha afiada, e o som de algo se rasgando era claramente ouvido. Alguns minutos depois, o cão voltara coberto de sangue e vísceras grudadas em seu pelo negro. Esgueirei-me pelo arbusto e não consegui segurar a bile com o pouco de comida que ainda restava no meu estômago. Havia um corpo, claramente de um homem, e este estava completamente estraçalhado, o tornando irreconhecível.
~XxX~
Eu e Merida passamos as duas horas seguintes discutindo o que fazer com os restos mortais daquele homem. Calafrios percorriam a minha espinha toda vez que via o rastro de sangue que Banguela deixara para trás, marcando o asfalto de um vermelho rubro enferrujado. Não era seguro mantê-lo perto de nós, visto o que ele fizera com aquele pobre homem. Terminávamos a décima terceira discussão quando ouvimos o motor da picape preta de Peter. Eles estavam sorridentes e carregavam algumas bolsas, o que me levara a crer que a busca tinha tido sucesso.
– E então?
– Achamos bastante coisa. E também achamos uma nova Cidadel.
– Onde? — os olhos de Merida brilharam.
– Uns 3km daqui.
– Esperem. Ahn...
O rosnado de Banguela tornou-se presente. Ele mostrava seus dentes para todos nós, estes ainda tinham pedaços de carne daquele cara. Sem fazer movimentos bruscos, Jack direcionou sua mão ao coldre no cinto, onde sua .32 descansava. Eu sabia o que ele iria fazer, e como aquilo me doia. Banguela fora meu melhor amigo desde que eu tinha sete anos de idade. Graças ao fato de eu ter sido magrelo e desajeitado toda a minha infância, eu sofria com as piadinhas e sempre estava apanhando dos garotos mais fortes que eu. Sempre que eu precisava, Banguela estava comigo. Mas eu sabia que não era seguro deixá-lo vir conosco, o estrago poderia ser enorme.
Assim que a arma deixou o coldre, o cachorro pulou em cima de Alice, que estava mais próxima a ele. Ele a mordeu no braço, onde os dentes cravavam com força, rasgando a carne e deixando um rastro de sangue no chão. A menina gritou e empurrou Banguela pra longe, no momento em que Jack acertava uma bala na sua cabeça. Graças ao fato de eu e Merida termos arrumado o acampamento mais cedo, apenas corremos pros carros e começamos a estancar o sangue.
– Vamos embora daqui, não é seguro.
– Certo, eu só... quero me despedir.
Caminhei vagarosamente até o corpo do meu cão, e ajoelhei-me ao seu lado. As malditas lágrimas vieram aos meus olhos e me deixei colocar toda aquela dor pra fora. Banguela sempre estivera comigo, e o mínimo que eu podia fazer era enterrá-lo. Abracei seu corpo endurecido e dei-lhe um último beijo no topo da sua cabeça, antes de expulsar as lágrimas do meu rosto. Uma mão pousou suavemente em meu ombro e quando me virei, Merida sorria meigamente pra mim, estendendo os braços. Eu me entreguei ao seu abraço caloroso e escondi meu rosto na curvatura do seu pescoço, sentindo o cheiro da floresta que emanava do seu corpo. Podia ouvi-la sussurrar "Tudo bem, estou aqui" enquanto afagava meus cabelos delicadamente. Ergui meu rosto e vi a compaixão em seus olhos azuis turquesa, e não pude segurar um sorriso.
Merida era, sem dúvidas, a mais bela garota que eu já havia conhecido.
Fale com o autor