RECONSTRUÇÃO

8 Quando quer se perder...


“Quando a formiga quer se perder, cria asas.”

A semana da família de Regina é marcada pela agitação. Em todos os dias havia algum evento que mobilizasse a todos fora de casa. As garotas estavam ousadas em escolher atividades que envolvesse a família inteira, incluindo a Sra. Vargas.

Eram shows, peças teatrais, diversões eletrônicas, visitas à danceterias, cinemas, corrida de kart e tudo o que estivesse ao alcance do divertimento. Todos os problemas tinham sido colocados dentro de um cofre e seriam esquecidos ali, enquanto durassem aquelas férias.

A alma de Regina estava radiante e emanava o brilho da felicidade e da paz. Vasco se mostrava mais receptivo, assim como as duas garotas. A família estava vivendo um período sublime que ficaria por muitos anos nas memórias de cada um dos membros.

Naquela noite, Yasemine e Alda ficariam em casa sob os cuidados da Sra. Vargas e do risonho Paco, conforme combinado, para que Regina e Vasco pudessem sair e ter uma noite somente deles. O casal estava clamando por momentos românticos.

– Não podemos negar que minha mãe está fazendo um esforço grande para manter meu pai dentro de nossas vidas. – Alda sorri e coloca mais uma peça no imenso quebra-cabeças disposto sobre a mesa.

Paco olha para os lados e inclina-se para frente.

– Preciso aproveitar que a Sra. Vargas não está perto e quero contar algo para as duas. Mas quero discrição.

As duas jovens se inclinam para frente e aguçam sua curiosidade.

– Eu sei que vocês não são irmãs de Regina e nem foram adotadas por Vasco. Sei que são as filhas biológicas deles e sei que vocês são como eu: habilidosas.

Yasemine se sobressalta e troca um olhar assustado com a irmã.

– Percebi isso no exato momento em que vieram buscar o seu pai, naquela manhã. O que emanou de vocês, veio de encontro a mim e fui informado de que não estava sozinho no mundo.

– Por que não percebemos você? Minha mãe é forte e não desconfiou! – Yasemine fala.

– Porque eu sou obrigado por Solon, a usar isso. – Paco mostra um bracelete e o esconde rapidamente. – Ele era um religioso combatente de habilidosos. A ordem religiosa dele o obrigava a procurar e delatar todos os habilidosos que encontrasse. Solon não conseguiu obedecer por muito tempo e abandonou a ordem religiosa.

– E por que você está com ele e o chama de irmão?

– Ele me recebeu e escondeu-me quando me conheceu, Alda. Mas me obriga a usar isso para não ser percebido por outros habilidosos. Devido a este bracelete, vocês não me descobriram.

Yasemine e Alda se entreolham. Sorriem e depois encaram o homem careca.

– Então, sabe que somos apenas crianças ocupando um espaço que não nos pertence? – pergunta a garota mais velha, cochichando para não ser ouvida fora dali.

– Como conseguiram isso? Usaram a receita de um determinado livro, estou certo?

Um riso malino é a primeira reação das garotas.

– Eu descobri uma maneira de entrar na biblioteca de minha mãe, vasculhei e encontrei um livro dentro de uma redoma. Abri a redoma e tirei o livro de lá e desde aquele momento, tenho estudado o que está escrito nele.

– Você está falando de um livro com uma estrela na capa?

Yasemine sorri sem exibir os dentes. Concorda com um movimento de cabeça.

– Esse livro é o Grande Grimório?

Ela confirma e ri baixinho, acompanhada pela irmã.

– O livro está aqui? Porque se estiver, sugiro que o mantenham bem longe do conhecimento de Solon. Ele pode querer destruir.

– Você será bem vindo à nossa cidade, caso queira fugir de Solon. Em nossa cidade, todos os habitantes são especiais. Todos vieram de um local chamado Floresta Encantada, transportados por uma maldição criada por nossa mãe. – Yasemine olha para os lados. – Nossa mãe tem muitas habilidades a ponto de conseguir criar meu pai.

Paco se mostra chocado. Ele se sobressalta e empertiga-se na cadeira. O assombro estava estampado em seu rosto.

– Criou? Como? Confeccionou usando uma receita?

Espremendo os lábios e arqueando as sobrancelhas, Yasemine confirma.

– Analisando isso...se você tem quatro anos de idade...então, Vasco tem pouco mais de cinco anos de vida? Ela afirmou que faz cinco anos que são casados. Mas isso é loucura total!

– Você é um habilidoso prisioneiro, conhece o tal livro, viu do que ele é capaz e quer ainda falar em loucura? – Alda ironiza. – Você é fruto de uma loucura!

Os três começam a rir. Mesmo quando a Sra. Vargas retorna trazendo o lanche para eles, as risadas não cessam. Riam de uma piada entre amigos. Mesmo rindo, Yasemine capta um brilho nos olhos de Paco, que atrai sua atenção e consequentemente sua desconfiança.

Num ponto mais distante naquela cidade, Solomon recebe Regina e Vasco para uma noite mais do que especial. Seria o atendimento aos melindres da poderosa Rainha de olhos escuros e perversos.

A sensação de que estava na luminosidade de seu castelo, provoca um sorriso largo em Regina. O sorriso era vitorioso e orgástico. Mais uma vez a rainha havia conseguido o que queria. No final, seus desejos sempre eram atendidos.

A luz bruxelante das velas acesas criava um cenário assustador e sensual ao mesmo tempo. As sombras escondiam fantasmas que poderiam sair a qualquer momento e provocar arrepios de medo ou de prazer. Inseguro, Vasco aperta a mão de Regina e recebe um beijo no dorso da mão, como resposta para tranquilizar-se.

A porta do quarto é aberta e um ambiente aconchegante é exibido. Um local já conhecido por Vasco, mas visto em uma ocasião adversa e inocente. Seria o invólucro para a proteção de um segredo que morreria com ele.

Sente a mão forte de Solomon em suas costas, incentivando-o a continuar sua entrada no cômodo. Ele se estremece, mas não recua. Era a noite de sua rainha e mesmo que ele quisesse, sua natureza não permitiria que se recusasse a ela.

Ouve a porta ser fechada atrás de si e percebe que seu coração faz piruetas em seu peito. Iria receber a tal marca que Killian havia dito e tinha fé de que a marca não atingiria sua alma. Olha para o lado e observa Regina largar sua mão, indo acomodar-se numa poltrona imensa ao lado de uma cama não muito menor. Ele já havia dormido ali.

– Venha brincar. – Solomon fica diante dele e segura delicadamente seus ombros, obrigando-o olhar em seus olhos. – Ensine-me como beijá-lo.

Um trovão e um relâmpago lá fora, tiram Vasco de sua concentração e inevitavelmente os olhos celestes voam na direção da luz azulada. Por segundos, ele se perde na visão dos outros relâmpagos que rasgam o céu lá fora. Apenas retorna à realidade, quando sente as mãos de Solomon trabalharem suavemente nos botões de sua camisa. Observa peça deslizar pelos seus ombros e cair no chão escuro.

– Você é o meu frescor desta noite. Estou com você, agora. – Solomon aperta delicadamente seu rosto contra o de Vasco. Roça seu rosto ao rosto barbado dele. – Não provocarei dor em você.

Vasco não quer perceber quando ou como acontece, mas recupera parte de sua sanidade, quando sente sua pele nua tocar a maciez do lençol frio. Encara a força dos olhos escuros de Regina sobre sua nudez e sente seu corpo esquentar diante da mera sensação de ter aquela mulher, unicamente aquela mulher, apreciando o que via. Ela o queria, mas havia decidido não tocá-lo naquela noite. O seu prazer viria do vislumbre daquela dança com outro par.

O toque da boca de Solomon sobre sua barriga, provoca um sobressalto em Vasco e ele liberta sem controle, um gemido agudo. Seus olhos continuam fixos no rosto de Regina que começa a sofrer a mudança pelas ondas de prazer que se iniciam. Não queria olhar para Solomon, porque sabia que perderia sua autoconfiança. O homem era sufocante.

Os lábios grossos e úmidos de Solomon se colam aos lábios de Vasco e permanecem ali por segundos que parecem séculos. Depois, deslizam até sua orelha, onde se movimentam numa frase rouca e sussurrante. Aquilo iria provocar pequenos espasmos musculares em Vasco.

– Caso tenha de gritar, grite dentro de minha boca.

Vasco se sente derrotado. Finalmente olha dentro daqueles olhos poderosos, cor de mel, cor da perdição. Não consegue falar ou expressar qualquer reação que impedisse o avanço e tudo o que consegue fazer é afastar os joelhos e oferecer abrigo a Solomon.