Radioactive

4 Chapter IV: 72 Highway


Chapter IV: 72 Highway

Rapunzel

Não aguentava mais.

Medo, agonia, dor, desespero... tudo aquilo parecia me corroer por dentro, destruindo cada partícula do meu ser. Minha alma parecia um saco de lixo, eu não via mais motivos pra continuar ali. Seria apenas um peso morto na vida de Hiccup, Merida e Jack. As lágrimas embaçavam a minha vista e cada vez mais me odiava por isso. Eu era fraca. Eu sempre fora fraca. Gothel estava certa, por que eu deveria continuar ali, se eu não era feita praquele mundo? Revirei-me na cama pela centésima vez e então levantei, começando a dar uma ligeira volta pelo quarto.

Tinha uma bela pintura azul celeste, com algumas nuvens e árvores desenhadas nas paredes. A cama tinha um formato de carrinho de corrida, e então percebi que haviam três delas, provavelmente os irmãos de Merida. Abri o armário com cuidado. Este estava revirado, com roupas do chão ao teto. Nas portas havia um desenho feito por um garotinho chamado Harris, com toda a sua família. E eles eram felizes aqui. Estava tão distraída com o desenho que não vi a pequena mão podre sair por debaixo das roupas e agarrar meu tornozelo com uma força descomunal. A única coisa que podia fazer era gritar.

A bala atravessou a cabeça do garotinho ruivo com um barulho viscoso e grudento, os ossos estralando conforme o tiro fazia seu caminho lento e destrutivo. Virei e corri até meu salvador, abraçando-o com força. Ele me abraçou de volta, tentando em vão me acalmar. Só então quando eu havia relaxado, pude perceber que estava abraçando a Jack e imediatamente tornei-me vermelha como fogo. Vagarosamente, soltei-me de seu aperto para poder encará-lo.

Um filete de sangue seco escorria de seus lábios claros, o cabelo albino estava com manchas de sangue, a pele com arranhões e roxos, mas seus olhos azuis tão gelados quanto a neve que caia no inverno transbordavam preocupação e confiança.

– Obrigada, Jack.

– Tudo bem, loirinha. Tome mais cuidado.

– Céus...

Merida caminhou trêmula até nós. Seus olhos azuis claros estavam vermelhos de tanto chorar, assim como seu nariz. Ela se jogou no chão ao lado do garoto morto, puxando o corpo morimbundo para si. Murmurava alguma coisa, mas logo havia se recuperado, levantando e arrancando o desenho da porta do armário. A passos largos e decididos, ela saiu rapidamente do quarto, voltando com sua mochila, a aljarva e a besta nas costas.

– Vamos embora daqui. Eu vou acordar o Hiccup.

Assenti e corri até minha mochila quase vazia. Não tinha quase nada somente uma garrafa d'água vazia, quatro barrinhas de cereal, as chaves da minha casa e meu bichinho de pelúcia favorito, um camaleão verde que eu chamava de Pascal. Coloquei-a nas costas e segui até a sala de estar, onde todos aguardavam minha volta. Com um movimento de cabeça, seguimos de volta ao jipe, estacionado do lado de fora. Jack ligou o carro, e partimos em direção ao leste, deixando a mansão Dunbroch para trás.

~XxX~

– Merda!

Jack chutou o carro pela... milésima vez, eu acho. Uma das velas de ignição havia quebrado, e não tínhamos nenhuma extra pra poder repor. O albino colocou as mãos na cabeça e bufou irritado, dando mais um chute certeiro na porta do carro.

– Já sei. Hiccup, ainda tem aquele mapa?

– Uhum.

Ele estendeu o mapa da cidade no capô do carro. Frost parecia mais calmo agora, e até mesmo um sorriso minúsculo brincava em seu rosto. Ele se abaixou e pegou uma caneta velha que estava jogada no chão, e então começou a marcar lugares e fazer sinais estranhos.

– Existem três mecânicas na cidade. Podemos seguir até lá e procurar por uma delas.

– E como iriamos até lá, Quione?

– Simples, Cabelo-de-Fogo. Aquela moto ainda está funcionando. Um de nós poderia ir até lá.

– Deixem comigo. — Merida colocou a besta nas costas e verificou a aljarva — Eu pego e volto no máximo de manhã. Se eu não voltar...

– Nem começa com seus pensamentos depressivos. Você vai voltar, Dunbroch.

A ruiva sorriu e caminhou até a moto caída no chão. Com um movimento rápido, a trouxe para cima e saltou no banco, como se fizesse isso a anos. Assim que o motor rugiu, ela deslizou até nós, parando em nossa frente. Jack ergueu uma sobrancelha, tentando, assim como eu e Hick, entender o que ela estava fazendo. Com uma risadinha, ela arrancou e zigue-zagueou pela estrada, os cabelos ruivos ao vento. Só então eu percebi o quanto invejava Merida. Seu espírito livre, corajoso, audacioso... ela é uma garota valente.

– Então... — pronuciei-me pela primeira vez — O que vamos fazer até ela chegar?

– Podemos montar acampamento. Punzie, por que não verifica aqueles carros ali?

Assenti com a cabeça e peguei a arma que Hiccup me oferecia. Não pegava numa pistola desde que o moreno me salvou daquela horda de dragões, no centro da cidade. E só então a ficha caiu como uma pedra na minha cabeça. Se eles morrerem, eu vou ficar sozinha de novo. E se ficar sozinha, não terei chance nenhuma. Fechei os olhos com força e segurei a pistola com mais firmeza, começando a caminhar entre os carros. Até que tinham coisas boas dentro deles, coisas bastante úteis. No primeiro eu havia achado um violão em perfeito estado. No segundo, uma mochila e uma barraca montável. Nos outros três seguintes, mais barracas e um kit inteiro de facas de caça. Voltei carregada pro jipe, mas consegui trazer tudo até lá.

– Hick? Jack?

– Aqui!

Eles tentavam desatolar um dos carros pra poder liberar passagem. Coloquei meus achados dentro do jipe e corri para ajudá-los. O carro, infelizmente, tinha atolado uns vinte, trinta centímetros na lama, nos fazendo gastar minutos e energias a toa. Quando os meninos desistiram, voltamos ao nosso carro e eu mostrei o que tinha encontrado, deixando Jack muito satisfeito.

Montamos nossas barracas e uma pra Merida, caso ela voltasse durante a noite. Assim que o Sol baixou, cada um se despediu e seguiu para a sua própria barraca, deixando apenas os vagalumes brilharem na escuridão. O que eu mais desejava naquele momento, era que a ruiva voltasse sã e salva.