RECONSTRUÇÃO

28 Antes de vencer, é preciso querer vencer...


O silêncio assume toda a dimensão do cômodo daquele velho prédio, abandonado, já saqueado e esquecido pelo seu antigo proprietário.

Naquele espaço, várias vidas maculadas e cansadas pela luta surgida por um desejo frívolo de poder e riqueza, tentavam encontrar forças para continuar suas jornadas. Atitudes desnecessárias tinham sido feitas e sempre explicadas pela presença do amor. Mas que amor era aquele que cobiçava, que mentia, que matava e roubava? Que tipo de amor era aquele que se utilizava de subterfúgios cruéis, para tomar a aquilo que já pertencia a alguém?

Yasemine toca a mãe que ainda estava deitada, porém, agora serena e adormecida. Beija-lhe o rosto e vira-se rapidamente para Paco caído e sangrando. Ela estende a mão para a tia e ordena de maneira autoritária, assemelhando à mãe:

— Use seus poderes para curar a ferida! Agora!

Impressionada, Zelena atende à ordem da pequena megera e é auxiliada pelo filho. Naquele momento, ela percebe como o garoto tremia. O menino iria precisar de conforto e mais orientações para controlar suas emoções e sentimentos.

Solomon se arrasta pelo chão empoeirado e vai à direção do amontoado de roupas de Vasco, tentando libertar algo pequeno que se movia enroscado naqueles panos. Ao descobrir a criatura, depara-se com um garotinho de cabelos escuros e dois imensos faróis azuis arregalados. O Reverendo se afasta, incrédulo e assustado.

Sem hesitar, Cesar leva suas mãos ao menino, que tremia de frio e de medo. Envolve-o com imenso carinho e o protege em seus braços e peito peludos. O menino aprecia o contato com o chimpanzé e acalma-se.

Ninguém consegue dizer absolutamente nada. Os olhos estavam mentindo e mais uma vez, aquela família tinha recebido um recado cômico do destino, que parecia divertir-se ao brincar com as surpresas que oferecia.

Noutro reino, bem distante dali, toda a família de Mary chega à casa de Regina, atendendo ao chamado urgente de Alda. A garota havia ligado, pedindo que fossem rápidos na vinda, porque Yasemine tinha enviado um recado de que precisava de todos no mesmo espaço, para que as novidades fossem contadas.

Como o tempo era adverso nos dois lados dos portais, a família inteira aguarda ansiosa por notícias, durante mais de duas horas. E quando o espelho começa a dar sinais de comunicação, a excitação domina a todos.

— Olá, família! – a imagem bonita de Yasemine, vestida lindamente em uma roupa branca, enfeita a superfície do espelho como se fosse uma tela. Ela sorri e exibe suas covinhas nas bochechas – Conseguimos resgatar a mamãe!

A euforia é geral e os gritos também, além trocarem abraços e cumprimentos.

— Como estão todos? – David pergunta sorridente, mas percebe que a felicidade da menina não era completa. Ele desfaz o sorriso. – Mine, quero saber se perdemos alguém.

Um rosto conhecido surge ao lado da menina e sua expressão sisuda, causa estranheza em Mary e Henry, que desconheciam Cesar.

— Este é meu amigo Cesar. Dê um aceno para eles.

O chimpanzé move a mão e estreita os olhos, reconhecendo seus companheiros de luta.

— Salve, salve, Capitão! Srta. Swan, como está? Srta. Lucas e Alteza, estamos todos bem e não tivemos perdas. A missão foi completada e criou-se um tratado entre os governantes para a reconstrução dos reinos avariados. O reino da Rainha Mills ficará temporariamente governado por Cosima e o comandante Esparviero, até que se eleja um Conselho.

— E o que houve ao Reverendo Kent? – Killian pergunta curioso.

— Ele foi destituído de seus poderes e de seu cargo. Depois da reunião na qual firmamos o tratado, nosso Rei Vasco roubou as habilidades do religioso.

David sente que algo estava sendo protelado para ser contado.

— Como está nossa mãe? – pergunta Henry, segurando a mão de Alda.

O chimpanzé sorri e torna-se ainda mais assustador.

— A Rainha Mills travou uma luta horrenda com a Rainha Má e venceu. Mas precisa de muito descanso, porque ela está exaurida pela batalha.

Alda começa a chorar. Não era a jovem, mas a menina que queria os braços de sua mãe, em volta de seu corpo.

— O que houve com meu papai? Por que ele não está com vocês agora? – ela pergunta e olha para Ruby que lhe envolve os ombros. – Papai morreu?

O chimpanzé ri novamente e entreolham-se com Yasemine, que sorri também.

— Papai está dormindo porque está cansado. Chorou muito, fez birra e não queria comer a sopa que a tia Zelena mandou fazer. – a jovem vai virando o espelho para ampliar o campo de visão dos membros de sua família. Foca a imensa cama, onde um menino dormia profundamente. – Houve um cruzamento de efeitos especiais e ladainhas mal elaboradas...

— Paco e Galeano acertaram Vasco, cada qual com uma fórmula diferente. A mistura de tudo, provocou a mudança no corpo dele e nosso rei assumiu a forma real de sua alma. A forma de um menino com pouco mais de cinco anos de idade. – Cesar interrompe e é enfático. – Creio que a Rainha Mills terá muitos problemas com essa situação.

Ninguém consegue falar nada. Até que David cala a boca do silêncio.

— Vasco... é um menino, agora?

— Sim, Alteza. Não sei como ajudar, mas percorrerei as regiões mais distantes em busca de uma solução para isso. – o chimpanzé faz uma reverência e vai sentar-se na cama, ao lado do menino.

Alda começa a chorar copiosamente, ruidosa como a criança que era.

— Eu queria voltar a ser menina, mas agora não posso dar esse trabalho para minha mamãe! Não é justo! Aquele reverendo desgraçado entrou em nossa vida, apenas para destruir minha família! Não é justo!

Ruby abraça a garota, com ainda mais força.

— Quando retornarão? – David mantém sua liderança.

— Tão logo a minha mãe se restabeleça. Podem não acreditar, mas minha tia Zelena está cuidando dela de maneira impressionante. – Yasemine fala sem entonação. – Eu proibi meu primo Galeano, de aproximar-se de meu pai ou vou transformá-lo em bode.

Killian e Emma acham graça. O pirata toma a dianteira.

— Sabe que podem contar com o seu padrinho aqui. Eu estarei sempre junto de vocês e iremos encontrar uma solução para curar Vasco.

— Vocês entregaram mesmo o livro Grimório para o Sr. Gold? – Yasemine se vira para Alda e Henry.

Henry sorri e mostra-se orgulhoso em sua expressão.

— Entregamos sim. Mas o poder não está no livro, e sim nas receitas. Então, nós o escaneamos, antes de entregar ao meu avô paterno. Ele não tem exclusividade, porque temos o nosso próprio Grimório.

Do outro lado do espelho, Yasemine levanta uma sobrancelha e sorri sem exibir os dentes.

— Vamos precisar dele. Mas agora, gostaria de pedir que cuidem bem de minha irmã. Tenho de “desligar” porque preciso estar ao lado de minha mãe, quando ela despertar. Eu darei a notícia a ela.

Momentos mais tarde, Regina caminha lentamente na direção da cama onde Vasco dormia. Ao seu lado, Yasemine permanecia calada desde que dera a notícia sobre a mutação.

— Ele é lindo! – Regina se senta na cama e toca os cabelos negros do menino. – Na verdade, o homem que criei, era um menino por dentro. E eu criei uma criança com corpo adulto, deixando-a sozinha, sem lar, despido e confeccionado apenas para meu prazer.

— Lamentar não é a solução. Temos de elaborar um plano para lidar com isso. – Yasemine se mostra a velha adversária de sempre. — Nem pense em querer que eu retorne a ser uma menina. Temos um problema bem maior para resolvermos.

As duas permanecem em silêncio, até ouvirem o farfalhar de roupas. Alguém estava entrando no quarto e era Solomon, com seu constante cinismo estampado do rosto.

— Como está Paco? – Yasemine fala de supetão.

— Sua tia cuidou bem dele. – o homem aponta para a cama. – O que pretendem fazer com o garoto? Ele não é mais o belo homem desejado por tantas pessoas.

Regina leva seus olhos amorosos para o menino.

— Vasco virá conosco, porque ele é nosso. Caso não consigamos devolvê-lo à condição anterior, iremos cuidar dele da mesma forma, com o mesmo amor e com o mesmo carinho. Portanto, nem pense em sugerir que eu o entregue a você.

— Eu iria sugerir que me deixem participar da vida dele e de vocês. Tudo isso aconteceu porque eu não determinei limites. Já era tempo de eu reconhecer que estou fadado a não ser amado, porém, por teimosia, provoquei muitas desgraças.

Yasemine emite um som risonho.

— Não podemos exigir que as pessoas nos amem. Devemos apenas dar boas razões para que gostem de nós. E ter paciência para que a vida faça o resto. – a jovem coloca a trança sobre um dos ombros e fica brincando com o enfeite dela. – Você é um homem forte, bonito, inteligente e tem muito charme, porém, isso pode não produzir amor em todas as pessoas. Precisa aceitar isso.

— Você aceitou a rejeição do cigano?

Outro gemido risonho é a primeira reação da garota.

— Ele escolheu a cigana. Viu nela, algo que não viu em mim. Doeu? Sim, doeu muito! – ela levanta os olhos cor de mata. – Mas não pensei em matá-lo por rejeitar o amor que nutri por ele. O que mais eu poderia fazer?

Solomon caminha suavemente e senta-se na cama também.

— Certamente há em algum lugar no Grande Grimório, alguma receita que retroceda esta mudança. Eu também buscarei uma solução para isso. A propósito, onde está o livro?

— Pertence ao Dark One, agora. Pode ir buscar com ele. – Yasemine sorri amplamente, desta vez. – O nosso Dark One é uma pessoa bastante difícil de lidar e já que você perdeu os seus poderes, sugiro que fique longe dele.

— Isso é temporário, menina habilidosa. E é revertida, quando enfrentamos um motivo muito forte que exija a presença de habilidades. Quando eu encontrar esse motivo, minhas forças retornarão.

Regina se inclina para frente e toca a mão de Solomon, com um carinho assustador.

— Você me proporcionou um momento significativo em meu relacionamento com Vasco. Porém, em momento algum, recebeu permissão para entrar nesse relacionamento amoroso. Esse foi o seu erro: querer entrar sem ser convidado. E o meu erro foi permitir a entrada de um terceiro em um espaço onde cabiam somente dois. Isso nunca deu certo e jamais dará, por mais que as pessoas insistam.

— Eu sei. Casais são formados por duas pessoas. – ele se levanta da cama e sai do quarto. Leva no peito a raiva da rejeição e não deixa a promessa de não retornar. Ele havia quebrado seu voto feito a Sara, porque sentia amor e desejo por aqueles dois. E eles seriam seus, mais cedo ou mais tarde, mas seriam exclusivamente seus.

O menino se move na cama e abre os olhos. Sorri e olha para os lados, procurando alguém.

— Onde está Cesar?

— Ele virá mais tarde. – Regina o ajuda a sentar-se na cama.

— Quem é a senhora?

Derretido dentro do peito, o coração de Regina começa a escorrer como calda sobre um pudim. Havia resgatado Vasco do rapto de Zelena e estava lutando para que os cacos fossem colados, entretanto, novos cacos foram espalhados por toda a estrada de tijolinhos amarelos. Mas tudo tinha fugido ao seu controle e iria precisar começar tudo de novo. E sem saber quando parar.