RECONSTRUÇÃO

6 Vamos até onde permitem...


“Não se ofenda se alguém conseguir invadir o seu espaço a ponto de interferir em suas decisões e seu comportamento. Elas vão até onde deixamos ir.”

– A irmã de minha esposa! – Vasco começa a rir e provoca riso em seu interlocutor. – Ela odeia Regina e faz de tudo para destruí-la! Zelena me raptou usando um macaco voador e nós mergulhamos num poço! Fugi muitas vezes do palácio e acabei acorrentado numa masmorra, com fome, com frio e pelado! Depois, tive de fingir aceitar a sedução do filho demente dela e consegui fugir de novo!

O sorriso animado não foge do rosto do reverendo. Estava de fato achando divertida aquela comicidade embriagada.

– Eu o deixei pensar que estava aceitando os avanços. – Vasco tem um refluxo estomacal e soluça. – Bati nele e pulei num rio gelado, que me levou para os braços de uma mulher louca, líder de homens com asas! Ela me drogou e fizemos sexo!

– Que viagem, hein?

A cabeça de Vasco começa a rodar ainda mais e tudo em sua volta parece flutuar. Ele ri daquela sensação de leveza.

– Eu me transformei na Fada Verde...ou no ogro verde...ou no Hulk...acho que virei o Grinch...

Solon se inclina para frente e prende o braço de Vasco sob seus dedos fortalecidos pelo excesso de trabalho braçal.

– Vocês estão tutelando o Grande Grimório? Onde ele está?

– Ei, solte-me! – o homem mais jovem tenta livrar-se. – Eu não sei o que é isso!

– Você precisa dormir. – Solon se levanta e gesticula para que Paco se aproximasse.

Os dois homens conseguem facilmente conduzir Vasco para fora daquele bar e levá-lo a um ponto pouco observado. Num gesto do reverendo, os três são envolvidos por uma nuvem escura e desaparecem dali.

Era manhã, quando Yasemine e Alda chegam à mesa do desjejum e encontram a mãe visivelmente incomodada.

– Onde está meu pai? – Alda se torna sisuda. Sente o clima bélico. – Ele não está no quarto.

– Não sei onde seu pai está e não vou usar truque algum para encontrá-lo. – Regina rosna.

– Não esperaria outra coisa de sua parte. – Yasemine se senta e não permite que a Sra. Vargas sirva seu café. Não se importava que a mulher a visse adulta, porque depois usaria algum truque e trocaria as lembranças dela. – Vou alimentar-me e eu encontrarei meu pai. Você irá comigo, Alda?

– Sem dúvidas. – a garota mais jovem olha para o rosto furioso da mãe. – Vocês brigaram por nossa causa? Você está ofendida por termos usado o livro?

Regina nega com a cabeça.

– É verdade de que não estou brava com vocês, meninas...

– Nem teria motivos para isso. – rosna Yasemine.

– Todo casal tem problemas e surgem as discussões.

– Todo casal normal, mãe. Mas papai e você não são normais.

– Yasemine, o que você está sabendo? – Regina se senta diante das filhas. – Por acaso estamos competindo?

A jovem sorri e forma as amadas covinhas nas bochechas.

– Competindo pelo que? Pelo amor de meu pai ou pela liderança da família?

– Diga-me você.

– Mamãe, eu não preciso competir com adversário algum. O amor que meu pai sente por mim, é diferente do amor que ele sente por você. Ele cuida de mim, usa sua proteção, trata de meus interesses e orienta-me. Em relação a você...ele é servil.

Alda não diz nada, apenas olha para a mãe e espera uma resposta.

– Seu pai lhe disse isso?

– Não o responsabilize pelas minhas opiniões, Rainha Má. Meu pai jamais me colocaria contra o seu poder e a sua tirania. Ele a respeita e assume a posição submissa para conseguir fazê-la feliz e impedir que você sinta falta de Robin.

– Opa! – Alda se manifesta. – Agora já chega, Yasemine! Aonde quer chegar com isso?

Regina se mantém serena, embora seu coração estivesse estilhaçado dentro do seu peito. Sofre com os ataques e o ciúme doentio da filha, em relação ao pai. Era um relacionamento muito complicado com a pequena tirana.

– Por que você não o libera, em vez de mantê-lo como o seu vassalo? Você se sente feliz em vê-lo embaixo dos seus pés e pegando as migalhas que caem de sua mesa?

– Pare, Yasemine! Nossa obrigação agora é encontrar nosso pai! Ele deve estar perdido nessa cidade maluca! Não é momento para discussão!

– Não estamos discutindo, meu amor. Estamos apenas conversando como duas mulheres adultas. – Regina sorri irônica e encara a filha.

– É. Não estamos discutindo. – Yasemine se levanta e esboça reação de sair dali, quando ouve o som da campainha do celular da mãe, soar. Para e aguarda.

Rápida e ágil, Regina apanha o aparelho e vê a fotografia de um Vasco sorridente, aparecer no visor.

– Onde você está, meu amor?

“Sra. Agilulfo?”

– Quem é você? Onde está Vasco? O que aconteceu a ele?

“Meu nome é Solon e estou ligando para visar que seu esposo está dormindo aqui em minha casa. Ele bebeu demais e tivemos de socorrê-lo.”

– Ele nunca se embriagou! Quem é você?

“Apenas um amigo que o conheceu num bar. Conversamos e ele bebeu demais. Não pude impedir porque ele é adulto e sabe o que faz. Quando percebi que ele teria algum problema maior, decidi levá-lo para minha casa.”

– Posso falar com ele?

“Vasco ainda está dormindo. Apenas liguei para confortar a família. Poderia anotar meu endereço?”

Momentos depois de desligar o telefone, Solomon não contém a alegria. Tudo estava acontecendo de forma fácil demais. As atitudes tomadas com calma e delicadeza, tinham a tendência de conseguir sucesso no final de toda jornada.

Enquanto aguardava a chegada de suas joias valiosas e com isso o início da aproximação ao livro desejado, Solomon decide beber um pouco mais da visão daquela criança adormecida em um dos quartos daquela casa locada para ser seu esconderijo.

Como era lindo! Tão delicado e frágil, totalmente controlado pelo poder imenso da perigosa Fada Verde do absinto! Muito poderiam fazer-lhe perversidades, aproveitando-se de sua condição vulnerável, mas por que fazer isso? Tudo estava a seu favor. Bastava ter paciência e combinar seus movimentos, sendo agradável e prazeroso com os membros a família de Cora Mills, até conseguir reencontrá-la e ter o momento orgástico de separar a cabeça de seu pescoço. A bruxa iria pagar pelo roubo.

Ele se senta na cama e toca suavemente o ombro de Vasco, como se estivesse tocando uma donzela na noite de núpcias. Com a mesma delicadeza, inclina-se e beija-lhe o ombro, ouvindo-o gemer e demonstrar que iria despertar.

Aos poucos, Vasco abre os olhos e pisca várias vezes. Queria recordar-se de onde estava e que dia era aquele. Dia de trabalho? Que horas eram? Inspira profundamente e pisca pesado, sentindo a leveza típica da ressaca. Era a segunda vez que vivia aquela sensação e não apreciava o desconforto.

– Bom dia, moço!

– Solon...

– Sei que deve sentir-se mal...porém não me canso de repetir que você está lindo.

Vasco ignora a fala do homem mais velho. Com lentidão, vai sentando-se na cama e apoia-se com ambas as mãos sobre o colchão.

– Pedi ao meu irmão Paco para preparar um chá poderoso e você vai ser curado.

– Estou despido...- Vasco consegue passar a mão pelo peito. – Você não me reivindicou, certo?

– Confesso que não refutei o beijo que você quis me dar. Mas não me aproveitei de sua incapacidade. – o reverendo sorri. – Apenas velei seu sono e confesso que me embriaguei com sua beleza. De onde você saiu, Vasco?

– Da cabeça de minha rainha, num momento gelado de abandono e solidão. Ela me criou apenas para amá-la. – ele sorri. – Metaforicamente falando.

Mas Solomon sabia que o homem não estava mentindo. Durante seus momentos de embriaguez total, muitos segredos de Vasco haviam sido expostos aos ouvidos e aos olhos alheios.

Com ambas as mãos, Vasco prende os cabelos escuros e espessos, colocando-os para o alto da cabeça. Inclina o queixo para cima e espreguiça-se como se pedisse uma chance para dormir mais. Apoia-se na cabeceira da cama e não se mostra sobressaltado com a presença próxima de Solomon.

– Você não me marcou, certo?

– Não. Apenas velei seu sono e cuidei para que não se sentisse ainda pior. – o reverendo olha para a porta e vê Paco entrando com uma caneca nas mãos. – Quero que beba o chá, tome um banho caprichado e fique aprumado para receber sua família. Conversei com sua esposa e ela está vindo resgatá-lo. Creio que suas filhas virão, também.

Quando Regina e suas filhas entram na sala principal da casa indicada, são acomodadas e bem atendidas por um homem de meia idade e careca, elegantemente em sua camisa branca com gola padre, que se apresenta de maneira gentil a elas.

– Fiquem à vontade que o Sr. Kent virá atendê-las. Já tomaram seu desjejum?

– Estamos alimentadas. Queremos apenas saber da saúde de Vasco.

O homem sorri e senta-se num dos sofás antigos da decoração.

– Ele está preparando-se para vir para a família.

– O que realmente houve com ele, Senhor Paco?

– Pode chamar-me apenas de Paco, Sra. Agilulfo. – ele percebe o peso dos olhos das duas jovens em sua direção. Elas não tinham demonstrado ter reconhecido sua condição de habilidoso. – Estávamos jantando num bar movimentado e o destino fez com que cruzássemos o caminho de Vasco. Ele bebeu mais do que devia e estávamos lá para socorrê-lo.

– Estavam lá para socorrê-lo ou para embriagá-lo mais e mais? – Yasemine não se contém. Definitivamente não tinha apreciado aquele homem com olhos de gato.

Regina estende a mão e toca a perna da filha, que entende o recado. Todos na sala direcionam seus olhos para a origem dos passos que ouvem. A figura escura de Solomon surge e traz seu sorriso largo e convidativo. E consegue obter sucesso em sua aproximação.

A serenidade vinda de seus traços maduros e da amplitude de seu sorriso, derrubam todas as barreiras criadas pelas três visitantes. Era um homem bonito, de meia idade e com um belo olhar calmo em tom de mel. Não tinha uma beleza explícita, mas ela logo se destacava com sua força de presença e uma tranquilidade exalada pelos padres.

A mente de Regina gira numa velocidade incomum e cria inúmeras imagens que poderiam ou não ser possíveis. Um homem com traços másculos e porte físico de um atleta de peso? Era tudo o que nutria seus pensamentos impuros nos últimos meses.

– Sra. Agilulfo! Sou Solomon Kent e quero que se sinta bem vinda em minha casa! – ele segura a mão da morena e exibe a força de seus músculos. Depois gesticula para que as mulheres voltem a sentar-se. Sorri para as meninas. – Vocês são Yasemine e Alda! Seu pai mostrou exaustivamente a fotografia das duas! Todas as mulheres da vida de Vasco são incrivelmente belas!

Regina e as filhas entreolham-se. Ainda se sentiam desconfiadas.

– Eu peço desculpas pelo transtorno que meu marido deve...

– Regina, permita-me chamá-la assim, o seu marido precisava apenas quebrar algumas regras. Pelo pouco que percebi, ele é um homem regrado e exigente consigo mesmo. Uma vez na primavera e outra no inverno, é bom quebrar as regras. – Solomon mantém o sorriso e olha para as garotas. – O pai de vocês é um homem com muito amor na alma.

– Vasco é meu marido e adotou minhas irmãs. – Regina recebe o olhar arregalado das filhas sobre ela. – Por isso as chama de filhas.

Solomon sorri e finge entender a situação. Sorri escondendo a vontade de gargalhar pela mentira.

– Pode parecer atrevimento de minha parte, mas eu adoraria convidar sua família para jantar com meu irmão e eu. Ficaríamos honrados caso aceitassem. Poderíamos formalizar o nascimento de uma amizade. – o homem não consegue manter seus olhos longe da beleza morena de Regina. A pele, os lábios e as pernas desprotegidas pela saia curta, atiçavam sua imaginação e o seu desejo. Ela teria o mesmo sabor que Vasco?

– Estou constrangida, Solomon. Minhas filhas e eu achamos melhor não...

– Não recusar. – intromete-se Yasemine de forma assertiva. Reconhece o mesmo teor ronhoso do olhar de sua tia Zelena, nos olhos daquele homem. Ele estava encantado com sua mãe e poderia ser a solução para que Vasco fosse liberado do compromisso com ela. – Minha família ficaria honrada em aceitar o jantar que nos oferece. É o mínimo em forma de agradecimento pelo que fez ao meu pai adotivo. Ele poderia ter sido vítima de alguma pessoa perversa, mas em vez disso, foi protegido por seu irmão e você.

Solomon alarga o sorriso. O quadro diante dele era uma obra de arte: as meninas de Vasco eram rosas vivas e recém-desabrochadas, com espinhos jovens e pontiagudos, enquanto que Regina era a representação viva da deusa Rosmerta, da mitologia celta, soberana do fogo e do calor. Mas poderia também ser a poderosa Cliodna, deusa da beleza.

– Desculpem-me pela demora. – a voz de Vasco atrai a atenção de todos. Estava saído de um banho recém-tomado e sua expressão não era amável. Mesmo assim, ele sorri ao receber as filhas em um abraço coletivo.

Quando as garotas afastam-se, é a vez de Regina ser abraçada e instantaneamente perdoada pelas palavras rudes ditas na noite anterior.

– Você me assustou, Vasco!

– Peço desculpas, mas não prometo que não farei outra vez.

As horas são consumidas naquele dia. Quando estão sozinhos em sua casa, Regina e Vasco evitam conversar sobre o ocorrido e o motivo que impulsionara a saída dele durante a noite anterior. Para evitar mais alguma situação constrangedora surgida por uma discussão, Vasco decide passar a tarde fora com as filhas, atendendo a seus pedidos e aos seus melindres.

Em casa, estando sozinha, Regina sente a precisão de conversar por telefone com Solomon, antes do jantar daquela noite. Não tinha conseguido conter seus pensamentos criativos ao conhecer o homem e perceber o interesse dele, exibido nas palavras doces sobre Vasco.

“Não, Regina. Fui respeitoso com seu marido. Ele estava incapacitado de decidir as atitudes e eu sou um homem que escolheu o celibato, depois da morte de minha amada, Jamais faria sexo com alguém sem a capacidade de retribuir o prazer.”

– Estamos sendo francos um com o outro, Solon. Por isso perguntei de supetão sobre a noite que meu marido passou sob seu teto.

“Ele não estaria mais seguro do que aqui. Confesso que ele é impressionante e não tem a mínima noção do que causa nas pessoas. Pude perceber isso no bar. Os convites surgidos de mulheres e homens, para que ele enchesse alguma cama, choveram e sempre foram recusados. Na verdade, eu fui protegê-lo ou ele seria maculado por alguém.”

– Devo agradecer você, então? Ou devo alertá-lo a não olhar para Vasco da forma como olhou?

“Faça os dois, caso queira. Mas eu ficaria feliz que retornasse à minha casa para agradecer-me e para encher meus olhos com a beleza de sua família. Confesso que nunca havia sentido tanto calor carnal por pessoas algumas, como senti por Vasco e por você. Isso não é crime ou desrespeito.”

– Desejou o meu marido?

“Desejei o seu homem e desejei a mulher dele. E senti que ambos me desejaram. Sabe, Regina, sou um homem velho e experiente. Sei reconhecer um olhar raivoso ou um olhar guloso em minha direção. Eu vi esses dois tipos de olhares, hoje.”

– Espero que mantenha o seu calor carnal longe de minhas filhas ou ficarei feia e malcriada.

“Suas filhas ou irmãs não me interessam. Gosto de adultos e não de crianças. Aquele que adormece com uma criança em sua cama, corre o risco de acordar molhado pela urina dela. Porém, quem acolhe um adulto em seu leito, pode sim, adormecer e acordar molhado.”

– Teria coragem de beijar meu marido ou a mim?

“Eu seria honrado com isso? Vocês me honrariam com o toque dos seus lábios rubros e suculentos sobre os meus? Isso seria um excelente motivo para quebrar meus votos de celibato. É uma mera provocação ou um convite?”

– Um convite. Mas quero controlar toda a situação.

“Vasco sabe disso? Eu pergunto, porque ele se inclinou para mim e beijou meus lábios. Não refutei, mas não acredito em beijos embriagados.”

Caso eu autorize, você aceitaria minha proposta, Solon?

“Com imenso prazer!”