RECONSTRUÇÃO

17 Rendição e Redenção...


Ruby se aproxima de Vasco e o encontra selecionando algum hidratante para usar. Ainda mantinha seus hábitos de vaidade masculina.

— Tem certeza de que não quer mesmo ir jantar conosco?

— Agradeça sua avó por mim. Leve as meninas e procurem divertir-se um pouco. Tente ocupá-las, porque elas precisam de entretenimento.

Ruby sorri e carinhosamente toca o ombro do homem. Ele se retesa ao toque.

— Ainda não estou pronto, Ruby. – ele se desvencilha do toque e sorri. Segura as mãos delas entre as suas. – Quero que se divirta com minhas filhas...

Um movimento mais brusco e Ruby pilha os lábios de Vasco, com um beijo. O toque de outros lábios quentes contra os seus, provoca um choque em toda a extensão do corpo do homem. Ele aprecia, mas sua alma grita para que não continue.

— É errado, Ruby...por favor...

— Errado? Por quê?

— Porque Ariel ainda não me trouxe informações sobre Solomon. Ele pode estar com Regina.

— Mais forte do que Regina, somente o Sr. Gold. Caso Regina estivesse mesmo com Solomon, já o teria transformado em patê de fígado. Ela ainda não retornou após três meses...ela não retornará, Vasco. Aceite que Regina está morta ou que encontrou alguém mais interessante que você.

Sem aceitar a fala da moça, ele se afasta e vai sentar-se na cama. Amuado.

— Vá para o jantar com minhas filhas e não nutra pensamentos sobre nós. Não haverá “nós”, Ruby. Haverá sempre você e eu, mas separados.

— Suas filhas me aprovam.

— Minhas filhas são crianças deslumbradas com um brinquedo novo! – pela primeira vez desde que aceitara a presença de Ruby trabalhando ali, Vasco se altera. – Elas irão perceber que ser adulto é muito ruim! Isso será uma questão de tempo e depois que voltarem a ser crianças, desejarão o pai exclusivamente para elas! Portanto, pare com as investidas ou serei obrigado a pedir que saia de minha casa!

Ruby ia responder, quando o som das vozes de Yasemine e Alda chega até aquele andar. Estavam brigando com alguém e pareciam muito exaltadas. Imediatamente, a garota-loba fareja o ar e seus olhos brilham, aguçando seus instintos protetores. Ela corre para fora do quarto e é seguida por Vasco.

Lá embaixo na sala principal, Yasemine protegia Alda com o corpo, ficando entre a irmã e uma velha conhecida dela e do pai.

— Cosima! – grita Vasco correndo para defender as filhas.

A mulher apenas ergue uma das mãos em sinal de rendição. Estava suja e parecia muito cansada.

— Não quero guerrear, Vasco. Venho em paz!

Mesmo assim, Yasemine continua com a mão posta e uma bola de fogo pronta para ser atirada na visitante.

— O que quer? – ele pergunta, tomando a dianteira da feroz Ruby.

— Quero me sentar. – Cosima praticamente se arrasta até um dos sofás e para o espanto de todos, larga-se ali. – Preciso de fôlego para conseguir conversar.

Vasco gesticula para as filhas e as duas permanecem atrás dele, embora Yasemine discordasse daquela proteção. Ele também pede calma para a governanta.

— O que está acontecendo, Cosima? Como me encontrou?

— Para acalmar ou alterar os ânimos, afirmo que trago notícias da Rainha Má.

— O que? – perguntam todos ao mesmo tempo, correndo para junto da visitante. Sem combinar, todos se ajoelham e esperam pelas boas novas.

— A Rainha Má está viva.

A comoção toma conta de todos. Lágrimas são derramadas e abraços são trocados, exceto por Ruby que sente seus planos ruírem como castelinhos de areia, levados pelas ondas do mar.

Momentos depois, já hidratada e começando a alimentar-se, Cosima consegue forças para oferecer respostas a todas as perguntas.

— V-você viu minha esposa? Como ela está? Onde ela está?

— Não somente vi como senti o peso das mãos dela. A Rainha Má está furiosa e ainda mais ávida por poder.

Vasco se entreolha com as filhas.

— Por tudo o que considera sagrado, Cosima, fale-me como está Regina!

Ela sorri e atreve-se a tocar o rosto bonito do homem que havia reivindicado em sua aldeia. Como ela ainda queria aquela criatura de olhos celestes! Pedacinhos do céu grudados para sempre naqueles olhos!

— Ela está de volta ao seu castelo, mas há uma proteção em torno do prédio que impede a aproximação de outros habilidosos ou mesmo a localização da Rainha e do maldito noivo.

Vasco não consegue entender a fala da mulher. Inclina-se para frente e aguça seus sentidos.

— Maldito quem?

— A Rainha Má se aliou ao desgraçado do Reverendo Kent e começaram uma caça. Desta vez não somente aos habilidosos, coisa que eu não me importo nem um pouco. Porém, eles estão agindo com crueldade contra aldeões e já expandiram os domínios sobre outros reinos vizinhos, derrubando os governantes. Ela atingiu os reinos de Pedras Desenhadas, Frenjalote, as minhas redondezas e está investindo contra o reino das Esmeraldas. O único que está resistindo.

Vasco se levanta do chão e começa a andar pela sala. Volta-se para a visitante.

— O que Solon fez para Regina?

— Pelo visto os dois estão bem próximos! Eles fizeram um acordo para conseguir mais poder. Ele se virou contra mim e decretou caça à minha cabeça.

— Vocês eram amigos? – Yasemine estreita seus olhos ferozes e incomoda Cosima.

A mulher a olha por alguns segundos e reconhece o perigo daquele ambiente.

— O servo dele veio até mim e fechamos um acordo, há várias luas. Eu daria duas pérolas coloridas para a abertura de um portal. Eles estavam atrás do maldito livro Grimório, e quando retornassem, trariam Vasco para mim ou dariam as coordenadas para que eu o encontrasse e o levasse de volta. Afinal, eu reivindiquei o homem, e a lei diz que ele é meu.

Ruby e as garotas se entreolham, mas logo se voltam para a visitante.

— Mamãe está bem? – Alda pergunta emocionada.

— Está viva, forte e cada vez mais perigosa. A Rainha Má era cruel quando estava sozinha. Agora que está com um habilidoso como Solomon, está pior ainda.

— Por que ajudou um habilidoso, se sua missão era combater a todos eles? Você tentou matar minha família!

Cosima olha para a garota de olhos ferozes.

— Ele me propôs um reencontro com o único homem a quem amei e com quem me deitei. Nem me importei em fazer um acordo com uma droga de habilidoso. Você faria o mesmo para reencontrar seu cigano Nicolas.

— Fui seu primeiro homem? Desonrei você diante de seus familiares e comandados?

— Que desonrou, porra nenhuma! – Yasemine se levanta e encara a mulher. – Fez acordo com um mentiroso, foi enganada e agora vem pedir esmolas aqui! Como chegou até nós, verme?

Mostrando-se serena, embora seu coração gritasse em seu peito, Cosima se levanta também.

— Primeiro usei minhas pérolas para abrir o portal. Depois, foi apenas perguntar por Vasco Agilulfo. Os homens das docas foram gentis comigo e disseram-me onde encontrar o viúvo da prefeita Mills.

Yasemine controla o impulso de esganar a mulher, sem tocá-la. Usaria um truque ensinado por sua mãe, mas seria em outro momento.

— Solomon colocou preço em minha cabeça. Ele quer a localização exata da fazenda de produção de pérolas e somente eu sei. Então, desfiz a minha aldeia e os meus homens-gaviões trataram de levar as pessoas e os animais para a Floresta das Esmeraldas. É o único lugar ainda intacto dos ataques da Rainha Má.

Engolindo sua vergonha de cavaleiro que havia ultrajado uma jovem, Vasco se aproxima dela.

— Regina está noiva de Solon?

— A Rainha Má está noiva do Reverendo Kent. São dois habilidosos poderosos e caso eles consigam a localização da fazenda das pérolas, serão imbatíveis. Eles estão capturando habilidosos e aprisionando os poderes deles, para serem usados como elixir de força. — Cosima se senta novamente e bebe mais suco. – Na verdade, eu não fugi, vim procurar ajuda. Sei que vocês poderiam ajudar nessa empreitada. Pensei em Vasco, em Yasemine e na mulher que lutou comigo no castelo de Zelena. Poderíamos unir forças com Zelena, Galeano e usar meus homens-gaviões, os macacos voadores e meus soldados para combater os soldados sem rosto, que a Rainha Má roubou da Senhora de Ferro.

Ruby se interessa pela história da luta. Pergunta:

— Quem é Senhora de Ferro?

— Uma mulher que tira as habilidades de uma pata de macaco que está no lugar de uma de suas mãos dela. Ela cria soldados de areia e realiza roubos.

— Nós lutamos contra esses soldados, quando fomos resgatar meu pai. – Yasemine ainda não acreditava que sua mãe estava viva. – Já que nossa mãe está viva, por que ela não retornou para nós?

Alda começa a chorar baixinho. Era sensível demais para aquelas revelações.

— Quando nos enfrentamos a primeira vez, há algumas luas, a Rainha Má não me reconheceu. Ela sequer sabe quem fui ou o que fiz. Posso afirmar que ela nem sabe que vocês existem.

— Solon deve ter matado a Sra. Vargas... – choraminga Alda sendo rapidamente amparada por Ruby, que não esconde um sorriso esperançoso. – Eu quero a minha mamãe!

Vasco vai até a caçula e senta-se para recebê-la em seu colo. Ela cabe direitinho ali e aninha-se contra o peito do pai. Abraça-o e continua chorando.

— Preciso de guerreiros fortes para combater o avanço das tropas da Rainha Má e do Reverendo Kent. O último reduto fora do controle deles é o território de Zelena, protegido por ela, mas não sabemos por quanto tempo. Todos os aldeões que conseguem, fogem para lá. Não posso permitir que os tiranos sejam exitosos. Por favor, me ajudem.

Alda enxuga o rosto com as costas da manga e levanta-se das pernas do pai. Ainda amuada, encara a visitante. Tinha curiosidade em ouvir a mulher.