Radioactive
3 Chapter III: Into the Storm
Chapter III — Into the Storm
Jack
Aqueles dois não pareciam grande ameaça. O garoto era magro e estava ferido, enquanto a loirinha entrava em pânico a cada gemido que ela ouvia. E ela, infelizmente, me lembrava demais Emma.
Depois do jantar, subi ao telhado pra poder fazer a primeira vigilha da noite. O céu negro está estrelado e até mesmo alguns morcegos ousam planar por ele a procura de algum corpo recém acabado repleto de sangue. Nem sequer tento pregar os olhos, pois sei que minhas antigas memórias virão me assombrar nos meus sonhos malditos. Sinto algo roçar em meu braço e então Merida está ao meu lado, encarando uma fotografia amassada e encardida, amarelada pelo sangue moribundo dos demônios e pelo tempo.
– Eaí, ruivinha? O que tem ai?
– Só uma foto da minha família, Quione.
– Idiota. — dou-lhe um soquinho fraco no ombro — Sente falta deles não é?
– Aham. Apesar de serem chatos e quase nunca me deixarem livres, sinto uma puta saudades deles.
Ficamos em silêncio novamente. Eu não sei quando havia me apegado tanto aquela ruiva, mas daria a minha vida por ela, porque havíamos nos transformado numa família. Ela se despediu e desceu do telhado, sumindo pela escuridão de Cidadel. Encarei mais uma vez as estrelas, e uma enxurrada de lembranças me atingiu como um tiro. Meus passeios com Emma, os momentos idiotas ao lado de Bunny, os beijos doces que trocava com Tooth... tudo aquilo doia muito mais que qualquer outra coisa no mundo. Se me perguntassem, eu preferiria ser mordido por um demônio a ter que passar por cada uma dessas memórias de novo.
Com os olhos úmidos e quentes, sinto um último vento gelado antes de meus olhos fecharem e eu mergulhar mais uma vez naquele mar negro e sem fundo que eram meus sonhos.
~XxX~
Acordei com um grito.
Já era a quarta ou quinta vez naquela semana que sonhava com a mesma coisa: os demônios cercando a mim e a Emma e eu não conseguindo salvá-la. Quando abri meus olhos, o céu ainda estava escuro e uma tempestade se formava no centro da cidade. Pulei pra dentro do quarto, onde a janela velha sacudia violentamente, fazendo um barulho extremamente agudo. Consegui fechá-la com algum esforço e corri até o corredor, acordando os outros três para que pudéssemos arrumar o andar de baixo pra proteger as entradas principais.
– O que houve Jack?!
– Uma tempestade está vindo pelo norte, temos que fechar as entradas lá de baixo!
A loira sacudiu a cabeça e começou a fechar as janelas, enquanto Merida trancava as portas e eu e Hiccup coloávamos o sofá contra a porta da frente. O vento assobia com uma força brutal do lado de fora do casebre, e isso só podia significar uma única coisa.
Um tornado estava por vir.
– Jack, tem um porão, acho que é fundo o bastante pra nos escondermos lá!
– Merida e Rapunzel, juntem os kits de primeiros socorros e o máximo de comida que puderem. Eu e Hick vamos pegar as armas e as mochilas. VÃO, VÃO, VÃO!
As duas rapidamente sumiram pela casa. Eu e o moreno pegamos as armas do sótão e nossas mochilas numa velocidade impressionante. O ar parecia rugir do lado de fora, ameaçando derrubar tudo o que tínhamos conseguido. Calculei uns dez segundos até a casa ser destruída por completo.
1,2. As janelas quebravam, cacos de vidro voavam e se esparramavam no chão como as peças de um quebra-cabeça afiado.
3,4. As portas batiam e se despedaçavam contra a parede, jogando estilhaços e farpas de madeira sobre nosso rosto. Eu e Hiccup aceleramos o passo, e nos jogamos dentro do porão, no mesmo segundo que Merida e Rapunzel faziam o mesmo.
5,6. As estruturas da casa guinchavam e grasnavam de dor conforme o vento acelerava e arrancava cada telha, madeira e prego das paredes e teto do casebre, fazendo as meninas gritarem de puro pânico e terror.
7,8. Muitos dos demônios voavam pelo ar, respingando bile e sangue negros por todos os lados, manchando tudo aquilo que eles atingiam. O casebre era arrancado com força e brutalidade de seus fundamentos, fazendo o chão/teto ranger e ganir de dor e pura agonia.
9,10. Em apenas dez segundos, o tornado havia se dissipado. Mas também, destruído mais da metade da cidade. De Cidadel sobrara apenas o porão cravado no chão, com algumas tábuas de madeira faltando. Rapunzel fora a última a se acalmar, ela tremia e choramingava, fungando com uma força descomunal. Ela parecia um filhote perdido da mãe.
– C-como vamos viver agora?
– Eu tenho as chaves de um carro. Se o tornado não o tiver levado pra muito longe, poderemos saber qual é.
Peguei o pequenino molho no bolso e apertei o botão. Logo, o barulho do alarme pode ser ouvido a apenas duas quadras de nós, e graças ao tornado, as ruas estavam livres dos demônios. Quando enfim achamos o carro, eu simplesmente tive vontade de morrer, ir até o céu e agradecer pessoalmente a Deus. O jipe espaçoso estava em perfeito estado, com o tanque cheio e a bateria carregada. Jogamos tudo dentro do carro e rapidamente partimos da cidade, pela rodovia 72.
– Precisamos achar um lugar seguro.
– Eu acho que... acho que sei de um lugar.
~XxX~
Merida me dissera uma vez que sua casa era gigante, mas eu não pensava que fosse tão grande assim. A mansão Dunbroch era nada mais nada menos que a maior fazenda do estado e realmente me lembro de ver reportagens sobre as produções desse lugar. Não sei se foi uma boa ideia trazer a ruiva pra cá, afinal quando o mundo acaba, ninguém quer voltar ao lugar onde sua família foi morta. Ela dedilhava cada móvel com carinho naquele lugar, o ar a sua volta ganhando um peso melancólico e nostálgico. Talvez a que mais tenha sofrido entre nós tenha sido ela. Merida abraçava o próprio corpo cada vez que via as fotos nas paredes e no chão, e tremia ao ver cartas e bilhetes velhos. Uma coisa eu tinha certeza: deveriamos ter respeito por aquele lugar, era um lugar sagrado para um de nós.
– Tem certeza que quer ficar aqui, ruivinha?
– E temos outro lugar pra ficar Frost? Eu não quero ficar vagando pelas rodovias procurando por um lugar seguro. Podemos colher os pêssegos e comer algumas das galinhas que sobraram lá atrás. Eu vou... vou visitar o Angus.
Assisti minha amiga desaparecer pela porta da frente. Hiccup colocou a mão em meu ombro, dando batidinhas no mesmo.
– Por que ela ficou assim?
– Essa é a casa dela. A família toda morreu aqui. Vamos moreno, temos pêssegos a colher e galinhas a matar.
***
O jantar estava posto. Tinhamos galeto ao molho de pêssego, e aquilo com certeza seria o melhor que iríamos arranjar em todo o estado. Ninguém ousava pronunciar uma única palavra, e juro que era possível ouvir o bater das asas de uma mosca naquele silêncio gritante. Os gemidos dos mortos vivos eram abafados pela distancia segura da nossa nova Cidadel.
– Eu... ahn, vou ir dormir, certo? Boa noite pessoal.
– Eu também vou indo, Hick.
Aos poucos, a sala fora se esvaziando, deixando apenas eu e Merida, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Sem pensar, levantei-me da cadeira, a derrubando com um estrondo e abracei minha amiga com força, ajoelhando-me a sua frente. As lágrimas traçavam caminho por seu rosto, e leves fungadas deixavam seu corpo trêmulo. E como doía-me ver Merida assim. Durante esses dois anos do fim do mundo, eu e ela fomos âncoras um para o outro, ambos se seguravam em lembranças e nostalgia. Segurei suas mãos pequenas e finas nas minhas, e as apertei com força, tentando passar o resto de confiança que eu ainda tinha.
– Merida, por favor, não fique assim. Você, mais do que ninguém, sabe o quão triste eu fico quando você está assim. Ei, olha pra mim. — ergui seu rosto na minha direção — Você é a garota mais forte que eu conheço. Não há ninguém mais corajosa que você por essas terras. Então levanta a cabeça e honre a sua família. Honre o nome da família Dunbroch!
– Obrigada Jack. Eu te amo muito, irmão.
– Eu também te amo muito, irmãzinha. Agora, vamos dormir, que amanhã é um longo dia.
Levantei e segui para as escadas, quando a voz de Meri me chamou mais uma vez, em um tom tão baixo que eu mal pude ouvir.
– Jack?
– Hm?
– Promete que não vai me abandonar? Que não vai nos abandonar?
– Você sabe que eu jamais faria isso, baixinha.
– Baixinha é o caralho!
Dei uma risada e subi as escadas, entrando num quarto qualquer e jogando-me na cama, mergulhando naquele tão conhecido mar negro que eram meus não-tão-doces sonhos.
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