RECONSTRUÇÃO
15 O tempo não passa no abismo do coração

“Percebi que inevitavelmente o tempo passa e as pessoas mudam e as lágrimas secam e você começa a se reerguer devagar. Então, sem tentar fazer força, você olha o que restou dos castelos que a onda levou. E percebe que está na hora de mudar de praia, de areia, de estrutura de castelo. E começar uma nova história. Do zero...” Clarice Correa.
Outro mês é riscado no calendário da mesa de Vasco. Seu coração ainda latejava esperançoso pela volta de sua amada e pela reconstrução de sua família. Onde começar a procurar? Como começar? Onde encontrar pistas? Onde encontrar força para consolar as filhas?
Yasemine entra no escritório, acompanhada por Alda e por Ruby. As três jovens carregavam lindos traços de sorrisos largos e olhares brilhantes daqueles que acabam de fazer descobertas.
– Precisamos falar, papai!
– Elas quiseram vir e eu as trouxe. – Ruby sorri ainda mais com sua bocarra vermelha. Havia deixado a lanchonete para trabalhar como governanta da casa de Vasco. Estava adorando. – Há algo que precisa saber.
Alda gargalha e bate palmas.
– Papai, algumas lembranças de quando eu estava na Floresta Encantada, haviam sido adormecidas! Depois de ter conseguido a minha adaptação com Cesar, fomos até o castelo onde minha mãe era a rainha! – Yasemine estava agitada e gesticulava muito. – Usei alguns conhecimentos e pedi a um espelho que me mostrasse onde o senhor estava! Eu vi imagens da sua morte, mas depois mamãe me disse que a tia Zelena tinha deixado imagens erradas no ar. E me disse que nem tudo o que vemos neste nosso mundo, é o que parece ser!
– Podemos tentar ver onde está a mamãe ou o corpo dela! – Alda quase grita. – Pelo menos teremos certeza do que realmente houve e se mamãe está morta, poderemos fazer um funeral! Por favor, papai!
Vasco se levanta e espalma as mãos no ar. Pede calma às jovens.
– Nem tudo o que vemos no espelho é o que parece, certo? Então, caso consigamos ver algo, teremos de ser serenos para analisar. – ele tenta ser tranquilo, mas seu coração gritava, urrava e saltava dentro de seu peito. Quem estivesse perto, poderia ouvir as batidas. – Vamos usar o espelho do toalete!
O grupo entra com dificuldade no cômodo, porque todos queriam passar pela porta ao mesmo tempo, tamanha excitação. Lá dentro, Yasemine se posiciona diante do espelho e começa a falar lentamente uma ladainha. Estende as mãos e toca na superfície do espelho.
O silêncio no cômodo é sepulcral.
Aos poucos, a superfície do espelho mostra-se aquosa e move-se, dando formato a uma cena, como se todos estivessem olhando pela janela. Na imagem, Regina estava sob a água, sendo levada pela correnteza como se estivesse voando levemente, com os braços afastados do corpo e olhos fechados.
– Não poderemos crer fielmente nisso...- murmura Yasemine.
– Não mesmo. – Vasco se inclina para frente, como se quisesse ver melhor a imagem. – Era noite quando caímos no rio, e se esta imagem é atual, não há como um corpo estar conservado depois de sessenta dias embaixo d’água. Em uma semana, o corpo se decompõe. Além disso, os amigos aquáticos de Killian, afirmaram que as águas não estavam com ela.
– Então, ela está adormecida, mas não está dentro da água como querem que acreditemos. – Ruby fala e chama a atenção para si. – Então, alegremos porque ela não está morta...
Novamente todos olham para o espelho e a imagem vai esvaecendo-se aos poucos, assim como a súbita alegria dos corações.
– Mas onde estarão Vargas e Regina? – Vasco pergunta ainda olhando para o espelho. – Solomon as teria levado?
– Ele queria o livro, papai. – murmura Yasemine cabisbaixa.
– Não. Ele também queria Regina e a mim. – Vasco sai do cômodo e é seguido pelas três jovens. – Ele estava apaixonado por nós dois e queria que ficássemos com ele. Deve ter vindo pelo livro, entretanto, encantou-se pela beleza de Regina.
– E pela sua. – a voz de Yasemine é assertiva. – Aliás, muitas pessoas se encantam pela sua beleza, papai. Isso já causou problemas demais e precisamos cortar esse encantamento das pessoas pelo senhor. Sobretudo, agora, que pensam que está viúvo.
Aquela tarde passa lentamente e nada conseguia despertar o interesse de Vasco. Suas meninas tinham retornado para casa sob os cuidados de Ruby e certamente estavam bem protegidas. A garota-loba estava mostrando-se uma grande amiga e protetora das meninas, além de muito confiável.
A imagem de Regina dentro da água era uma visão horrenda e impressionante, embora surreal. A sensação que começava a despertar era a mesma surgida quando se via uma montagem de animação. A pessoa ao fundo e um cenário posto à frente, numa tentativa amadora de manipulação de uma imagem. Caso Solomon estivesse mesmo com Regina como cativa, ele não era tão forte quanto Killian tinha descrito.
– Talvez ele não tenha a mesma habilidade de Zelena em manipular imagens e criar informações falsas...
– De quem está falando, companheiro? – Killian entra na sala.
– Yasemine evocou imagens de Regina e nós a vimos dentro da água, desacordada. Mas os espelhos mostram imagens atuais e a carne não ficaria conservada durante dois meses sob a água.
– Não mesmo. Os espelhos mostram a atualidade e então Regina está viva, ou pelo menos morta e conservada. Mas o espelho mostrou a exata localização?
Um movimento negativo é a resposta triste de Vasco.
– Companheiro, caso Regina esteja morta, você sentirá a saudade para a vida toda. Porém, a dor irá diminuir gradativamente. Não fique nutrindo ódio como eu fiz, porque não trará seu amor de volta. Não feche seu coração por trezentos anos, como eu fiz. — o pirata tenta ser amável.
Vasco demonstra que ignora a fala do amigo.
– Estando mais calmo e menos emotivo, penso no comportamento de Solon e começo a crer que ele não mataria Regina. O plano dele não era fazer-nos infelizes, mas o contrário. Ele queria Regina, porém, ele me queria também. Era como se nós dois complementássemos o desejo e o vazio da alma dele. Disse que por nós, quebrou os votos de celibato feito à Sara.
Killian consegue sorrir e vislumbrar uma possibilidade de reencontro com Regina.
– Mas onde ele estaria agora? A aldeia onde vivia foi engolida pelo mar. Ele foi para o exílio...
Um sorriso amplo, luminoso e convidativo desenha-se nos lábios de Vasco. Era o primeiro sorriso vasto exibido desde o acidente.
– Killian, você conseguiu o meio de abrir o portal para que Regina me encontrasse, negociando com seu amigo dos mares, certo?
– Sim. E em breve algum tritão virá pedir a mão de Yasemine em casamento. Espero que ele venha com uma armadura blindada, porque a “Megera Domada” não estará disposta a ser controlada. Coitado!
Mais animado, Vasco não contém o riso, imaginando o que Yasemine faria ao pobre pretendente quando ele viesse pedir sua mão em casamento. Por segundos, ele se esquece da dor e começa a rir. Seria a cena mais hilária para não dizer ridícula.
– Certo, certo! Posso pedir-lhe que use seu contato com os seus amigos aquáticos para conseguirem informações sobre a localidade do Reverendo Solomon Kent? Ele não poderia passar incólume aos seres que criam seus próprios portais submarinos e que têm um leque de conhecidos pelos diversos reinos.
– Ótima ideia! Mas o que devo negociar agora? A mão de Alda ou a sua?
– Não. – o rosto de Vasco se torna triste de novo. – Negocie o controle de meu coração. Poderão tirar meu coração e controlar meus passos, caso eu consiga encontrar Regina ou o corpo inerte dela.
– Eu encontrarei algo para negociar. – Killian bate levemente no ombro do amigo e sai.
Naquele dia, Yasemine e Alda estavam auxiliando Ruby a criar os panfletos para uma atividade festiva que aconteceria na lanchonete da Vovó.
Vasco se aproxima das jovens e as cumprimenta, depositando sua mochila sobre um dos sofás. Em poucos segundos, está com os braços cheios pelos corpos das filhas. Mesmo em tamanho maior, as duas tinham arroubos de meninice.
– A Vovó Lucas irá fazer um concurso de sorvetes! Estamos criando os prospectos para distribuir nas casas! – Alda se mostra entusiasmada.
– Temos de encontrar uma utilidade para nós duas, já que não somos mais crianças para frequentar a escola daqui. – Yasemine se senta novamente.
Vasco sorri para Ruby, cumprimentando a moça de lábios vermelhos. Imediatamente, as lembranças dos batons usados por Regina, naquela boca doce e sempre ávida por beijos, retornam com força violenta aos seus pensamentos. Aquela dor aguda invade sua alma.
– Vocês não estudarão na escola daqui, mas irão estudar em outra escola e em outra cidade. Estou organizando minha vida profissional, para que nos mudemos de vez para Nova Iorque. Lá, vocês estudarão e trabalharão.
– Ir embora para Nova Iorque? – Ruby se mostra surpresa.
– Talvez você queira vir conosco. Iremos precisar de uma governanta para a casa e de alguém em quem as meninas confiem. Aliás, eu confio em você, Ruby.
A morena pisca várias vezes e depois olha para as garotas, como se pedisse para que elas se manifestassem.
– O senhor pensa que será melhor para todos nós? – Yasemine se mostra serena.
– Nós somos nossa família, meninas. Posso confiar em Killian para cuidar da empresa daqui e eu cuido de outros detalhes, lá de Nova Iorque. Lá, vocês terão mais oportunidades de estudo e de trabalho.
– Desculpe-me pela intromissão, Vasco, mas você nem recebeu o resultado da investigação de Killian e de Ariel! Já está desistindo?
De súbito, Vasco tranca o rosto e afasta-se das jovens, subindo os degraus da escada que dava acesso aos quartos.
– Fale com ele, Ruby. – Yasemine empurra o ombro da amiga. – Você é mais madura que minha irmã e eu. Pode ter mais argumentos. Você é mulher e ele está carente.
Quando Ruby entra no quarto, momentos depois, encontra Vasco deitada na cama, com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Agora penteado e barbeado, sereno em sua elegância. Ela não consegue conter a admiração ao ver os pés nus, dele. Nunca havia visto os pés de Vasco e particularmente tinha uma tara por pés masculinos.
– O que acha que vai encontrar em Nova Iorque?
– A paz que não tenho aqui. – ele se senta na cama e bate no colchão para que Ruby se sente ali. – Minhas filhas não são mais crianças e não podem conviver com as crianças daqui. Tampouco temos jovens da idade delas ou interesses que elas têm. Lá, eu terei a companhia de Marian e Roland...além de estar longe das lembranças de Regina.
– Eu sei que tudo aqui faz lembrar dela, porque a cidade foi idealizada por ela. Mas aqui é o lar das meninas.
– Os corações de minhas filhas não estão nesta cidade. Elas aprenderam a gostar da agitação daquela cidade e sei o quanto é ruim para elas, receber os olhares de reprovação pela mudança física. Lá, ninguém saberá de nós.
Ruby acha graça e não contém o riso de desaprovação.
– Acha que as pessoas acreditarão que você é o pai delas?
– Posso conseguir uma nova identidade para mim, tingir meus cabelos...e também tenho fé de que consiga convencê-las a mudar o aspecto físico.
Ruby abaixa os olhos e acaricia os desenhos da colcha sobre a cama.
– Você não pode simplesmente partir e abandonar as pessoas que o amam...
– Killian poderá visitar-nos a hora que quiser. Ele sabe como chegar até aquela cidade. Sei o quanto você gosta das meninas e poderá ir conosco. – ele dá de ombros. – Caso sua avó queira acompanhar você, será bem vinda.
A moça continua com a cabeça baixa, sem coragem de olhar naqueles olhos poderosos.
– Desde que o vi pela primeira vez, na lanchonete... Regina e você nem namoravam ainda...eu senti meu coração vibrar pela sua presença. – ela levanta o rosto e exibe seus olhos ainda maiores e cobertos pelo véu de vergonha. – Por longos seis anos, eu tenho nutrido um sentimento oculto e proibido, mas agora que você está sozinho... Vasco, eu amo você.
Ele não se sobressalta e nem reage da forma esperada por Ruby.
– Então, é uma forte razão para ir embora conosco. Caso Regina não retorne, você será bem vinda para entrar em nossa família. Apenas não espere que eu vá corresponder ao seu amor.
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