RECONSTRUÇÃO
16 Preciso de você, como o poeta precisa da dor...
Notas iniciais
Os olhos naquela tonalidade mel, seguiam todos os movimentos feitos naquela casa. Durante alguns dias, os moradores daquela casa branca eram acompanhados atentamente por aquela figura vigilante, esperançosa por mais um momento com alguém especial.
Seria apenas mais uma vez. Mas teria de ser intenso para os pensamentos e as decisões fossem mudadas e atitudes fossem tomadas. Um portal precisava ser aberto para que o encontro dos corpos ocorresse outra vez.
Dedos fortes e rudes tocam a superfície do espelho, como se tentasse tocas a pele daquela ser desejado. Mas somente a bela imagem de Vasco não era suficiente para completar aquele coração dividido.
Um sorriso largo é exibido, quando a figura de Vasco saído do banho, desprovido de proteção alguma, vai para a cama. Ali, ele se deita e espera a chegada do sono, que vem apressadamente roubar sua consciência e esconder aqueles faróis azuis, sob as pálpebras fechadas.
— Por favor, Vasco, venha pertencer à nossa vida. Precisamos de você, como as rosas precisam da chuva. Por que se recusa a aceitar que também precisa de nós dois? Eu juro que tentei esquecer-me de você, quando sugava outros lábios em momentos de prazer. Tanto que tentei apagar de minha mente o seu rosto, sua carne, o seu cheiro e o seu gosto...mas a memória cravada em minha pele, ainda grita pela sua presença.
— Mais uma vez nutrindo desejo pelo homem do espelho? – a voz feminina tira Solomon de seu devaneio.
Ele a olha por cima do ombro.
– Ele foi meu uma vez e será de novo, minha amada.
— O que há de especial nesse homem?
O reverendo estende a mão e a convida para aproximar-se.
— Veja você mesma. Beba desta visão e depois me diga se consegue matar sua sede apenas com os seus olhos.
— Como rei desta terra, você pode ter a pessoa que desejar em sua cama, Reverendo Kent. Por que precisa nutrir-se apenas do que um espelho mostra...- ela se cala de imediato, quando seus olhos escuros fitam a pessoa deitada naquela cama imensa. Não consegue passar incólume à beleza daquele corpo masculino.
— Quem é ele?
— Nosso futuro consorte, amada minha.
Um sorriso malicioso surge naqueles lábios vermelhos, acentuando a pequena cicatriz no canto superior da boca.
— Mas por que justamente ele? É belíssimo, mas está tão distante.
Solomon se posiciona atrás da mulher e segura seus ombros com propriedade e intimidade. Encosta suavemente os lábios à orelha dela e inala o doce perfume de maçã.
— Ele é o amado de Cosima, a líder dos homens- gaviões. A mulher que detém o segredo da produção das pérolas gigantes que podem abrir portais. Sabe quem ela é?
— Claro que sei. A desgraçada que combate os habilidosos e que roubou minhas memórias...
— E parte de seus poderes. – Solomon acaricia os cabelos da mulher. – Então, penso que unidos poderemos tirar dela, o que mais ama: aquele belo jovem do espelho. Cosima sempre combateu magia, mas sucumbiu à magia mais poderosa de todas: o amor.
Ele se afasta da mulher e é acompanhado pelos olhos escuros e expressivos dela.
— Aquela belíssima obra da natureza em forma de homem já me pertenceu. Foi apenas por uma noite, porém, eu maculei o corpo e a alma dele. Um encontro único, em que ele me ofereceu conforto e aconchego aquele espaço proibido, que surge quando afastamos as pernas.
A mulher gargalha e volta sua atenção para a imagem do espelho, que começa a esvaecer.
— Vamos tirar essa líder do nosso caminho, conseguir a produção das pérolas, ampliar nosso território, subjulgando reinos vizinhos e para completar nosso prazer, teremos o amor da vida de Cosima em nossas mãos, minha amada. Será o nosso valioso troféu.
— Um pouco diversão, além do trabalho de governar.
— A prisão de Cosima será meu presente de casamento. E eu lhe darei uma preciosidade humana para completar sua coleção de joias, minha amada.
A mulher move sua capa longa e sai daquela sala como se fosse um corvo gigante alçando voo. Sequer olha no rosto de Paco, ao passar por ele.
— Reverendo Kent, há algo que precisa saber sobre o livro que tiramos da mochila da garota.
Os olhos ferozes do religioso fixam-se no servo.
— O livro que coloquei na redoma não é o nosso Grimório.
— O que disse? – explode Solomon.
— É uma compilação de receitas experimentadas por aprendizes. O livro é secular, mas não é o que procuramos. O verdadeiro está em algum lugar longe daqui.
— Maldição! – ele esmurra a própria mão. – Como isso aconteceu?
Paco levanta uma das sobrancelhas e não altera sua expressão fácil outra vez.
— As descendentes de Cora criaram uma proteção que ludibriou nossos olhares. Subestimamos as habilidades das filhas de Regina. Provavelmente, as três uniram-se e criaram algo que nos cegassem. O livro verdadeiro não estava no carro, na volta da família.
Controlando suas emoções, o reverendo inspira profundamente.
— Isso me deixou fervendo. Preciso de um banho gelado...preciso pensar.
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