RECONSTRUÇÃO

5 Novas invenções nem sempre são boas...


“A necessidade é a mãe de todas as invenções. Porém, nem todas as invenções surgem para facilitar sua vida. O tradicional muitas vezes ainda pode ser a solução confiável.”

Noutro quarto, Regina se presenteia com as sensações fantásticas que o contato com a pele quente de Vasco oferecia aos seus sentidos. Eram momentos em que os problemas do mundo ficavam do lado de fora daquele espaço, esquecidos e delegados a um segundo plano. E Vasco permitia perder sua inocência diurna, quando se deixava enveredar pela estrada gulosa da busca de Regina. Uma busca de prazer pessoal, que se mostrava cada vez mais pervertida, desde que ele retornara daquela viagem forçada ao reino de Zelena.

Era como se Regina mostrasse em cada um dos seus toques aveludados, que sentia como se aquele momento fosse o último. Em todos os novos encontros, algo fora de seu caráter acontecia como se houvesse a constante preocupação de provar que naquele amor não deveria haver mais brechas e que não era mera paixão.

Ali não era local para preceitos ou pudores e Regina estava seguindo a risca aquela descoberta. Queria demonstrar ao seu amado, o quanto ele era amado, sem espaços para questionamentos. E sua entrega também exigia a entrega total dele, que sempre acontecia da maneira mais completa dentro dos padrões que ele conhecia. Porém, ela queria mais.

– Vasco, você ainda está disposto a realizar aquele pedido meu? – um beijo suave nas costas dele é o começo da nova etapa de sedução.

– Eu já lhe disse que tudo o que me importa é sua felicidade e satisfação, amor.

– Você realmente concorda? Pense que será um homem, tocando em você.

– Você me criou para fazer a sua vida feliz. Não colocou em minha alma a necessidade de eu ser feliz. Amar é o que faço.

Regina se senta na cama.

– Não se sente feliz comigo?

– A verdade é que não sou amado como amo, mesmo assim jamais deixarei de amar como devo.

O rosto de Regina sofre mudanças rápidas que passam pela raiva, piedade e indignação. Vasco estava assumindo uma posição servil, submissa e secundária demais dentro daquele relacionamento. Ela se senta na cama e observa o marido imóvel, deitado de bruços, abraçado ao travesseiro.

– Eu o criei em um momento de desespero e solidão, mas com o passar do tempo, você se tornou parte integrante de minha alma! Tivemos filhas, somos uma família e você é o pilar dessa família! É você quem nos mantém unidas e é nosso termostato! Minhas filhas e eu somos as cobras da cabeça da Medusa, enquanto você é o antídoto para nossas picadas mútuas!

Vasco começa a rir. Acha muita graça nas palavras da esposa.

– Eu não sou nada disso. Apenas tenho autoridade de pai sobre elas e consigo evitar os confrontos entre vocês três, porque não sou passional. – ele decide sentar-se e encara a esposa como se ela estivesse falando bobagens. — Devo amar vocês da melhor maneira possível, amar com toda sinceridade e essa é a função para qual fui criado. Por que tanto espanto?

– Não é isso que quero! Quero um homem de verdade, que exista e que tenha comportamento de macho dominante! Eu não quero ser o homem da relação! E você está agindo como se eu fosse a mola propulsora de nosso relacionamento! Não quero ser o cerne de nossas vidas! Quero que nossas vidas sejam os pilares desta família!

– A ciência afirma que o que passa em nossas veias e faz nosso corpo viver, é sangue. No meu caso é diferente: o que passa em minhas veias é amor e o amor é vital para mim. – ele sorri suavemente. – Você quis um homem que a amasse incondicionalmente e que ocupasse os espaços de sua solidão. Por que está reclamando? O que falta em sua vida? É inteligente, poderosa, linda, tem duas filhas fabulosas e é adorada pelo marido. Eu me esqueci de algo?

Regina fica furiosa e levanta-se da cama. Veste um roupão e vai olhar a noite lá fora, pela janela. Sua alma estava inflamada pela raiva.

– Você não tem mostrado sua opinião como fazia quando nos conhecemos.

– Eu vivi quase um ano sem conhecer você, Regina. Acordei despido no meio das docas. Recebi roupas de desconhecidos e tive de construir minha vida naquele espaço frio e sem saber porque estava ali. Quando a conheci, descobri o motivo de minha vinda a esta cidade. Tudo o que tenho feito é obedecer as regras de minha criação.

– Eu não sonhei com um escravo! Não quero um homem servil!

Ele retira os cabelos que caiam sobre seus olhos e liberta o rosto para olhar melhor a esposa.

– Deve ter se esquecido de algum item na receita de seu homem perfeito. Quando pedimos algo, o pedido é recolhido na íntegra e devolvido exatamente da forma que desejamos. Por isso, temos de ser cuidadosos e meticulosos quando pedimos algo.

– Para o inferno com sua calma e passividade! Virilidade não é somente demonstrada na cama, Vasco!

– Separe-se de mim e case-se com Leroy. Ele é viril até comento bacon no café da manhã. – Vasco se deita novamente e abraça o travesseiro.

Regina se vira para ele e não consegue evitar a admiração sobre a beleza do homem.

– Desde que voltou do reino de Zelena, você tem estado distante, isenta-se de discussões e age como se fosse meu serviçal, um mero cortesão, meu acompanhante para encontros sexuais...não quero esse comportamento em meu marido.

– Lamento, mas é minha natureza.

– Não é não! – grita Regina retornando para a cama e sentando-se ali. – Você sempre foi firme em suas opiniões e independente! Agora, preocupa-se apenas em adular minhas decisões e não contesta mais nada! Isso não é o papel de um marido! Sobretudo, o meu!

“Tudo bem, companheiro. Apenas pense num detalhe: não descarte a possibilidade de Regina querer usar essa aventura, como maneira de desacreditar você dentro do casamento e ter um motivo para ficar com um homem que não atenderia tal pedido.” As palavras de Killian retornam com força à alma de Vasco. Por segundos, ele permanece em silêncio, depois se levanta da cama e sai do campo de visão da esposa.

Momentos depois, ele fecha a porta da casa atrás de si e sai caminhando pelas ruas noturnas e ainda movimentadas daquele bairro. Esconde as mãos nos bolsos do casaco e mistura-se às pessoas nativas ou turistas que transitavam por ali.

Um par de olhos perversos acompanha o movimento de Vasco. Olhos que vigiavam a movimentação da família, desde sua chegada aquele reino louco e alucinante. O dono dos olhos sorri, feliz por ter atingido seu objetivo e seguido à risca, as ordens de seu líder.

Ligeiro, envia sua mensagem vitoriosa ao seu amado líder, informando da solidão do homem da Rainha Má. Seria o momento exato para a aproximação. Nada de uso de força, violência ou demonstrações de poderes mágicos para não atrair a atenção de outros habilidosos.

Sentado sozinho em um balcão de um bar, Vasco apenas observa a cor turva do absinto dentro da taça. Muitos convites para o término da noite em companhia desconhecida, tinham sido recusados, embora não afugentasse os novos pretendentes. Absorto em sua contemplação, mexendo nos cabelos que caiam pela sua testa e que criavam um aspecto bem juvenil, ele se esquece do que estava em volta e consegue se desligar de tudo, ficando temporariamente surdo.

– Caso você consiga ver a Fada Verde, avise-me. – a voz agradável que chega aos ouvidos de Vasco, rompe sua concentração e provoca a reação imediata de olhar para seu dono. — A fada verde representa um conceito de inspiração poética e iluminação artística, um estado de espírito livre e de novas ideias.

Vasco olha o homem sentado ao seu lado e não demonstra qualquer alteração em seu rosto.

– Desde que foi criado, o absinto é perseguido como uma ameaça social que torna as pessoas loucas e com tendências à criminalidade.

Com as pontas dos dedos, Vasco empurra delicadamente a taça na direção do homem, presenteando-o com a bebida ainda intocada.

– Sou Solomon Kent! – ele estende a mão e sorri ao ver Vasco aceitar o cumprimento.

– Vasco Agilulfo, ao seu dispor.

– Pode chamar-me de Solon. – apanhando a taça, ele bebe um gole e a devolve para Vasco. – Em minha terra, é comum compartilharmos a primeira taça de absinto para selar uma amizade que pode nascer.

Um sorriso tímido surge nos lábios pequenos de Vasco. Ele ergue a taça e bebe um gole da bebida verde.

– Ainda não conheci a Fada Verde.

Solomon sorri e sua boca torna-se ainda maior. O sorriso era bonito e convidativo.

– O que um homem bonito como você, faz sozinho num bar em uma cidade tão populosa? Estou aqui a poucos dias e já percebi que este lugar é mágico!

Vasco emite uma risada forçada, desdenhosa da fala do homem.

– Você não tem ideia do que seja um lugar mágico.

– Hum! Talvez você possa me ensinar. O que é um lugar mágico? Acreditarei no que disser!

– Não vale a pena. – Vasco tranca o rosto novamente e volta sua atenção para a taça.

– Caso eu esteja sendo desagradável, saio e o deixo abraçado pela solidão novamente.

– Gosto da companhia de pessoas suaves. – Vasco se volta para Solon. – Você tem uma aura suave. Posso lhe pagar uma bebida?

Solon alarga sua bocarra num sorriso. Havia absorvido o conhecimento necessário para viver naquele lugar, tocando pessoas aleatoriamente nas ruas. Roubara seus conhecimentos para saber como se portar naquele hospício ao céu aberto. Gesticula para o garçom.

– Quero uma taça com absinto, mas quero ver o ritual. Estamos esperando a visita da Fada Verde!

Algumas taças de absinto depois, os dois homens estão sentados numa das mesas mais afastadas e riam de alguma piada com ou sem graça. Quem se importava?

– Você é casado, Vasco?

– Sou e tenho duas filhas lindas. Yasemine tem quatro anos e Alda tem dois. Eu sou orgulhoso delas!

– Imagino que sim. Posso ver alguma fotografia delas?

Sem hesitar e repleto de orgulho de pai, Vasco exibe as fotos das filhas, tiradas naquela excursão animada feita na tarde do dia anterior.

– Essas jovens não têm quatro e dois anos, respectivamente. Está mostrando a foto de suas namoradas?

Ofendido, Vasco recolhe o celular.

– Elas são minhas filhas! Apenas cresceram demais no último dia!

– Tudo bem! Considera suas enteadas como filhas...

– São minhas filhas! – ele amua e faz beicinho, tornando-se ainda mais palatável aos olhos atentos do reverendo habilidoso. – Você me disse que acredita em mágicas! Yasemine fez uma mágica e ficou adulta!

Solomon sorri vitorioso. Havia visto as duas meninas nas imagens feitas pelo seu servo, tão logo chegaram àquela cidade insana. O belo rosto de Regina também estava bem conhecido pelo religioso. Começava a sentir-se íntimo da família Mills.

– E como sua menina conseguiu esse feito?

Vasco bebe outra taça com a bebida e Solomon gesticula discreto, para que a taça fique cheia outra vez.

– Ela descobriu um...livro. – ele soluça. – Um livro na biblioteca da minha querida esposa. Abriu o livro e leu coisas nele...

– Coisas?

Vasco ri abobalhado. Gesticula como se quisesse encontrar palavras.

– Palavras do tipo abra...cabra...braca...abracabri...enfim, ela já transformou nossa empregada doméstica em uma cabra branca e gulosa, e o bicho comeu a cortina de uma sala. Eu fui raptado por uma bruxa verde! Não era a fada do absinto! Sabia que eu vi um macaco falante e macacos voadores?

Uma risada vitoriosa ilumina a boca do reverendo. Estava avançando mais rápido do que imaginava e sentia que seu corpo estava apreciando a sensação de estar diante daquela criatura sem história de infância. Vasco era um mistério e ele iria desvendar.

– E essa bruxa verde...quem era?

– A irmã de minha esposa!