RECONSTRUÇÃO
18 Revigorar para voltar à luta...
— Não tenho forças para comandar soldados, estando sozinha. Preciso de aliados.
— E por que pensa que iremos com você? – pergunta Ruby.
— Não estou pedindo que você venha comigo, moça. Peço que Vasco e Yasemine venham para unirmos forças com Zelena e enfrentarmos o Reverendo. Ele está usando a mãe de vocês... – ela se vira para Ruby. – Você também é filha de Vasco?
— Como saberemos que está falando a verdade? Por que devemos confiar em você?
Cosima sorri e abre as mãos, espalmadas no ar.
— Não há como saber. Terão de confiar, apenas.
Yasemine alarga o mais perverso dos sorrisos. Os conhecimentos fornecidos pela mãe, estavam latejando em sua cabeça.
— Há sim! – de forma muito rápida, ela fala uma ladainha e com a mesma velocidade, enfia a mão no peito de Cosima, trazendo seu coração para fora.
Um grito agudo, semelhante a um ganido, emerge da garganta de Ruby e ela salta para trás, horrorizada com o que vê.
Vasco leva a mão à boca tentando controlar sua reação, mas não impede que a ânsia traga o que estava em seu estômago, para fora. Inclina-se e vomita, enquanto que Alda apenas revira os olhos e desaba como se fosse um boneco sem enchimento.
Ainda com o coração na mão, Yasemine olha incrédula, as reações. Encara Cosima que ainda segurava o peito, sentindo dor e não consegue ter um retorno mais adequado à situação: começa a rir. Ouve a visitante rir também.
Momentos mais tarde, já refeitos do pânico causado por aquela cena, todos se reúnem em outra sala. Alda ainda olhava incrédula para o coração de Cosima, batendo na palma da mão da irmã. Ruby não havia dito mais nenhuma palavra diante da novidade. Ouvir falar é um lado, mas ver a cena é outro lado e nada bonito.
— O que pretende fazer com isso, Yasemine?
— Saber se poderemos confiar em Cosima, papai. Afinal, ela tentou matar a mamãe e a mim, lembra-se?
— Não temos tempo para brincar de adivinha, menina feroz. Faça o que tem a fazer. — a voz de Cosima era imperativa e corajosa. – Aperte logo o coração para que eu diga o que querem ouvir.
Vasco segura o pulso da filha e sem dizer nada, apenas encara a garota que entende a ordem. Num gesto brusco, Yasemine empurra o coração dentro do peito de Cosima e a ouve emitir um gemido baixo de dor. Não havia como negar: a mulher era valente!
Pouco tempo antes da meia-noite, a família de Mary chega à casa de Vasco, atendendo a um chamado urgente dele. A notícia sobre Regina já estava de posse de sua família e todos precisavam conversar sobre a proposta de Cosima.
Já banhada e com roupas modernas, Cosima aguardava sentada no sofá e mantinha a expressão feroz em seu rosto de menina.
— Quero que conheçam Cosima. – Vasco aponta delicadamente com a mão aberta, para a jovem. – Ela é líder de uma aldeia nas proximidades de Floresta das Esmeraldas e veio trazer boas novas sobre nossa Regina.
— Como ela está? – Henry e Mary se ajoelham e perguntam ao mesmo tempo.
— A Rainha Má está viva e ainda mais sádica.
A resposta provoca irritação de Henry. O menino levanta-se a vai para junto de Emma.
— Minha mãe não é mais a Rainha Má!
— Ela não era a Rainha Má aqui, mas lá no outro reino, tornou-se a Rainha Sádica. Ela sequer se lembra de vocês! – a visitante volta-se para Vasco. – Eles vieram para ajudar na luta ou para atrasar-nos ainda mais?
Killian se senta ao lado da jovem e exibe seu sorriso conquistador.
— Moça, ficamos muito felizes pela notícia inicial, mas precisamos saber mais sobre nossa amiga. Por favor, entenda de que precisamos de informações para elaborarmos nosso plano de ataque.
— Sua amiga está noiva do Reverendo Kent. Os dois estão devastando os reinos vizinhos e anexando os territórios ao domínio da Rainha. Eles estão sendo servidos pelos soldados sem rosto e estão impiedosos. Vim pedir ajuda para Vasco e Yasemine, porque meu povo está prestes a ser massacrado, caso eu não retorne com mais possibilidades de enfrentamento.
— O que quer dizer com isso? – pergunta Emma.
— Quero dizer que preciso de habilidosos do meu lado, para que consigamos convencer a Rainha Verde de que ela precisa nos ajudar. Temos de fazer alianças e como percebi que ela e o filho dela amam Vasco, podem ceder a um pedido dele. Infelizmente, temos de combater habilidosos com outros habilidosos. – Cosima encara Vasco. Rosna para ele. – Tenho de explicar tudo outra vez? Será que você precisa da permissão deles para retornar comigo? E onde está aquela lutadora que usava duas adagas?
Sentando-se na mesa em frente à visitante, Vasco segura as mãos dela.
— Eu irei com você para esta luta. Mas eu devia explicações, porque essas pessoas são a família de Regina. A moça lutadora que citou, foi embora da cidade. – ele mantém as mãos dela entre as suas. – Minhas filhas ficarão fora disso, compreendeu?
Yasemine gargalha forçosamente, ironizando a fala do pai.
— Alda ficará, como ficou da outra vez. Eu irei e não estou pedindo permissão, papai. A mãe é minha e vou trazê-la de volta, assim como trouxe você!
— Já que precisam de mais habilidosos, Killian e eu iremos nessa jornada com vocês. – Emma sorri e vê o brilho de alegria e orgulho nos olhos de seu pirata.
— Meus serviços e meu navio à disposição de nossa equipe.
Henry olha para os avós, pedindo para ser incluído naquela jornada.
— A presença de Henry e Alda seria importante para que Regina se recordasse do passado. – sugere David, sendo apreciado pelos jovens.
— Precisamos de braços fortes e estratégia. Não precisamos de sentimentalismos! – Cosima altera o tom de voz e ia levantando-se, quando Vasco a impede delicadamente.
Ele olha a família por cima do ombro.
— Cosima tem razão. Alda precisa ficar aqui, caso precisemos de ajuda ou informações para a luta ou nosso retorno. – ele encara David. – Você poderia conversar com Robin, para que ele viesse conosco, afinal, ele ainda ama Regina.
— Não seria arriscado? – David se mostra preocupado.
— Robin é um líder e um arqueiro excepcional. Mesmo que Regina se recorde e opte por Robin, tenho de correr o risco para salvá-la.
Naquela casa, no silêncio da noite, Vasco observa a escuridão azulada lá fora. O descanso seria imprescindível para o início da jornada ao desconhecido. Percebe a aproximação de alguém, caminhando descalço sobre o soalho do corredor.
— Pela primeira vez em minha vida, eu senti medo.
Ele sorri ao ver Cosima parada em pé, a alguns metros dele. Estende a mão e chama a mulher para sentar-se com ele, ali na varanda.
— Eu sofri muito quando tive de deixar meu povo para trás e vir buscar ajuda. Principalmente, porque o tempo corre diferentemente entre nossos reinos.
— Ao amanhecer, embarcaremos num navio poderoso e contaremos com ajuda especial. – ele sorri. – Diga-me algo: é verdade que fui seu primeiro homem?
Ela dá de ombros e depois confirma com a cabeça.
— Líderes de minha aldeia somente têm tempo para dedicar-se aos homens, quando os reivindicamos e fortalecemos nossa liderança. Submeter um homem, pelas leis da aldeia, o torna nossa e ainda altera nosso status na liderança. Há uma crença que o sêmen pode facilitar o surgimento da prosperidade das comandantes.
— E trouxe prosperidade para a sua liderança?
— Trouxe, Vasco. Eu me tornei ainda mais temida e respeitada, sobretudo, por ter lutado contra um feiticeiro que desconhecia seus poderes. Você me transformou em cabra, lembra-se? – ela olha para a noite lá fora. – Quero que esteja preparado para saber as atrocidades que o casal real tem cometido contra os súditos de diversos reinos.
O rosto de Vasco se contrai, numa careta que poderia ser de dor.
— Não pense que irá encontrar sua esposa apaixonada e a mulher que enfrentou os perigos da floresta, para resgatar a filha e o marido. A mulher que está naquele reino, é a somatória de todas as maldades que existiam nas personalidades dos habilidosos, cujos poderes foram roubados e transformados num elixir da força.
Ela se inclina e sem formalidade, toca a coxa de Vasco. Mantém a mão próxima à virilha dele e percebe que ele recebe o toque com tranquilidade.
— Por mais poderes que o casal real possui, a Floresta das Esmeraldas não foi dominada por eles. A Rainha Verde é muito forte e conseguiu criar uma blindagem em torno dela, protegendo todos os refugiados que buscaram asilo ali. Mas não sabemos até quando ela terá forças para resistir e quanto mais tempo resistir, mais raiva produzirá no casal.
— Vamos dormir. Temos de partir antes dos primeiros raios de sol, porque o Capitão Gancho costuma recepcionar o dia. – ele se levanta e estende a mão para a mulher. – Durma comigo esta noite, mas apenas estou oferecendo minha cama e não o meu corpo.
Quando se viram para sair da varanda, são surpreendidos por uma intensa fumaça rosa, que se dissipa rapidamente. Yasemine e Alda surgem abraçadas e com o mais cínico dos sorrisos nos lábios. Nas mãos de Alda, o desejado livro Grande Grimório.
— O que vocês fizeram?
— Fomos buscar o livro, papai!
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