Radioactive
1 Chapter I: Lucky Strike
Chapter I — Lucky Strike
Merida
Eu e o albino corremos mais do que podíamos. Aquela horda era densa demais pra tentarmos passar matando os demônios, como apelidamos os zumbis. Segurava a minha aljarva com força enquanto corríamos, não poderia sofrer o risco de perdê-la. De vez em quando Jack dava alguns tiros para trás, tentando espantá-los, mas completamente em vão. Eu estava ofegante e meus pulmões pegavam fogo de tanto correr, assim como as minhas pernas, mas não podíamos parar agora. Jack estava vermelho, graças a sua brancura.
– Frost! Precisamos nos esconder!
– Ali, naquele casebre!
Apertamos o passo. Não aguentava mais dar um único passo, mas continuamos. Jack arrombou a porta e fechamos-a rapidamente, colocando alguns móveis velhos como barreira. Subimos pro segundo andar e então, num quarto. Era cinzento, a pintura descascava e parecia tão morto quanto os demônios lá fora. Abracei o albino e enterrei meu rosto no seu peito, já estava tão cansada de viver assim, como uma fugitiva. Arfava com força, o ar parecia ter escapado dos meus pulmões, que ainda queimavam em brasas. Frost alisava meus cabelos, sussurrando coisas incorajadoras. Desde que aquela merda toda havia começado, ele tinha sido meu melhor amigo, meu irmão, a minha âncora.
– Olha, parece que eles já foram.
Coloquei a cabeça na janela, a horda aos poucos havia se dissipado. Não consegui conter um sorriso, nós havíamos escapado. Estávamos salvos por enquanto! Recolhi minha besta do chão e ajudei Jack a se levantar, enquanto recebia um sorriso sincero. Limpei meu short e pendurei a besta no ombro, vendo o albino arrumar sua calibre 32.
– Podemos fazer uma revista na casa.
– É, talvez achemos alguma coisa.
– Deveríamos ficar aqui.
Ele me olhou como se eu fosse louca. Apenas lhe ergui a sobrancelha, o desafiando.
– Ficar aqui? Na cidade? Repleta de demônios?
– O que é que tem? Esse casebre resiste, apenas fechamos as entradas de baixo. Por favor Jack, é a melhor chance que temos. Deixe de ser teimoso e me escute pelo menos uma vez na vida!
– Ai, certo ruivinha. Mas sem drama, exagerada. — ele riu — Verifique os quartos de baixo que eu fico com aqui em cima.
Assenti com a cabeça e lhe dei um beijo estalado na bochecha. Somente Jack pra me fazer sorrir no fim do mundo. Desci as escadas, tomando cuidado pra não fazer um rangido alto demais. Havia alguns demônios circulando pela sala principal, apenas saquei minha faca de caça e matei-os, cada um caindo no chão com baques surdos. A primeira porta era a cozinha. Havia facas de carne, compridas e afiadas, o que serviriam pra defesa. Panelas no chão, folhas secas, algo escuro e viscoso que suspeitei ser sangue e pacotes de plástico vazios espalhados pela cozinha. Bufei extremamente irritada, mas será que não teria comida naquela droga?!
Abri a dispensa, e minha raiva se dissipou como fumaça ao vento. Várias latas de sopa, tomate, e até mesmo carne enlatada estavam ali, e incrívelmente dentro da validade. Achei também quatro kits de primeiros socorros completos, com até mesmo termômetros. Um sorriso grudou na minha cara, será que a sorte estava do nosso lado afinal? Saí da cozinha, extremamente satisfeita com meu achado.
A segunda porta era um quarto cheio de lonas, por todos os lados. Puxei algumas e cada vez mais aquele casebre se tornava sagrado. Na lona presa a parede, havia um machado novinho e uma alvarja lotada de flechas. O arco, infelizmente, estava partido ao meio, o que me deixou meio decepcionada. Na lona seguinte, tinha uma espingarda de caça carregada e munições na cômoda ao lado. Céus, aquele lugar era um verdadeiro tesouro! Reabasteci minha aljarva e coloquei o machado no cinto, indo para a próxima e última porta.
A terceira tinha escadas, o que me levou a crer ser o porão. Estava muito escuro, por isso fechei-a e dei meia volta. Subi correndo as escadas, dando de encontrão com Jack, que provavelmente deve ter tido tanta sorte quanto eu, devido ao sorriso imenso em seu rosto.
– O que você achou?
– Muita comida, quatro kits de primeiros socorros, algumas facas, uma espingarda carregada e munições e essas flechas novas. E você?
– No sótão tinha um verdadeiro arsenal. Consegui dois fuzis, uma AK-47, várias armas de baixo calibre e uma metralhadora. Não ficaria surpreso se achassemos uma bazuca lá em cima. E também achei essas chaves de carro e alguns galões de gasolina num dos quarto.
– Meu Deus, nós estamos a salvo!
O abracei com força, iríamos ficar bem por muito, muito tempo. Jack me abraçou de volta, e sussurrou no meu ouvido, comi se aquilo fosse um segredo valioso e as paredes pudessem ouvi-lo e espalhar pelo mundo.
– Também temos água encanada e coisas de limpeza.
– Não...
– Aham. Vai tomar um banho, ruivinha.
Rimos e corri até o banheiro. Subi no vaso sanitário e olhei pela pequena janela o lado de fora. Por onde eu estava vendo, tinha três caixas d'água sem tampa e aparentemente cheias até a boca. Aquele casebre realmente fora nosso golpe mais precioso de sorte. Despi-me, colocando as roupas de um lado e entrei no box, ligando o chuveiro. Jamais pensei que fosse fazer uma coisa tão simples quanto tomar um banho novamente. A água fria fazia alguns dos machucados arderem, mas aquilo era muito bom, me trazia lembranças de quando o mundo ainda era o mundo.
Terminei minha ducha e voltei ao quarto, onde Jack dormia na cama com um rosto sereno. Dei um sorriso e beijei sua testa, seguindo para o outro quarto e pela primeira vez, tendo uma noite tranquila.
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