RECONSTRUÇÃO
9 Uma noite, um momento, uma saudade...

Meu corpo, tuas mãos procura
Para ser tocado
Envolvido, acariciado
Sentir o calor da tua ternura.
Minha pele, ardente e cheia de desejos
Em tua pele se agasalha, se alimenta,
A boca não se contém, ansiosa e sedenta
Clama por teus beijos
Os olhos tornam-se embaçados
O olfato mistura cheiros, de amor e de pecado
E assim, a ti vou me entregando
Freneticamente nossos braços vão se entrelaçando
Incendeia-se, chega ao clímax o meu querer
Minh’alma arde em chamas, de amor e de prazer! *
A manhã seguinte é marcada pelo silêncio e pelos questionamentos mudos dentro da alma de Vasco. Apenas o brilho no olhar adorável de Regina, indicava que seu papel tinha sido cumprido com primazia. Mais uma vez, sua rainha estava satisfeita com seu comportamento e com os favores que todo cavaleiro real deveria oferecer à sua soberana.
Isso era o importante e ponto!
Enquanto isso, numa rua comercial da agitada cidade, Yasemine e Alda caminham atentas em busca de algum ponto previamente determinado. Tinham fugido de casa antes que a Sra. Vargas despertasse e queriam retornar antes que fossem dadas como fugitivas.
– Ali é a livraria! – Alda aponta e segura a mão da irmã mais velha. As duas atravessam a rua correndo, indiferente aos olhares.
Já dentro da livraria, as duas garotas param de súbito e mostram-se impactadas pela forma como os livros estavam dispostos. Não havia a mínima organização ali dentro. Elas se entreolham e começam a rir.
– Posso ajudar as garotas? – a voz de uma mulher rechonchuda e com cabelos ruivos, chama a atenção delas.
– Sim, claro! – Yasemine alarga seu sorriso cativante e imediatamente consegue um sorriso de volta. – Precisamos de um livro com uma capa como esta.
Ela entrega uma fotografia à mulher, que olha, olha e depois fica pensativa.
– Esse livro lembra-me um exemplar que vi numa livraria em Budapeste. Na época, estava guardada numa redoma de vidro e não podia ser tocado.
– Existem vários desses espalhados pelo mundo. – diz Yasemine ainda sorrindo. Sente as mãos da irmã em suas costas. – Mas o primeiro de todos nunca foi encontrado.
– Vocês querem um dos exemplares?
– Poderia ser, minha senhora. – o sorriso da garota se desfaz. – Queremos um livro que tenha uma capa semelhante, que seja velho e que tenha a capa dura. A senhora teria algo parecido em meio a esta vasta distribuição de livros?
A mulher gesticula e indica a mesa onde ficava um computador.
– Vamos procurar juntas!
Horas depois, as irmãs saem da livraria e dirigem-se para o metrô. Tinham de retornar para casa, a fim de evitarem confrontos com Regina, que obviamente iria querer detalhes daquela pequena excursão.
Mas os pais ainda não estavam em casa quando as duas chegam esbaforidas e agitadas. Apenas a assistente doméstica as aguardava, serena em sua leitura cotidiana.
– Sua mãe ligou e pediu que entrassem em contato assim que chegassem. – Vargas fala sem levantar os olhos. – Para que querem celulares, se eles ficam desligados?
Yasemine puxa a irmã pelo braço e ambas correm para o quarto. Tinham coisas a fazer antes do retorno dos pais. E ali permanecem por mais longas horas, pesquisando e testando algumas receitas retiradas do Grande Grimório.
Neste mesmo momento, Solomon termina de organizar a mesa onde iria oferecer o jantar aos seus mais amados hóspedes. Para ele, aquele dia serviria para coroar a noite anterior. Noite que tinha surgido avassaladora dentro de sua alma. Tinha sido traído pelos seus sentimentos e estava temeroso pelo que poderia acontecer com seu amor pela sua amada Sara, depois de ter experimentado aquele corpo ainda “pucelo” de um toque viril. A confusão de emoções e sentimentos era grande e colorida dentro de seu peito. Aquelas duas lindas criaturas de olhos ferozes vieram sem pedir licença, apossar-se de um espaço imenso em seu coração.
– Perdão, Sara...eu tentei...
Por instantes, tudo em sua volta desaparece e como se fosse um filme, as imagens da noite anterior surgem diante de seus olhos e exibem-se nítidas em cores, sons e de forma impressionante, em cheiros.
“Vasco e ele... ainda podia ouvir os sons que ambos emitiam e enchiam o espaço, mostrando o quanto o prazer era imenso. Estavam ali naquela cama, sob a supervisão gulosa de Regina, despidos de roupas e de pudores, pele com pele, peito com peito, lábios com lábios. O único perfume que Vasco estaria sentindo, a única boca que beijava e o único corpo pesando sobre o dele, pertenciam a ele. Conseguia ouvir o som das peles suadas se esfregando uma contra a outra; os pelos de sua barba roçando e irritando a pele macia do pescoço de Vasco....e podia ouví-lo gritando pela dor produzida, misturada ao prazer.”
Ele sorri sozinho e quem faz isso está se lembrando de suas maldades.
– Sinta o cheiro que nossos corpos deixaram em nossas vidas, Vasco! – ele murmura como se estivesse declamando um poema. — Vem pelo ar e está invadindo minha alma incapaz de proteger-se contra o desejo que ainda sinto por você, criatura doce. Quando você gozou esta noite, ficou evidente que deixamos a nossa marca e que agora, somos amantes...
O som de saltos de sapatos chega aos seus ouvidos. Saltos de sapatos?
– Solomon, está confirmada a localização do livro. – Paco tira o reverendo do devaneio. – Apenas não há como tirá-lo da proteção colocada sobre ele.
Os olhos pesados do religioso voltam-se para o rosto do servo. Deveria matar o homem agora ou deixaria para depois?
– E quem fez a proteção?
– Provavelmente Regina. A mãe deve ter protegido o livro para que as pequenas pudessem brincar com ele, sem o risco ser roubado.
– Conversou com as garotas?
– Conversei, mas Yasemine não é a menina ingênua que tenta mostrar. Ela é forte como Cora.
– Droga! Temos de encontrar um modo de tirar o livro ou fazer com que nos entregue.
Os dois ficam em silêncio por alguns segundos.
– Talvez Vasco seja o mais vulnerável de todos. Use-o.
– Não é, Paco. Ele é blindado.
Paco sorri maliciosamente e toca o ombro do reverendo.
– A mulher que cuida da casa, não deve ser tão blindada como Vasco e as meninas.
Regina surge caminhando elegantemente e de maneira sensual demais para quem apenas está chegando para um simples jantar. Ela sorri ao sentir o peso do olhar guloso do reverendo sobre seus contornos exibidos pelo vestido justo.
– Você está linda neste vestido! O vermelho a deixa ainda mais deslumbrante. – Solomon se aproxima dela e beija-lhe o dorso da mão. Indica seu lugar à mesa. – Onde está Vasco?
– Está conversando como nossas filhas pelo telefone. Como você se sente?
O reverendo senta-se e segura a mão de Regina, carinhosamente. Percebe os olhos dela sobre seu bracelete.
– Eu nunca pensei que conseguiria quebrar os votos que fiz em memória de Sara. Espero que ela me perdoe.
– Sara jamais saberá que você quebrou os votos. – Regina segura as duas mãos de Solon. – Quero que saiba que jamais me esquecerei do que você me proporcionou. Obrigada!
– Tenho medo de ter ferido Vasco. Creio que fui muito veemente em alguns movimentos, mas o corpo dele estava estimulante demais! Ele é uma droga viciante! Ópio!
– Vasco ficará bem. Ele é um homem forte e o que importa para ele é a minha satisfação.
– Já agradeceu a ele?
– Milhares de vezes. E vou continuar agradecendo ao presente dado. Vasco é singular e eu o amo mais, a cada minuto que se passa! Ele confiou em mim e agora acredita que o amo, o amo tanto a ponto de expor minhas mais profundas vontades! Creio que se eu morresse agora, ainda retornaria apenas para amá-lo durante os sonhos!
Uma expressão de desgosto surge no rosto de Solomon. Uma adaga afiada penetra em sua garganta. Por que sempre era refutado por quem amava? Era seu castigo?
– Esta noite irá marcar nossas vidas, Regina. Não seremos mais os mesmos.
Suavemente, Regina começa a acariciar o bracelete de couro que estava no pulso do homem. Parecia igual aos que usava para bloquear poderes, mas aquele possuía uma pedra de brilhante, diferenciando-o dos outros.
Vasco se aproxima da mesa e exibe um sorriso tímido, atraindo as atenções. Não se senta.
– Temos de retornar agora, Regina. As meninas ficaram tempo demais aos cuidados da Sra. Vargas. As duas saíram para passear de metrô e nós não estávamos lá para cuidar delas.
– Jantem comigo e depois...
– Não haverá depois. Regina e eu iremos retornar agora. Já fomos irresponsáveis demais. – Vasco responde de maneira assertiva e sem entonação na voz. Ele se volta para a esposa. – Estarei aguardando você no carro.
Rapidamente, Solomon se levanta e o detém pelos ombros. Recebe um olhar frio e inexpressivo.
– Não faça assim, Vasco! O que nós vivemos ontem foi intenso demais para que você saia sem ao menos conversar comigo! Expor seus sentimentos, emoções ou dúvidas!
– Não temos nada para conversar, Solon. – ele sorri incrédulo. — Fizemos o que foi combinado e certamente você foi bem pago para isso. Não há sentimentalismo nisso. Então, trate de soltar os meus braços e não faça drama.
Drama? Ele havia quebrado seus votos feitos no túmulo de Sara! Drama? Ele havia rompido seu juramento e agora tudo havia sido resumido a um mero drama? O objetivo da vinda era meramente recuperar o livro, mas os olhos de Vasco tinham roubado sua sanidade, assim como a beleza daquela mulher, o havia impedido de ser racional. Como ele poderia reduzir aquilo tudo a um drama?
Momentos depois, em casa, Vasco aconchega suas duas preciosidades em seus braços e sorri ao ouvi-la contar suas aventuras nas ruas novaiorquinas. Duas alucinadas perdidas numa cidade ainda mais louca que elas. Eram seus amores e haviam saído do corpo de sua amada rainha de olhos poderoso. Por isso, eram ainda mais amadas e seriam sempre. Elas jamais saberiam da marca que estava em sua alma e ficariam imaculadas daquele conhecimento sórdido.
* “Chamas de Prazer” – Walter Pereira Pimentel.
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